O ENIGMA DA SIRENE

By DAMA 9


Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Ariel, Rafaelle, Christian, Carite e Laura são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.


n/a: Este é um trabalho de fã para fã sem fins lucrativos.


Boa leitura!


Capitulo 6: O Enamorado.

Um fino sorriso formou-se em seus lábios quando virou a sexta carta, voltou-se para a jovem de melenas vermelhas que ocupava a cadeira a sua frente e os orbes rosados cintilaram de maneira travessa.

-Não me olhe com essa cara; Jéssica falou cruzando os braços na frente do corpo, enquanto recostava-se melhor na cadeira.

-Bastante conveniente; Laura brincou, lançando um rápido olhar por sobre o ombro da jovem, onde podia ver o corredor que levava a sala principal.

Mesmo que não pudessem vê-lo, ambas sabiam que não estavam sozinhas ali.

-Só estou aqui porque você parecia a ponto de matar alguém quando liguei; a jovem respondeu, levando a xícara de café aos lábios. –Pensei que Mú estivesse com você e não em Asgard;

-Ele foi... Não podia impedi-lo; Laura falou baixando os olhos para a lamina que tinha em mãos, enquanto batia a pontinha dela sob a mesa. –Não posso protegê-lo do mundo; ela balbuciou.

-Não, não pode... Mas isso não muda o fato de você se preocupar com ele; Jéssica falou seria. –Isso não é ruim, enquanto você não ficar sofrendo antecipadamente;

-...; a jovem assentiu. –Sabe o que significa? –ela indagou virando a lamina para a amazona, onde ela podia ver a imagem de um casal com expressão apaixonada.

-O Enamorado; Jéssica falou. –Faz tempo que não vejo essa lamina, é curioso isso, porque me faz lembrar de algo; ela falou com um fino sorriso nos lábios.

-O que? –Laura perguntou, deixando a carta de lado e pegando sua xícara de café.

-Você e Mú, sempre foram amigos... Alias, amigos acima de tudo, mas algumas pessoas ainda insistem em vê-los como um casal; Jéssica falou.

-Sempre foi assim; a jovem falou pensativa. –Desde o começo era para ser dessa forma;

-Por quê? Poderia muito bem ter sido diferente; Jéssica rebateu, num tom levemente irônico. –Todos nós sabemos que nenhum de vocês dois acredita em destino, muito menos em seus desígnios;

-Não é destino, é apenas... Algo que tem que acontecer; Laura respondeu. –Como diria o Abas, o que está escrito, está escrito;

-...; Jéssica assentiu.

-Mas os Amantes, ou Dois Caminhos, como podemos chamar essa lamina, nem sempre quer dizer romances ou paixões avassaladoras; a jovem ressaltou. -Ela também significa conflitos íntimos gerados pela natureza dupla do homem, representa a eterna luta entre a razão e a paixão, seja ela entre um homem e uma mulher, ou entre uma pessoa e seus objetivos. Enfim, também é a lamina que representa a lealdade, o espírito guerreiro e a fertilidade; Jéssica ressaltou.

-E ela não precisa estar invertida para representar o prenuncio de um novo começo, cheio de novas experiências; Laura completou.

-É uma lamina interessante, embora a minha predileta seja A Lua; ela falou sorrindo.

-Acho que todos têm uma carta pessoal; a jovem comentou. –Até mesmo seu amigo que resolveu se esconder entre as sombras; ela completou com um sorriso matreiro, vendo a amazona imediatamente virar-se para trás e viu das sombras a imagem de um homem tomar formas.

-Aidan; Jéssica falou pausadamente, vendo o vampiro se aproximar com um sorriso despreocupado.

-Boa noite; ele falou cumprimentando-as.

-Boa noite; Laura respondeu, acenando para ele ocupar a cadeira ao lado da jovem de melenas vermelhas.

-Já teve noticias de seu amigo? –Aidan indagou para Laura.

