Numa tarde de outono, após 2 dias do encontro com Yashiro, eu estava andando pelas ruas cheias de folhas amarelas e marrons da cidade e imaginei que poderia fazer uma visita no endereço que ele havia me deixado.

Passei em uma loja rent-a-car e aluguei uma moto por uma semana. O atente da loja observava curioso quando me viu olhando as tabelas de preços de locação de motos, e logo veio com o catálogo de carros pequenos e delicados. Eu trajava uma calça leg vermelha, coturno médio muito lustrado que ia até o meio da canela , uma jaqueta de couro longa preta e uma blusa de lã preta com gola alta e mangas compridas. Os cabelos dessa vez estavam presos em um rabo de cavalo e de cor preta com mechas também vermelhas.

- Prefiro uma daquelas – apontei para Drag Star 2001, 650 CC, alterada da transmissão por eixo cardã às rodas, 70 estilizada de preto e vermelha.

Ele me olha com cara de quem acha que estou brincando. Coloco em seu balcão minha habilitação assinada pelo sistema de transito japonês, minha identidade e meu passaporte abrindo um sorriso.

- Isso não é muito comum... – falou em um inglês confuso.

Respondi em japonês fluente:

- Eu sei... mas amei-a, fazer o que? É uma moto grande, mas de fácil manuseio. Pode ser com seguro total, por favor, pois estou em um bairro afastado. – o atendente uniformizado, de cabelos despontados e olhos quase negros sorriu quando eu disse isso. Me entregando os papeis para assinar, mandando encher o tanque e me entregando um vale combustível como gentileza da loja.

Peço algumas informações sobre o endereço do cartão que eu tinha em mãos e o pessoal do posto de combustível logo a frente me explicam as melhores opções para ir ao endereço.

Num era muito longe, tendo em vista que peguei apenas 20 minutos de rodovia expressa no meio de carros grandes e cheio de pessoas apressadas, enquanto eu pilotava calmamente sentindo a brisa e olhando a posição de prédios e avenidas abaixo da pista em que me encontrava. Andei mais dez minutos de ruas pequenas e estreitas, no meio de casas escuras até encontrar o galpão indicado atrás do cartão.

Estacionei de maneira rápida, já que não havia ninguém parado naquele lado da rua. O ruído de microfonia e bateria não negava que ali havia um ensaio. Dei um leve toque na lataria da moto, carregando-a de eletricidade estática. Se alguém tentasse alguma graça, ficaria no mínimo arrepiado. Sorri, coloquei o capacete na manopla e entrei no galpão, que me parecia muito arrumado para um local de ensaios.

- Não costumamos receber visitas por aqui, principalmente de estrangeiros... – uma voz feminina um tanto arrogante fala logo atrás de mim.

- Logo imaginei... – falei ainda sem olhar para ela - porque com esse tipo de recepção ninguém viria mesmo.

Parei na frente dela de braços cruzados. Digamos que o clima não era para flores. Ela passou diante de mim carregando um instrumento nas costas. Mas não foi bem isso que me chamou a atenção. Era sua forma de se trajar que muito me deixou curiosa.

Ela vestia uma saia cor de rosa, com detalhes abertos até a cintura, formando uma tela. O decote era avantajado e o porte físico muito bom.

Ta bom... – pensei comigo mesma – ela pode usar essas roupas por que esta com tudo encima.

Caminhei até a cadeira mais próxima, apoiei os pés na cadeira de frente e me sentei observando o movimento. Logo avistei Yashiro, com aquele tamanho todo é meio impossível não notar que ele estava ali.

Aceno para ele timidamente de onde estava. Num resisti e li de certa forma algumas coisas que passavam em sua mente. Estava surpreso. Fui até a beirada do palco.

- Oi! Num imaginava que eu viria num é?

Ele pula até meu lado sorrindo de orelha a orelha.

- Não imaginava mesmo! Hey Chris e Shermie, venham conhecer uma nova amiga que veio nos fazer uma visita. – me abraça forte, quase me afogando.

- Que perfume bom! – toquei na gola de sua jaqueta, que agora era um modelo diferente da que vira naquele outro dia. – adorei a roupa também!

- olá Nisa! – diz Chris empolgado logo a minha frente segurando um par de baquetas. Aquilo me deixou um pouco perturbada. Como ele poderia se lembrar de algo que ainda não ocorreu para ele? O episódio que nos falamos ele estava transformado e ainda iria demorar semanas para ocorrer. Eu havia o encontrado no futuro.

- Como vai Chris? Tocando muito? – peguei uma das baquetas e rodei entre os dedos. Ele era um garoto doce demais.

- Vocês se conhecem? – pergunta Yashiro, de forma surpresa.

- Nisa não me conhece ... mas eu a conheço. Ela tem um grupo de coreografias muito bom e músicos fantásticos! – vejo os olhos dele brilhando e me alivio. Ele conhecia meu trabalho.

- Hey, você foi o único por aqui que lembrou de mim. Como pode? Gosta de dança contemporânea ??

- Adoro!! – e deu um salto mortal da plataforma do palco até o centro das fileiras de cadeiras que estavam no local. – é lógico que as artes marciais ajudam, num é?

Sorri feliz.

- Uau. Dessa nem eu sabia. Meu baterista pode ser um bailarino. – diz Yashiro caindo na gargalhada.

Rimos juntos.

- Que tal começarmos a passar o set? –corta Shermie sem participação na conversa.

- Você tem algum problema?? – olhei para ela com certo cinismo, percebendo todos os pensamentos estranhos e obscuros que passavam em sua mente.

- Num liga, ela num é muito amigável com pessoas diferentes . – Yashiro fala bem baixinho em meus ouvidos enquanto passa ao meu lado.

- E nunca sorri, só faz isso quando ta socando alguém. – Chris faz um gesto de "punch" já sentado na bateria.

Comecei a rir enquanto ela olhava com raiva para os dois.

- Essa daí... sem chance de amizade. – suspirei curtindo o rock de uma Banda japonesa que eles faziam cover.

Em alguns minutos, subi ao palco dei algumas coordenadas de bateria e outras de baixo para os meninos, peguei o microfone e comecei a cantar uma musica de uma banda americana chamada Collective soul. Tocamos a musica Over Tokyo. Shermie mesmo sem querer, tocou os acordes leves de violão por sugestão mental que eu havia aplicado nela.

Sorri. Humanos se acham tão superiores... mas são tão vulneráveis.

Saímos de lá era mais de onze horas da noite. Assim que tocaram a ultima musica do set list que eles tinham, Shermie arrumou suas coisas e saiu sem se despedir.

Me diverti demais. Os meninos eram muito divertidos. Paramos em uma lanchonete para comer alguma coisa, pois estávamos famintos.