Escarlate se abaixou atrás da mansão. Sabia que teriam que render os seguranças e entrarem sem soar o alarme de invasão, provavelmente gritos ou alguma corneta para avisar quem estivesse na casa. Sango correria um grande risco se eles fizessem qualquer coisa errada.

"Vamos conseguir, Escarlate." Inuyasha sussurrou em seu ouvido. Ela estremeceu, despreparada para tanto contato. O que ele pensava que estava fazendo? De onde tinha tirado tanta intimidade?!

Piscou rapidamente e se concentrou nos pistoleiros de Naraku, que rondavam o lugar. Era mais importante percebê-los do que ficar irritada com aquele cachorro sem dono. Precisaria ignorar aqueles olhos violetas brilhantes, aquela pele cheirosa e macia, aqueles lábios deliciosos que já provara, aquele corpo masculino e quente... Respirou fundo, quase implorando para ficar sozinha.

"Vamos, por favor. Não aguento esperar mais!" Miroku resmungou ao lado deles. Escarlate agradeceu por essa intervenção e se posicionou com mais calma. Assentiu para o amigo e começou a preparar a pistola. Os três estavam armados com rifles, pistolas e facas. No momento, todos carregavam as pistolas, preparadas e cheias de balas. Miroku estava impaciente, Escarlate estava preocupada e Inuyasha, vidrado. Não conseguia desviar o olhar dela...

Escarlate jogou uma pedrinha no meio dos pistoleiros. Eram 4. E completamente burros. Aquela pedra tomou a atenção deles e, como peixes pegos pelo anzol, andaram até os três que estavam de tocaia. Mal conseguiram ver quando foram atacados e, como os 3 previram, não emitiram som para avisar Naraku. As gargantas haviam sido cortadas num piscar de olhos. Apenas sinalizando, concordaram em correr abaixados até uma das janelas que mostrava um aposento iluminado.

Tomando cuidado com o barulho, espiaram. Viram Naraku andando de um lado para o outro e Sango amarrada à cadeira. Ela estava amordaçada e o olhava com ódio. Descontrolado, Miroku se levantou e berrou para Naraku, quebrando a janela. Escarlate e Inuyasha não tiveram tempo de impedí-lo, apenas olharam o homem esbravejar, surpresos.

Tudo aconteceu em poucos segundos. Num instante Miroku estava dentro da sala. No outro, estava imobilizado embaixo do joelho de Naraku, que apontava uma pistola para a testa de Sango.

"Escarlate!! Saia daí ou atiro nela! Apareça!" ouviu-o berrar para a janela. Sem outra escolha, a mulher entrou no aposento e encarou Naraku. Ele sorria, diabólico. Entraram mais capangas atrás dele. Amarraram Miroku e tomaram as armas de Escarlate, amarrando seus pulsos logo depois.

"Há tempos espero por isso..." continuou Naraku, sabendo que estava em vantagem. Ele brincava com a arma ao redor do pescoço de Sango, irritando Miroku. Escarlate estava silenciosa, tentando ouvir se Inuyasha ainda estava ali ou se estava escondido em outro canto. "Não vai nem tentar resistir, bandida?! Você, que já me roubou inúmeras vezes, que já me deixou mais do que irado, que já me prejudicou... Não vai fazer nada?"

"O bandido aqui é você, Naraku. Um homem vil, inescrupuloso e babaca... Precisa mesmo que eu jogue isso na sua cara?" Escarlate sussurrou, encarando-o enquanto falava em um tom de deboche. Sabia que estava brincando com fogo, mas era a única forma de se livrar daquela situação.

"Saiam!" Naraku ordenou para os capangas, que o obedeceram prontamente. Irritado, o homem se aproximou de Escarlate e agarrou seus cabelos. "Como ousa, mulher?! Você usa calças! É velha, não é casada e ainda insulta o homem mais poderoso da região! Sabe o que acho?... Acho que você merece ser punida!" Ele sorriu grotescamente, a arma deslizando pela bochecha da mulher.

"Largue ela, Naraku!" Miroku berrou do outro lado da sala.

"Cale a boca, nojento. Vai presenciar como se manda em uma mulher!" Naraku riu diabólico, olhando esfomeado o corpo de Escarlate.

"Solte-a, Naraku." Inuyasha bateu na cabeça de Naraku com um dos castiçais que estavam na sala. O homem caiu no chão e sua pistola voou para longe.

