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Donzela Ardilosa
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Capítulo 13
Por que Kaede estivera coxeando todo o dia, Rin não sabia. Ela se negava a lhe dizer o que a incomodava. Era estranho vê-la sofrer. De fato, fora sua xiansheng que havia lhe ensinado o uso das ervas, as meditações e os pontos de pressão para evitar a dor. Rin usava esse conhecimento sempre que se machucava durante os treinamentos, então seu nível de tolerância à dor era alto.
Mas não tinha sentido perguntar a Kaede sobre seu desconforto. Ele não gostava de ser recordado de sua própria fragilidade.
Igualmente era muito fácil tirar os problemas de Kaede para fora de sua mente, já que sua cabeça funcionava a mil com pensamentos relacionados com sir Sesshoumaru de Morbroch.
Quem diabos ele era?
Certamente não o pretendente amoroso e educado, de bom coração e sentimental que ele pretendia ser.
O idiota tinha ido atrás da Sombra novamente essa manhã, só que dessa vez havia retornado com muito mais que alguns arranhões e contusões. Era por isso que ela agora estava lendo atentamente os potes que estavam nas prateleiras da despensa para procurar ervas curativas.
Certamente o canalha não tinha resultado gravemente ferido. Não havia quebrado nenhum osso, só tinha perdido um pouco de sangue e machucou um pouco mais que seu orgulho. Mas Sesshoumaru insistia em bancar o soldado ferido, o que significava que ela estava obrigada a bancar a enfermeira devota.
Sesshoumaru suspirou, tocando com seu dedo um frasco com extrato de cardo carmim, enquanto pensativamente se mordia o lábio. Talvez não fosse algo tão ruim atender as feridas de Sesshoumaru, afinal. Dizia-se que os homens doentes às vezes faziam confissões a uma enfermeira que nunca fariam a um sacerdote.
Talvez quando ele estivesse sob seus cuidados, ela iria descobrir quem era o verdadeiro Sesshoumaru de Morbroch.
Satisfeita com sua seleção de ervas medicinais, ela separou em outro pote um pouco de colchicum para Kaede. O velho teimoso podia não querer confessar que suas articulações lhe doíam, mas certamente isso lhe serviria para aliviar a dor.
Rin encontrou Sesshoumaru no arsenal, falando com Mirok e Inuyasha.
— Na verdade, não esperava me encontrar com o ladrão, absolutamente. — Sesshoumaru dizia a eles enquanto ela estava fora, escutando. — Só segui os Herdclay para me assegurar que eles não fizessem nenhum estrago.
— São uns covardes presunçosos, não é mesmo? — Mirok disse.
— Da pior espécie. — Concordou InuYasha.
— Quase estou contente que tenham sido roubados. — Acrescentou Mirok.
— Mas não deveria ter se enfrentado sozinho com A Sombra. — InuYasha disse a Sesshoumaru. – Você poderia ter retornado com feridas piores que estas.
— E para que? — Mirok se mofou. — Um pouco dessa prata não pertencia a esses vândalos em primeiro lugar.
— Acredito que não fui criado para escapar de uma briga. — Sesshoumaru murmurou.
— Inclusive quando está sendo... Derrotado? — InuYasha perguntou tão diplomaticamente como era possível.
Sesshoumaru respondeu com risada curta e seca.
— Em minha casa, eu sempre era derrotado.
Rin franziu o cenho. O que ele queria dizer com isto? Em sua casa? Não tinha sido criado na casa de Morbroch? E... Derrotado? Os cavaleiros de Morbroch eram bons lutadores, embora os de Higurashi os tivessem vencido no torneio. Sesshoumaru não podia ter sido derrotado pelos cavaleiros de Morbroch.
Centenas de perguntas de repente encheram sua cabeça.
Ela passou através da entrada, despreparada para o fato de que Sesshoumaru estava ali, nu da cintura para cima. Com um pequeno suspiro que quase a fez deixar cair os frascos, ela rapidamente desviou o olhar, mas não antes que a imagem de seu peito amplo e bronzeado ficasse indelevelmente gravada em seu cérebro.
— Lady Rin. — Inuyasha disse com um aceno de cabeça.
Mirok sorriu, lançando a Sesshoumaru sua camisa.
