ELA DESAFIOU OS DEUSES E ESCREVEU O SEU DESTINO

.:O ENIGMA DA SIRENE:.

By Dama 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Laura, Ariel, Christian, Carite, Endora e Merik são criações únicas e exclusivas para essa saga.

Boa Leitura!


Capitulo 4: O Imperador.

Girou distraidamente a quarta lamina entre os dedos. A xícara de café fora esquecida num canto da mesa e estava sozinha ali, Celina subira dormir um pouco, antes de amanhecer.

A noite seria longa, mas nem por isso conseguiria dormir. Estava preocupada, já fazia algumas horas que Mú partira para Asgard e não tinha noticias dele, isso é claro, depois da breve conversa que Celina tivera com Kanon.

Deu um suspiro pesado, vendo a imagem imponente de um cavaleiro marcar a quarta lamina, havia uma espada em sua mão e a armadura negra cintilava.

-O Imperador; Laura balbuciou, jogando a carta sobre as três primeiras.

Essa era uma das cartas que mais marcaram sua vida. O Imperador representava poder e autoridade secular, era a carta destinada aos homens de poder, destinados a serem lideres e guerreiros implacáveis.

Quando essa lamina surge, o pressagio é bem simples, alguém poderoso e incrivelmente forte entraria em sua vida e muitos desejos seriam realizados.

Há quase dezenove anos atrás, quando tivera aquela conversa com Mú, dissera a ele que jamais errava em suas previsões e com relação a ele, elas nunca estiveram tão certas.

Durante muito tempo se questionou porque só tivera uma única visão com ele, antes de se conhecerem. Depois nunca mais conseguira nada, conseguia ver outras pessoas cujo caminho cruzariam o dele, quando o Destino lhe dava uma brecha para impedir o que muitos diziam ser inevitável, mas não com ele.

O amigo ariano escrevia o próprio destino, isto é, se ele acreditasse nisso. Sorriu ao lembrar-se da expressão espantada de Celina quando dissera que Mú não era nada calmo e que a aparente serenidade dele, provinha do grande auto-controle que se empunha.

Ela, como a maioria do santuário obviamente, não o conhecia completamente. Duvidava que alguém o conhecesse. Ela particularmente conhecia apenas uns setenta e cinco por cento. Sabia que por mais que vivessem juntos há tanto tempo, existiam coisas sobre ele que não sabia e ele tão pouco sabia sobre ela.

Afinal, eram ambos imprevisíveis; ela pensou com um sorriso nos lábios. Mas o imperador era uma carta propicia para essa época de suas vidas e para tantas outras também, as lembranças poderiam ser doces e amargas, mas antes tê-las do que jamais ser capaz de senti-las;

Alongou os braços para cima, enquanto levantava-se com a xícara nas mãos, era melhor pegar um pouco mais de café, algo lhe dizia que precisaria se manter sóbria pelas próximas horas, até amanhecer.

-x-

.: História Dentro da História – Cavaleiro ou Duque? :.

Acordou cedo aquela manhã, extremamente bem disposta a fazer uma infinidade de coisas. Como não pretendia seguir os horários de Londres, que era levantar-se apenas onze horas se não ao meio dia.

Trouxe rapidamente e desceu as escadas, quem sabe conseguisse tomar café com a tia.

-Bom dia milady; Lily a governanta a cumprimentou.

-Bom dia, a senhora sabe onde esta tia Carite? –Ariel perguntou, vendo que ela carregava uma bandeja de café nas mãos.

-Na sala de descanso, mas...;

-Que bom, assim já posso tomar café com ela, se a senhora não se importar eu mesma levo; Ariel falou e não dando tempo à governanta, pegou o aparelho de café com a bandeja dos braços dela.

-Mas milady...;

-Obrigada Lily, com licença; ela falou distraída, enquanto seguia em frente pelo corredor, sem perceber os resmungos de protesto da senhora.

-Vai entrar em assembléia, mas não sei se vai vingar; uma voz conhecida chegou ate si.

Franziu o cenho, o que àquele almofadinha do duque estava fazendo ali tão cedo? –ela se perguntou.

-Mas você ainda pode interferir se for o caso, não? –Carite indagou.

-Talvez, mas-...;

-Bom dia; Ariel falou entrando de costas na sala, já que usara o pé pra abrir a porta.

O sorriso em seus lábios morreu no momento que viu o duque sentado em uma das poltronas da sala, a cor de sua face sumiu e a bandeja escapou de suas mãos indo bater contra o chão.

