Capítulo Dois

De Volta à Hogwarts

- Michelle? Michelle? – Chris sacudia Michelle pelos ombros. – Tá aí? Terra chamando Michelle, Terra chamando Michelle.

Michelle abriu os olhos devagar. A luz amarelada do pôr-do-sol invadia a cabine que ela dividia com seus amigos. Chris estava meio abaixado na frente dela e impedia que a claridade a atingisse no rosto. Ela empurrou o menino um pouco para o lado e sentou-se. Dormira quase toda a viagem. Peter, agora com quinze anos, a olhava entretido. Era o mesmo olhar que a criança ruiva dava desde seus onze anos. Ele não mudara nada. Talvez ele estivesse mais musculoso por causa do Quadribol e também mais alto e cada dia mais bonito com seus olhos verdes e cabelos cor de fogo, mas para Michelle ele sempre seria o Peter. Chris também crescera. E muito bem, como Michelle sempre dizia. Seus cabelos loiros caiam perto dos olhos e estavam sempre meio bagunçados. Os olhos azuis sempre muito animados continuavam a contagiar qualquer ambiente com felicidade e empolgação. Ele não estava no time de Quadribol, mas costumava praticar corrida enquanto Peter e Michelle estavam nos treinos. Era exatamente do tamanho de Peter e quase dez centímetros mais alto que Michelle. Eles gostavam de andar um de cada lado dela pra realçar a diferença de tamanho. Ela odiava ter que admitir, mas também crescera. E, obviamente, a saia diminuíra.

- Querida, você perdeu toda a graça da viagem, mas precisamos de você para os detalhes finais da Festa de Recepção Anual. – Peter deu um sorriso torto sem mostrar os dentes. Aquele sorriso era a perdição de muitas garotas. – Pode nos ajudar na lista de convidados e na decoração?

- Chame todos os alunos acima do quarto ano. Que tal ser uma festa nas masmorras? Ah, esse foi o tema do ano passado. Tão divertido todas aquelas correntes e coisas assustadoras. No fundo do mar? Caça às bruxas? Quadribol?

- Isso! – Chris exclamou quase levantando do banco ao lado de Michelle de tão empolgado. – Quadribol é sempre um bom tema!Podemos pendurar vassouras e goles no teto e enfeitiçar balaços e pomos para voarem acima da cabeça das pessoas! Vai ser tão legal! Será que alguém me empresta um uniforme completo?

- Eu te empresto o meu reserva, Chris. – Peter riu um pouco e piscou pra Michelle. – Ou a Michelle poderia emprestar o dela. Você ficaria lindo no shorts dela.

- Ficaria uma gracinha. – Michelle deu um tapinha no ombro de Chris. – Você tem mesmo que mostrar mais essas coxas. Todo mundo quer ver! Principalmente aquelas meninas do segun... – Michelle foi interrompida por Chris que começou a fazer cócegas nela e só parou quando os dois estavam rindo abraçados no chão da cabine enquanto Peter fazia cara de quem estava sentindo muita vergonha por eles.

Em um piscar de olhos o Sol sumiu por detrás das colinas e árvores que formavam a paisagem mais próxima a Hogwarts. Sentindo-se cheios depois de ter comido tantos sapos de chocolate (Michelle e Chris colecionavam os cartões que vinham junto), já vestidos com o uniforme e com o Mapa do Maroto escondido nos bolso das vestes de Peter, os três estudantes colocaram suas malas perto da porta da cabine para facilitar quando chegassem à estação de Hogsmead. Durante a meia hora restante eles se divertiram cantando músicas de bandas inglesas de trouxas. Chris dizia que uma lembrava muito Michelle e Peter concordava só pra irritá-la. Não queria parecer uma garota de música de trouxas!