— Olá, Rin.
— Ah, meu anjo de misericórdia, por fim chegou. — Sesshoumaru suspirou, colocando a camisa de forma que cobrisse apenas a metade da gloriosa expansão de pele dourada.
Rin apertou sua mandíbula. Não devia ceder ante os tolos sobressaltos de seu coração. Ela tinha visto peitos masculinos antes. Sesshoumaru não era diferente.
Talvez um pouco mais musculoso. Um pouco mais. Um pouco mais esculpido, na verdade bastante semelhante ao corpo impecavelmente formado de Adônis. Mas...
Sacudindo a cabeça com impaciência, ela forçou seus pés a avançar. Ela estava aqui para tratar de suas feridas e reunir informações, nada mais. Com esse objetivo decidido, ela apertou seu ombro duro como uma rocha, fazendo-o sentar em um banco onde poderia olhar suas feridas.
— Onde dói?
Um lado da boca de Sesshoumaru se curvou para cima em um sorriso lento. Atrás dela, Mirok sufocou uma gargalhada.
InuYasha limpou sua garganta.
— Talvez devêssemos retornar para o campo de treinamento, Mirok. — Ele acrescentou seriamente. — Se comporte Sesshoumaru, ou minha esposa te assassinará.
Sesshoumaru assentiu com uma sacudida de cabeça, e Rin resistiu ao impulso de fazer uma careta. Doce Virgem Maria! Mesmo que elas não estivessem presentes, suas irmãs mantinham guarda sobre dela.
Quando InuYasha e Mirok haviam partido, Sesshoumaru passou um dedo sobre seu lábio inferior.
— Aqui, meu amor. — Sussurrou ele.
Apesar de suas melhores intenções, o coração de Rin falhou uma batida. Deus, esse farsante não perdia o tempo. Seu olhar vagou para sua boca tentadora, e aberta em um convite, e Rin se mordeu o canto de seu lábio.
— Penso que está rachado. — Disse ele.
Durante um segundo ela só o contemplou. Em seguida ela assentiu.
— É claro. — Ela procurou entre seus objetos, encontrando o bálsamo de fenugreek. Esfregou ligeiramente um pouco na ponta de um dedo e o passou sobre todo o lábio.
— Ele deu-me um bom golpe no queixo. — Sesshoumaru confessou — Embora nada pareça estar quebrado.
Ela apertou suavemente a área. Sesshoumaru estremeceu quando ela encontrou um ponto sensível.
— É só uma contusão.
— Sabe, eu estava pensando quando voltava para a fortaleza — ele disse enquanto ela aplicava o ungüento de Alecrim sobre sua mandíbula — Você teve sorte de não te ter cruzado com A Sombra naquele dia que me encontrou no bosque.
O dedo dela se escorregou no ungüento e lhe cravou o dedo na bochecha.
— Oh. Desculpe-me. – Mas que droga! Teria que ter mais cuidado. Rin esfregou o excesso de ungüento. — Por que você diz isso?
— Vocês dois parecem ter a mesma tendência a se esconderem em cima das árvores.
Sesshoumaru estudou Rin de relance. Além de um sutil movimento nervoso de seu lábio, ela não mostrou nenhuma reação sensível a esse comentário.
Não que ele esperasse um. Mas isso havia lhe ocorrido enquanto vinha coxeando de volta de seu encontro com o ágil ladrão, que A Sombra não era a única pessoa que ele havia encontrado entre os galhos do bosque de Higurashi.
Era uma idéia absurda, ele sabia. Não havia nenhuma possibilidade que Rin pudesse ser A Sombra. Rin era doce, delicada, indefesa. Odiava as lutas. Era impossível imaginar que essa donzela bondosa que curava suas feridas com suas mãos suaves pudesse ter lhe infligido essas mesmas feridas. Não, ela não era A Sombra.
Ainda assim, ele gostaria de dar uma espiada em seu joelho.
— Eu não estava me escondendo nas árvores. — Rin lhe disse, limpando um pouco do ungüento que tinha caído sobre seu ombro. — Eu resgatava um gatinho que havia subido em um galho.
Sesshoumaru sorriu. Ela era boa. Ele não tinha nem gaguejado com essa mentira. Mas ele sabia como eram as coisas. Um gatinho preso em um galho teria que estar miando desesperadamente como uma das damas de Mochrie.
