Sango olhou estupefata. Não esperava que os Hopi se unissem com aquele nojento branco, homem vil que não sabia diferenciar o sadismo da vida.
"O senhor?!..." olhou para o Chefe, arregalando os olhos "O senhor pretende mesmo se aliar a ele?! O que vai ganhar com isso? O que ELE vai ganhar com isso?!!"
O Chefe olhou-a, sorridente. Mas nada de feliz havia naquele sorriso. Sango finalmente percebeu o quanto aquele homem havia se tornado ganacioso. Ele se levantou e passou a caminhar calmamente ao redor da cadeira da mulher.
"Naraku vai nos dar os espólios de guerra, as terras dos Apaches. Ele vai ganhar metade do que produzirmos... Escarlate... e você." E sem dar tempo para Sango pensar no que havia escutado, o Chefe segurou-lhe os braços, imobilizando-a.
Sango tentou lutar. Estava presa na cadeira. Mexeu-se, mas parecia que o homem era feito de pedra. O aperto nos braços estava ficando dolorido. Irritada, ela tentou vê-lo, mas como ele estava atrás dela, nada viu. Lentamente Naraku entrou em seu campo de visão. O sorriso nojento dele, seu olhar provocativo... Ela sentiu um arrepio ao retribuir-lhe a olhadela.
"O que você quer comigo?!" ela rosnou, tentando se soltar, em vão.
"Minha querida..." ele sorriu, diabólico "Além de você ser amiga e 'irmã' de Escarlate, você daria uma ótima dançarina e mulher de cabaré." Ele ampliou o sorriso e aproximou-se lentamente. Esticou o braço e acariciou a bochecha dela com as pontas dos dedos gelados.
"Chefe Tom!!!... Vai mesmo deixar que ele faça isso comigo?!" Sango estava começando a ficar assustada. Sabia o que era um cabaré... E a idéia a fez estremecer.
"Não tenho nada com isso." a voz do homem estava seca, fria. Sentiu-o amarrar-lhe os pulsos atrás das costas. O nó foi tão apertado que sentiu as mãos formigarem.
"Você nunca teve uma filha?..." ela começou a gritar. Naraku rosnou e lhe esbofeteou, calando-a.
"Não. E não terei." Chefe Tom a fez ficar de pé. O aperto no braço que lhe segurava e o tapa que acabara de levar de Naraku a deixaram sem reação. Sem se dar conta, seus pés foram amarrados e sua faca tirada de sua cintura. Naraku sussurrou algo, terminando a conversa com o Chefe. Bruto, pegou Sango pela cintura e a jogou sobre o ombro. Sango gritou, mas foi esbofeteada novamente.
"Vai se arrepender, Chefe Tom..." Sango sussurrou, sentindo os lábios molharem com o sangue que brotou com a violência.
"Assim que o cabaré abrir, vou lá te ver, Sango." o sorriso nojento dele revirou o estômago da moça.
Ela precisava se salvar, salvar a tribo. Saíram da tenda do chefe e caminharam para um cavalo negro. Sango viu o Macha meio distante, as orelhas mostrando atenção, olhando para ela.
"Mancha!!! Ache Escarlate!!! Avise-a!!!!" gritou, usando toda a sua força.
O cavalo relinchou e correu, deserto afora. Sango levou mais uma esbofeteada e gemeu de dor.
"Sua mulher estúpida!" Naraku rosnou, jogando-a sobre o cavalo. Subiu e saiu cavalgando. Logo logo teria a outra para si...
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Mancha galopou pelo aridez e sol quente. Sabia aonde ir e sabia que iria achá-la. Entendia o perigo de Sango, conseguiu sentir o cheiro e os gritos foram exatos para ele. Ele estava agitado e a pressa o fez chegar horas antes no lugar que desejava.
Trotou ao redor da casa e entrou no estábulo. Reconheceu Nuvem e relinchou, chamando-o. O cavalo acordou e olhou para Mancha. Naquela olhadela compreendeu tudo. Levantou-se e trotou junto do amigo cavalo até a porta. Nuvem colocou a cabeça dentro da janela e relinchou para acordar espreguiçou-se e se sentou na cama. Olhou seu cavalo, que relinchava com a cabeça dentro da sala-quarto.
"O que houve, Nuvem?..." bocejou e tentou arrumar o cabelo meio bagunçado.