"...o quê...?" Naraku estava zonzo, tentando reconhecer Inuyasha. "Você?!"

"Sim, eu. Babaca estúpido!" Inuyasha o chutou nos rins. "Como ousou pensar em fazer uma coisa tão perversa com ela?! Seu nojento!!!" E chutou mais uma vez, enquanto o outro rugia de dor. Um golpe mais forte na nuca fez com que Naraku ficasse desacordado.

"Inuyasha!" Escarlate só teve tempo de gritar. Ela viu a mulher se aproximar sorrateira, pegar a pistola de Naraku e a apontar para o cowboy. O tiro o acertou no ombro direito, fazendo-o balançar e gemer. Olhou Naraku caído, meio desacordado e se virou para encarar o agressor.

"Kikyou?..." sua voz saiu sussurrante, sua mão que apontava a pistola para ela tremeu assim como os olhos violetas.

"Olá, querido. Quanto tempo, não?" Ela sorria, cruel. A arma estava apontada para o peito de Inuyasha.

"Vocês... Se conhecem?..." Escarlate, no meio da sala, olhava de um para o outro, estupefata.

"Posso dizer que ele foi um... fã, amante, amigo e cachorro meu. Tempos atrás." Ela sorria de forma cruel, a pistola firmemente apontada para o coração que batia dolorosamente.

"Vadia. Entreguei-lhe meu amor, minha vida, meu futuro... E você riu na minha cara e jogou tudo fora por dinheiro! Por esse miserável!" Inuyasha rugiu, tentando avançar para cima dela.

"Não não, fique no lugar. Não tenho medo de matar." ela encarava os olhos violetas friamente "Você foi um estúpido ao manter tal sentimento por mim. Eu nunca te correspondi. Foi sempre um amor unilateral, meloso, fraco e inútil. Você é um pobre, Inuyasha. E queria ter uma família comigo! Ah, por favor! Cresça!"

Inuyasha nada mais disse. Sentia a dor no ombro pulsar com as batidas do coração que, aliás, doía por si só. Como ele fora tão cego a ponto de se apaixonar por... aquilo?! Ele olhou a mulher a sua frente. Os cabelos lisos, ensebados de tanto creme para deixá-los assim, as roupas que nada escondiam. O vestido curto, decotado, ombros de fora e as pernas à mostra... Como?! Os olhos frios que nada mostravam além da cobiça. Lábios vermelhos nojentos, corpo repugnante. Como, por Deus?!!

Ele olhou para Escarlate. Era impossível não compará-las... Os olhos preocupados, a boca macia e deliciosa, vermelha como o nome. O corpo! Pele suave, gostosa. Cabelos sedosos... Por que não a conhecera antes?! Antes daquela megera de personalidade e aparência tão distinta dessa mulher de calças?

"O que tanto olha para essa bandida irritante?" Kikyou o chamou para a realidade. Ela conseguira ficar ainda mais feia com aquele olhar de repugnância "Ela é sua nova mulher da vida?"

"Então você é realmente uma mulher da vida, Kikyou? Não fico surpresa. Não me parecia nada mais elevado do que isso." Escarlate debochou, soltando um sorrisinho.

"Realmente quer vê-lo morrer, não é mesmo?" a voz saiu metálica, de tão fria "Mas antes vou tirar algo dele que realmente não vai fazer falta. É insignificante." e a pistola foi apontada para as partes íntimas de Inuyasha.

Ele rosnou, gritou. Escarlate aproveitou o momento para correr e chutar o braço da megera. Porém ela conseguiu atirar e acertar Inuyasha, mais uma vez. Desequilibrada, deixou a pistola cair e levou mais pontapés e chutes. Acabou caindo inconsciente, perto de Naraku.

"Inuyasha?! Você está bem?!! Ficou sem o inuyashazinho?" Miroku gritou, tentando se desamarrar.

"Argh... Isso é um apelido?! Mas não, ele tá inteiro. Minha coxa que sofreu danos." Inuyasha gemeu, levando a mão no ferimento que despejava sangue.

"Você está virando uma peneira. Escarlate, me desamarre logo e vamos embora. Ele precisa de cuidados ou vai ficar sem sangue." Sango, que estava calada até agora, chamou.

Assentindo, Escarlate correu até a cadeira. Com muito custo, já que tinha os pulsos amarrados, conseguiu soltar as mãos de Sango. Usando uma das facas que trouxeram, Sango cortou as amarras de ambas e correu para ajudar Miroku.