— Resgatando um gatinho?
— Sim. — Ela se encolheu de ombros. — Você é um cavaleiro. Tenho certeza que você foi já resgatou criaturas indefesas antes.
Uma lembrança desagradável de repente se cruzou por sua cabeça, fazendo-o franzir o cenho.
— Salvei um gato uma vez quando era menino. O pobrezinho havia sido chutado quase até a morte por meu pai.
Rin ficou rígida, e de repente Sesshoumaru se perguntou se tinha contado muito. Mas ela logo retomou os curativos dando voltas atrás dele para examinar suas costas machucadas.
— Seu pai deve ter sido um homem cruel.
Sesshoumaru se encolheu de ombros.
— Não pior que a maioria, suponho. — Ele esperou ter mentido tão bem como ela tinha feito. Na verdade seu pai tinha sido um bêbado brutamonte, diabólico, calculista, um cafajeste egoísta que tinha arruinado sua infância.
— E sua mãe?
As lembranças de Sesshoumaru a respeito de sua mãe eram amargas. Ela nunca tinha maltratado Sesshoumaru. De fato, ela havia se ocupado que ele fosse educado na casa nobre de seu pai. Mas tinha estado cega aos abusos de seu amante e também tinha sido muito fraca para defender seu filho desses abusos.
— Minha mãe morreu quando eu tinha quatorze anos.
— Ah. Tem irmãos? Irmãs?
Sesshoumaru franziu o cenho olhando sobre seu ombro.
— Que donzela curiosa você está hoje.
Ela se encolheu de ombros.
— Sabe tudo sobre minha família. Eu não sei nada sobre a sua.
— Ah. Bem, tenho quatro irmãos.
— Isso é tudo?
— Não é o suficiente?
— Quero dizer, me conte algo mais sobre eles. Como são? São autoritários como minhas irmãs, ou adoram o chão que você pisa? — Sesshoumaru fez uma careta enquanto colocava uma quantidade generosa de uma pomada ardida atrás de seu ombro.
— Eu... Eu gostaria deles?
— Não! — Ele disse mais forte do que pretendia. — Não. — A idéia de alguns de seus meio-irmãos depravados encontrando-se com a inocente Rin era inconcebível.
— Realmente? — Ela passou um dedo ao longo de seu braço. — Eles são mais bonitos que você?
Ele agarrou sua mão antes de dar-se conta que ela só estava provocando-o. Com seu grito abafado, ele afrouxou o aperto e levantou sua mão, colocando um beijo no dorso dela.
Sesshoumaru estalou sua língua.
— Bonito? Isso é tudo o que a preocupa? Pensei que me amava por minha inteligência.
Rin realmente amava sua inteligência. Mas não estava disposta a admitir. Tinha descoberto algumas coisas muito reveladoras sobre sir Sesshoumaru, que podia ou não pertencer a Morbroch, e ela não queria que ele se afastasse dessa conversa.
Ela adotou um ar de inocência.
— Sua inteligência? Ah, não. Sempre foi sua aparência o que me atraiu. Seus olhos lânguidos e seu nariz nobre. Esse sorriso saboroso e...
— Vá em frente. Diga.
— O que?
— Minhas covinhas.
— Suas... O que?
— Minhas covinhas. As mulheres amam minhas covinhas.
Ela franziu a testa.
— Você tem covinhas?
Ele sorriu e sacudiu a cabeça, lhe mostrando um de seus atrativos muito celebrados.
Deus, essas covinhas eram adoráveis.
— Me conte mais. — Suplicou ela, descobrindo um arranhão em sua orelha e colocando um pouco do bálsamo de endro sobre ele. — Como você era como rapaz?
Sesshoumaru suspirou.
Parecia que Sesshoumaru não gostava de falar muito sobre sua juventude, o que significava que devia ter sido desagradável. De fato, ela tinha começado a duvidar que ele tivesse vindo da casa de Morbroch. Os Morbroch eram uma família jovial e de boas intenções. Qualquer homem que tivesse chutado um gato até quase matá-lo teria sido enforcado pelos polegares nessa casa.
