x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
-

-

-

Donzela Ardilosa

-

-

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Capítulo 27

Sesshoumaru gritou de triunfo enquanto Rin e Kaede subiam correndo a ladeira da colina. Tinha funcionado! O plano tinha funcionado. As pessoas de Morbroch, pensando que estavam sendo atacados por uma praga diabólica, tinham fugido como pecadores que procuram salvar suas vidas.

— Rin! — Ouviu-se um grito feminino atrás dele.

Sesshoumaru virou a cabeça.

— Sango? — Ele franziu o cenho com surpresa. — Kagome? Mas que inferno...?

Sesshoumaru ainda confuso, ainda segurando a tocha acesa, enquanto as três irmãs celebravam um reencontro vitorioso, abraçando-se, e falando todas ao mesmo tempo. Ele sacudiu a cabeça. Supôs que as Donzelas Guerreiras de Higurashi iam levar todo o crédito pelo resgate de Rin.

— Tudo isto... — Kagome perguntava à Rin enquanto apontando o céu cheio de fumaça — ...É só para recuperar as moedas de Papai?

Rin se encolheu de ombros.

— Eu não podia abandonar Kaede.

— Por todos os Santos! — - Sango suspirou assombrada. — Kaede é um homem.

Rin tentou fazer uma carranca em direção a Kagome.

— Mas... O que vocês fazem aqui? Eu disse a vocês que não necessito de ajuda.

— Ah, não viemos ajudar — Kagome lhe assegurou — Somente viemos olhar.

— Kagome — Sango sussurrou, sacudindo a manga de sua irmã — -... Kaede... É um homem.

Sesshoumaru limpou sua garganta.

— Bem, agora que já olharam tudo. Sugiro recomeçar nossa fuga.

Ninguém lhe prestava a menor atenção.

— Afinal de contas — Kagome disse — Eu nunca tinha visto A Sombra em ação.

— Você se esquece quando A Sombra fez você cair sobre seu traseiro? — Rin brincou.

— Ah, sim, além disto.

— Rin... — Sango murmurou entre dentes. — Rin, sua criada é um...

— Sim. — Kaede replicou com impaciência. — Todos nós sabemos que Kaede é homem.

—Damas... — Sesshoumaru tentou outra vez.

Kagome finalmente notou as contusões no rosto de Rin.

— Oh, Rin, o que aconteceu com você?

— Não é nada. Apenas alguns arranhões...

— Arranhões? — Sesshoumaru gritou, finalmente atraindo sua atenção. — É muito mais que arranhões. Eu estava lutando por minha vida... — Ele se calou de repente compreendendo que seria um grave erro deixar que as Donzelas Guerreiras soubessem que tinha sido ele quem havia infligido àquelas feridas sobre sua querida Rin.

Mas as suspeitas já tinham sido despertadas. A arma de Sango já estava meio fora de sua bainha.

— Você fez isso a minha irmã?

Rin apertou a mão de Sango.

— Sango, você não sabe tudo...

Agora era Kagome quem o estava fuzilando com o olhar.

— Se você tocou em um fio de seu cabelo...

— Kagome, não, por favor. — Suplicou Rin. — Eu vou explicar tudo.

Sesshoumaru olhou a colina outra vez.

Os cavaleiros de Morbroch já não estavam aterrorizados pelo ataque sobrenatural. Os homens mais corajosos se armaram e agora subiam pela colina, preparados para desafiar o animal infernal que ameaçava Morbroch.

— Corram! — Sesshoumaru gritou às mulheres.

Elas cessaram seu bate-papo e o olharam como se ele estivesse louco.

— Corram! — Ele gritou outra vez.

Elas ainda ficaram paradas. Que demônios estava errado com elas?

Claro, ele percebeu. Ele tinha feito uma má escolha de palavras. Dizer "correr" para uma mulher guerreira era o mesmo que dizer "rendição" a um cavaleiro.

— Depressa! — Sesshoumaru repetiu. — Eles estão vindo. Levem Kaede para um lugar seguro.

Elas olharam colina abaixo e obedeceram, escapando para o bosque.