-Tio Ekil? –ela murmurou antes que tudo ficasse escuro.

Com um movimento rápido, aproximou-se da jovem e a segurou entre os braços, impedindo sua queda. Sentia-se agitado, não compreendia porque ela tivera essa reação. Na noite anterior, apesar dos pesares, ela estava bem em sua companhia.

-Milady, eu tentei avisá-la; Lily falou aflita.

-Esta tudo bem Lily, uma hora ela iria saber; Carite falou em tom neutro.

-Do que esta falando Carite? –Christian perguntou, suspendendo a jovem do chão e aninhando-a entre seus braços.

-Que você é o irmão gêmeo de Ekil; ela respondeu seria.

-Mas o que isso tem a ver com ela? –ele perguntou enquanto seguia Carite pelos corredores da casa, indo até o quarto da jovem no segundo andar.

-Christian, o nome Ariel, não lhe diz nada?

-Lógico que sim, é aquele anjo da Tempestade de Shakespeare e-...; o duque parou vendo-a negar com um aceno.

-Sorento e Ariel; Carite repetiu pausadamente. –Não lhe diz nada?

-Mas...;

-Ela; Carite falou indicando a jovem entre seus braços. –É filha de Sorento e Ariel DeSiren;

Por um momento pensou que ele fosse o próximo a desmaiar, mas Christian rapidamente se recuperou e continuou a subir as escadas num silêncio sepulcral.

Entraram no quarto e ele colocou a jovem delicadamente sobre a cama. Então ela era a única sobrevivente das sandices de Afrodite. Há alguns anos atrás soubera da história toda através de uma amiga, mas não pensou que as Deusa do Destino fossem cruzar seus caminhos um dia.

-Ela ainda esta um pouco abalada com a morte de Ekil; Carite falou parando atrás dele. –E a perda de Endora;

-E Sorento, pensei que ainda estivesse vivo; ele comentou sem desviar os olhos da jovem.

-Já se foi há dez anos; ela respondeu.

-E você nunca falou para ela que Ekil tinha um irmão gêmeo? –Christian perguntou em tom frio, enquanto voltava-se para ela com os orbes azuis estreitos perigosamente.

-Ela passou seis anos fora de Atenas, só voltou ano passado em julho. Tudo aconteceu em outubro; a marina tentou explicar.

Assentiu silenciosamente, quando se encontrara com Carite alguns anos atrás, ela lhe falara que Ariel e Sorento haviam tido uma filha, que praticamente fora criada por Thétis e Ekil quando a mãe falecera e a pequena mal passava dos três anos.

O pior foi que um ano depois, Tétis também se foi e as duas garotinhas, Endora e Ariel, se tornaram a força motriz da vida do irmão.

Agora entendia o choque de Ariel ao ver Ekil refletido em si. Mas ele e Ekil eram como água e vinho. E o tempo provou isso de varias formas.

Demétrius e Alézia Sollo eram o casal mais perfeito de Atenas em sua época. A família expandira seus negócios, conquistando os sete mares. Até Alézia ficar grávida, finalmente a família teria o tão esperando herdeiro, mas as coisas não foram um mar de rosas como eles desejavam. Nasceram gêmeos, duas crianças de cabelos flamejantes como os da mãe e olhos azuis como os do pai.

O primeiro varão saudável da família queria dizer sorte e prosperidade. Mas dois... Na época, viviam num mundo regido pelo misticismo, embora os cristãos já tomassem boa parte do mediterrâneo, porém por via das duvidas, os pais não quiseram arriscar.

Embora o outro filho tivesse o sangue dos Sollo correndo nas veias, não poderia permanecer ali, por isso foi mandando a Gales, onde viveu com os primos de último grau de seu pai, que não podiam ter filhos, então não viram problemas em cuidar da criança recém nascida como se fosse deles.

Christian foi criado pelo casal, sem saber quem era, até o dia que Richard, seu pai herdou um ducado na Inglaterra. O duque de Dampier, primo de seu pai, lhe deixou uma infinidade de propriedades e como parente mais próximo, herdou também o titulo.

Os três se mudaram para Londres e Christian tinha seis anos de idade quando uma mulher misteriosa apareceu na casa dos pais. Ela possuía longos cabelos lilases, orbes incrivelmente verdes e uma serenidade impressionante.

-"Eraen"; o jovem duque pensou, lembrando-se fielmente desse dia. O dia que seu destino fora selado.