Viu-o balançar a cabeça e relinchar mais uma vez. Suas patas bateram na terra, impacientes. Escarlate ficou de pé e caminhou, porta afora. Viu Mancha ali e se alarmou. Sango nunca deixava ele solto assim... Só poderia significar encrenca.
"O que será que Sango aprontou?" resmungou e montou no Nuvem "Vamos para os Apaches, amigo..."
E o fez correr, seguido pelo cavalo de Sango. Ela começou a ter um pressentimento ruim e não se sentiu nada confortável...
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Inuyasha estava conversando com Miroku e Kouga na porta do Saloon quando os três viram Escarlate correr pelo deserto. Ela parecia um ponto de sangue levantando poeira e correndo por algo além da vida.
"O que será que ela vai fazer?..." Inuyasha perguntou baixo, mais para si do que para que eles ouvissem.
"No mínimo, roubar mais alguém..." ...e como eu queria que ela me roubasse e me levasse com ela... Kouga completou pensando, esperançoso.
Miroku sorriu triste para o ponto vermelho. Mas reparou que ela era seguida por um cavalo... E era o cavalo de Sango! Ele o vira tantas e tantas vezes, ao longe. Realmente desejou saber o que estava acontecendo... Apertou as têmporas, desconsolado. Escarlate iria avisá-lo mais tarde, sabia que iria...
Os três homens ficaram ali, assistindo ela desaparecer ao longe. Sabiam que mais a oeste, para onde ela ia, estava a tribo dos Apaches. Mesmo querendo, não ousaram seguí-la. Morte na certa...
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Escarlate cavalgou, sentindo o desespero começar a renascer nela. Conhecia aquele sentimento e o repudiava. Não iria ficar impotente mais uma vez na vida. Já bastava seu passado. Seu futuro seria diferente...
Reconheceu as pedras e a vegetação. Estava perto da tribo. E finalmente viu o aglomerado de pessoas. Todos atarefados, cuidando de animais, plantando, afiando armas, fazendo roupas com o couro... Uma vida fácil e pacata. Ela não entendeu, pensou que estavam em guerra... Mancha não iria até ela assim.
Cavalgou até perto da tenda do chefe e pulou de Nuvem. Entrou na tenda, interrompendo uma reunião dos clãs.
"Lobo!!!" Escarlate chamou, séria e aflita. Ela se deu ao direito de lhe mostrar seu desespero. Era seu pai adotivo...
"Querida! O que houve?! Sabe que não pode entrar assim..." ele tentou brigar, mas foi interrompido.
"Sango! Cadê Sango?!!"
"Ela foi conversar com o Chefe Tom, dos Hopi..." Lobo franziu as sobrancelhas.
"Mancha voltou sem ela. O cavalo está desesperado!" apontou para fora da tenda, olhando o Chefe e pai se levantar da roda, desnorteado.
"...Pelos deuses! Isso não é nada bom!" olhou para os chefes de clã da sua tribo "Preparem-se. Vem guerra pela frente." e saiu da tenda, puxando Escarlate pelo pulso. Caminharam até saírem da tribo.
"Lobo?..." Escarlate o olhou. Nunca havia visto o homem tão transtornado, tão...abatido.
"Eu disse a ela para ir. Eu disse para ser uma líder decente e resolver isso. Por favor, minha querida... Encontre-a, salve minha filha. Só quero que ela seja feliz... Se ela quer viver com você no meio dos brancos, eu permito. Mas salve-a..." ele sussurrou, as lágrimas marejando os olhos escuros.
"E a guerra?..." ela o olhou séria, aguentando ver os olhos doloridos.
"Amanhã, ao nascer do sol. Ache-a antes disso, por favor... Se ela morrer...." ele não conseguiu terminar a frase.
Escarlate suspirou. Por que tudo tinha que ser tão difícil? Abraçou o Chefe e pai e voltou a montar no seu cavalo. Deixou Mancha com ele e partiu, direto para a cidade. Precisaria avisar os habitantes... E arranjar ajuda.
Fechou os olhos enquanto cavalgava. Relembrou-se de um passado distante, escuro e cruel...
A menininha caminhava alegre através dos campos verdes. Estava voltando para casa, depois de ter ido até o lago para brincar. Morava em uma campina, na casa mais afastada da vila. Ela tinha apenas os pais, dois agricultores felizes. Viver com eles era sorrir a cada dia.
Caminhou pela relva até chegar pelos fundos, em casa. Ouviu uma garrafa quebrar e gritos. Assustada, abaixou-se e espiou pela janela. Viu seu pai encostado na parede, sentado no chão. Ele estava de olhos fechados e o rosto cheio de sangue. No meio da testa, um furo feito por uma bala.