— Suponho que me parecia com qualquer rapaz. Aprendi a pegar em uma espada quando tinha dois anos. Montei meu primeiro cavalo aos três. Colocava o nariz nos assuntos alheios algumas vezes e ganhei algumas quantas cicatrizes. Beijei uma moça quando tinha dez anos. Tive minha primeira mulher...
Ela lhe golpeou na cabeça.
— Oh! — Ele riu entre dentes.
Ela tampou o frasco da pomada.
— Terminei.
— Terminou?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— A menos que tenha uma cutícula em alguma unha que necessite de cirurgia.
Ele sorriu.
Ela juntou os potes, lançando um olhar de relance a ele enquanto Sesshoumaru colocava a camisa, contemplando o esplêndido movimento de seus músculos. Podia apreciar sua inteligência, mas a imagem de seu torso nu a fazia estremecer interiormente.
Rin pensava que tinha desentranhado o mistério de sir Sesshoumaru de Morbroch. De fato, ele não era a que afirmava ser. Mas agora sabia por que ele tinha mentido sobre sua identidade. E a verdade que tinha causado aquela mentira criou uma onda quente dentro dela que ameaçava derreter sua própria alma.
Quando Rin se dirigiu para a porta, fez uma pausa para lhe dar um sorriso carinhoso e uma advertência sutil.
— Não desafie A Sombra outra vez. Nenhum homem pode vencê-lo. Só causará mais dano a si mesmo.
Com isso, Rin fez sua saída, certa de que Sesshoumaru era tão inofensivo como era charmoso.
Sesshoumaru não era um espião, nem um criminoso, tampouco um mercenário estrangeiro com a idéia de tomar o castelo. Só era um rapaz perdido a procura de um lar. De onde quer que ele tenha vindo sua vida passada tinha sido infeliz. Tinha tido um pai cruel, uma mãe ausente, e irmãos de quem preferia não falar. Agora estava claro por que ele tinha vindo a Higurashi.
Ele queria um lar.
Ele provavelmente tinha ouvido dizer que os ilustres cavaleiros de Taysho se aliaram com os homens de Higurashi. Para um guerreiro com talento, não haveria nenhuma outra força a qual desejaria unir-se. Mas era difícil chegar montando um cavalo até as portas de um castelo, e como um trabalhador independente sem título de nobreza, ser aceito em um exército. Certamente Sesshoumaru tinha viajado até aqui, chegando com a túnica de um vizinho confiável, para inserir-se na congregação de Higurashi.
Tinha mentido sobre tudo.
E seguia mentindo.
Mas eram mentiras inofensivas.
Ele mentia quando, ganhava excessivamente nos jogo de dados, e então fingia estar cansado e abandonava a mesa.
Mentia quando, ouvindo o conto de seu pai sobre a Batalha de Burnbaugh pela quarta vez, fingia grande interesse.
E mentia quando afirmava que não era um grande lutador. Rin sabia como eram as coisas. Oh, sim, inclusive tinha fingido melhorar por treinar com os homens de Higurashi e especificamente com InuYasha. Mas agora ela sabia que sua inépcia fingida tinha sido uma questão de cortesia. Sesshoumaru tinha minimizado intencionalmente suas capacidades para agradar os homens.
Tinha fazia perfeito sentido. Se ele tivesse chegado a Higurashi, como um guerreiro dotado, capaz de vencer os melhores cavaleiros, faria inimigos rapidamente. Ocultando seus talentos, a maior parte dos homens se mostrava dispostos a lhe dar conselhos, a ajudá-lo a melhor suas habilidades, e por último sentiriam orgulho pelos avanços de Sesshoumaru.
Era um gênio. Um plano um pouco manipulador, mas genial. Sesshoumaru realmente parecia querer agradar InuYasha e Mirok, e por sua vez supunha que deter o bandido local lhe asseguraria um lugar entre os cavalheiros de Taysho.
O que ele não sabia era que já tinha sido aceito por sua família. Seu pai o tratava como a um filho. Mirok e InuYasha brincavam com ele como se fosse um irmão. E suas irmãs já não lhe lançavam olhares ameaçadores cada vez que ele tomava a mão de Rin. Na verdade, elas haviam lhe dado permissão para levá-la a feira sem nenhuma companhia no fim de semana.
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Continua...
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