Deixei Athena em um certo ponto da cidade que ela havia pedido. Antes tinhamos passado no galpão de organização do campeonato para pegarmos alguns dados de algumas pessoas. O dia estava levemente nublado, mas entre as nuvens o sol aparecia fraco, o ar estava parado e as folhas secas das arvores despencavam sozinhas estalando no chão.

Naquele momento tinha o endereço de Iori em mãos e pretendia ir lá o mais rapido possivel. Trilhei as ruas habilmente até encontrar o endereço. Parei na esquina da rua observando os detalhes. No exato momento em que eu olhei para o portão vermelho de uma casa branca, de estilo colonial e simples, vi que o ruivo estava sentado de forma largada na soleira da porta, fazendo carinho em um gatinho que estava deitado ao seu lado.

Estacionei a moto devagar , com cuidado e comecei a observar ambos. Estavam distraídos um com a companhia do outro. Sorri comigo enquanto tirava o capacete. Eu tinha lido em sua ficha, local onde os juízes de lutas haviam feito anotações. Vendo aquela cena ficava dificil imaginar a pessoa que eles descreveram naqueles papéis.

Algumas mensagens mentais q eu tinha recolhido de algumas pessoas que o conheciam também não eram animadoras: Iori é insuportável, anti-social, sisudo, extremamente confiante em si. Só se permite um gargalhada insana na sua pose de vitória, etc.

Decidi me aproximar de uma maneira menos chamativa.

Fiz aquele tipico assovio de leve quando chamamos um gato para nosso lado.

O bichano largou prontamente a companhia do ruivão e veio aos meus pés ronronando. Peguei o gato no colo e sorri olhando para Iori.

- Ele é seu? – mostrei o gato, em meu colo, como se fosse um filho para ele

Senti medo quando o olhar dele cruzou com os meus. Era frio, distante e extremamente arrogante. A voz que saiu de sua boca estava rouca:

- Como seria meu se, assim que você o chamou, foi para seu lado? – passou a mão na franja de forma impaciente - É um gato vadio de rua que estava aqui e eu o ia expulsar. – ele se levantou em um pulo hábil e bateu a poeira da roupa.

Li seus pensamentos naquele relance de olhar, o que me disse não era verdade! Por que ele estaria dizendo aquilo? O gato era um de sua falecida mãe e ele o tratava muito bem. Não aguentei a mentira e rebati:

- Como você iria expulsá-lo se estava fazendo carinho nele? E ainda estava sentado ao seu lado? – abracei o gato e toquei o focinho com o indicador, desviando do olhar fumegante de Iori.

- Posso saber o seu nome, para poder te xingar? – Yagami fixou mais ainda os olhar em mim.

- Primeiro saia pelo portão para que eu possa estender a mão para você! E devolver seu gato, antes que precise me xingar. – o sangue estava me subindo a cabeça, mas até que eu tinha vontade de rir naquela hora.

Vi aquele homem de aparencia rude, desleixada e cinica caminhar decididamente em minha direção. Ele jogou o portão para o lado com a mão esquerda, fazendo-o bater bruscamente no muro e parar em minha frente.

Senti o vento balançar os frios de cabelo que me escapavam da trança.

- Eu sai pelo portão. – apontou para o estrago no muro - Agora você me diz o que deseja e quem é. – cruza os braços e fica com as pernas entreabertas me encarando de forma a me deixar sem jeito.

Soltei o gatinho no chão olhando fixamente para ele.

- Sou Nisa Benthon. Estou fazendo algumas pesquisas sobre as pessoas que participam do campeonato The King of Fighters. – bati os pelos que estavam em mim - Peguei seu endereço naquele galpão onde houve uma festa ontem. – estendi a mão para cumprimentar - Podemos conversar?

Iori olhou incrédulo para mim e colocou as mãos nos bolsos. Olhei para minha mão estendida e abaixei-a. Pensei comigo: "isso vai ser dose de leão"

- O que uma pessoa estaria interessado em conhecer em mim, garota? Não tenho nada a dizer.

- Talvez tenha a mostrar. - apontei para o gatinho que roçava os pelos nas calças dele e brincava com as fivelas da correia que Iori tinha entre as permas.

Estendi a mão novamente e olhei dentro de seus olhos frios.

No exato momento em que toquei sua mão direita, outra remessa de lembranças da mente dele passaram por mim. Vi duas mulheres sendo mortas por aquelas mãos, junto com a imagem de chamas roxas. Ouvi a risada insana que ele soltou em momentos de furia. Senti o medo do descontrole passar em seus olhos... era como se ele criasse uma casca de ódio por cima da pessoa que realmente ele era. Uma armadura por cima da dor de perder toda a familia por causa de uma maldição.

Um nó prendeu em minha garganta. Aos poucos meus olhos marejaram enquanto eu olhava para ele.

- Você é estranha, garota. – ele solta minha mão com certa raiva, vira de costas para mim e começa a caminhar em direção a rua.

Sussuro comigo mesma:

- Que Personalidade... – sinto o gato miar em meus pés. Olhei para suas costas e sua forma de andar. Senti muita pena dele. E sei que por isso eu pagaria qualquer preço. Então resolvi gritar:

- Iori, só porque você está sozinho, não significa que as pessoas não gostam de você! Muita gente pode te admirar se você der esta chance! – soltei um palavrão – IORI olha pra mim quando falo com você!!!

Ele sequer olhou para tras. Me senti uma completa idiota. Eu encontraria ele no ringue. Com certeza.

Respirei, coloquei o gatinho no colo e entrei na pequena e estreita varanda da casa. Não resisti ao olhar para dentro da pequena casa. Havia uma cozinha conjugada com a sala e um quarto que era separado do banheiro por uma porta de correr de bambu.

Estava tudo uma bagunça. Sem esitar, organizei tudo em seu lugar, observando ali de fora mesmo, cada coisa ir para seu canto. A poeira e pelos do gato foram para dentro de um saco plástico junto com os restos de comida. Tudo estava limpo. Inclusive as louças e restos que residiam em sua geladeira. Tudo esatava cheirando limpeza quando coloquei o gato dentro da sala novamente.

Caminhei até a moto. Resolvi dar mais uma volta pela cidade para espairecer sobre aqueles homens inusitados que estavam cruzando o meu caminho.