Imerso em seus pensamentos, mal notou Carite sair do quarto, deixando-o só ali.

Fitou a face da jovem adormecida e viu aos poucos voltar o tom rosado de sua pele. Não pode conter o impulso de afastar os fios negros que caiam sobre seus olhos.

Realmente, parecia um anjo, mas como Rochester falara. Ela tinha a habilidade de lhe levar do céu ao inferno, em questão de segundos.

-Ariel! –ele sussurrou, dando um pesado suspiro.

Como seria agora que ela sabia quem ele era? Ainda sentia o calor de seus lábios e a fragrância de sua pele. Seria um martírio tê-la por perto e não poder tocá-la.

Se ela fora criada quase como filha de Ekil, isso não queria dizer que as coisas teriam de ser iguais com ele, queria? –Christian pensou preocupado. Não se sentia nem um pouco paternalista com aquela jovem, pelo contrario, sentia-se possessivo, mas de uma forma bem mais primitiva.

-o-o-o-o-

Sentia a cabeça pesada e o corpo tenso. Abriu os olhos lentamente ainda se acostumando com a escuridão do cômodo. Será que já era noite mesmo, ou ainda estava sonhando ter acordado? –ela se perguntou.

Conteve um suspiro ao lembrar do que acontecera. Tio Ekil havia morrido; ela pensou enquanto os orbes violeta marejavam.

Porque as Deusas do Destino tinham de fazer isso consigo, sempre às pessoas que mais amava eram tirados de sua vida e como sempre, não podia impedir, por mais que visse; ela pensou amargamente.

-Fique calma, mon age; ouviu alguém sussurrar.

Conteve um estremecimento ao sentir o toque quente de uma mão roçar sua face, entretanto se a intenção era acalmar, teve um efeito retardado. Mesmo no escuro, reconheceu a silhueta do duque, ou Ekil? Já não sabia mais nada do que estava acontecendo.

Entretanto, seu sexto sentido lhe dizia que era impossível ele ser Ekil, por dois motivos. O tio havia morrido e também, nunca... Nem mesmo em seus devaneios de pré-adolescente, ele lhe despertara aquele sentimento tão abrasador quanto Christian.

-Christian; ela sussurrou hesitante.

-Estou aqui com você; o jovem sussurrou. –Pensei que Carite já houvesse lhe contato; ele falou depois de alguns segundos de silêncio.

-...; negou com um aceno, sentindo-se entorpecida quando ele começou a afagar-lhe os cabelos.

-Ekil era meu irmão mais velho e gêmeo, embora nós nunca tenhamos nos conhecido pessoalmente; Christian explicou.

Remexeu-se um pouco, incomodado com a posição que se encontrava sentado no chão e apoiado na beira da cama, para poder falar com ela.

-Vou já ouviu falar do que as famílias, que tem filhos gêmeos fazem, não? –ele indagou cauteloso.

-Escolhem apenas um; ela falou com a voz fraca, mas até mesmo ele pode sentir o tom de indignação em sua voz.

-Ekil era o filho mais velho e por isso, foi escolhido como herdeiro da família Sollo;

-E você? –Ariel indagou.

-Não importa; ele murmurou, desviando o assunto. –Há vários anos atrás nos encontramos em uma situação bastante sádica, por assim dizer;

-Qual?

-Ele como a reencarnação de Posseidon e eu, como um cavaleiro de Athena; Christian respondeu, omitindo uma parte importante que ela ainda não precisava saber.

-Eu achei que havia algo de familiar em você; Ariel sussurrou. –Parece que foi ontem que Endora e eu chegamos para as festas de julho. Foi Merik quem me contou que papai havia morrido, porque tio Ekil não teve coragem. Ele nunca superou a morte de tia Thétis, mesmo tendo continuado a lutar por Endora; ela falou com a voz fraca e embargada.

-Ele era bastante teimoso; Christian falou repetindo as palavras de Carite sobre o irmão.

-É; a jovem falou sorrindo tristemente. –Mas depois do que Afrodite fez, ele não suportou mais. Merik e eu não fomos capazes de ajudá-lo; ela falou soluçando.

-Você não podia fazer nada, ele tinha que se reerguer sozinho; Christian falou segurando sua mão com força.

-Mas foi culpa minha; Ariel gritou. –Se eu na-...;

-Xiiiiii, já passou; Christian sussurrou, abraçando-a fortemente. –Você não pode mudar aquilo que está escrito, apenas fazer diferente; ele falou acariciando-lhe os cabelos. –Ekil parou de lutar, mas você esta aqui e vai continuar tentando;

-Não quero; Ariel falou chorando.