Ela chegou perto, ficando meio sem-graça. Como iria olhá-lo? O que faria se ele a chamasse? Sango ignorou a timidez e o medo e cortou as amarras que prendiam-no. Não percebeu o olhar de devoção que Miroku lhe lançava, ou o sorriso apaixonado que ele dera. Ambos levantaram, permitindo que os olhares se encontrassem.

"Você está bem? Não te machucaram?" Ele sussurrou preocupado, enquanto procurava por sinal de ferimentos visíveis.

"Estou bem. Precisamos ir... Inuyasha precisa de cuidados já." Sango sussurrou de volta, desviando o olhar daqueles olhos profundos e expressivos.

Sem forçar nada, Miroku assentiu. Virou-se para conversar com os dois e assustou-se. Kikyou estava levantando com uma pistola em punho, pronta para atirar nas costas de Escarlate. Sem pensar, Miroku pegou uma faca e arremessou contra Kikyou. Ela gritou de dor e caiu, arfando.

"O que foi isso?!" Escarlate se virou, assustada. Com Inuyasha apoiado nos seus braços, viu Kikyou atrás de si com uma faca cravada nas costas. Olhou Miroku e compreendeu. "Obrigada"

Ajudou Inuyasha a se levantar. Com ele apoiado em seu ombro, mantiveram-se em pé enquanto Miroku amarrava Naraku.

"Empreste-me a pistola." Inuyasha pediu a Escarlate.

Sem questionar, ela entregou-lhe a pistola que havia pego enquanto o ajudava. Viu os olhos violetas virarem para a direção de Kikyou e não impediu quando ele armou o gatilho. Logo depois do estampido do tiro, a mulher que agonizava aquietou-se.

Inuyasha não sentiu culpa ou remorso. Ela já estava morta há muito tempo e toda aquela agonia precisava ser extinguida. Devolveu a arma para Escarlate e respirou fundo. Aquele doce cheiro que vinha dela estava tão presente... E pensar que ele estava praticamente abraçado a ela e com seu consentimento! Escondeu o sorriso e piorou a cara de dor. Mulheres sempre têm pena...

"Vamos." Escarlate o puxou, bruscamente, em direção à porta.

"Argh! Estou ferido, mulher!" rosnou o homem, mancando.

"Seja homem e pare de reclamar!" ela retrucou, ditando os passos. Mulheres sentem pena... Mas ela não é uma mulher. É o diabo em pessoa... e carne... Inuyasha sorriu com o pensamento.

Miroku e Sango se uniram para arrastar Naraku, logo atrás da dupla. Ambos sentiam a presença um do outro com excessiva percepção, deixando-os tímidos e calados. Ás vezes um lançava olhar sobre o outro, para logo desviarem, envergonhados.

Passaram pelo resto dos capangas. Ninguém reagiu. Não tinham mais patrão, não tinham chefe. Para quê lutar se ele já fora derrotado? Assistiram calados os 4 saírem vitoriosos carregando o homem cruel que haviam adotado como chefe.

Assim que os cinco saíram da mansão, perceberam que o sol já estava nascendo e, ali no meio da cidade, dois homens montados em seus cavalos se olhavam. A diferença entre ambos era tão perceptível que parecia gritar. De um lado, Lobo. Sentado em seu cavalo, parecia imponente. Ambos, animal e homem, eram músculos, força e coragem por inteiro. Já o outro, Chefe Tom, parecia miserável perto da magnitude do Apache. Não foram criados com a luta, com seus espíritos. A guerra seria injusta, seria uma chacina.

"Pai!" Sango gritou, largando Naraku desmaiado com Miroku.

O chefe dos Apaches olhou surpreso para o lado direito e lá viu a filha vir correndo. O turbilhão de emoções em seus olhos foi indescritível. Por fim, sorriu o sorriso que todos os pais dão quando percebem o quanto o filho cresceu e como sentia saudades dele.

"Pai... Estou bem! Derrotamos Naraku! O maldito está ali, desacordado." Sango apontou para trás, sem olhar. O pai lhe lançou um olhar de aprovação e ambos se viraram para falar com o Chefe Tom, dos Hopi.

Perceberam que o homem havia ficado branco. Contava com as armas de fogo de Naraku. Sozinho, não venceria nunca aquela guerra. Admitir a derrota era como cravar uma navalha em seu fígado... Mas sua covardia e medo de morrer eram maiores que a vergonha. Sem falar nada, deu as costas e mandou seus homens voltarem, morro acima. A guerra não iria acontecer.

