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Donzela Ardilosa

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Capítulo 20

Quando Rin voltou para o palco, agora vazio, com duas cervejas que ela havia trazido para ela e Sesshoumaru, sentiu-se surpresa por encontrá-lo conversando com os atores vestidos chamativamente. Curiosa, ela se deteve, olhando a interação deles a certa distância. Os três pareciam estar realizando alguma espécie de transação séria, resultava absurdo pelo fato que dois deles tinham os rostos pintados com tantas cores como um brasão de armas ilegítimo.

Enquanto Rin observava, Sesshoumaru deslizou algo para as mãos deles, acenou com a cabeça saudando-os, depois olhou ao seu redor até ver sua aproximação. Ele lhe sorriu e no instante em que Rin viu aquelas adoráveis covinhas, todas suas suspeitas desapareceram.

Ela lhe deu a cerveja, decidindo que, sem dúvida, ela era muito cínica. Sesshoumaru não podia estar tramando algo errado. Provavelmente havia dado aos atores algumas moedas pelo espetáculo, nada mais.

E não pensou mais no assunto.

Eles passaram o resto da tarde pechinchando e festejando, enquanto observavam os lutadores, os flautistas e os atores, passeando de mãos dadas pelas tendas sinuosas dos artesões de couro, dos joalheiros, dos vendedores de lâminas, dos merceeiros, dos comerciantes de especiarias e dos vendedores de estátuas de santos. Depois de um dia deliciosamente exaustivo, eles voltavam para Higurashi, tal como Kaede tinha ordenou, antes do anoitecer.

Sesshoumaru anunciou os planos deles para o casamento durante o jantar. Como perfeito cavaleiro, ele primeiro pediu formalmente sua mão para seu pai. Infelizmente, Lorde Tourhu nessa noite estava mais atordoado do que o habitual, parecia muito confuso por todo o caso, e não entendia quem queria casar com quem. Mas quando Lorde Tourhu vacilou InuYasha, Mirok, Kagome e Sango intervieram. Eles deram a Sesshoumaru e Rin sua bênção e suas cordiais felicitações.

Kaede, também, ofereceu umas secas felicitações, mas Rin podia dizer que suas palavras eram vazias. Ele estava descontente. E isso irritou Rin enormemente.

Rin silenciosamente insultou o velho homem mal-humorado por sua rudeza com Sesshoumaru. Afinal de contas, Sesshoumaru estava fazendo um grande esforço para ser amável desde a véspera. Ele havia ajudado Kaede a se acomodar em seu assento. Tinha assegurado a Kaede que Rin ainda seguiria requerendo seus serviços de criada mesmo depois do casamento. Ele igualmente havia dito ao velho rabugento que se ele realmente desprovesse o casamento deles, Sesshoumaru teria prazer em ouvir suas queixas.

Mas Kaede lhe ofereceu uma recepção fria, e no final do jantar, Rin havia sentido muito tentada a usar seu novo shang chi contra o velho rude.

Depois do jantar, Sesshoumaru desapareceu brevemente. Quando voltou para salão, ele veio acompanhado pelos dois atores da feira, com seus rostos extravagantemente pintados.

Rin franziu o cenho. Que demônios eles faziam aqui?

Com uma piscadela para Rin, Sesshoumaru orientou os rapazes da cozinha a mover algumas das mesas para fazer um espaço para uma diversão agradável. Então ele apresentou os atores ao povo de Higurashi.

Os artistas, Hob-Nob e Wat-Wat, com um floreio extravagante de seus braços, saudaram a mesa sobre o tablado e subiram ao palco improvisado. Em alguns minutos, suas artimanhas desenfreadas deles fizeram todo o salão irromper em risadas incontroláveis. Logo, até seu pai gargalhava com alegria.

Quando Sesshoumaru retornou para a mesa, Rin se inclinou para ele, surpresa.

— Você os contratou? Mas, como...? O que...?

Ele sorriu e sussurrou.

— Foi para me assegurar de que seu pai não me negasse sua mão. Que homem poderia dizer que não quando a barriga deles está ralando de dar risada?