Um raio cruzou o céu e o estrondo de um trovão fez as janelas tremerem. Ouviu o choro da jovem aumentar tal qual a tempestade la fora. Era como se a natureza estivesse se rebelando contra os deuses em favor a jovem.

-Chora, vai aliviar a alma; ele sussurrou, estreitando ainda mais os braços em torno dela.

-x-

.I.

Ultrapassaram um modesto jardim inglês, as ruas eram acinzentadas e classicamente britânicas. Nunca estivera fora de Jamiel antes e era confuso se sentir automaticamente familiar com um lugar totalmente estranho.

-Entre, por favor; Laura falou abrindo a porta da casa.

A fachada da casa era clássica, como todas as outras, mas havia algo de aconchegante ali, ultrapassou a soleira da porta, sentindo-se transportado para um século atrás. A casa era simplesmente deslumbrante com seus traços antigos e suntuosos.

Logo a sua frente, deparou-se com um vestíbulo pequeno, onde ela deixara a mochila que carregava desde quando sentara-se a seu lado naquele banco. Laura acenou, pedindo que ele a acompanhasse.

Poucos passos para fora do vestíbulo viu-se diante de um hall acolhedor e uma grande escada de cedro que levava ao segundo andar. A casa deveria ser bem antiga, pois o teto tanto do vestíbulo quanto do hall eram pintados a mão, com cenas campestres e de varias estações, provavelmente de um período pós renascença.

Deixou os orbes correrem por toda a parte, absorvendo o máximo de informação que podia registrar. Viu pouco mais a frente, abaixo da escada, uma porta, provavelmente que dava para o porão e um corredor que seguia até a cozinha.

Do outro lado viu uma sala de paredes brancas e tão aconchegante quanto o resto. Baixou os olhos até um aparador próximo de si e não conteve a curiosidade ao ver uma pequena estatua de um flautista em prata e na base da estatua, em seus pés, pequenos bichinhos. Mas, aquilo eram ratos? –ele se perguntou, franzindo o cenho.

-A lenda da flauta mágica; Laura falou parando a seu lado. –O flautista capaz de encantar os ratos com sua musica;

-Interessante; ele murmurou, lembrava-se vagamente de já ter ouvido essa e outras tantas fabulas, mas não lembrava de ter sido Shion ou Ilyria a contar sobre isso. Estranho!

-Por favor, por aqui; ela falou seguindo para a sala.

Seguiu-a silenciosamente e prendeu a respiração quando entrou no cômodo, as paredes eram brancas, mas no teto via delicados arabescos em madeira entre as paredes e o teto pintado, os detalhes eram em dourados como as molduras que viram em fotos de castelos e casas muito antigas.

Havia um vaso de flores sob um aparador em cima da lareira e vasos de porcelana espalhados nos cantos da sala, com flores secas e coloridas. Os sofás eram arrumados em U pela sala, com uma mesa de vidro no centro e um tapete bordô para completar o cenário suntuoso.

Tudo tão meticuloso; Mú pensou erguendo os orbes e sentiu um choque percorrer seu corpo, quando seus olhos se detiveram pelo quadro em cima do aparador da lareira.

-Você foi pupilo de Shion de Áries, mas alguma vez ouviu falar sobre Christian Dampier? –Laura indagou sentando-se em um dos sofás e indicando o outro para ele.

-Não; Mú respondeu, ainda olhando o quadro. Onde havia a imagem de um homem, seus traços eram firmes e marcantes, mas com uma suavidade desconcertante para qualquer um que olhasse.

Era como se os penetrantes olhos azuis, pudessem capturar sua alma, os longos cabelos vermelhos caiam sobre os ombros e às roupas clássicas, brancas com bordados dourados faziam um grande contraste com o mar revolto que havia de fundo.

Mas sua atenção foi concentrada na jovem que ocupava uma cadeira ao lado dele, onde ele se apoiava. Seus olhos eram violeta como os de Laura, mas pareciam mais infantis, hesitantes até.

Os traços da face eram delicados e a pele tão alva quanto porcelana. Os lábios eram naturalmente rublos, duvidava que ali houvesse algum traço de maquiagem. Parecia tudo tão natural.