-Ele esta bem agora; Laura respondeu com um fraco sorriso.

-Se quiser, posso ir até lá e dar uma checada nas coisas; ele sugeriu casualmente.

-Não; as duas falaram ao mesmo tempo.

-Uhn? –ele murmurou arqueando a sobrancelha.

-Não é necessário; Laura adiantou-se, sabendo muito bem quais os motivos para a jovem a sua frente não querer que o vampiro fosse a Asgard. –Alem do mais, Dohko e Aaron já estão de sobreaviso. Se algo aconteceu eu mesma vou até lá;

-Mesmo assim...;

-Está tubo bem Aidan; Jéssica falou tentando tranqüilizá-lo, as coisas em Asgard estavam agitadas demais para aparecerem sem um motivo aparente. -Aaron esta com Aldebaran, Kanon e Milo lá, se algo acontecer pelo menos um deles irá entrar em contato com o santuário e nós saberemos; ela respondeu calmamente.

-Kanon? –ele falou com os orbes serrados.

-Ahn! Veja bem...; Laura balbuciou, vendo o olhar entrecortado que o casal trocava. Nunca vira um vampiro com ciúmes, mas não podia negar que era uma experiência bastante interessante.

-Aidan; Jéssica falou em tom de aviso. Não iria ficar discutindo com ele sobre isso de novo. Porque ele simplesmente não podia entender que ela e Kanon seguiam caminhos diferentes agora? Mas não, tinha que ficar desenterrando defunto!

-Tudo bem! Não vou falar nada; o vampiro resmungou desviando o olhar e cruzando os braços na frente do corpo de maneira irritadiça. –Mas não espere que eu acredite nessa conversa de que você passou uma noite intera com ele, conversando; ele completou entre dentes.

Segundos depois ouviram um baque seco vindo da entrada, Laura levantou-se rapidamente, pedindo licença para ir averiguar, mas não levou nem cinco minutos para voltar com uma expressão seria.

-Não era nada, acho que o vento bateu alguma janela; ela falou.

-Laura; Jéssica começou.

-É melhor não tentar explicar; a jovem falou dando um pesado suspiro. –Uma hora ou outra ela vai ter de aprender a lidar com os próprios sentimentos;

-Viu o que você fez? –a jovem de melenas vermelhas exasperou ao voltar-se furiosa para o vampiro.

-Hei! Eu, não-...; Aidan parou engolindo em seco diante daquele olhar que ele bem conhecia o significado.

-Laura, se precisar de algo estarei em Paris, não deixe de me contatar quando tiver noticias; a amazona falou levantando-se.

-Jéssica; Aidan falou seguindo-a, mas deteve-se ao ouvir a voz de Laura.

-Aidan!

-Sim; ele falou voltando-se para ela com um olhar de pesar.

-Tome, talvez você precise disso; Laura completou lançando-lhe a carta que acabara de tombar. –E tente ser menos exagerado nos próximos surtos, Jéssica sempre detestou muito barulho para pouca coisa; ela completou com um fino sorriso nos lábios.

-Mas...;

-Celina vai ficar bem, agora vá atrás dela. Já é noite e as ruas não são muito seguras para se andar sozinha; ela completou acenando levemente, de forma a dispensá-lo.

Sem esperar mais o vampiro saiu, indo atrás da jovem que certamente, passaria um bom tempo o gelando pelo que acontecera, se não fizesse algo pior, como ignorá-lo completamente.

Observou os dois partirem e logo a porta da frente fechou-se, suspirou, apoiando o braço sobre a mesa e a cabeça de lado sob a mão. Ah! Esses dois... Só ela não percebia o que o vampiro realmente sentia, Jéssica vivia dizendo que eles eram apenas amigos e que ela não passava de uma cópia barata de Kara Van Helsing, por isso Aidan estava sempre por perto, mas não precisava ser um gênio para saber que as coisas eram bem diferentes.