Então, com uma pressa impetuosa, Sesshoumaru acendeu o resto do huo yao. O ruído foi incrível, como uma fileira inteira de catapultas que lançando pedras em uma parede de castelo em uma sucessão rápida. Como se Hephaestus estivesse forjando uma armadura na sua grande bigorna acima de Morbroch, faíscas voaram em todas as direções, seu brilho rivalizando com o sol.

Não tinha tempo para ver o efeito que essa série culminante de explosões teria sobre os cavaleiros. Sesshoumaru tinha que se unir aos outros fugitivos. Acendeu a última vareta, apagou a tocha e correu para o bosque oculto por um véu de fumaça.

Como lhe ocorreu que suas palavras seriam escutadas em meio do bate-papo excitado das irmãs, Sesshoumaru não sabia. Elas claramente estavam muito ocupadas contando anos de segredos para prestar atenção ao que ele dizia.

— Então, em todo esse tempo... — disse Kagome — Papai não perdeu nem um penny?

— Nem um penny.

Sango murmurou.

— E Kaede... Foi um homem desde o começo?

— É claro. — Rin disse com uma risada.

— Ele foi seu professor, não é mesmo? — Kagome adivinhou.

— Sim.

— Lamento que não tenha nos contado isso. — Disse Sango com uma careta.

— É assombroso. — Kagome se maravilhou. — Sir Sesshoumaru perseguiu A Sombra, sem nunca se dar conta de que estava perseguindo sua própria noiva.

Sango riu e bateu no ombro de Rin.

— E ela teve a coragem de lhe lançar uma moeda de prata.

— E sua coleção de armas? — Kagome perguntou. — Você realmente sabe as usar?

Rin assentiu com a cabeça.

Os olhos de Sango se iluminaram.

— Você tem que nos mostrar Rin. Prometa.

Kaede não se incomodou em tentar lançar uma palavra de sabedoria, ao longo de todo o caminho. Quase uma hora depois, ele finalmente comentou sobre as feridas de Sesshoumaru.

— O que aconteceu a você?

— A Sombra passou por mim. — Respondeu Sesshoumaru.

— Humph! — Então um sorriso de orgulho misturado com algo malicioso lentamente se curvou nos lábios de Kaede.

— Você tem sorte por continuar vivo.

Sesshoumaru assentiu com a cabeça. Entendia exatamente o que Kaede queria dizer. Se Rin não tivesse sentido uma mínima gota de amor por ele, poderia estar morto agora.

Assim como Kaede também.

— Você teve sorte também.

Kaede levantou sua cabeça orgulhosamente, como um homem que fala de sua filha.

— Rin tem um coração forte.

— E muito grande. — Disse Sesshoumaru, colocando uma mão sobre o ombro do pequeno homem. — O bastante grande para nós dois.

E assim começou a paz entre Kaede e Sesshoumaru. De fato, enquanto as irmãs conversavam sem cessar, assombrando-se sobre os talentos secretos de Rin, os dois homens falaram de assuntos mais práticos.

Até final da longa viagem dos fugitivos, quando eles se aproximaram de Higurashi, eles haviam chegado a um acordo provisório quanto ao que revelar e não revelar sobre essa magnífica aventura. A identidade verdadeira de Sesshoumaru seria revelada, mas Kaede seguiria sendo a criada de Rin. Quanto A Sombra, seu desaparecimento permaneceria como um mistério, e, é claro, não haveria nenhuma menção ao huo yao.

***

Cem velas de cera de abelha enchiam o grande salão de Higurashi emitindo luzes douradas e perfumando o ar com um calor de verão que desmentia a névoa de novembro que espreitava além dos muros de pedra da fortaleza. Rin, vestida com sua túnica de cor rubi, que Kaede havia insistido para que ela usasse por sorte, estava sentada ao lado de seu novo marido em seu banquete de casamento, de vez em quando olhando afetuosamente o anel prata em seu dedo, tão contente como um cavaleiro com uma espada nova.

Prato após prato chegava da cozinha contendo um delicioso veado assado, trutas frescas, lebre assada, torta de cogumelos e queijo, alho-poró e cebolas assadas, maçãs lustradas e figos com creme e mel. Mas, claro, tudo foi aprovado e distribuído pela própria Rin.