O trem desacelerou devagar até parar completamente. O céu visto pela janela da cabine estava roxo e pintado com muitas estrelas. Michelle, Chris e Peter levantaram-se e colocaram o plano Hogsmead-Hogwarts em ação. Era um plano bem simples até. Tinha funcionado dois anos atrás, no ano anterior e funcionaria esse ano também. Michelle saiu da cabine primeiro. Carregava apenas uma de suas três enormes malas. Marvin vinha pendurado em seu ombro. O gato dormia assim que entrava no trem e acordava assim que saia. Subiu um pouco a saia já curta e abriu os dois primeiros botões de sua camisa. A gravata já estava afrouxada e o cabelo estrategicamente bagunçado. A primeira parte do plano consistia em Michelle distrair o monitor-chefe. O que não era muito difícil já que ele não tinha muito contato com garotas bonitas.

- Marco! Marco! – Michelle correu até alcançá-lo. Marco Smith era um sétimoanista da Lufa-Lufa muito alto e magro. Tinha os cabelos escuros e encaracolados até a orelha e usava óculos de tartaruga. Facilmente encontrado sozinho na biblioteca. Não que Michelle achasse que ele conseguia ler. Era bem estúpido pra alguém que estudava tanto. – Eu tenho um pequeno problema com as minhas malas, sabe? Eu sou meio fraquinha e... Eu não consigo carregar todas. Você não podia me ajudar? – Michelle enrolou a ponta de uma mexa dos cabelos com o dedo indicador e sorriu de lado.

- Você não tem aqueles seus dois amigos pra te ajudar? Eles parecem fortes o suficiente. – Marco era assim. Fazia doce. – Pede pra eles.

- Mas eles já desceram. Eles nunca me esperam, sabe? Eu acho que eles não me dão o valor que eu mereço. – nessa parte Marco assentiu com a cabeça em um movimento involuntário. – Então. Vai me ajudar?

- Claro, onde suas malas estão? – Marco esperou Michelle sair da cabine reservada para os monitores para segui-la. Ela pode ver Chris e Peter do lado de fora do trem. Chris acenava feliz pra ela. Peter segurava duas malas a mais do que deveria.

- Ali naquele va... Ai! – Michelle fingiu tropeçar e cair no chão. Ela adorava dar um show.

- Tudo bem? – Marco virou e abaixou-se para ajudar Michelle. Segurou-a pelos ombros para ela sentar-se.

- Tudo sim. Tornozelos fracos. – Michelle sorriu fraquinho e fez os olhos brilharem pra Marco. Ele se aproximou dela, mas, antes que ele pudesse sequer sonhar em chegar perto o suficiente, Michelle já estava de pé, Marvin em seus braços e a mala sendo arrastada atrás de si. – Obrigada por tudo, Marco. Até mais.

No instante que Michelle pisou fora do trem Chris e Peter estavam ao seu lado. Chris chacoalhava um saquinho de pano em uma das mãos que a garota desconfiou ser o que eles precisavam pra ninguém dar a falta deles. E disso só se consegue com o monitor-chefe. Ou na bagagem dele. Chris abriu o saquinho e jogou três pedrinhas no chão. Diante do olhar entediado de Peter, animado de Chris e desinteressado de Michelle três cópias idênticas deles apareceram como se brotassem do chão. Chris os instruiu para levarem as bagagens para Hogwarts e participarem da Cerimônia de Seleção como se fossem os originais. Assim que os clones saíram da vista dos três, Marco apareceu carregando duas malas e uma gaiola de coruja vazia. O monitor-chefe olhou-os de cima a baixo e fechou a cara. Quando ele estava virando pra ir embora Chris apertou-o num abraço pelos ombros e cumprimentou-o como faria com um amigo de longa data enquanto Michelle colocava o saquinho de pano em uma das malas de Marco. O que apenas os presentes ali sabiam, e que um deles não desconfiava que os outros soubessem, era que Marco Smith era o único que, em toda Hogwarts e Hogsmead, possuía um saquinho cheio de Grão da Cópia (um grão muito raro, colhido apenas na Irlanda a cada seis meses durante a Lua Crescente).

