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Donzela Ardilosa
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Capítulo 23
Sesshoumaru caminhava inquieto no dormitório gelada que seu anfitrião havia lhe destinado, fazendo que a chama da vela tremulasse perigosamente. Mas não lhe importava se a vela se apagasse. Talvez então conseguisse conciliar o sono que tão desesperadamente necessitava.
Não havia nenhuma boa razão para explicar a carga de culpa que carregava tão pesadamente sobre seus ombros. Tinha conseguido completar sua missão. Tinha cobrado sua recompensa. O Lorde estava contente, tão satisfeito que o havia convidado a ficar em Morbroch. Sesshoumaru tinha libertado o mundo de um bandido perigoso. E o mais importante de tudo, tinha salvado a sua amada Rin da perfídia de sua criada de confiança, que na realidade era um velho pervertido.
Mas seu coração lhe pesava.
Ele massageou a parte detrás do pescoço. Talvez quando todo isso tivesse terminado, quando levassem Kaede para ser enforcado, receberia a absolvição que procurava.
Mas Sesshoumaru duvidava.
Ele se deixou cair sobre a cama e afundou sua cabeça entre suas mãos.
Rin nunca o perdoaria.
Era isso o que o torturava.
Não importaria o que ele tentasse lhe dizer, o modo honesto, paciente e compreensivo dele, explicando a mentira de Kaede, a trama do idoso desonesto, sua perversidade, a traição dele com seu pai e das pessoas de Higurashi, Sesshoumaru sabia que Rin nunca o perdoaria por enviar sua criada à forca.
E se Rin não o perdoaria, ela nunca o aceitaria de volta.
Uma parte dele desejava nunca ter apanhado A Sombra. Parte dele queria desfazer tudo o que havia feito, desejava voltar atrás no tempo, e deixar que o ladrão fugisse para o bosque e regressasse para Higurashi e voltar para sua carreira de bandido.
Mas outra parte dele, a parte mais razoável, sabia que o que ele havia feito, ele havia feito para proteger Rin.
Deus o ajudasse, ele amava essa donzela. Nunca tinha amado ninguém tão ferozmente como amava Rin. Faria qualquer coisa para mantê-la segura. E se mantê-la segura significava fazer que ela o odiasse, esse era um sacrifício que devia fazer um fardo que ele deveria carregar.
Ele nem sequer se atrevia o tormento de se agarrar a um fio de esperança de que Rin pudesse compreendê-lo algum dia. Aos seus olhos ele a havia traído sua confiança tanto como Kaede. Quando Rin descobrisse quem era ele, um mercenário bastardo que tinha chegado a Higurashi com pretextos falsos, provavelmente ela não acreditaria que ele realmente estava apaixonado por ela. Na verdade, Rin não tinha nenhuma razão para acreditar em algo que ele lhe dissesse.
Eventualmente ele teria que aprender a viver sem seu amor. E se consolaria com o fato de que uma vez que o criminoso encerrado no calabouço fosse executado, Rin estaria livre da perversão de Kaede para sempre.
A tristeza se enroscou como uma serpente vil sobre sua garganta, estrangulando sua necessidade de chorar e enchendo-o com veneno amargo.
Provavelmente era melhor não voltar a ver Rin. Talvez fosse uma covardia de sua parte, mas não podia suportar a idéia contemplar as lágrimas da dor pela traição inundando os olhos inocentes de Rin, sabendo que ele era o causador dessa ferida.
Lorde de Morbroch havia lhe feito uma oferta generosa, uma posição em seu castelo. Duas semanas atrás, Sesshoumaru poderia ter se alegrado com essa oferta. Cansado de vagar de povoado em povoado, vivendo da ponta de sua espada, finalmente tinha vislumbrado uma maravilhosa possibilidade de permanência e estabilidade com uma mulher que ele amava e por quem era amado, Sesshoumaru tinha sonhado em fazer essa vida em Higurashi.
Mas agora que esse sonho parecia estar à milhas de distância, de outra vida.
