3- Aceitação
Com o caso resolvido e Emily a salvo, voltamos mais tranqüilos para o escritório para retomarmos nossa rotina usual. Ainda que fosse evidente que algo tinha mudado.
Ela tirou uma semana de licença para se recuperar completamente de tudo pelo que passara e a toda a equipe, principalmente JJ, procurou se assegurar de que não restasse nenhum dano psicológico. Preocupavam-se com ela, procurando se assegurar o tempo todo de que tudo estava bem. Eu, por outro lado, preferia me manter a margem dos acontecimentos.
O primeiro dia de seu retorno foi tranqüilo. Era dia de checar as papeladas dos casos. Um dos raros dias tranqüilos na UAC. Cada um se mantinha em seu espaço e quase nem me aproximei da equipe até que Reid me procurou.
- Tudo bem? – Perguntei.
- Excelente. Acredito que hoje acabaremos tudo, será um dos pouquíssimos dias que sairemos cedo.
Falava rápido, mas na sua velocidade normal de quando tem muita informação para dar. Parecia que queria dizer algo, porém estava nervoso porque não lidava com toda a informação, tinha clara sua intenção e esperava que eu fizesse a pergunta certa. Por tratar-se de Reid, me pareceu importante falar.
- Então, porque está aqui? – Perguntei.
- Por Emily.
- Aconteceu algo com ela? – Perguntei, reconheço, ligeiramente alterado.
- Nada, Hotch. Mas, realmente, temos conversado sobre o que aconteceu no ultimo caso e tua reação e...
- Reid, não vai começar você também com isto. – Cortei.
Suspeitei imediatamente que iria pelo mesmo caminho dos comentários que ouvi na semana anterior. Surpreendia-me que alguém tão pouco apegado às emoções e relações como Reid se metesse nesta história. Talvez por isto mesmo me senti mais tentado a lhe dar atenção.
Houve um momento de silencio, olhando com calma ele não parecia tão nervoso, quem não aparentava tranqüilidade era eu. Era um contraste anormal entre nós dois.
- Já sei que não quer ouvir, mas tem comentários entre a equipe e... Eu sei que não há um romance secreto ou coisa do tipo, mas todos sabemos que há algo entre vocês dois. Consciente ou inconsciente.
A lógica de Reid era inapelável, não tinha como lutar contra ela. Seria ignorar o óbvio. Eu também sabia disto, talvez no mais profundo de meu inconsciente tinha muito claro que algo se passava.
- Acho que ela ama você, Hotch. – Reid contra atacou o meu silencio.
Isto eu também já sabia. Durante um tempo suspeitei e tinha permitido acontecer, e, pior ainda, desde que ela entrou em nossas vidas percebi uma inexplicável conexão entre nós dois, algo que ia além de uma simples relação de trabalho.
- Quer conversar sobre ela? – Me perguntou.
De algum modo percebi o que vinha e permiti, sabendo que poderia trazer problemas...
- Gideon sabia e te falou, não é verdade?
Na realidade, não fiquei surpreso com a capacidade de dedução dele, em parte porque ele era muito unido a Gideon e, obviamente, que se Jason sabia, pode ver antes que todos. Por isto era o melhor para fazer perfis, facilmente pôde ver esta primeira reação de "atração" entre nós.
- Foi o primeiro a mencionar o assunto, antes mesmo que eu pensasse sobre isto, antes que ela se integrasse por completo na equipe. – Atrevi a confessar. – Mas isto foi há tempos, Reid.
- Você estava com Haley e isto foi bem confuso. Talvez por isto a forma como Gideon te falou, porque não tinha razão para duvidar de seu raciocínio. – Concluiu. – Quando Strauss te suspendeu, quando começamos a trabalhar num caso sem você, inconscientemente você soube que não trabalharia sem ela e foi buscá-la. No final tudo terminou bem, mas Haley se foi. Você se encheu de culpa e bloqueou todo o resto, incluindo o que o Gideon havia lhe dito.
- Prometemos não fazer perfis entre nós, Reid. – Novamente o cortei.
- Mas ela se apaixonou por você, Hotch. – Ele continuou, sem ligar para mim. – E tem suficiente atração entre vocês para se sinta culpado por não ter feito nada para evitar. Porque você gosta dela, ainda que até uns dias atrás não estivesse totalmente seguro, porém vê-la em perigo mudou suas perspectiva, não?
- Chega, Reid. – Adverti.
Senti que estávamos entrando demais em minha vida pessoal. Eu não era alguém de quem se fizesse um perfil ou se invadisse a privacidade. Permiti a Jason porque éramos amigos há muito tempo. Estava casado e abandonei esta idéia de imediato, mas as coisas eram diferentes agora.
Lembrei da insistência inicial de Emily quando chegou a UAC e como cedi facilmente para que permanecesse na equipe. Lembrei do dia que fui até sua casa buscá-la porque uma parte de mim se negava a trabalhar sem ela. Lembrei do fanático religioso que a havia feito de refém junto de Reid, quanta dor senti por terem a machucado, quanto medo de que o pior acontecesse... Não tinha diferença do que tínhamos acabado de passar, só que desta vez tive a oportunidade de resgatá-la e isto me fazia sentir um homem diferente. Olhei para Reid em dúvida.
- Não tem como dar certo, Reid. Vai contra todas as regras.
Ele somente sorriu, totalmente seguro de sua lógica e do que estava fazendo por mim... Por nós dois. Levantou-se e foi até a porta, antes de sair disse:
- Se Strauss não sabe, não seremos nós que vamos contar, Hotch. Você sabe que é possível.
Vindo de Reid me custava a acreditar no que foi dito e ao mesmo tempo tornava ainda mais real. Meu pensamento não se desviou disto o resto do dia, até que no começo da tarde notei que minha equipe estava saindo. Chamei Emily, sem saber exatamente o que iria fazer.
Ela bateu na porta e, simplesmente, ao vê-la minhas idéias que davam voltas sem controle durante o dia todo começaram a entrar em ordem, me senti como um tolo.
- Como você está? – perguntei, por fim.
- Bem, - respondeu – ainda que pareça horrível ser refém não deixa seqüelas tão terríveis, ainda mais quanto tem alguém que te regaste. Obrigada por isto, Hotch.
- Foi um prazer. Sempre que precisar estarei ali.
Ela soltou uma risadinha nervosa e, para variar, não pude evitar lhe sorrir. Sim, meus sorrisos eram raros, mas para ela inevitáveis. Não deixei de olhá-la e isto pareceu deixá-la em silencio, porém não apagou seu sorriso. Silencio, mais silencio. Ao diabo com as regras!
- Quer jantar, Emily?
- Que te fez mudar de idéia? – Perguntou confusa.
- Muitas coisas, alguns conselhos... Mas, acima de tudo, saber que posso estar ali para te resgatar. – Disse num tom confessionário. – Então, aceita? Somente eu e você...
Ela abriu ainda mais seu sorriso, que confirmou o que eu tinha levado tanto tempo evitando aceitar. Levantou-se se sua cadeira ao mesmo tempo em que eu, e como se fosse o gesto mais normal do mundo me estendeu a mão e respondeu:
- Sim, vamos.
FIM