Uma música alegre enchia o recinto, as notas de harpa e cítara que eram seguidas depois do tubo e tamborim como pardais ruidosos que fazem perseguição em uma floresta primaveral. Myoga cantava histórias de aventura e romance, e várias crianças, mais excitadas que famintas, abandonavam seus lugares à mesa para dançar e girar ante a noiva.

Na verdade, Rin poderia ter se sentido tentada a se unir à diversão despreocupada deles se ela não estivesse apreciando uma diversão clandestina por debaixo da mesa.

Ela sufocou um grito quando os dedos de Sesshoumaru percorreram outro centímetro de seu vestido, perigosamente perto de revelar sua coxa.

Para não ser superada, ela retribuía a carícia, enquanto explorava a túnica dele lentamente para cima até que as pontas de seu dedo bateram à toa na rótula nua dele.

A boca de Sesshoumaru se contraiu nervosamente, mas com sua mão livre, ele levantou sua caneca de hidromel como se nada anormal estivesse acontecendo.

— Um brinde à minha nova e encantadora esposa. Sem ela, eu viveria... — anunciou Sesshoumaru — ...Na sombra.

Os olhos de Rin se arregalaram ante essa escolha arriscada de palavras. Mas ninguém pareceu notar. Todos levantaram suas canecas para acompanhar o brinde.

Rin quase cuspiu o hidromel quando a mão de Sesshoumaru escorregou descaradamente sobre seu joelho para subir por sua coxa nua.

Recuperando-se rapidamente, ela lhe lançou um olhar feroz e propôs seu próprio brinde.

— E aqui está o meu digno marido. Como os chineses dizem "Wo xiang Gen nem shang chuang".

Na mesa vizinha, Kaede quase se engasgou com a comida, tendo um ataque de tosse. Rin olhou para Sesshoumaru, levantando sua caneca com uma mão e aventurando-se atrevidamente em sua virilha com a outra.

Enquanto a multidão aclamava, Sesshoumaru se apoiou mais perto dela e sussurrou.

— Ouso perguntar o que isso significa meu docinho?

Quando ela lhe sussurrou a tradução em seu ouvido, Sesshoumaru fez um som afogado. Determinado a não perder a calma, ele de algum jeito conseguiu tomar um gole de hidromel. Mas não havia modo de ocultar a luxúria que nublava seus olhos ante o convite de sua esposa.

Como os guerreiros bem combinados em um impasse, cada um segurou o outro à distância agora, os seus dedos a meras polegadas de fazer o seu oponente indefeso.

As pessoas do castelo continuaram com sua celebração, ignorantes da batalha silenciosa que se desenvolvia debaixo de seu nariz. Kaede lançou um olhar letal a Rin pela vulgaridade de seu brinde. Lorde Tourhu jantava alegremente, provavelmente sem ser completamente consciente de que estava presenciando o matrimônio de sua última filha solteira, ainda apreciando a atmosfera festiva. Kikyo, também recém casada, se agarrava a seu amado Nobu como o orvalho a um cardo. Kagome e Sango lançavam olhares maliciosos a Rin, como se elas soubessem que o sangue quente de Higurashi que fluía pelas veias de sua irmãzinha não a reteria na mesa por muito mais tempo.

Porém, a luxúria entre Rin e Sesshoumaru fervia lentamente, perigosamente aproximando-se da ebulição, sobretudo devido à promessa que Rin tinha feito a Kaede. O velho tinha insistido em sua castidade nos últimos quinze dias antes do casamento, dizendo alguns disparates sobre a abstinência aumentar o poder de produzir descendente. Considerando as circunstâncias do sacrifício de Kaede e seu longo e leal serviço a Rin, eles tinham honrado seu pedido. Mas agora que estavam casados, e que as feridas de Sesshoumaru estavam curadas, Rin quase não podia esperar para se meter entre os lençóis com seu novo marido.

Os pensamentos de Sesshoumaru aparentemente coincidiam com os seus. Ele levantou a caneca outra vez para brindar em sua honra.