-Christian Dampier foi o Cavaleiro de Gêmeos, uma geração antes da de Shion, embora eles tivessem quase a mesma idade na época em que as guerras começaram; Laura explicou, indicando o quadro. –É difícil não se sentir atraído por ele, Christian transpirava força, mesmo sendo um pouco arrogante;

-Cavaleiro de Gêmeos? –ele falou surpreso.

-Sim; ela falou assentindo.

-E ela? –ele indagou, apontando para a jovem.

-Sua esposa; Laura respondeu com um fino sorriso nos lábios. –Ariel De Siren; ela completou, no momento que ele virou-se em sua direção. –Eu não tenho uma forma fácil de lhe contar os motivos que tenho para querê-lo como mestre...;

-Mas?

Suspirando pesadamente, Laura levantou-se e caminhou até o aparador, ao lado do vaso de hortênsias, havia um livro escuro, capa cor de cobre e folhas douradas. Viu-a pegá-lo com cuidado quase reverente e voltar-se para si.

-Fique a vontade para lê-lo, leve o tempo que quiser; ela falou colocando o livro em suas mãos.

Abaixou os olhos e viu entalhado na capa de couro o símbolo de um tridente dourado.

-Vou fazer um café, prefere puro ou descafeinado? –ela indagou afastando-se.

-Puro; ele limitou-se a responder, enquanto colocava o livro sobre o colo.

Lançou um olhar indagador ao quadro, como se esperasse que Christian ou Ariel fossem saltar dali para lhe responder todas as perguntas que tinha, mas como nada aconteceu, suspirou pesadamente e abriu o livro.

.: O Coração do Oceano :.

Por L. A. Sollo.

Pelo visto seria uma longa leitura; ele pensou recostando-se no sofá, ouvindo os passos da jovem afastarem-se pelo assoalho de madeira, rumo a cozinha.

.: História Dentro da História – A dor de cada coração :.

Não soube quanto tempo mais permaneceu ali sentado, apenas velando-lhe o sono. Mesmo dentro daquele cômodo escuro conseguia distinguir os traços delicados da jovem.

Tão serenos quanto um anjo. Suspirou pesadamente, Carite lhes pregada uma bela peça, porque simplesmente não lhe dissera antes que a jovem era filha de Sorento?

A primeira vez que tomou conhecimento da história do casal, ninguém lhe dissera que eles haviam tido uma filha, mas talvez tenha sido essa a intenção. Se a noticia se espalhasse Afrodite voltaria a agir. Será que a deusa não se dera por satisfeita? Ou continuaria a jogar sua ira sobre a jovem inocente?

Conteve um suspiro, enquanto se levantava. Era melhor deixá-la descansar sozinha, quando Ariel acordasse voltariam a conversar. É, aquela temporada iria ser interessante.

Ariel definitivamente não era como as outras mulheres e pelo que entendera, também era uma general marina. Em outros tempos, estariam evidentemente em lados opostos, mas agora...

A sereia dourada era seu guardião, sem duvidas aquela jovem de olhos cintilantes poderia ser a mais letal das nereidas e não duvidava que ela já soubesse disso.

Deixou o cômodo agradecendo aos céus por não encontrar ninguém no caminho, bisbilhotando. Embora essa não fosse à hora de pensar nisso. Detestaria que alguém saísse por ai comentando sobre tê-lo visto sozinho no quarto com a jovem por tanto tempo. Essas convenções eram tão cansativas.

-x-

.II.

Voltou à sala pouco mais de quinze minutos depois e o encontrou com um olhar vidrado no livro, enquanto virava as paginas como cuidado e agilidade.

Colocou a bandeja com as xícaras de café sobre a mesa de centro e notou que ele mal piscara ou desviara os olhos do livro. Franziu o cenho, enquanto sentava-se.

Era como se ele houvesse se fechado para o resto do mundo e todas as suas atenções e sentidos estivessem voltados para o livro.

-"Nem mesmo as visões foram capazes de me preparar para encontrá-lo cavaleiro"; Laura pensou, acomodando-se no sofá novamente.

Ainda se lembrava de um dia estar passeando por Londres e ter tido uma visão, isso não era algo muito normal, já que há muito tempo essas coisas não aconteciam.

Mas naquele dia, viu-se transportada para um lugar isolado do mundo, com frondosas árvores por toda a parte, imponentes cachoeiras e bosques intocados pelo homem.

Foi quando o viu, um garoto com um pouco mais de onze anos meditando em frente a uma cachoeira, longos cabelos lilases e uma face serena, embora não pudesse ver a cor de seus olhos. Isso poderia não querer dizer nada, mas suas visões lhe levaram para mais longe, anos talvez...

