Depois de alguns anos fora daquele clima que vi da ultima vez, eu retorno ao bairro afastado daquela metrópole japonesa, dominada por gangues, apostadores de lutas de rua em que rolam muitas notas verdes e cabeças.
Retornei antes que tudo aquilo acontecesse. Antes daquela batalha estranha e sangrenta entre os competidores. Eu Tinha vários motivos para me encontrar ali novamente. Alguns deles era conhecer e me apresentar de verdade para os lutadores que eu havia visto na ultima visita.
Parei em um pequeno local para comer algo, pois estava faminta. Olhei um daqueles típicos carrinhos de rua onde se vendem comidas japonesas.
Sentei-me ao lado de um rapaz que não só me chamou a atenção pelo porte físico (pois era muito alto) como também pela aura negativa que possuía. Ele trajava uma calça extremamente alva e apenas uma jaqueta com tiras negras que deixavam aparecer seu tórax.
Olhei curiosa, devia ser mais um lutador profissional. Será que ali todo mundo vivia das brigas constantes que existiam? Afinal... não é qualquer um que conseguia manter o corpo que eu estava olhando naquele instante.
Levantei as sobrancelhas de forma irreverente reparando na forma gulosa em que ele comia um yakissoba. Pedi o mesmo prato, falando timidamente em japonês com o atendente.
Senti que o homem ao meu lado me olha vagamente. Sorrio, a fim de fazer amizade enquanto recebo meu prato cheio de verduras e macarrão.
- Parece bom, né? - Pego um par de hashi e pincelo a comida fumegante.
Alguns instantes depois eu ouço a resposta:
- Você não é daqui... – ele se volta para mim com sorriso de canto de lábio
- Pareço tão forasteira assim?? - solto os palitos e puxo os olhos fazendo cara de japonesa.
Ele come um pouco antes de responder.
- Por fora...não... você não parece tão estrangeira assim... de onde é? – me olha ainda com ar superior.
- Bom observador... – sorri - Só num sei te responder de onde sou realmente... pois ando demais por ai. - suspiro com ar de saudade.
Provo a comida de forma rápida, queimando a língua e fazendo uma careta. O dono do carrinho deve ter interpretado como um gesto de que desaprovei o sabor da comida.
Olho para o homem sentado ao meu lado com cara de catástrofe, enquanto ele me entrega um guardanapo cuidadosamente.
- Cuidado, menina...está quente...
Fico pensando no motivo de ter sentido um ar de maldade naquela pessoa que me foi tão gentil nesse instante. Maldita analise pessoal que eu sempre faço de todos!
Sempre torço para estar errada em minhas sensações.
- Obrigada... – limpei a boca - Seu nome é??
- Meu nome é Yashiro e o seu?
- Nisa Benthon... uma andarilha de tempo e mundos... – começo a rir desviando o olhar dele. As coisas que me passam na mente acabam sendo mais fortes. - Posso ser indiscreta, Yashiro? - pronuncio o nome com silaba tônica errada.
- Não sei se você conseguiria ser indiscreta... – faz um gesto de desdém - mas vá em frente... – e volta a comer.
Pensei em mil possibilidades de ser indiscreta com ele... Poderia perguntar sobre suas roupas, por que seu cabelo era daquela forma desgrenhada. Me segurando apenas disse:
- Você fala isso porque você não me conhece... – me referia a questão de ser indiscreta.
Neste momento forcei um pouco a minha memória na tentativa de lembrar de seu rosto em meio a confusão da outra vez em que visitei o local, na luta contra o Orochi.
– Você é algum tipo de lutador? – perguntei afinal.
Percebi naquele instante, que não havia ocorrido aquela luta ainda. Eu não tinha que me preocupar com isto.
- Boa pergunta...bom, sim e não! - pisquei curiosa ao ouvir - Na verdade, entrei com meus amigos num torneio recentemente... Mas meu negócio é a música. Tenho uma banda de rock chamada New Faces...talvez já tenha ouvido falar...
Sorri com as palavras e a forma com que ele falava comigo. Parecia ironia eu ouvir falar de bandas e musicas ali. Comecei a pensar...
Se eu conhecia o mundo da musica?? Mas é claro!! Mais de mil anos de viagens no tempo acompanhando fielmente o andamento da musica na Terra e alguém me pergunta isso...
Agora sim vejo uma oportunidade de retirar algumas informações da mente de Yashiro, para ter mais conversa com ele.
- Sim, já ouvir falar... – e começo a dar referencias e musicas que eles tocavam em determinados locais. Vi a cara de assustado que ele fazia enquanto eu falava e resolvi esclarecer que trabalho com produtores malucos que vivem me falando coisas.