— Minha querida esposa, que este diminuto broto amor... — Com a cautela infalível, seus dedos se deslizaram entre os cachos de sua feminilidade, enquanto separava seus lábios inferiores para acessar ao broto do qual falava — ...Se converta em uma flor... Uma flor perfeita de casamento.

Rin não podia falar. Ela não podia respirar. Custava-lhe pensar enquanto seus dedos entravam nela. Suas bochechas se avermelharam, e ela rezou para que os convidados acreditassem que simplesmente se tratava de um rubor de donzela.

De algum jeito ela conseguiu engolir um gole tonificante de hidromel. Então, o coração dela se fixou na deliciosa vingança, e ela devolveu o favor, levantando a caneca.

— Marido querido, meu amor por você cresce a cada segundo e meu coração... — ela o fitou sugestivamente nos olhos enquanto sua mão deslizava para dentro de suas calças, capturando o tesouro que crescia ali dentro — ... Meu coração incha até quase estourar.

Seu tremor foi tão discreto que chegou quase a ser invisível, seu gemido silencioso foi imperceptível para todos exceto para Rin, que secretamente se deleitou com sua vitória.

Mas aquela vitória vinha com um preço. Quando ela viu seus olhos iluminados, sua respiração acelerada entre seus lábios separados, isso aumentou sua própria luxúria. Tudo o que ela poderia fazer para resistir de mergulhar imediatamente embaixo da mesa com ele.

— Meu amor... — Sesshoumaru grasnou, por debaixo do contínuo tagarelar das pessoas do castelo — Tome cuidado com o que faz...

De repente, a porta do grande salão se abriu violentamente, lançando uma luz cinza na habitação e batendo duro contra a parede de pedra. Antes mesmo que a névoa tivesse chance de entrar na sala, Rin e Sesshoumaru tinham abandonado suas carícias íntimas e, junto com a maior parte dos cavaleiros de Higurashi, saltaram sobre seus pés, extraindo as armas.

— O que significas isto? — O invasor gritou.

A respiração se cortou na garganta de Rin. Era o Lorde de Morbroch. E tinha vindo com seus homens.

Maldição!

O casamento deles ia ser arruinado antes que tivesse começado? O Lorde havia descoberto a trapaça que haviam aplicado nele? Ele teria percebido que Sesshoumaru o havia enganado? Teria ele retornado para levar-se Kaede? Tinha vindo por ela, A Sombra?

Sesshoumaru, pondo em jogo seus instintos protetores, empurrou-a para trás dele, fora da vista do Lorde.

Rin, com seus instintos tão fortes, saiu novamente detrás dele, fechando uma mão ao redor do cabo da arma que tinha escondida na manga de seu vestido.

— Morbroch! — Lorde Tourhu gritou alegremente, ignorando a tensão no recinto. — Seja bem-vindo!

Morbroch entrou pelo corredor, seus homens, logo atrás dele, enquanto os cavaleiros de Higurashi esperavam cautelosamente. As chamas das velas flamejaram como se sentissem medo, e até os cães gemeram com inquietação.

Rin olhou rapidamente para Kaede. E se Morbroch o visse? Seria enganado pelas vestimentas femininas da criada? Santo Deus que ele não reconhecesse Kaede...

Mas para surpresa de Rin, quando Kaede lhe devolveu o olhar, seu rosto era tão calmo como a de um lago no inverno.

— Lembra-se de mim? — Morbroch respondeu a Lorde Tourhu.

— É claro.

— E ainda assim não me convidou para o casamento?

Rin piscou. Ela tinha ouvido corretamente? Trocou olhares rápidos com suas irmãs, que pareciam tão aturdidas como ela.

Morbroch parecia muito ofendido. Sacudiu a umidade de sua capa enquanto avançava com grandes passos.

— Não sei se percebendo ou não, era por meu desígnio, esta aliança entre sua filha e Sesshoumaru La Nuit.

Rin brevemente olhou para Sesshoumaru. Havia pequenas rugas em sua testa.