Viu um diamante azul, como as águas do mar antes da tempestade. Laminas de tarô surgiram em sua visão, primeiro o Mago, a Papisa, a Imperatriz e por último o Imperador. Nesse momento teve certeza de que seus caminhos estavam ligados e isso era fato irrevogável, mas encontrá-lo não foi uma tarefa fácil. Não quando as visões haviam parado.

Levou bons anos procurando-o, até decidir retornar a Atenas há pouco mais de dois meses atrás e o vi, o mais novo cavaleiro da ordem de Athena. Uma feliz ironia, já que ele não iria permanecer muito tempo no santuário, às visões lhe mostraram imagens embaçadas de algo que não cabia a si impedir, mas apenas ficar de prontidão esperando o momento que deveria entrar em cena.

Por isso estava ali agora...

Foi tirada de seus pensamentos no momento que ouviu o livro se fechar, tão rápido? –indagou-se surpresa.

Voltou-se para o cavaleiro e viu os orbes verdes adquirirem um brilho gelado, indecifrável.

-Terminei; Mú respondeu, antes que ela indagasse.

-Entende, porque não havia uma forma mais fácil de explicar? –Laura perguntou, cruzando as pernas elegantemente e acomodando-se melhor no sofá.

-Sim, mas aonde eu entro nessa? –o ariano perguntou colocando o livro sobre a mesa de vidro e pegando a xícara de café.

-Essa parte já é um pouco mais fácil de explicar; a jovem respondeu com um sorriso enigmático nos lábios.

-x-

.: História Dentro da História – Pequena Dama :.

Sentou-se confortavelmente na manta fina, queira ficar um pouco sozinha e descobriu que naquele parque poderia encontrar tranqüilidade.

Deixou os orbes correrem ao seu redor observando a paisagem, embora pela manhã o céu de Londres fosse cinza. O verde das árvores e o colorido das roupas tornavam aquilo tudo até que agradável.

Já haviam se passado três dias desde o ocorrido com Christian. O duque ainda fora lhe visitar mais duas vezes, das quais uma estava dormindo. Tinha a leve impressão de que a tia lhe dera absinto para tomar com o chá, o que lhe obrigou a ficar na cama mesmo contra sua vontade.

Mas não podia negar que isso anestesiou seus nervos para a conversa que teve com Christian. Estremeceu sentindo um arrepio correr pelas costas.

Apesar de convencido e arrogante, não poderia negar que o duque fosse um homem fascinante. Quando seus olhares se encontraram no baile, sentiu isso, mesmo tendo ficando irritada logo em seguida.

O piro de tudo era não ter consigo falar direito com Christian quando ele lhe visitou na segunda manhã que estava acordada. Carite ficou a seu lado que nem um dois de paus e por mais que adorasse a tia, certas coisas não eram para os ouvidos dela.

Mas a questão era que, mesmo Christian se parecendo com Ekil, não era ele. Zeus sabe que ela não mentiria com relação a isso e Christian era tão... Ruivo! É, poderia parecer estranho, mas nunca havia reparado muito nos cabelos do tio. Já em Christian aquele vermelho intenso ressaltava ainda mais os traços aristocráticos do duque.

Ele parecia ser um arrogante, mas também era um belo espécime de Deus Grego.

Conteve um suspiro, enquanto tirava a flauta do estojo a seu lado. Quando Ekil lhe contara a verdade sobre a morte dos pais, lhe deu aquela flauta. Um instrumento de siringe banhado a ouro aonde na ponta fora entalhada a palavra "Sirene".

O tio havia dito que aquela flauta pertencera a seu pai há muito, muito tempo atrás, mas que das outras vezes Sorento não havia tido nenhum filho para deixar a lembrança.

Levou-a aos lábios e deu o primeiro sopro, aos poucos à melodia suave foi ganhando intensidade, sendo levada pelo vento e atraindo a atenção de mais pessoas que passeavam ali.

Com os olhos fechados, deixou seus sentimentos lhe guiarem e dessem harmonia as notas que eram extraídas pelo sopro.

-o-o-o-o-o-

Entrou no parque quase correndo, aquela garota ainda iria lhe deixar com cabelos brancos antes do tempo.

Fora visitá-la pela manhã e qual não foi sua surpresa quando a governanta dissera que ela fora sozinha caminhar no parque.

Em Atenas ela poderia estar acostumada a sair sozinha, mesmo porque, lá praticamente todos se conheciam, mas Londres era bem diferente.