- Vamos, para Hogwarts. Ou vocês preferem perder as carruagens e ir a pé? – Marco sorriu debochado. Ele odiava Chris e Peter.

- Sabe, Marco, andar faz tão bem. Principalmente numa noite linda como essa. Nós não te vimos antes de chegar a Hogwarts, pode seguir seu caminho tranquilo. – Peter falou num tom que podia ter usado para comentar do tempo. Não que ele não tivesse.

Os três sentaram-se em um banco da plataforma e esperaram o trem partir de volta pra Londres. Chris foi, como sempre, o primeiro a levantar-se assim que o último vagão vermelho desapareceu entre as árvores. Ele foi andando na frente, seguido de perto por Michelle e Peter. Assim como poucos sabiam do segredo de Marco, poucos sabiam que as lojas de Hogsmead estariam abertas no primeiro dia de aula. Apressadamente os três seguiram o caminho estreito até a vila e só pararam à porta da Dedosdemel. Peter, o mais habilidoso com transformações, modificou um pouco a aparência deles para que não fossem reconhecidos pelos vendedores.

- Olá. Em que posso ajudá-los? – a velha senhora que cuidava da loja sorriu para eles assim que entraram. – Recebemos hoje mesmo um grande lote de Delicias Gasosas. Três novos sabores!

- Queremos dez caixas de Feijõezinhos de Todos os Sabores, três potes de Delicias Gasosas, cinco caixas de Diabinhos Apimentados e duas garrafas grandes de Whisky de Fogo. – Peter pediu, encostado no balcão. – Susan, Brian, eu vou no Três Vassouras comprar algumas Cerveja Amanteigadas e já volto.

- Nossa, você vão uma festa ou algo assim? – a velha bruxa perguntou a uma Michelle de cabelos amarelos que caiam até depois do quadril.

- Nós gostamos de comemorar o começo das aulas. Algo bem pessoal. Só nós três. – ela piscou para a vendedora que fez uma cara de assustada e entrou na dispensa para pegar as caixas que eles carregariam de volta para a escola. Por sorte ela era pouco intrometida e não quis saber muitos detalhes sobre o Whisky de Fogo.

Naquele momento Peter voltou a entrar na loja com quatro ou cinco caixas cheias de garrafinhas de Cerveja Amanteigada flutuando atrás deles. A velha bruxa voltou com o pedido deles e Peter pagou. Vinha de família rica e sempre bancava a festa. Claro que eles lucravam cobrando entrada, mas alguém precisava pagar a comida e bebidas. Era a vez de Chris criar uma distração.

- Então, até logo. – Peter sorriu pra mulher aquele sorriso encantador e virou-se, carregando magicamente todas as compras atrás de si, para sair da loja. Michelle foi logo atrás, ainda carregando Marvin no ombro e Chris ia logo atrás quando esbarrou numa enorme pilha de Mentas Coladas que foi pro chão quando Michelle e Peter já estavam do lado de fora da loja.

- Ah, me desculpe! Eu, eu vou arrumar tudo! – Chris abaixou-se para começar a pegar tudo e a senhora correu até ele.

- Não, querido. Pode deixar que eu cuido disso. Vá logo, seus amigos não devem ter percebido que você ficou para trás! – a bruxa abaixou-se ao lado dele e procurou sua varinha para re-empilhar as pequenas caixas de chiclete. Enquanto ela estava distraída, Michelle e Peter voltaram silenciosamente e desceram para o porão da loja. Chris ainda estava do lado dela. – Anda, querido. Eu cuido disso aqui. É perigoso andar por aí a noite, mesmo tendo uma varinha! – Ela e Chris se levantaram e, com um movimento da varinha dela, a pilha já estava organizada.