- Então...gosto mais de estar num palco para tocar do que para lutar. Esse torneio que estou participando parece bom pra se mostrar a música que tocamos também ...e eu e meus amigos pretendemos dar um... – hesita por segundos me olhando com os olhos brilhando - show no final do campeonato...pra homenagear os vencedores...- e faz um gesto de vitória e sorri confiante.
A alegria com que falava me deixava contagiada.
- wow!! Que empolgação!! Isso é maravilhoso!!
- E não é? – me presenteia com sorriso gentil e mais uma "palitada" final em sua tigela de comida.
- A maioria das pessoas entram em torneios para se auto afirmarem sobre sua força ou beleza... no seu caso, vejo uma legitima vontade de vencer, mas não na luta, e sim em seu talento. Parabéns ...
Provo mais um pouco de minha refeição, dessa vez me virando de frente para conversarmos mais e melhor.
Perguntei sobre qual torneio ele participara. Em meio às descrições que ele fez um flash de memória passa em minha mente. Dei um salto da cadeira, derrubando o liquido quente da comida encima de todos.
Vejo o que Chris pensou no momento em que toquei seu semblante no meio da luta entre Orochi, Iori e Kyo.
O homem com quem eu estava conversando conhecia o garoto.
Quando toquei o rosto do Orochi eu vi cenas horrendas. Mas, que na verdade, ainda não haviam ocorrido naquele momento.
- Ei, cuidado...! - Yashiro se assusta e pega firmemente no meu braço, olhando de forma estranha - você está bem?
Envergonhada e assustada com o que veio a minha mente de forma espontânea, olho para ele completamente perdida. O que vejo ali é mais uma pessoa com ideais puros, que serão afetados por algo que eu não sabia explicar naquele momento.
- Desculpe... - olho para as outras pessoas ao redor. - Vejo que ele havia deixado meu braço vermelho. - Num te falei que eu sei deixar as coisas vergonhosas?? - mostrei o estrago que havia feito no local. Aquilo me deu uma imensa vontade de fazer tudo voltar ao normal por telecinese, mas havia gente demais para presenciar.
- ah, não foi nada isso...você está bem mesmo? Pensei que fosse desmaiar... – Yashiro me parecia muito atencioso.
- Digamos que sou sensível a certas coisas... que acontecerão daqui um certo tempo. – movimento meu indicador e aponto para a testa dele.
- Acho que não estou entendendo... – faz uma cara de preocupado.
Senti a necessidade de mostrar o que eu queria dizer para ele. Ou me passaria como louca ali, daquele jeito.
Sabia que ele, como lutador, tinha certos tipos de poderes que pessoas comuns não tinham, então sua tolerância para coisas inesperadas era alta.
Fechei os olhos de leve e arrumei toda a bagunça, congelando as demais pessoas por milésimos de segundos, deixando ele acordado, consciente de tudo que eu fazia. Ao terminar me viro para ele, que olhava tudo curioso e soltava uma exclamação.
- Entende? – abro um sorriso amarelo. – eu sou "diferente".
- Você deveria estar no torneio também ... – e volta o olhar para tudo em seu devido lugar e limpo. Gagueja ao falar comigo - na verdade... você tinha que estar lá com certeza...
- Explicar é mais complicado que mostrar, às vezes...- considerando o que ele havia acabado de me falar eu respondo em seguida - Não tenho jeito para afetar as pessoas negativamente... afinal, num é isso que se faz numa luta? Bater ou apanhar?
- Nem sempre, nem sempre...- responde com a testa franzida - Muitas vezes se pode consertar o que não ficou bem feito...não tem jeito de se fazer isso...sem lutar...
Desisto de comer e devolvo o prato quase vazio devido ao acidente.
- Prefiro lutar desse jeito... na surdina, e sem holofotes ou dinheiro envolvido. –toco em seu ombro de leve e alguns segundos depois continuo- Se bem que eu fazia apresentações de dança usando todos meus poderes, mas todos acham que são efeitos especiais.
Ele olha ao relógio e se volta para mim com ar serio.
- Olha...tenho que ir agora... - tira um cartão do bolso da jaqueta - Mas gostaria que você participasse do show que vamos fazer na final! Vai ser bom ter alguém com talentos tão especiais lá!!! – fala entusiasmado
- Vai ser ótimo! - Estendo a mão para pegar o cartão.
- Eu ia perguntar mesmo se vocês iriam se apresentar em algum lugar! Estava curiosa para ver você tocar! Você me parece muito alegre! Qual instrumento toca?
Ele responde saindo quase correndo.
- Toco baixo...e também sou vocalista...
Já me imaginei ensaiando com eles. seria legal!