Viu um amontoado de pessoas em baixo de uma árvore e sentiu seu sangue gelar, aproximou-se preocupado, quando notou uma suave melodia vinda dali. Por um momento estancou onde estava. Sentindo a mente turvar.

A melodia fez um eco em seus ouvidos, tornando-se algo mais lento e convidativo. Será que ele era o único a estar se sentindo daquele jeito? –Christian se perguntou.

-Vossa Graça veio ouvir a pequena dama tocar? –um senhor pouco mais velho do que ele indagou, se aproximando.

-Ahn! Sim... Como vai sir? -ele indagou fazendo uma breve mesura ao reconhecer o escritor.

-Bem, muito bem; Arthur respondeu antes de voltar os olhos para a jovem. –Uma flor rara, não?

-Sem duvidas; Christian murmurou.

Observou-a com ar impassível, mascarando suas verdadeiras emoções, tão conflitantes. As mãos seguravam a flauta com incrível delicadeza. Os dedos finos hora saltavam, hora tapavam alguma cavidade por onde saia o sopro.

Abaixou os olhos, reparando no vestido azul claro que ela usava, vendo-o cair sobre a manta como se o pequeno anjo estivesse sentado sobre uma nuvem.

Mal notou a melodia chegar ao fim, tão pouco o murmúrio das pessoas. Sentiu-se tragado para o meio de um mar revolto quando ela abriu os olhos justamente em sua direção. Os longos cílios se afastaram com graciosidade e o violeta dos olhos parecia ainda mais intenso.

-Perdoe-me Vossa Graça, mas conhece a dama? –Arthur indagou curioso diante do olhar nada discreto dele sobre a jovem.

-Lady De Siren, chegou a pouco mais de três dias a Londres com a tia, Carite a pianista; ele explicou distraído.

-Ah si; Doyle murmurou pensativo. –Vê-se que é uma jovem muito graciosa; ele falou chamando-lhe a atenção. –Pena que em minha juventude não tenha conhecido alguém como ela;

-Você não é tão velho assim Arthur; Christian brincou.

-Não, mas não tenho idade para competir com rapazes como você e aquele ali; o escritor falou indicando um jovem de longas melenas douradas que se aproximava.

Se não estivesse enganado, aquele era o mesmo que dançara com ela no baile; Christian pensou irritado, sentindo o sangue ferver.

-o-o-o-o-o-

-Mas que feliz coincidência? –Rafaelle falou sorrindo ao se aproximar. –Bom dia milady!

-Bom dia, milorde; Ariel respondeu com um sorriso simpático, enquanto guardava a flauta no estojo.

-Estava caminhando no parque quando ouvi a canção e resolvi parar; Rafaelle falou fitando-a serenamente.

-Enquanto minha tia prefere os conservatórios, eu gosto de lugares mais arejados, o som se propaga melhor; ela respondeu.

-Milady toca muito bem; ele elogiou.

-Ariel!

-Uhn? –Rafaelle murmurou.

-Só Ariel, detesto essas formalidades inglesas; ela falou torcendo o nariz e ele não pode evitar de rir com o comentário.

-Milady é uma pessoa única; Rafaelle falou, mas parou vendo-a arquear levemente a sobrancelha. - Ariel;

-Melhor assim; a jovem respondeu retribuindo o sorriso que ele lhe lançou. –Em Atenas não tínhamos tanta formalidade, lá todos se conhecem, já aqui é tudo tão cheio de frescura. É Vossa Graça para isso, Vossa Alteza para aquilo, Eminência para não sei quem. Puff! Eu particularmente acho isso patético;

-A vida seria tão mais fácil se não tivéssemos isso; Rafaelle comentou, com um olhar vago.

Era tão fácil conversar com ela e ser tratado apenas como um homem e não julgado por sua coroa.

-Ahn! Você por acaso, não gostaria de ir comigo a delicatesen ali em frente, tomar um chá? –o italiano indagou hesitante, indicando-lhe o estabelecimento.

-Mas é claro qu-...;

-Não! –a voz de Christian a assustou.

Engoliu em seco a virar-se para trás e constatar que o duque era tão bonito de dia quanto à noite e pior, a luz da manha sobre as longas melenas vermelhas apenas potencializavam aquilo. Isso estava indo longe demais; ela pensou.