Sua mãe... Foi torturada e logo morreu com um tiro no meio da testa, como o pai. A menina assistiu aquilo, chocada. Viu os agressores irem embora, impunes.
Entrou no quarto. Pegou suas coisas, fez uma trouxa e saiu andando pela campina. Seu rosto estava submerso em lágrimas. A menina então, percorreu cidades, dizendo que estava com a mãe e que ia só comer e dormir enquanto ela voltava. Aprendeu a usar armas, aprendeu a se defender. Passou a ter ódio dos homens e ainda mais rancor dos bandidos. Tornou-se uma para descobrir tudo sobre eles... Até que chegou aos Apaches.
Foi até o Chefe e se apresentou como Escarlate. Havia esquecido seu nome assim que saíra daquela casa na campina. Tudo o que vira ali fora sangue escarlate. E tomara aquilo como nome. O Chefe sorriu triste e a tornou um membro de sua tribo, terminando a tarefa de criá-la. Ali, estava com 15 anos. Aprendeu a lutar decentemente, cuidar de cavalos e falar sua língua. Finalmente, estava mais feliz...
Escarlate reabriu os olhos. Seu passado apagara os rostos dos homens. A vingança não a impulsionava, mas sim a justiça. Ela não queria que mais ninguém passasse pelo que ela viu. E lutaria por isso...
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O primeiro a vê-la foi Inuyasha. Ele se levantou da cadeira na frente do Saloon e a esperou. Parando ao lado dele, Escarlate desceu do Nuvem Negra e olhou para os homens.
"Não tenho muito tempo. Vai haver uma guerra entre Apaches e os Hopi. E a cidade está no meio dessa guerra..." ela falou, séria, calando a boca de Kouga. Ele pensara em dar uma ordem de prisão a ela, mas resolveu que não era o momento. "...E Sango foi raptada." Escarlate olhou Miroku.
Miroku arregalou os olhos. Levantou-se e segurou Escarlate pelos ombros para olhá-la nos olhos. Fitou toda aquela escuridão fria e soube que ela falava a verdade. Sentiu-a colocar a mão em sua bochecha.
"Vou resgatá-la." ela disse. Sua voz estava decidida e séria. Sem um único tom de sorriso ou alegria. Inuyasha sentiu ciúmes pelo contato entre eles, Kouga então...
"Vou com você." Miroku escolheu, decidido. Escarlate suspirou.
"Não vou te impedir. Mas não vou te salvar se for preciso. Você está por conta própria." ela sussurrou. Mas o silêncio era tanto que podiam escutar o portão da mansão abrir.
Escarlate franziu o cenho e olhou para a mansão. Ao longe, viu o cavalo negro entrar. E, montado nele, estava Naraku.... e a boca, esquecendo-se de que estava ao lado de três homens. Miroku percebeu o olhar atônito e se virou para ver. Um longo rosnado saiu de sua boca, seus olhos só mostraram ódio. Soltou Escarlate e começou a andar furioso até a mansão.
"Calma...." Escarlate lhe segurou o pulso "Vamos morrer se chegarmos perto..."
"Eu estou pouco me importando! A Sango!!!" Miroku urrou, se soltando da mão feminina.
"Eu sei! Acalme-se, homem! Tenho um plano!" Escarlate sussurrou.
Sabia o que aquilo significava. Sango fora até os Hopi, mas quem a pegou foi Naraku. Só podia haver uma aliança entre a tribo e aquele sádico.
"Naraku se uniu à tribo Hopi... Vão lutar com armas de fogo. Os Apaches não vão sobreviver." Escarlate puxou Miroku, para olhar em seus olhos.
Inuyasha estava tentando acompanhar a conversa. Então aquele Miroku era apaixonado por uma índia? Segurou o riso. Só num fim de mundo feito aquele poderia existir tanta bagunça amorosa... E claro, ele não estava longe disso. Uma bandida sem nome conhecido, sedutora e de calças. Como a vida é engraçada.... Sorriu, olhando as feições de Escarlate.
Ela estava preocupada. Parecia... Pedir proteção, carinho. Ele não soube se isso era apenas sua vontade ou se realmente ela estava passando esse sentimento. Tentou ignorar as batidas rápidas do coração e prestar atenção no que ela falava.
"...Naraku tem uma mansão bem protegida..." ela dizia, tentando explicar a Miroku.