Que doce ironia! E pensar que aquela carta também tivera uma grande importância em sua vida, alias, na sua e na de tantas outras pessoas, sem que eles nem ao menos notassem isso.

-x-

.I.

Os orbes verdes tinham um brilho incomum quando vistos de perto, embora se, se permitisse mergulhar naquelas íris intensas pudesse notar a chama que ardia em seu interior, a chama de um potencial que até mesmo ele desconhecia.

Mú era o único cavaleiro capaz de lhe dar aquilo que precisava, não apenas pela telecinese, mas... Seus caminhos deviam se cruzar e não deixaria que as coisas ocorressem de outra forma.

-Só dois anos; ela repetiu, chamando-lhe a atenção.

-Eu aceito; o cavaleiro falou depois de alguns minutos de silêncio.

-Como? –Laura indagou, pensando se ouvira realmente certo.

-Eu disse que aceito! Dois anos, nem mais, nem menos; o ariano completou fitando-a com um olhar intenso.

-Feito; a jovem falou estendendo-lhe a mão.

Pensou que ele fosse hesitar, sentiu isso por alguns segundos, talvez fosse uma premonição de que ele ainda estivesse inseguro quanto a sua própria capacidade, mas conteve um breve estremecimento quando sentiu a mão quente do cavaleiro fechar-se sobre a sua. Forte, confiante e poderosa.

-Feito; ele repetiu.

-Se importa de começarmos a treinar apenas no começo da semana? –Laura perguntou enquanto afastava-se de maneira cautelosa, alguma coisa mudara naqueles poucos segundos em que ele mergulhara em seus próprios pensamentos, queria poder entrar em sua mente e descobrir, mas não tinha poder para tanto ainda.

-Meu tempo é seu pelos próximos 730 dias, a forma como vai gastá-los só depende de você; Mú falou eloqüente.

-Certo; Laura respondeu com um fino sorriso nos lábios. –Espero que não se importe, mas tomei algumas liberdades quanto a sua estadia aqui em Londres; ela falou seguindo em direção a escadaria de cedro.

-Como? –ele perguntou arqueando a sobrancelha.

-Pensei que você não fosse querer retornar por um tempo a Jamiel e já que estaremos treinando em breve...; Laura falou deixando a questão pairar no ar.

Começou a subir as escadas e acenou para que ele a seguisse. Sem outra alternativa o cavaleiro foi, não parecendo muito contente com as frases interrompidas e as incógnitas lançadas pela jovem.

-Um amigo tem uma casa longe de Jamiel, do Santuário e de Londres, ele disse que podemos usar o lugar para o treinamento; Laura falou virando em um corredor e abrindo uma porta de madeira antiga e entalhada.

Afastou-se para lhe dar passagem e disfarçou um sorriso ao vê-lo hesitar ao entrar. Ele era forte, decidido, porém ainda tinha medo de enfrentar o que o desconhecido poderia lhe oferecer, mas em breve isso iria mudar. Ah! Se iria...

Observou o quarto com atenção, às paredes eram pintadas de um verde bem claro, o teto branco refletia os últimos raios dourados de sol que já desapareciam com a chegada da noite.

Em um canto viu uma cama de casal grande o suficiente para ser ocupado até por mais de duas pessoas, uma colcha de cetim negro moldava-se ao colchão com extrema suavidade.

Os moveis eram de mogno escuro, na outra extremidade do cômodo estava uma cômoda e a seu lado uma pequena estante com livros. De onde estava pode notar uma porta em frente à cama, possivelmente de algum armário.

Entretanto não pode negar a forma como tudo ali parecia convidativo, caloroso e aconchegante. Estranho como poderia sentir isso num lugar totalmente desconhecido.

-Espero que goste, não vamos passar muito tempo aqui, mas quero que fique a vontade nesse meio tempo; Laura falou passando por ele e abrindo a porta que ele vira fechada.

