6º capítulo :A Ressaca

- Por quê, meu anjo?

- Por causa do que aconteceu hoje...

- Não se preocupe com isso, Robin; esse é um assunto para os adultos resolverem. - Sara abraçou a filha com mais força, quase sufocando-a.

A menina soltou-se um pouco dos braços da mãe, fez uma pausa e cravou seus olhões súplices em Sara.

-Mamãe, não brigue com o papai! Ele não teve culpa e nada nos aconteceu! Ele já se sentirá mal amanhã, por ter sido irresponsável. Se bem conheço o papai, ele irá se recriminar por isto, mais do que se pudéssemos dizer qualquer coisa!

- Vou pensar nisso! Agora pra cama, mocinha, que já passou e muito da hora de dormir!

- Por favor, mamãe, prometa!

Sara não sabia negar nada a Robin, quando ela ficava séria e punha aqueles enormes olhos nela. Era como se ela visse o Grissom- supervisor, novamente.

- Está bem eu prometo!- Sabia que se não dissesse isso, a filha não lhe daria sossego.

Beijou a filha, desejou "boa noite", apagou a luz e foi ver como estava o marido, em seu quarto. Grissom estava jogado, na cama de bruços, quase que completamente vestido... e calçado. Ela suspirou, tirou seus sapatos, e colocou suas pernas sobre a cama. Jogou uma coberta, sobre ele.

Antes de apagar a luz olhou para o marido: a filha tinha razão. Nada tinha acontecido e nem fora totalmente culpa dele: queria se mostrar para Howard e era fraco para a bebida. Aliás, ele nem gostava de cerveja!

Que coisa, sua filha! Teria mesmo só oito anos? Parecia ter mais. De repente sentiu os olhos marejarem, sua filha tinha sentimentos sim. Ela só era parecida com o pai: tinha dificuldade em externá-los. Mas tinha um enorme coração e se importava com os outros, sim.

Na manhã seguinte, Grissom se sentia ma, no café da manhã. Tinha a cabeça pesada e tinha se olhado do espelho: a cabeça parecia igual, mas sentia-se carregando a cabeça de um gigante. Estava usando óculos escuros, pois a claridade na cozinha feria terrivelmente seus olhos. Para completar, um amargor na boca, de matar! Achava que o amargo se infiltrava por todo o seu ser.

Além de tudo, sentia-se miserável. Sabia que tinha falhado com as crianças ontem e falharia hoje de manhã. Quando elas desceram já prontas para tomar o café da manhã, encontraram o papai terrível, com uma cara péssima, encarapitado no balcão da cozinha, tomando seu café sem açúcar. O pequeno Ryan estranhou a falta de um cheiro gostoso de comida.

- Não vamos comer nada hoje?

A irmã deu-lhe um nada discreto soco no estômago.

-Que foi? Com ressaca ou não, tenho fome! – Reclamou o pequeno guloso.

- Seu irmão tem razão! Só que hoje, vocês me farão favor de comer cereal. Amanhã prometo que farei waflles pra vocês.

Ia se levantar para pegar o leite na geladeira, quando Robin de pôs na frente:

- Não se preocupe, papai, vamos nos ajeitar, muito bem.

Ela parecia uma mocinha, pegando as coisas, pondo nas tigelas, ralhando com o irmão por falar de boca cheia ou comer muito rápido e não mastigar direito.

- Devagar, Ryan, a comida não vai fugir do prato!

Grissom apesar do seu mal-estar, estava muito orgulhoso da filha. Tão pequena e fazendo tudo igual a Sara. A menina aprendia, imitando a mamãe. Nisso tocou a campainha, fazendo com que a cabeça de Grissom, badalasse como se fosse um sino.

- Quem poderá ser tão cedo?

- Jane, só pode ser ela. Bem na hora de nos levar até o ônibus! – E Ryan foi gritando em volta do pai.

- Pelo amor de Deus, Ryan! Não tão alto... Minha cabeça... – gemia Grissom.

- Desculpa papai! Eu se me esqueci!

Depois que eles saíram, devidamente beijados e com a recomendação de serem bonzinhos, Grissom encaminhou-se ao seu carro para mais um dia de trabalho.

Grissom lembrou-se de algo e foi atrás do ônibus. Parecia desesperado, buzinando e gritando para o motorista do ônibus. Contudo, Henry estava distraído com o rádio e cantando, que só ouviu o pai das crianças, quando pararam na casa de um menino.

- Desculpe o incômodo Henry, mas é que eu preciso muito falar com meus filhos! É uma emergência!

-Me desculpe o senhor, por não tê-lo visto ai atrás! – E falando, para dentro do ônibus – Crianças Grissom, desçam para falar com seu pai!

A cabecinha de Robin surgiu lá atrás. Tinha a testa franzida: o pai nunca ia atrás deles. O que queria? Seguida por Ryan, ela desceu do ônibus.

- Que foi papai?

- Minha cabeça hoje, não está funcionando bem! Não fiz nada para vocês no almoço e nem dei dinheiro a vocês, para almoçarem na cantina! Cinco dólares para cada é suficiente?

- É, pai! Você não precisava se preocupar; teríamos dado um jeito! – Respondeu Robin.

- Como? – Lastimou-se o gordinho Ryan, e não se livrou de um pisão da irmã.

Ele ia dizer alguma coisa, mas um olhar enviesado de Robin o fez desistir. Grissom tirou sua carteira do bolso e tirou uma nota de dez, que entregou á menina. Beijou-os novamente, agradeceu ao motorista do ônibus com um gesto e entrou em seu carro.

Já dentro do ônibus, Ryan tirava satisfação com a irmã; queria saber do porquê do pisão que levara. Robin o encarou de alto a baixo, e respondeu:

- Você é tão criança, Ryan! Só pensa no seu maldito estômago! O mundo que se exploda! Se você estiver de barriga cheia, nada mais importa Ryan Sidle Grissom!

- Você não é a mamãe pra me dar bronca! Eu tenho só seis anos, o que deveria pensar?

- Sei lá! Na harmonia entre nossos pais...

- Nossa que coisa difícil você foi dizer... E não diga que eu sou criança, porque você não é muito mais velha que eu...

E Robin, não negando que era filha de quem era, fez o que fazia de melhor, quando não sabia o que dizer. Assim como Grissom sabia como ninguém, fazer cara de desentendida...

Grissom voltou para casa, perto de cinco horas. Ainda se sentia péssimo.

- Chegou tarde hoje! - Disse Sara, beijando-o- Por que, você não tira uma soneca ate a hora da janta?

- Acho que vou seguir sua sugestão, querida!

A janta era a única refeição, onde todos podiam estar juntos e trocarem informações uns dos outros, ser uma verdadeira família. No café da manhã, enquanto Sara dormia, Grissom e a babá cuidavam dos garotos, os alimentavam e os colocavam no ônibus escolar.

Na hora do almoço, quando Sara acordava, Grissom estava na Universidade e as crianças estavam na escola. Era só no jantar, que todos podiam se reunir.