Rin sorriu. Sesshoumaru, seu noivo, era inteligente. E estava muito ansioso para agradar. Cortês. Cavalheiro. Bonito. E absolutamente irresistível.

Mas Rin supôs que teria que resistir a ele no momento. Afinal, seria muito inadequado agarrar a seu noivo pela túnica, lançá-lo sobre uma das mesas, lhe arrancar as calças, e abusar dele com todas as pessoas de Higurashi como testemunhas. Não importava quão tentador era o pensamento.

Rin se conformou em se agarrar apertado ao seu braço, apoiar sua bochecha contra seu ombro, e escutar o maravilhoso estrondo de suas gargalhadas quando riu sobre o combate brincalhão de Hob-Nob e Wat-Wat.

Ao final da longa performance, Lorde Tourhu naturalmente convidou os atores a unir-se à partida do jogo de dados. Eles aceitaram entusiasmados, e depois o jogo se converteu em uma cena muito cômica, pois Wat-Wat roubava as moedas da pilha de seu companheiro e Hob-Nob seguia golpeando-o na cabeça.

Rin sabia que seu pai sofreria grandes perdas nessa noite nas mãos desses trapaceiros dissimulados. Eles não só eram especialistas com o truque das mãos, como também incansavelmente falavam com lógica para distrair os homens da mesa, levando suas moedas.

Mas ela não tinha visto seu pai tão feliz em semanas, e não queria que nada atenuasse essa felicidade. Talvez a perda de moedas se compensasse com a alegria que florescia nos olhos de Lorde Tourhu enquanto Wat-Wat e Hob-Nob disputavam a golpes uma moeda prata que acabavam de ganhar do velho.

Como se estivesse lendo sua mente, Sesshoumaru apertou sua mão, e murmurou.

— Tentarei me assegurar que ele não perca muito. — Depois com um doce beijo em sua testa, ele lhe ofereceu boa noite e foi até a mesa de jogo para participar das apostas.

Rin teria preferido que ele a acompanhasse até seu dormitório, a lançasse sobre a cama, levantasse suas saias, e que lhe desse um beijo de boa noite apropriado. Mas Sesshoumaru era um homem sensato e de bom coração e não havia muito para ser dito sobre a prudência, particularmente quando ela parecia ter tão pouca ultimamente.

Além disso, logo que ela se levantou da mesa e se dirigiu para a escada, Kaede a seguiu.

— Rin. — A criada a seguiu como um cachorro. — Rin.

Rin não se incomodou em reconhecer o maldito servo. Ainda estava zangada com ele.

—Rin.

Rin abriu sua porta do dormitório, tentada a se virar e fechar a porta na cara dele.

Mas Kaede conseguiu agarrá-la pelo braço, murmurando um de seus comentários que não se podia entender.

— Ele não é quem você pensa que é.

Rin poderia ter fingido que não entendia o que Kaede queria dizer, mas teria sido inútil. Então, ela replicou.

— E você não é quem eu pensei que era. — ela ficou nariz a nariz com Kaede. — Eu pensei que você era meu servo fiel, meu respeitado xiansheng, meu amigo. — Ela soltou seu braço do aperto de Kaede. — Mas você não foi nada disso, somente foi rude desde que meu noivo chegou.

Kaede levantou seu queixo orgulhosamente.

— O que eu faço, faço para sua proteção.

— Proteção? — Rin fez uma careta, depois fechou a porta para evitar que outros pudessem as ouvir por acaso. — Kaede, você está sempre me dizendo que sou uma criança. Como você espera que eu cresça se insisti em me proteger?

Kaede escutou em silêncio.

— Não sei por que odeia Sesshoumaru. — Prosseguiu ela. — Mas eu sei que ele é um bom homem. E será um bom marido. Ele foi paciente com meu pai e educado com minhas irmãs. E apesar de você ser tão grosseira com ele, Sesshoumaru foi amável com você.

Kaede a contemplou durante um longo momento, seu olhar escuro atento e decidido, sua mente provavelmente a mil milhas longe dali, até que Rin foi forçada a desviar seu olhar por desconforto.

Finalmente, Kaede falou.

— Está certo. É tempo de você fazer seu próprio futuro.