Aproximou-se com cautela e surpreendeu-se ao ver o armário com varia peças de roupa masculina, todas ainda com etiquetas e bem organizadas. Franziu o cenho e voltou-se para ela com um olhar confuso, as peças seguiam em tons escuros em sua maioria. Azul, verde, bordô e preto, porém só umas duas ou três peças brancas, em sua maioria camisas.

-Digamos que minha intuição sussurrou que você não gosta de bege, nem de branco; Laura falou com um sorriso travesso.

-O que significa nisso? –ele perguntou em tom serio.

-Roupas, sabe... Aquelas peças que a gente usa no corpo para não ter de andar nu por ai; ela falou em tom de provocação, ouvindo-o bufar.

-Eu sei o que são roupas, o que eu quero dizer é-...;

-Be cold honey; a jovem falou erguendo as mãos em sinal de paz. –Considere isso apenas como um presente;

-Não posso aceitar; Mú falou afastando-se e fechando a porta em seguida.

-Mú, deixe de ser orgulhoso; ela exasperou.

-Eu aceitei treiná-la por dois anos, mas não vamos fazer isso se você não colaborar; o ariano exasperou aproximando-se da janela de forma que colocasse uma grande distancia entre eles.

-Olha, não tem problema se você realmente gostar de bege, só achei que bege é um pouco insosso pra você que fica tão bem com cores mais intensas; Laura falou casualmente.

-Você não entende; ele falou balançando a cabeça para os lados, com ar de desalento.

-Sei que você ainda não pode confiar em mim; Laura falou aproximando-se e apoiando a mão sobre o ombro dele. –Mas me permita ser sua amiga, pelo menos por esses dois anos;

-As coisas não são assim tão fáceis, nem acontecem num estalar de dedos; o ariano falou, vendo as luzes acenderem-se na rua e os carros aos poucos deixarem de trafegar.

-Podemos tudo aquilo que queremos Mú; Laura falou. –Basta apenas se permitir a isso... Sei que tem medo daquilo que desconhece, você não é o único; a jovem falou sentindo-o ficar tenso. –Eu já enfrentei isso tantas vezes, que hoje não sinto tanto e simplesmente deixo acontecer, mas cada um tem seu tempo, não quero pressioná-lo, mas se tem algo que queira me dizer, esse é um bom momento; ela completou, afastando-se e indo sentar-se na beira da cama.

-Eu gostaria de ter certeza de que ao termino de dois anos, vou ser capaz de ensiná-la o que precisa. Que posso realmente fazer isso, mas não sei; ele sussurrou, apoiando a cabeça no vidro. –Mestre Shion poderia fazer isso sem problemas, mas não sou ele;

-Não, você é você; Laura falou sentindo uma onda de melancolia a envolver, como se estivesse totalmente conectada as emoções dele. –E ele não esta mais aqui entre nós;

-Você já viu muitas coisas do mundo, então me responde, o que separa os bons dos maus e porque alguém como mestre Shion teve de morrer, enquanto um bastardo filho da mãe como o Ares ainda esta vivo? –Mú exasperou, voltando-se para ela com os olhos vermelhos e úmidos.

-Eu também não sei; ela sussurrou. –Pessoas boas existem para que outras pessoas boas não percam a fé;

-E pessoas ruins? –ele indagou.

-Apenas não acharam a própria luz ainda; Laura respondeu, vendo o olhar confuso dele. –A escuridão é apenas a ausência de luz. Não existem trevas apenas porque alguém disse que assim deveria ser. Elas existem porque a luz ainda não pode chegar até lá, mas quando puder, certamente será algo iluminado;

-Queria ser tão positivo assim; Mú falou com um fraco sorriso, apoiando-se na parede de lado, enquanto os orbes perdiam-se lá fora.

-Não é questão de ser positivo e sim, de encarar o que vier e de onde vier com força, agarrar as oportunidades com as duas mãos e manter os pés no chão quando for preciso; a jovem falou. –Existem coisas que podemos mudar e existem coisas que devemos deixar acontecer;

-Não acredito em destino; ele falou em tom frio.