Ahn?! Naraku?...
"Perdão, mas você disse Naraku?!" Inuyasha arregalou os olhos, interrompendo a conversa.
"Disse..." Escarlate o olhou, impaciente.
Deus... Então foi para cá que ele fugiu com Kikyou. Sentiu o coração acelerar ao lembrar dela e de suas carícias. Mas eu não posso me deixar enganar mais uma vez. Ela não presta, ela jogou tudo o que eu sentia por ela no lixo. E riu de mim...
Voltou a se focar na mulher a sua frente. Ela o encarava, olhando no fundo de seus olhos. Sentiu-se nu, um livro aberto... Mas o arrepio quente que percorreu-lhe o corpo ao encará-la foi muito mais do que ele já sentira na vida. Sem pensar, avançou e abraçou-a, prendendo-a contra seu corpo.
"Homem!" Ela brigou, surpresa.
"Vamos resgatar sua amiga. Sua tribo vai sobreviver... Eu vou te ajudar, eu vou te proteger..." ele sussurrou em seu ouvido, sentindo o doce perfume de sua pele.
Escarlate estremeceu. Parecia que todo seu nojo de homens, todo o seu... medo havia desaparecido com a chegada desse forasteiro. Ele a compreendia, podia ver que ela era uma mulher medrosa por dentro daquela máscara de intocável. Ao olhá-lo, viu toda a dor de uma vida, de um passado do qual ele fugira. Mas viu também um brilho, um sorriso nos olhos. Não entendeu como poderia sentir tanto por alguém que mal conhecia...
Deslizou as mãos até a nuca de Inuyasha e o afastou lentamente, soltando-se dele.
"Obrigada..." deu um meio sorriso e voltou a falar com Miroku, como se nada tivesse acontecido.
Inuyasha suspirou, ainda sentindo sua fragância e a pele macia de seu rosto. O xerife se mexeu, desconfortável, ao seu lado.
"Você... Está com... ela?" ele sussurrou para Inuyasha. O forasteiro pôde ouvir um pouco da dor naquele tom de voz. Sentiu pena do homem.
"Recomendo que procure outra bandida para amar, xerife." Inuyasha respondeu, o sorriso meio triunfante nos lábios. Apesar de se sentir um vitorioso, sabia que estava completamente apaixonado por ela. Um cão dócil e fiel.
Kouga suspirou. Nem tudo daria certo na vida...
"Miroku... Como conheceu a índia?" Inuyasha cortou a conversa sussurrante dos dois.
"Eu... a vi." ele sorriu, apaixonado "Ela estava esperando Escarlate no fim da vila. Sorriu como se tivesse o sol nos lábios. E desde então, só ela me interessa."
"Nunca se declarou para ela?" Inuyasha boquiabriu-se.
"Não. Nunca consegui chegar perto dela. A tribo não permite e ela não pode pisar na vila... Só sei sobre ela porque Escarlate me conta." seu sorriso diminuiu para um sorriso triste.
"Dará tudo certo, Miroku..." Escarlate sorriu, colocando uma das mãos no ombro do amigo. Inuyasha sorriu. Ainda havia muito amor verdadeiro por aí...
"Certo... Então faremos como você disse, Escarlate." Miroku estava sob controle e suspirou.
"Ótimo. A guerra vai acontecer amanhã, ao nascer do sol." ela disse e se virou para o xerife "Avise os habitantes da vila. Não quero ninguém desprotegido, Kouga."
"Nenhuma bandida me dá ordens... Mas todos estarão avisados." ele bufou "E depois disso, você estará presa"
"Tenha esperanças, homem..." ela sorriu e deslizou um dos dedos pelo queixo de Kouga, só para provocá-lo. Deu-lhe as costas e foi andando para a mansão de Naraku.
Kouga viu os três caminharem para aquele lugar. Sabia que não seria fácil para eles... Mas sorriu. Tudo era uma aventura com aquela mulher.
Deu as costas para eles e caminhou para as casas. Aquela seria uma longa noite...
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Olá! Zeus, faz tanto tempo desde o último capítulo. Peço desculpas pela demora excessiva, novamente. Problemas e mais problemas...
Mas aqui está! O penúltimo capítulo! O último está quase pronto, não se preocupem. Queria agradecer a todos que me deixaram reviews, encorajando e pedindo o novo capítulo. Espero que várias perguntas tenham sido respondidas aqui...
Cuidem-se! E até o próximo!!
Lua