— Sesshoumaru La Nuit? — Lorde Tourhu fez uma pausa, sua caneca de hidromel a metade caminho de sua boca. Suas sobrancelhas brancas se elevaram com perplexidade. — Sesshoumaru La Nuit? Não é o famoso mercenário?

— Já não é mais, Pai. — Kagome lhe assegurou, acariciando seu braço. — Ele é o marido de Rin e um dos cavaleiros de Higurashi agora.

— Assim é, meu lorde. — Disse Inuyasha firmemente, mas Morbroch se dirigia a Lorde Tourhu. — Ele é um de nós.

Lorde de Morbroch, impávido ante esse acolhimento menos que hospitaleiro, abriu passagem às cotoveladas entre a multidão.

— Não tema. — Gritou ele com irritação. — Não vim interromper sua... Celebração. — Ele parou diante de Sesshoumaru. — Só vim para entregar um presente de casamento. Parece que abandonou Morbroch com tanta pressa de voltar para sua noiva, sir Sesshoumaru, que esqueceu algo.

A seu lado, Sesshoumaru ficou rígido.

Morbroch colocou a mão sob sua capa e lançou uma bolsa com moedas sobre a mesa diante de Sesshoumaru.

— Sua recompensa.

Sesshoumaru teve que escolher suas palavras com cuidado. Todos sabiam que tinha sido pago para capturar A Sombra. Mas aquelas pessoas implicadas tinham concordado em omitir os detalhes da fuga do bandido.

— Você não me deve nada. Ouvi dizer que A Sombra escapou da corda do carrasco.

A risada de Morbroch foi seca.

— Da corda do carrasco talvez, mas... — Então ele franziu o cenho. — A irmã dele não lhe contou?

— A irmã dele? — Rin perguntou.

— A irmã da Sombra. — Disse Morbroch com impaciência. — Você sabe, a... — Ele revistou o salão com seu olhar. Então seu olhar se fixou e ele assinalou para Kaede. — Ela.

— A irmã da Sombra. — Repetiu Rin, dando a seu xiansheng um olhar acusador. Kaede aparentemente tinha tramado algo desonesto.

— Ela não lhe contou? — Morbroch perguntou

— Nos contar? — Sesshoumaru repetiu, olhando sobressaltado para Kaede.

— -Não lhes contou? — Morbroch se esfregou as mãos com regozijo. — Então tenho um conto absolutamente assombroso para vocês, damas e cavaleiros.

A guarda de Rin relaxou por um momento, e ela soltou a faca. Todos ao seu redor guardaram as armas em suas bainhas.

— É claro que — Morbroch disse com um suspiro — O conto seria muito melhor se fosse relatado com um pouco de cerveja molhando minha língua.

As pessoas do castelo se amontoaram em seus bancos para fazer lugar aos cavaleiros de Morbroch. Por sorte, Rin tinha planejado um banquete abundante, então Higurashi pôde oferecer hospitalidade e comida aos convidados inesperados.

Quando todos estavam sentados, eles escutaram o conto da fuga da Sombra, uma história tão incrivelmente exagerada que assombrou inclusive Rin.

— Eu não o chamaria de uma fuga. — disse Morbroch, sacudindo sua cabeça. — Não, uma fuga terrestre ao menos. Essa criatura negra que se deslizou da árvore era uma das serpentes do Satã, e vinha para levar um filho de Lúcifer como ele próprio.

Rin lançou um olhar para Kaede, mas seu xian­shengpermanecia completamente impassível. Na verdade, se não o conhecesse melhor, juraria que Kaede sorria.

Quando a história continuou, fez-se cada vez mais óbvio o que o ardiloso Kaede fizera. Ele devia ter viajado de volta a Morbroch, vestido como uma criada, com o pretexto de averiguar o que tinha acontecido com seu "irmão", A Sombra.

Quando a história fora relatada a ele pelas pessoas de Morbroch, Kaede simplesmente tinha preenchido as lacunas para entender o resultado curioso. Morbroch e os outros senhores, incapazes de explicar a ocorrência estranha, abraçaram a explicação de Kaede como a verdade.