-Isso não é destino; Laura respondeu.

-Não? –ele indagou confuso.

-...; a jovem negou com um aceno. –As coisas que devem acontecer, são partes de uma infinidade de escolhas feitas por pessoas que mesmo inconscientemente, escolhem um determinado rumo, que pode levar muito tempo para ser compreendido. As coisas têm de acontecer por serem resultado disso, mas não quer dizer que seja algo pré-determinado, isso pode mudar ao longo do caminho ou não;

-Pensei que a maioria das pessoas atribuísse isso ao destino; o cavaleiro comentou.

-Não, mesmo porque, você pode mudar o seu destino, mas não pode mudar sempre o destino dos outros, porque cada um têm de viver a sua parte, o seu momento e construir seu próprio caminho; a jovem falou, dando um baixo suspiro.

-O que faz de nós mortais? O destino ou a coincidência? –o ariano indagou.

-A necessidade; ela rebateu com um sorriso travesso nos lábios. –Se fossemos deuses, seriamos acomodados, tendo uma imortalidade inteira pela frente de nada pra fazer. Mas como mortais temos a chance de evoluir constantemente e de sempre ter o poder em nossas mãos de escolher nossos caminhos;

-Tem razão; ele murmurou, dando-se por vencido.

-Ares foi um idiota; Laura falou em tom serio. –Mas o destino dele estava selado bem antes das coisas acontecerem;

-Mas você disse que não acreditava em destino; Mú rebateu.

-Eu disse que ele possui suas falhas e nunca disse que não acreditava, apenas que ele poderia ser facilmente mudado; a jovem o corrigiu sagazmente.

-Você é tão contraditória; ele falou afastando-se da janela e indo sentar-se ao lado dela.

-Mal do signo; Laura respondeu sorrindo. –Não é fácil ser canceriana, acredite... Sou o signo mais complexo do zodíaco e não acho isso nada legal;

-Espero somente que você não seja como um canceriano que eu conheço, que na maioria das vezes da vontade de esganar quando ele abre a boca; Mú respondeu, passando a mão levemente pelos cabelos.

-Existem cancerianos e cancerianos; ela falou pausadamente.

-Qual a diferença?

-Bem, digamos que nesse caso a história seja longa; Laura desconversou. –Mas é melhor descansar um pouco, imagino que você não tenha comido nada, ainda?

-...; ele negou com um aceno.

-Porque não aproveita pra tomar um banho, vou arrumar alguma coisa pra comermos e conversamos mais depois; a jovem falou se levantando, mas mal deu um passo sentiu a mão dele fechar-se de maneira suave sobre seu braço.

-Laura;

-Uhn! –ela murmurou virando-se para trás, surpreendeu-se ao ver o olhar controlado e calmo novamente do cavaleiro, bem diferente de segundos atrás.

-Desculpe, eu não...; ele falou dando um pesado suspiro. –Não costumo perder o controle daquele jeito e-...;

-Você vem passando por muita pressão nos últimos dias também; a jovem falou interrompendo-o. - E não há problemas em se expressar o que sente... Ninguém pode viver alheio aos sentimentos Mú, nem mesmo blocos de gelo;

-Mesmo assim, eu-...; o cavaleiro parou arregalando os olhos surpresos no momento que sentiu os braços delicados da jovem lhe envolverem em um abraço carinhoso.

-Às vezes a gente só precisa de um abraço amigo e desabafar; Laura sussurrou, sentindo os últimos resquícios de resistência e tensão se esvaírem. –Ninguém pode carregar o peso do mundo nas costas Mú; ela sussurrou, afagando-lhe os cabelos carinhosamente, enquanto sentia-o retribuir o abraço de maneiras desconcertada. –Somos apenas seres humanos, temos nossa força, que se multiplica ao ser compartilhada, mas mesmo que fossemos deuses, não poderíamos abraçar o mundo, temos que nos contentar em fazer o que é possível com o que temos;

-...; ele assentiu silenciosamente.