-Carite pediu que a levasse de volta para a casa; o duque falou, mantendo seus olhos sobre o outro rapaz, como se o avisasse silenciosamente de que não tentasse nada indecoroso, ou teria sérios problemas. –Alem do mais, não é certo uma dama sair sem uma acompanhante;

-Se o cavalheiro não percebeu, Ariel não esta sozinha; Rafaelle falou com os orbes serrados de maneira perigosa.

-E quem é você? –Christian perguntou em tom de desafio.

-Rafaelle Cardelli, e o senhor? –o italiano indagou, ignorando a ameaça velada.

-Dampier. Christian Dampier; o duque falou, enfatizando o sobrenome.

-E então, minha querida, aceita me convite? –Rafaelle perguntou, ignorando-o abertamente quando voltou-se para Ariel, esperando uma resposta da jovem.

-Sim!

-Não! - Christian falou veemente.

Voltou-se para o cavaleiro confusa, não tinha lógica aquela cena de Christian, a menos que ele tivesse um bom motivo para estar assim; ela pensou preocupada.

-Aconteceu alguma coisa com minha tia? –Ariel perguntou, enquanto Rafaelle se levantava e lhe estendia a mão cordialmente.

-Não, Carite esta bem; ele respondeu franzindo o cenho quando viu o italiano recolher as coisas que ela deixara e chamar um valete, que veio sabe-se lá de onde para carregá-las.

-Pegou fogo em casa? –Ariel insistiu em saber, mas quase suspirou aliviada quando ele negou com um aceno, até que. –Morreu alguém então?

-Não; Christian falou confuso.

Suspirou exasperada, se ninguém morreu, não pegou fogo na casa e a tia estava bem, definitivamente não entendia mais nada; ela pensou aborrecida.

-Então Carite pode esperar um pouco; ela falou ao voltar-se sorrindo para Rafaelle indicando que aceitara o convite.

-Mas...; Christian pretendia contestar quando ela continuou.

-Quanto a essas frescuras da sociedade, quero dizer... Convenções; Ariel se corrigiu com um sorriso que estava longe de ser inocente. –Não me importo, em vez dessas pessoas ficarem metendo o nariz aonde não são chamados, deveriam fazer algo de útil. Alem do mais Rafe não é nenhum Jack Estripador, com que eu tenha que me preocupar; ela completou, deixando Christian, Arthur e o próprio Rafaelle assombrados, para não dizer chocados com aquilo.

-Ariel, espere-...;

-Então, até mais Vossa Graça; ela falou aceitando o braço que Rafaelle lhe estendia e acenando para o duque antes de se afastar.

Não sabia ao certo o porquê, mas sentia medo daquilo que começara a sentir por Christian desde a noite do baile, a perspectiva de não voltar a vê-lo fora um tempero a mais, ou como diriam alguns cientistas, aquela era a magia da endorfina e adrenalina. Mas agora, frente a frente, estava assustada. Jamais viera a sentir isso por alguém antes. Ou melhor, ninguém lhe chamara a atenção o suficiente antes.

-Esta tudo bem? –Rafaelle perguntou notando-a silenciosa, enquanto atravessavam o parque.

-Sim; ela respondeu sorrindo, espantando os pensamentos de sua mente.

Rafe era um bom amigo e alguém que em sua presença, poderia ser ela mesma, sem paradigmas, sem convenções e acima de tudo, sem aquelas frescuras que lhe davam nos nervos.

-o-o-o-o-o-

Viu-a se afastar e tentou conter a decepção, mas a mesma estampou-se com facilidade em sua face, ao vê-la simplesmente ir com aquele almofadinha lhe deu uma estranha sensação de perda e traição.

-Meu querido, um conselho de amigo; Arthur que a tudo observava falou se aproximando. - Aquela dama é como uma ave do paraíso, esplendida quando pode voar e cantar livremente, mas ao ser cativa... Aos poucos perde o brilho até perecer. Mas como qualquer um, busca apoio naqueles que lhe transmitem segurança;

-Mas...;

-Aquele rapaz nada mais é do que um porto seguro, na hora certa. Se quiser realmente conquistá-la, terá de confiar no tempo; o escritor explicou antes de se despedir.

Assentiu silenciosamente, dos espectadores ele era o único a estar ali. Poderia parecer egoísmo, nem sabia quando aquilo havia começado, na noite do baile, no dia seguinte, ou nos últimos três dias. Mas a queria a seu lado, queria aquela sensação de plenitude e vida que só sentia ao lado dela, mas com aquele garoto por perto ia ser difícil; ele pensou preocupado.

Continua...