Lobo de Areia, em todo o seu esplendor, desceu do cavalo e se curvou para os quatro, que já estavam juntos. Ouviram gritos dos guerreiros Apaches, saudando a valentia que tiveram. Sango e Escarlate não disseram nada, mas as lágrimas da nova Chefe eram mais que suficientes para agradecer.

Escarlate sorriu e, do jeito que pôde enquanto segurava Inuyasha, apertou o ombro de Sango enquanto ela recebia a pena de águia. Inuyasha não entendeu muito bem o que estava presenciando, mas parabenizou Sango quando ela se pôs de pé. Miroku olhava, sentindo a dor de um coração partido. Sabia que, quando ela se tornasse líder, não poderia nunca mais ter a chance de pertencer a ele, de se unir e construir uma família com um homem branco.

Como se percebesse a dor dele, virou-se para olhá-lo. Sango não falou nada, apenas o fitou com olhar decidido.

"Pai..." chamou, sem desviar os olhos do homem que amava.

"Eu sei, eu compreendo..." Lobo sussurrou, levantando-se "Vou para a aldeia. Sabe onde me achar... Chefe Sango" aproximou-se de Miroku e apertou-lhe o ante-braço, cumprimentando. Pegou Naraku desmaiado e jogou em cima do cavalo como um saco de arroz. Montou e saiu. Atrás dele foram os guerreiros. Paz, enfim.

"Eu vou cuidar de Inuyasha." informou Escarlate.

"Pode usar minha casa... Deve encontrar tudo o que precisa por lá." Miroku quebrou seu silêncio.

"Certo. E vocês... a minha." Escarlate deu um sorriso divertido e saiu andando com Inuyasha, deixando Sango vermelha como um tomate.

Ao ver que já estavam sozinhos, Miroku olhou para Sango. Não sabia como começar, o que falar, o que fazer... Ela o olhava de volta, na mesma situação.

"Eu..." ela tentou começar mas foi surpreendida pelo homem. Sentiu-se ser envolvida nos braços dele, percebeu uma das mãos em sua nuca e a outra espalmar-se nas costas. O calor, o coração rápido... Fechou os olhos e o abraçou de volta.

"Sei quais são os costumes. Eu me sinto destruído mas, ainda assim, fico contente por você ter conseguido o que desejava. Parabéns, nova Chefe." ouvir aquela voz quente sussurrar-lhe tão próxima, tão deliciosa...

Afastou-se e o olhou. Viu a surpresa e a incompreensão, depois a culpa.

"Perdão, eu fui impulsivo..." abaixou a cabeça, desviando o olhar do dela.

"Miroku." ouvir seu nome ser dito por uma voz tão macia o fez arrepiar e voltar a olhá-la "Não é isso..." e, aproximando-se com calma, ela pegou suas mãos. "Eu quero... Você quer casar comigo?"

Ele a olhou com a cabeça vazia. O choque foi tanto que mal conseguira assimilar o que havia ouvido. O coração parecia cavalgar o vento e dizia que ele ouvira certo. Frio na barriga e o arrepio pela espinha... MAS HEI! Como assim a mulher pediu em casamento?!!!

"Não não não!" Miroku falou, deixando-a com os olhos arregalados. Ajoelhou-se e, fazendo as vezes de homem, tomou suas mãos "Sango, aceita-se casar com este humilde barman?"

Sango gargalhou e o abraçou. O roçar dos lábios, um quase beijo, por pouco não a matou do coração. No bom sentido.

"Acho que vamos precisar apressar logo esse casamento..." Miroku sussurrou contra o pescoço claro e macio. Sango concordou completamente.

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Inuyasha segurava para não reclamar. Sentia-se zonzo e o ombro fisgava juntamente com a perna, a cada passada daquela mulher. Entraram no Saloon vazio e foram para os fundos, a casa de Miroku. Como se já conhecesse o lugar, Escarlate conduziu ambos até a sala. Deixou Inuyasha sentar em um sofá gasto, mas macio. Amenizou uma pequena porção da dor, tomando cuidado para não encostar o ombro.

"Vou deixar você aqui e pegar o que for preciso. Tente ficar o mais confortável possível. Vou precisar tirar as balas..." e sem esperar resposta, saiu a procura do que precisava.