Tudo parecia tão certo, algo que há muito tempo estivesse ali, esperando para acontecer. Muitas coisas ainda aconteceriam em sua vida, às mudanças estavam apenas começando.

.: Historia Dentro da História – O Plano :.

-Christian, pare com isso; Ariel exasperou, enquanto era literalmente arrastada pelo duque, até um coche de aluguel.

-Não vou deixar você sair sozinha por ai nesse estado; ele respondeu, abrindo a porta e ajudando-a a subir, mesmo a contra gosto.

-Você esta fazendo alarde por nada; ela resmungou sentando-se o mais afastado possível dele.

-Por nada? E você espera que eu finja que não vi o que aconteceu no parque também? –o duque indagou sarcástico, mas parou vendo-a empalidecer. –O que esta acontecendo Ariel? –ele perguntou em tom conciliador.

-É melhor você não saber, Christian; a jovem sussurrou, voltando-se para a janela. –Enquanto você não se envolver nisso, ela não poderá feri-lo;

-De quem esta falando? –ele indagou aproximando-se de forma que ela não teve mais como recuar, embora tenha encolhido-se um pouco ao sentir a coxa dele roçando levemente a sua.

-Você conhece a história de meus pais; Ariel falou, segurando fortemente a flauta entre as mãos. –Sabe o que Afrodite fez para separá-los;

-...; ele assentiu.

-Todas as outras vezes eles nunca chegaram a ficar juntos. Dessa vez, os planos de Afrodite tiveram falhas e meus pais chegaram a se casar e eu nasci; Ariel respondeu com os orbes rasos de lágrimas. –Ela conseguiu tirá-los de mim e não vai desistir dessa insanidade, prova disso foi o que você viu no parque;

-Mas você não fez nada, tão pouco seus pais; Christian exasperou.

-Diga isso aquela idiota, se conseguir; ela falou com um fraco sorriso. –Não vou deixar que mais ninguém se machuque por causa das sandices dela, Christian. Nem que para isso eu mesma tenha que acabar com Afrodite;

-Isso é muito perigoso Ariel; ele falou preocupado, vendo o tom convicto e solene com que ela proferiu tais palavras.

-Estou disposta a jogar contra o destino e vencer; Ariel falou voltando-se para ele com um brilho intenso nos orbes violeta. –Tio Ekil disse uma vez que Hades, Harmonia e Apolo conseguiram mudar o destino de meus pais encontrando uma brecha nos desígnios de Caos. Dessa vez eu não quero brechas, quero reescrever a história; ela afirmou.

-Mesmo assim, existem limitações; ele falou preocupado.

-Não estou pedindo que se envolva nisso, alias, será melhor você não se envolver nisso; ela ressaltou.

-Acha mesmo que vou me fingir de cego para o perigo que esta correndo? –o jovem exasperou.

-Essa é minha vida Christian e minha prerrogativa; Ariel falou em tom de desafio.

-Você esta nervosa, é melhor se acalmar antes que acabe cometendo algo que se arrependa depois; ele falou passando a mão nervosamente pelos cabelos.

Jamais tivera de lidar com alguém de gênio tão difícil quanto aquela garota. Somente ela tinha o poder de lhe tirar do serio; ele se perguntou, enquanto a carruagem parava em frente à casa da jovem. Abriu a porta e desceu primeiro para ajudá-la

-Obrigada por me trazer; ela falou polidamente, saltando da carruagem, ignorando a mão que ele havia lhe estendido.

-Não por isso, alem do mais pretendo acompanhá-la até lá dentro; ele falou fechando a porta do coche e gentilmente enlaçando o braço dela no seu, fazendo-a seguir consigo.

-Por quê? –ela indagou confusa.