Agora tudo o que queria fazer era desaparecer nas sombras familiares do bosque, deitar-se nos braços de sua amante de sempre: a solidão, e se isolar dos olhos condenatórios do mundo.
Perdido na pena por si mesmo, com sua cabeça enterrada entre suas mãos, Sesshoumaru quase não percebeu um débil formigamento em sua nuca, um formigar que lhe dizia que não estava sozinho.
Quando levantou sua cabeça, algo o golpeou por trás, lhe fazendo ver um milhão de estrelas brilhantes e lançando-o para frente, para fora da cama e de joelhos.
Aturdido, não pode fazer mais que enrolar-se em posição fetal e se arrastar para fora do alcance do perigo.
Ao menos, foi isso que ele pensou: que estava se afastando do perigo. Mas quando um segundo impacto o golpeou no lado da cabeça, ele rapidamente extraiu a adaga e examinando o quarto. Entre a débil luz da vela e o atordoamento dos golpes em sua cabeça, estava quase cego. Mas um bom caçador sempre poderia confiar em seus ouvidos.
Infelizmente, seu atacante fazia muito pouco ruído.
Sesshoumaru pensou que havia visto pelo canto de seu olho, um movimento escuro, como uma sombra se deslocando na chama cintilante. Então algo cruzou como um relâmpago pelo ar, golpeando-o na lateral do pescoço, queimando sua pele e empurrando-o contra a parede que estava atrás dele.
Não teve tempo de olhar o que o havia golpeado, nem tempo para se preocupar com o sangue que emanava da ferida. Ficou de pé apoiando-se contra a parede, enquanto a usava como alavanca para seus pés.
Sacudindo a cabeça para limpar o borrão, Sesshoumaru procurou nos cantos do quarto, mas não viu nada. O único ruído era o de sua própria respiração agitada. Ele lançou o punhal para sua mão esquerda e extraiu a espada com a direita, então lentamente se afastou da parede. Antes que ele tivesse dado dois passos, seu olho captou um movimento na extremidade mais distante da cama.
Um brilho prateado lhe advertiu que uma espada rumava diretamente para seu peito. Ele se virou, recebendo a faca em seu ombro direito. Grunhiu quando a lâmina delgada se cravou profundamente. Com a mão do punhal, ele arrancou a faca, sem fazer caso da dor e do sangue.
Então, com um rosnado de fúria, deu um grande passo na direção da cama e investiu para frente, com a intenção de cair sobre o invasor.
Mas suas botas pisaram no chão vazio. O atacante havia a desaparecido.
Sesshoumaru virou sua cabeça. Onde ele poderia ter ido?
A resposta veio no instante seguinte. Quando ficou de pé, uma sombra se deslizou por debaixo da cama, agarrando-o firmemente por trás dos calcanhares.
Sendo desequilibrado, com suas mãos cheias com as armas, Sesshoumaru caiu para trás, batendo com força contra a parede. Raspando a cabeça por abaixo do gesso, ele aterrissou sobre seu traseiro com um doloroso golpe.
Através das fendas dos olhos entrecerrados, ele viu a silhueta debaixo da cama, afastando-se como uma grande arranha negra.
A Sombra.
Não, não podia ser. Kaede estava encarcerado no calabouço.
Antes que Sesshoumaru pudesse adivinhar que outro inimigo podia ter encontrado, a cabeça do atacante apareceu sob a cama, e fez um movimento pra frente com sua mão.
Sesshoumaru desviou a cabeça bem a tempo para ver uma estrela prateada e afiada cravada na parede de gesso ao lado dele.
Devia ser A Sombra. Essa estrela de metal era uma das estranhas armas que tinha visto na parede do dormitório de Rin.
Mas como tinha conseguido escapar do calabouço?
Não teve tempo para descobrir. Mas de algum jeito ele havia conseguido, mas Kaede poderia ter escapado facilmente do castelo. Mas não o havia feito. Ele havia ficado para acabar com seu captor.