Inuyasha respirou fundo, se concentrando na mesa de centro. Talvez se não pensasse em mais nada, se não lembrasse da dor ou dela... Aliás, ainda sentia seu cheiro. Estava impregnado em sua roupa... Inspirou fundo e se deixou ficar embriagado com o delicioso perfume. Maçã, a doce tentação... E morango, desejo puro. Ela era uma combinação ardente que estava enlouquecendo-o aos poucos.

"Sonhando acordado?" ouviu a voz risonha dela se aproximar "É mais forte do que aparenta. Já vi homens chorarem por tão menos..." comentou, olhando o ferimento da perna. "Bom, vou começar pelo das costas então. Foi o primeiro e corre o risco de infeccionar mais rápido."

Ele viu a mulher se sentar ao seu lado no sofá. Estava zonzo ainda para pensar ou falar qualquer coisa. Aceitou dar-lhe as costas e ficar sem camisa, rasgada e largada no chão.

"Argh, odeio ferimentos provocados por balas..." ouviu-a resmungar.

O que sentiu depois foi uma dor irritante. Mexeu-se e xingou.

"Inuyasha! Se não cooperar, não vou conseguir tirar isso!" ela cutucou uma das vértebras, enquanto esperava o homem aquietar-se.

"Certo, certo..." ele fechou os olhos e abaixou a cabeça, tentando aguentar a dor.

Apesar de doer o suficiente, ela foi rápida. Logo já estava com o buraco costurado e com ataduras tampando o ferimento limpo.

"É só não fazer movimentos bruscos. Tem uma ótima recuperação, homem..." ela lhe sorriu, de pé. "Não parece tão bem... Tome" e entregou um copo com uma bebida verde claro.

Ele bebeu sem perguntar o que era.

"Limonada?! Pensei que fosse algo forte!..." riu, sentindo o gosto do limão e o alívio nas costas.

"Energia. Açúcar, sabe como é. Agora vamos para este..." ela se ajoelhou entre as pernas de Inuyasha e olhou o ferimento na coxa esquerda.

"Sabe... Essa é uma posição maravilhosa." Inuyasha sussurrou, cutucando-a. Porém, tentava controlar o corpo, para não deixar qualquer evidência. Sabia que, no fim, seria inútil tentar o controle...

"Sei que é. É fácil capar homens assim." Escarlate sorriu diabólica, erguendo uma faca e uma pinça. Ele engoliu em seco e passou a assistir calado.

Escarlate cortou a calça um pouco acima do ferimento, arrancando o resto e deixando-o com uma espécie de short curto. Viu-a enfiar a pinça e cutucar, atrás da bala. Era a parte mais dolorosa. Apertou as almofadas e esticou o pescoço para trás. Quem visse a cena, pensaria coisas.

"Tirei!" mostrou a bala, vitoriosa, presa no meio da pinça. Desinfectou o local e deu os pontos. Por fim, enfaixou com cuidado. Foi a parte mais difícil para ele... Sentir as mãos macias tão perto de um lugar muito sensível! Segurou-se e se segurou, mas acabou não conseguindo esconder seu desejo. Não soube se ela não viu algo tão evidente ou se optou por fingir cegueira, mas ela se levantou e guardou os objetos numa caixa que deixara na mesa.

"Prontinho, senhor." e respirando aliviada, se largou no sofá ao lado dele.

"Obrigado, Escarlate..." sussurrou, olhando a perna tão bem enfaixada.

"Está tão calado. O que houve? Foi aquela Kikyou?" ela o olhou, escondendo a preocupação e deixando que ele visse apenas a curiosidade em sua voz.

"É complicado. Eu percebi o quão cego fui... Como pude deixar me enganar com uma mulher como aquela?" a dor em sua voz era visível. Ele não conseguia olhar para ela, fitava apenas seu trabalho com o ferimento.

"Inuyasha, tinha família?" a pergunta o pegou de surpresa. Olhou para ela, sem compreender a linha de raciocínio.

"Meus pais morreram. Meu pai morreu na guerra e mamãe de tristeza. Eu tenho um irmão. Ele se casou com uma estrangeira chamada Rin e foi viajar o mundo em seu navio. Mercador. Nunca se importou muito comigo. Mas qual o porquê disso?" franziu o cenho.

"Solidão. Na solidão procuramos conforto em quem pode nos oferecer. Você só estava se sentindo só, Inuyasha. Não é cegueira, burrice ou qualquer outra coisa. É compreensível, aceitável e perdoável. Não se preocupe mais com isso. Passou, ela já está morta e você... muito VIVO" a última palavra saiu com um toque malandro, como se ela soubesse do que acontecia com os hormônios dele quando ela estava perto.