— A Sombra despertou a ira do grande Dragão da China. — Contou Morbroch, abrindo seus olhos dramaticamente. — A besta se abateu sobre a árvore da forca, grunhindo e cuspindo fogo, e rapidamente agarrou A Sombra em suas garras horríveis para levá-lo até o Inferno. No céu estava cheio de raios e trovões, havia lua e sol ao mesmo tempo, luz de mil estrelas, quando o grande se enfureceu gritou e rugia no céu. Finalmente, uma nuvem de fumaça venenosa elevou a Sombra, para nunca mais ser vista.

Um longo silêncio seguiu ao relato. Rin tinha pressionado seus dedos sobre seus lábios, fingindo assombro quando na realidade sentia a risada borbulhando em sua boca. De relance, viu que suas irmãs também lutavam para conter sua diversão.

Kaede contemplava a cena com satisfação, como se seu imaginário irmão malvado não tivesse merecido menos. Quanto a Sesshoumaru, seus olhos brilhavam perigosamente com esse relato tão imaginativo. Sem dúvida ele estava revivendo seu papel como o Grande Dragão.

Uma e outra vez o conto foi repetido. Depois que as mesas foram limpas, e todo mundo teve sua dança, quando todos haviam se reunido ao redor do grande forno no meio do corredor, a história ainda circulava. Todos os cavaleiros de Morbroch tinham estado ali, e cada um tinha sua própria versão do incidente. As pessoas de Higurashi escutavam com temor absorto, maravilhando-se com a magnificência desconhecida do bandido. Myoga criou alguns versos sobre o tema para honrar o acontecimento.

Mas enquanto ela deveria se sentir agradecida pelo golpe de mestre de Kaede, Rin se encontrava sentindo-se cada vez mais melancólica e mal-humorada à medida que a noite avançava.

Quando Sesshoumaru se afastou dela durante um momento para ir ao guarda roupas, Kaede se uniu a ela.

— Esta é sua noite de núpcias. — Ele lhe recordou. – Você deveria estar feliz.

Rin franziu o cenho.

— Você matou A Sombra.

Kaede se encolheu de ombros.

— Já era tempo de que ele morresse.

— Mas agora, como equilibrarei as contas? Sabe como meu pai aposta. Os cofres se esvaziarão se eu...

— Enquanto seu yin e yang estiverem em equilíbrio, às contas também estarão.

Como não estava de humor para os comentários indecifráveis de Kaede, Rin o agarrou pelo frente de sua túnica.

— Que diabos isso quer dizer...

Kaede levantou a mão tranqüilamente e apertou com força a carne entre o polegar e o dedo indicador de Rin, fazendo com que ela uivasse de dor e o soltasse.

— A recompensa que seu marido ganhou por apanhar A Sombra desequilibrará enormemente as contas. A favor. Você vai poder suportar as perdas de seu pai por anos.

Levou um momento para Rin entender suas palavras. Quando finalmente compreendeu que Sesshoumaru tinha sido muito bem pago pela missão de apanhar A Sombra, ela levantou as sobrancelhas com assombro.

— Mas — Kaede acrescentou quando Sesshoumaru entrava no grande salão outra vez — Se as contas chegassem a se desequilibrar outra vez... — Ele sorriu astutamente. — Podemos recorrer a meu segundo irmão.

— Um segundo irmão?

— O Fantasma.

Rin sorriu astutamente. De algum jeito suspeitava que não haveria nenhuma necessidade de recorrer ao Fantasma. De todos os modos, era bom saber que se a situação ficasse desesperadora, se ela se visse obrigada a voltar para a vida do crime...

— Agora é o momento. - Disse Kaede.

— Momento?

— Você conceberá um bebê.

A mandíbula de Rin caiu aberta.

— Kaede! — Ela franziu o cenho. — Você não acha que pode me dizer quando vou ou não vou...

Mas quando Sesshoumaru se aproximou, sorrindo abertamente, com seus olhos cintilantes e suas covinhas irresistíveis, e passou um braço ao redor de seus ombros, Rin teve que admitir que a perspectiva de fazer um bebê a tentava.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Continua...

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Notinha da não autora:

Donzelas esse e o penúltimo capítulo.