Não havia dúvidas então. Essa era uma luta de morte.
***
Embora Rin tentasse treinar sua mente para a serenidade e a concentração em um objetivo, matar a sangue frio, dentro de seu peito, seu coração martelava incansavelmente.
Tinha esperado que tudo estivesse terminado até esse momento, que Sesshoumaru La Nuit já estivesse morto. Na verdade, surpreendeu-se de encontrá-lo acordado. O restante das pessoas do castelo estava dormindo, inclusive os dois guardas que ela havia interrogado. Antes que os tivesse enviado a dormir com um soco bem colocado, eles lhe tinham contado que A Sombra ia ser executada ao amanhecer, depois lhe indicaram a direção do dormitório de Sesshoumaru.
Ela tinha vindo diretamente para o quarto dele. Sabia que se fosse ver Kaede primeiro, ele a convenceria de não matar Sesshoumaru. Kaede não entenderia. Não sabia tudo o que ela havia dado a Sesshoumaru, seu coração, seu corpo, sua alma. Não entenderia a dor insuportável que a levava a assassinar.
Mas ela tinha esperado que fosse uma coisa simples. Ela se arrastaria até o quarto, encontraria o desgraçado, bastardo, mentiroso e mercenário dormindo em sua cama, e rapidamente cortaria sua garganta. De fato, era por piedade que ela tinha planejado para ele uma morte rápida e indolor, mas ele merecia algo muito pior.
Mas em vez disso, Sesshoumaru não só estava acordado e preparado para se defender, mas também sua própria serenidade e frieza pareciam lhe falhar. A shuriken deveria tê-lo golpeado na garganta. Mas havia escorregado entre seus dedos nervosos. Do mesmo modo, sua bay sow havia se extraviado de sua direção. Inclusive o movimento de suas pernas e a subseqüente colisão dele contra a parede só havia lhe atordoado o cérebro quando deveria tê-lo deixado inconsciente.
Seu próprio coração não estava completamente investido em matá-lo.
Mas um instante mais tarde, tudo mudou, pois era absolutamente claro que Sesshoumaru estava totalmente determinado a matá-la. Furtivamente rodeou os pés da cama, armado com seu punhal e sua espada. Sesshoumaru não poderia vê-la claramente, mas era óbvio por seus movimentos que ele sabia onde ela estava.
Franzindo o cenho com determinação, Rin tirou seu sais, inclinou-se sobre seus joelhos, e se dispôs a atacá-lo.
Antes que Sesshoumaru pudesse se aproximar o suficiente para golpeá-la, Rin investiu para frente com os sais, errando a espada com um, mas capturando seu punhal com o outro, e com uma torção de seu braço o tirou dele.
Agora Sesshoumaru só estava com a espada.
Mas era incrivelmente rápido com ela. Antes que ela pudesse saltar e se afastar, ele sacudiu a espada para frente, cortando sua roupa e roçando seu ventre com a ponta afiada.
A ardência do corte a fez respirar entre seus dentes. Mas Rin não podia se permitir o luxo de sentir dor. Lutava por sua vida.
Esbarrando a mão dele entre as pontas de um dos sais, ela empurrou o braço com espada para longe e se abaixou para deslizar novamente para o refúgio debaixo da cama. Ele não desperdiçou tempo. Enquanto ela se escondia lá, ele saltou sobre o colchão e o apunhalou com espada, perfurando-o.
A primeira estocada errou seu quadril por centímetros. A segunda foi no ombro. A terceira tirou uma lasca de carne da coxa. Rin ofegou de dor, depois rolou para fora de seu refúgio antes que ele pudesse alcançá-la com outra estocada.
Quando Sesshoumaru lançou a quarta estocada, ela apareceu no lado do colchão e espetou um dos sais para frentepegando um dos tornozelos, e fazendo-o perder o equilíbrio. Sesshoumaru aterrissou primeiro com seu traseiro, depois caiu para trás sobre o colchão. Mas o melhor de tudo era que o havia deixado desarmado. Sua espada estava cravava no colchão.