Ele sorriu com a indireta dela, mas ainda mais com suas palavras. Nunca tinha visto as coisas por esse lado... Voltou a olhá-la nos olhos e encontrou conforto e segurança. Sabia que podia confiar nela. E, naquele momento, sentiu o choque. Era ela. A mulher da sua vida, seu futuro, seu coração.

Sem pensar duas vezes, jogou-se sobre ela e a beijou. Não se importou com os ferimentos ou com a surpresa dela. Precisava sentir os lábios mais uma vez, o corpo quente e a respiração descompassada. Foi retribuído rapidamente, sentindo as mãos femininas nas costas nuas, arranhando-lhe levemente. Passou os beijos para o pescoço dela, arrepiado.

"Você vai se casar comigo, dona bandida de vermelho" sussurrou, dominado por todo aquele turbilhão de emoções. Sentiu-a puxar os cabelos da nuca para olhá-lo nos olhos.

"Eu não sou muito fã de casamento... Mas eu topo manter esse contrato com você, parceiro" sorriu, deliciada.

Sem esperar mais nada, Inuyasha a pegou no colo e se levantou. Ignorou o latejar dos ferimentos e andou em direção a um quarto, que vira por uma porta entreaberta na sala.

"Homem! Vai piorar os ferimentos!" Escarlate esbravejou, segurando-se no pescoço dele para não cair.

"Ah, dessa noite não passa!" ele sussurrou, louco. Colocou-a na cama e deslizou para cima dela.

"Dia. Estamos no meio da manhã, bobo." ela ergueu as sobrancelhas, ignorando o olhar de desejo dele.

"E? Pouco me importo. Você não sai daqui hoje, mulher..." abriu um sorriso sexy, afundando o rosto no pescoço delicado. Sentiu a pele arrepiar sob seus lábios, enquanto inspirava aquele perfume que a pele exalava.

Escarlate não conseguiu evitar o arrepio prolongado ou o enlaçar de seus braços. O queria e o desejava... Respirou fundo quando sentiu as mãos masculinas tocar a pele sob a blusa, explorando. Viu-o desabotoá-la e sentiu-se corar com o olhar de devoção e desejo que ele lhe lançava. Retribuiu o beijo ardente enquanto perdia as calças e sentia as carícias ficarem mais íntimas. Iria enlouquecer feito ele. Ela sabia que ele seria seu único homem, sua vida...

Foi com ardor e paixão que ambos se uniram, esquecendo completamente do resto do mundo...

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Kouga sentia-se derrotado. Tinha visto o decorrer da história através da janela da delegacia. Haviam pego Naraku, não haveria guerra... Mas o que mais o deixava irado... Ele sabia que havia perdido Escarlate para aquele cachorro. Estava nos olhos dela.

Andou, dando voltas pela sala. Sentia-se traído, acabado, desiludido...

"Xerife?" ouviu uma voz feminina chamar, puxando-o de seus devaneios.

Abriu a porta da delegacia e se deparou com uma linda ruiva de olhos verdes. Trajava um belo vestido comportado e tinha um sorriso encantador nos lábios.

"Sou Ayume... Vim para morar nesta cidade, poderia me ajudar?"

E ele sorriu, vitorioso...

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...Essa foi a história de Escarlate. Não sei o que houve com Sango, Miroku, Inuyasha, Naraku ou Kouga. Todos se perderam no tempo, viraram lendas e suposições das pessoas.

"Mas vovó Kaede, Escarlate não tinha mesmo um nome? Não sabe mesmo o que houve com ela?"

Não, querida. Escarlate não tinha mais um nome e seu futuro tornou-se fato desconhecido. Só se sabe que era ao lado dele. Inuyasha.

A senhora, que havia passado as últimas horas contando a história em uma mesa de bar para a netinha, sorriu e suspirou. Lendas...

Naquele mesmo instante um grupo se levantou de uma mesa e saiu bar afora. A última a sair, uma mulher de vermelho, lançou um sorriso para a menininha e se foi, tão silenciosa como chegara...



E aqui está! Finalmente, depois de quase um ano inteiro... Saloon está completa! Tanto tempo...

Queria agradecer a compreensão de vocês, todo o apoio e carinho. Espero que tenha sido uma leitura agradável.

Devo terminar logo a outra fanfic, Entre Ladrões.

Obrigada pela paciência!!
Até a próxima!


Lua