Rin piscou com assombro. Era a última coisa que esperava da parte de Kaede. O velho e teimoso mestre nunca admitiu que estivesse errado.

— Mas há coisas que devo revelar a você. — Disse ele. — Coisas muito importantes que lhe ajudarão a construir seu destino.

Rin assentiu com a cabeça em silêncio, ainda repensando a concessão dele.

— Os dois tolos não são tão idiotas como parecem. — Declarou Kaede.

— Hob-Nob e Wat-Wat?

— Eles são fortes, ágeis e inteligentes.

— O que os atores têm a ver com Sesshoumaru?

— Ele os contratou, ou não?

— Sim, mas...

— E eles estão ganhando muitas moedas esta noite.

— Como o faz qualquer um que aposta com meu pai.

— Isso é algo que Sesshoumaru de Morbroch sabe.

— O que você está dizendo?

— Seu noivo contratou os atores para tirar moedas de seu pai esta noite. Amanhã, ele partirá com eles, e dividirão os lucros.

— O que? — Rin estava tentada a rir da absurda acusação de Kaede.

— Ele nunca voltará para esta fortaleza.

— Essa é a coisa mais absurda que eu já...

— Você não se lembra dele antes. — Kaede lhe recordou — Quando ele assegura ter se apaixonado por você.

Rin mordeu seu lábio. Queria contradizer Kaede, mas o que ela dizia era correto. Na verdade, ninguém que havia participado do torneio se lembrava de sir Sesshoumaru de Morbroch. De fato, Sesshoumaru havia inventado essa mentira. De repente seu peito se sentiu oprimido como se um grande pedaço de chumbo tivesse se congelado ali.

— Ele não veio por sua causa, Rin.

— O que você está dizendo? — Seus pulmões se apertaram, tornando difícil respirar. — Que ele veio para Higurashi para roubar meu pai?

O silêncio de Kaede lhe respondeu.

— Não pode ser verdade. — Mas em sua mente, Rin sabia que era possível. Sesshoumaru poderia ter usado o pretexto de cortejá-la simplesmente para ganhar acesso à mesa de jogo. E ele poderia ter lhe prometido casamento se planejava escapar com os lucros, sabendo muito bem que era uma promessa que nunca seria obrigado a cumprir. Essa possibilidade a debilitou.

Mas, por que um homem como Sesshoumaru recorreria ao roubo? Ele claramente tinha uma posição econômica suficientemente boa para possuir uma boa espada e um magnífico cavalo, para poder suportar perdas das apostas da última semana e para comprar um anel de compromisso na feira.

— Ele é um cavaleiro nobre. — Insistiu Rin, embora em seu coração soubesse que provavelmente isso era uma mentira.

— Você tem certeza disso?

Rin não podia olhar nos olhos de Kaede.

— Ele se apresentou como sir Sesshoumaru de Morbroch.

— E Hob-Nob se apresentou como o Rei do França.

Rin sentiu que desmoronava.

— Quem mais que um cavaleiro da nobreza poderia manejar tão bem uma espada?

Kaede estreitou seus olhos sábios.

— Certamente não a submissa filha de um Lorde escocês. — disse ela severamente. — Nem sua velha criada.

Rin teve que aceitar. Kaede tinha razão. Não se podia julgar as pessoas pelas aparências. Mas também não podia fazer suposições apressadas.

Rin sacudiu a cabeça.

— Não acredito. Conheço Sesshoumaru. Ele é um homem de honra. E ele me ama. — Para sua consternação, apesar da convicção de sua declaração, sua voz se quebrou com as últimas palavras.

O rosto de Kaede de repente pareceu mais velho e cansado, como se tivesse envelhecido dez anos em alguns poucos minutos.

— Eu lhe digo, ele vai trair você.

Não era o que o coração de Rin dizia. Seu coração afirmava que Sesshoumaru a amava, que suas almas estavam inextricavelmente unidas, que ele nunca faria nada que a magoasse.

— Você verá. — Rin afirmou para Kaede. — Chegará o amanhecer, os atores partirão, e tudo estará bem. Sesshoumaru ainda estará aqui. Ele nunca me abandonaria.