- Tudo bem, eles não devem estar tão longe mesmo. – Chris saiu da loja e esperou que a bruxa fosse para o andar de cima para poder entrar novamente e encontrar Michelle e Peter no porão.

- Vamos logo! Ainda temos uma decoração pra fazer! – Michelle exclamou enquanto abria o alçapão que dava em um túnel que os levaria direto à Hogwarts. Obrigada, Mapa do Maroto!

Os três pularam pra dentro do buraco, ignorando as escadas. Correram até o final do longo túnel fazendo o percurso em quase metade do tempo que levariam andando. Subiram as escadas que levariam até a estátua da Bruxa Corcunda no corredor do terceiro andar dentro do castelo e pararam no degrau mais alto enquanto Peter confirmava que não havia ninguém por perto. Chris, que estava mais perto da saída, murmurou "Dissendium" e uma passagem se abriu. Um a um eles pularam pra dentro do castelo com as caixas ainda flutuando atrás deles. Subiram todos os andares até a Torre de Astronomia. Já que o tema era Quadribol a festa tinha que ser ao ar livre, ainda mais com um céu tão bonito e a Lua sorrindo pra eles.

- Então... Vassouras, balaços, goles, e pomos? – Chris agitou a varinha quando eles chegaram e tudo o que ocupava a Torre de Astronomia se escondeu dentro do armário embutido na parede próxima à porta de entrada. Com mais um aceno de varinha artigos de Quadribol voavam acima da cabeça deles dentro da parte fechada da Torre. – Algumas fadas de luz aqui fora, concordam? – Chris saiu pelo grande portal e conjurou pequenas fadas coloridas que voaram para perto da parede e da beirada da grande sacada. Ninguém era melhor do que Christopher Miles em conjurar coisas. Principalmente se fossem coisas para decorar uma festa.

- Vamos precisar de uma mesa grande aqui dentro, Chris. – Michelle falou e uma mesa apareceu acima da cabeça dela que desceu graciosamente até o chão. – Quase. Era mais pra direita. – a garota puxou a própria varinha e organizou a mesa e as coisas que haviam comprado em Hogsmead. Colocou tudo em um canto enquanto Peter a olhava daquele jeito só dele. – O que foi?

- Você pode, por favor, abafar o som da sala? Não queremos acordar o castelo inteiro, queremos? – Peter encostou-se à parede. Michelle fez um gesto amplo com a varinha e uma fumaça azul fundiu-se à parede.

- Não vai fazer nada? – Michelle ergue uma sobrancelha para o ruivo que ainda a olhava divertido.

Peter desencostou da parede e andou até a mesa de comida. Colocou um Diabinho de Pimenta na boca e tirou a varinha de dentro das vestes. – Observe e aprenda, querida Golightly. – O garoto então agitou a varinha rapidamente e uma música dançante podia ser ouvida por toda a parte fechada da Torre e uma música ambiente enchia a sacada que Chris terminava de enfeitar com alguns pomos que mudavam de cor. – Acho que vamos precisar de panfletos, certo? – e uma pilha de panfletos rosa choque apareceu do lado de Michelle. Ela pegou um e viu uma grande Lua sorrindo pra ela. Então informações de onde seria a festa apareceram. – Você só consegue ler porque já terminou o terceiro ano.

- Genial, P.! – Michelle agitou a varinha algumas vezes e murmurou umas palavras. Os panfletos saíram um por um pela porta da Torre e se espalharam pelos locais certos do castelo. – Agora... Eu preciso trocar de roupa. Volto logo. – ela piscou para Peter e saiu pela mesma porta que o último panfleto rosa saíra.


Nota da Autora: É, eu estou postando o segundo capítulo sem saber o que vocês acharam do primeiro. Ah, já vou avisar que a linha de tempo está bem bagunçada quanto aos livros, mas foi algo necessário. Espero que vocês estejam gostando! Até o próximo capítulo :D

xxoo

G.