Cap 2 - Negociação
Organizar a equipe, chamar a SWAT e deixá-la de prontidão, estabelecer uma linha de negociação. Tudo foi mais difícil do que de costume, talvez porque se tratasse dela e porque isto tornava muito complicado me concentrar no trabalho. E se algo desse errado?
Tentando não pensar nesta possibilidade, ordenava como deveriam agir nesta tarde. Lidávamos com um homem seqüestrava pessoas, mantinha-as por dois dias presas e depois as assassinava. Um homem que era capaz de torturar para provar seu poder e nós, sem querer, tínhamos feito pressão e mudado seu modo de agir. Quando Morgan me ligou avisando que ela tinha sido levada, questionei-me várias coisas e senti que algo ali não fazia sentido.
- Quanto tempo para ficarem prontos? – Perguntava de vez em quando.
- Mais uma meia hora, mais ou menos, para ter tudo absolutamente pronto. – Respondeu Morgan.
- Quero isto pronto antes. – Respondi, não estava nem um pouco tranqüilo. – Diga-me quando poderemos iniciar a negociação.
Sabia muito bem que a negociação de reféns era um processo difícil de lidar, mas estava disposto a fazer tudo que fosse necessário para colocá-la a salvo, mesmo que de certo modo não estivesse certo de que seria produtivo trabalhar do modo como me sentia. Senti falta de Gideon para negociar. Realmente não tinha certeza de ser uma boa idéia conduzir a negociação.
- Hotch... –Era JJ – Está tudo pronto, mas... Achamos que desta vez não deve ser você o negociador, está muito nervoso.
- Não estou entendendo, é o meu trabalho. – respondi.
JJ estava claramente incomodada, custando a encontrar as palavras adequadas, mas isto não fazia nenhum sentido. Tínhamos que lidar com o assassino, que se sentindo intimidado com a presença do FBI tinha voltado a uma de suas cenas de crime, tomado uma arma, assassinado um homem e levado Emily como refém. Uma agente sob a minha supervisão e eu TINHA que resgatá-la. Eu era o único com experiência em negociações. Não entendia então porque, com um quadro tão claro, JJ não ia direto ao ponto.
- Olhe, Hotch, todos estamos preocupados com Emily, mas me parece... Nos parece que você está muito mais preocupado e nervoso do que todos nós e isto não é nada bom para a negociação. – Ela disse diante de minha surpresa. – Sei que tem um carinho especial por ela, mas...
- JJ, não estou entendendo nada.
- Hotch, sei que não é assunto meu, mas entre vocês sempre houve uma "química", algo que se percebe de imediato e não queremos que isto atrapalhe a negociação.
- Se decidiram que não devo ser o negociador, tudo bem. Mas que fique claro que não existe nada entre Emily e eu, ok?
- Claro, Hotch. – Na sua resposta era visível um leve tom irônico.
Ela saiu para esclarecer as coisas com o resto da equipe e permaneci parado, levemente confuso. Não entendi porque eles tinham esta certeza tão absoluta nos últimos dias de que existe algo entre Emily e eu. Não havia nada de anormal entre nós, pelo menos não que eu soubesse.
Durante todo o processo de negociação minha mente se distraia facilmente com este assunto. Rossi comandava a negociação, inicialmente o suspeito se comunicou pedindo um milhão de dólares e transporte para fuga em troca da liberdade de Emily. Cortamos a conversa. Depois de meia hora ele voltou a se comunicar, ameaçando machucá-la, mas pedindo um pouco menos. Esta rotina se repetiu varias vezes, sendo que claramente o suspeito ficava nervoso com a conversa e isto nos revelava detalhes sobre ele e os fatos.
Quando chegou no ponto em que alguém desarmado levaria dez mil dólares até a porta e a fuga do suspeito seria permitida, foi que entendi o que JJ queria me dizer antes. Eu teria dado o milhão de dólares somente porque a queria a salvo.
Depois de intermináveis horas, Reid tinha averiguado o suficiente para entrar. Sim, ela estava ferida e isto era horrível, mas também nos permitiu entender muito. Assim, quando ele se aproximasse da porta poderíamos entrar, sendo que Emily deveria estar na mesma sala. Ela estava ferida e ele armado, mas era nossa única oportunidade.
Reid, que tinha a aparência suficientemente inocente para que o homem suspeitasse de algo, faria a entrega. Rossi se manteria no ponto de negociação junto com JJ, Morgan e eu entraríamos para resgatá-la.
Tudo aconteceu muito rápido. Morgan e eu demos uma longa volta para nos colocarmos na parte de trás da casa. Toda a negociação tinha consistindo em desviar a atenção do suspeito daquela área para podermos entrar. Esperamos o sinal e entramos com discrição por uma grande janela.
Lá fora, Reid iniciava o primeiro contato da negociação. Tinham degraus que desciam para o porão e soube de imediato que era ali que ela deveria estar. Separei-me de Morgan. Abri a porta com um golpe e desci com cuidado os degraus ainda com a arma em punho. Ela estava lá embaixo.
Emily! – Chamei.
- Hotch... – Imediatamente percebi o alivio e a dor em sua voz.
Sim, estava ferida. Ele a havia cortado e torturado, para que nós soubéssemos o que era capaz de fazer se não aceitássemos suas condições. Ela não tinha lutado, tinha se agarrado a única parte perfeitamente correta do perfil e sabia que lutar teria lhe custado a vida, muito provavelmente.
Tinha as mãos e pernas amarradas. A desamarrei enquanto olhava os machucados que aquele homem tinha lhe feito e que deixavam sangue escorrer por seu corpo. Ela se abraçou a mim e facilmente a tomei nos braços para tirá-la dali. Ela parecia a ponto de chorar.
- Está tudo bem, tudo bem... – Sussurrava-lhe enquanto a carregava para fora.
Ouvi os tiros vindos da entrada, mas não parei para verificar o que acontecia porque minha prioridade era colocá-la a salvo. Passei pela porta de trás, incapaz de soltá-la ou deixar de murmurar palavras de conforto para acalmá-la.
Uma ambulância nos aguardava. Morgan e Reid passaram com o suspeito detido. Por um momento, não quis soltá-la, precisava estar seguro de que ninguém mais iria feri-la. Os paramédicos a pegaram, ignorando meus medos, e a levaram para o hospital. JJ foi com ela na ambulância.
- Caso difícil, hein, Hotch? – Perguntou Rossi de repente. –Vi voce verdadeiramente preocupado.
- Não poderia ser diferente com alguém da equipe envolvido. – Respondi.
- Por favor, Hotch! – Rossi disse quase rindo. – Foi por ser Prentiss que as coisas complicaram para você, foi o que realmente te assustou.
- Que quer dizer, Dave? – Perguntei franzindo o cenho.
- Fazemos perfis, sabemos demais sobre a conduta humano, acredita que não notaríamos algo assim? – Falou com muita calma. Desde que os conheço, os vejo fingir que não sentem nada um pelo outro, que não querem estar juntos ou que não há uma imensa atração entre vocês.
- Por favor, Dave. Isto nunca acontecerá, sabe que na é possível.
- Tem certeza que não?
Foi a ultima coisa que me disse antes de subir num carro para regressar e encerrar o caso. Parecia muito satisfeito e divertido com o fato de que, para variar, eu não o entendera. Mas a dúvida estava plantada em minha mente. Emily ficaria bem, segundo disse JJ quando ligamos no hospital, e então voltaríamos a Quântico para continuarmos nosso trabalho como sempre fizemos.
Mas eu me questionava seriamente: será mesmo impossível?
Continua.