Durante muito tempo suas palavras ficaram penduradas no ar, parecendo mais ocas e desesperadas a cada segundo que passava.

Kaede assentiu com a cabeça, depois se virou para abrir a porta. Embora já estivesse quase fora e falava de costas Rin pôde ouvir a ordem de sua voz.

— Seria algo muito tolo se A Sombra tentasse recuperar o dinheiro dos atores ao amanhecer.

Essa idéia nunca tinha ocorrido a Rin. Ela estava muito horrorizada com a possibilidade de que Sesshoumaru pudesse traí-la para pensar na Sombra e no que poderia acontecer com os lucros dos atores.

— Tolo?

— Três homens juntos seriam um inimigo formidável.

— Haverá somente dois. — Insistiu Rin. — Sesshoumaru não irá com eles.

— Mas amanhã acontecerá. A Noite engolirá A Sombra.

Rin respirou profundamente.

— O que você quer dizer? — Dessa vez a profecia lhe esfriou o sangue.

Sua explicação foi tão crítica como sua profecia.

— Engolida pela Noite, A Sombra desaparecerá.

Era verdade, Rin supôs, de um ponto de vista da lógica pura. Mas as profecias de Kaede nunca eram literais nem simples. Quando Rin reconsiderou o simbolismo de suas palavras, uma possibilidade alarmante invadiu seus pensamentos. Noite significava Morte para Kaede? A Sombra morreria pela manhã?

Era impossível imaginar. A Sombra era intocável. A Sombra saía ilesa de cada combate. Ninguém poderia apanhar o ladrão esquivo, e muito menos matá-la. A Sombra era indestrutível.

Mas Kaede parecia muito séria em sua profecia, e ela nunca se equivocava. Rin tinha que prestar atenção as suas palavras.

— Eu tenho certeza que A Sombra não fará nada tão tolo.

Kaede hesitou, como se desejasse dizer algo mais, depois decidiu o oposto. Sem outra palavra, abriu a porta.

— Aonde você vai?

— Você tem razão. — Disse Kaede com uma leve reverência de sua cabeça. — Já não é mais uma menina. Não necessita de um velho criado para te proteger durante o sono.

Com isso, Kaede lhe ofereceu boa noite e deixou o dormitório.

Rin deveria ter sentido uma alegria embriagadora pela nova independência adquirida. Finalmente Kaede tinha reconhecido o que ela era, uma mulher crescida. Mas, ao contrário, seu coração sofreu uma pontada de tristeza.

Algo tinha mudado para sempre entre os dois. Rin já não era mais sua pupila. Kaede já não era o mestre. Eles tinham chegado a uma encruzilhada onde tinham que tomar caminhos separados.

Mas se Rin tivesse sabido nesse momento que devido a sua insistência em defender a inocência de Sesshoumaru, nunca mais voltaria a ver seu amado mestre outra vez, teria saído correndo atrás de Kaede e teria insistido que seu mestre passasse a noite a seu lado.

Infelizmente, o amor tinha cegado Rin.

Entretanto, Rin se movia inquietamente em sua cama, incapaz de dormir pelos problemas que atormentam sua mente insone.

Maldição com tudo isso! Era tão injusto.

Ela adorava Sesshoumaru. Ele era tudo o que ela poderia esperar de um marido. Ele era perfeito para ela. Espirituoso e gentil, inteligente e atencioso, corajoso e deliciosamente travesso, ele era o tipo de homem que entenderia seu espírito livre. Ele a fazia se sentir viva, respeitada e valorizada. Rin sentia que Sesshoumaru era um homem que poderia aceitá-la como a donzela guerreira que ela era.

Mas agora Kaede tinha plantado uma semente de dúvida em sua mente, uma semente que poderia crescer e florescer até ser uma traição.

Rin esperava que por uma vez que seu mestre estivesse errado. Rezou para que não houvesse nada pelo que se preocupar, que tudo isso não passasse de um medo tolo de Kaede, e que no dia seguinte ela iria acordar para encontrar Sesshoumaru tomando o café da manhã no grande salão de Higurashi.

Rin rezou muito. Porque se não...

Deus a salvasse... Ela havia se deitado com esse homem.

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Continua...

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