Rin rapidamente tirou uma segunda bay sow de seu arsenal e se preparou para lançar na direção dele. Mas justamente antes que a arma deixasse seus dedos, algo lhe golpeou a mão obliquamente, e a arma caiu inofensiva no chão ao lado de Sesshoumaru.
Quando Rin olhou seus nódulos, ela viu que havia sido golpeada por seu próprio shuriken. Sesshoumaru devia tê-lo tirado da parede. Ela o elevou do chão com a intenção de cravá-lo em sua garganta. Mas a arma já não estava ali.
Seu coração se paralisou.
Onde estava ele?
Um olhar rápido lhe disse que ele não tinha recuperado sua espada. Ela ainda estava cravada no colchão como uma cruz Santa.
Ela revistou rapidamente o dormitório com o olhar, procurando algum tipo de movimento. Então ele veio. De um canto. Instintivamente, Rin lançou um de seus sais para o lugar de onde provinha o som.
Quando ele caiu pesadamente no chão, ela viu, com a débil luz da lua, um camundongo assustado cruzando velozmente as tábuas.
A próxima coisa que ela viu foi às tábuas que se precipitavam na direção dela. Sua cabeça golpeou o chão duro de madeira quando seus pés perderam o equilíbrio, e ela deixou cair o sai restante.
Durante um momento de atordoamento, Rin ficou ali, cega por um véu de estrelas. Só o desespero, e o conhecimento de que ia morrer se ficasse assim, a motivaram a se deslizar com toda a pressa.
Ouviu que Sesshoumaru grunhia, ouviu o ruído da espada quando a tirou do colchão. Mas não podia ver nada. Rezando para ser invisível, Rin ficou de pé contra uma parede, encolhendo-se para ser tão pequena como fosse possível.
De repente foi agarrada pelo frente de sua túnica e arrastada. Sua visão se limpou repentinamente, e ela o viu mover sua espada com a intenção de cravá-la em seu ventre.
Antes que Sesshoumaru pudesse investir, lhe deu um chute feroz na sua virilha. Como Sesshoumaru se afundou, gemendo de dor, Rin cravou seus dedos em um ponto acima de seu esterno, fazendo-o cair e a soltando.
Ela fez uma precipitada retirada. Seus olhos umedecidos lhe turvavam a visão. Sua mente flutuava. A coxa sangrava. Tinha cortes no ventre e nos nódulos dos dedos. Mas não se atreveu a sucumbir. Era um assunto de vida ou morte.
As luvas dela escorregavam de suor, o coração trovejava, a respiração lhe raspava pelos pulmões, ela conseguiu ficar de pé dela de alguma maneira.
Sesshoumaru cambaleou para a janela, apoiou-se no batente, a espada arrastando no chão.
Sesshoumaru agora era um objetivo claro. A luz da lua o iluminava. Com uma mão trêmula, Rin tirou o woo diep dou. Não se atreveu a lançá-lo, não podia se permitir o luxo de perder sua última arma. Em vez disso, ela se mergulhou para a esquerda, lançando o braço para o grande vazio ao seu lado ao mesmo tempo em que avançava para frente com o braço direito.
Pensou que ele não teria tempo de levantar sua espada do chão.
Mas se equivocou.
Ele bateu o punhal da mão dela com um golpe duro do cabo de sua espada, então devolveu com um golpe longo pretendo cortar fora a cabeça dela.
Só seus reflexos rápidos a salvaram. Quando ela desviou a cabeça, a espada passou assobiando sobre sua garganta, mas o corte só foi profundo o suficiente para cortou o tecido do capuz.
Mas o ataque a deixou em desvantagem. As dobras do capuz rasgado caíram sobre seus olhos, cegando-a. Invadida pelo pânico, Rin agarrou o tecido.
Mas a mão de Sesshoumaru a agarrou a frente de seu traje, e ele a arrastou para perto de seu corpo justamente quando ela libertava sua cabeça do capuz sufocante.
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Continua...
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