-Tenho algumas coisas para falar com Carite; ele falou, embora essa não fosse a completa verdade, queria se certificar de que ela ficaria em casa mesmo depois que saísse e só conseguiria isso, fazendo-a entrar consigo e deixando Carite a parte dos perigos que ela queria se meter; ele pensou.

-Que seja; a jovem murmurou, dando de ombros.

-x-

.II.

Distraidamente despejou a água quente sobre o pó de café. Ouviu o barulho de água correndo e soube imediatamente que ele estava no banho. Há muito tempo não estava habituada a ter mais alguém em sua casa, ainda mais um homem; ela pensou franzindo o cenho.

Sabia dos motivos que o levara a ficar tão incomodado com as roupas, mas tomara aquela liberdade com uma pontada de desejo egoísta. Sabia que se ele tivesse oportunidade de pensar ou de retornar a Jamiel para buscar mais de suas coisas, alem do que levava ao deixar o santuário, Mú poderia não voltar e não queria correr esse risco.

Conseguira dois anos para aprender, talvez conseguisse fazer o que precisava nesse meio tempo, se não, teria que se virar com o que tinha; ela pensou passando a mão livre pelos cabelos azuis.

Escolher um lugar para treinar longe dos olhos do santuário também não fora fácil, mas graças a Axel agora tinham não apenas um, mas três possibilidades que poderiam ser exploradas, precisava apenas ver se Mú concordaria com uma delas.

Ouviu o som da água cessar e terminou de passar o café. A essência inebriante chegou até si e suspirou, era uma pena que o café em si, não possuísse o mesmo sabor que o cheiro, mas ainda sim, não podia dizer que alguém já tivera motivos para reclamar de seu café, mesmo porque, não era tão humilde assim; ela concluiu com um fino sorriso nos lábios.

Menos de cinco minutos depois ouviu os passos do cavaleiro na escada e virou-se, apenas para ter o tempo de sentir os lábios se entreabrirem e os orbes arregalarem-se levemente. Quando pensara nas roupas, nunca imaginara que ficariam tão bem; Laura concluiu.

-Algum problema? –ele indagou arqueando levemente a sobrancelha fina.

Observou-o demoradamente, não duvidava que ele se sentisse como uma bactéria sob a lente de um microscópio, mas não se importava com isso no momento, não quando ele parecia uma pessoa completamente diferente da que falara a menos de vinte minutos atrás.

A camisa verde-escuro aderira à pele delineando os músculos adquiridos pelo árduo treinamento e os ombros largos e ótimos para serem abraçados, a calça caqui marcava a cintura e o abdômen. Os longos cabelos lilases pareciam ter um brilho mais suave e acetinado. Tentando qualquer um a tocá-los para ter certeza de que eram reais.

Ele não parecia mais um garoto inseguro e sim um homem cujo poder faria o mundo curvar-se diante de si. Essa era a única forma de defini-lo agora e ela mal sabia o quão certa estava disso.

.: História Dentro da História –Marinas :.

Ouviu os passos da tia ecoarem no salão de baixo, tão inquietos quanto os seus ali em cima. Não devia ter perdido a calma daquele jeito, menos ainda na frente de Christian.

Maldição! Afrodite lhe atacava os nervosos de uma maneira que lhe fazia perder a razão. Aquela cobra venenosa estava de volta e ainda queria vingança, não precisava ser um gênio pra saber disso.

Seus pais podem ter sido super protegidos e ingênuos quanto ao que acontecera no passado, mas ela não era e não ficaria de braços cruzados permitindo que àquela víbora peçonhenta destruí-se sua vida e a de todos a sua volta.

Isso nunca!

Se ao menos tivesse uma forma de acabar com Afrodite de uma vez, de maneira letal, bastante dolorosa e definitiva; ela pensou, com um brilho avermelhado tingindo os orbes violeta.

Balançou a cabeça levemente para os lados, Christian achava insanidade seu plano, mas quem se importa com o que ele pensa? Não foi a vida dele que Afrodite destruiu.

Serrou os punhos de maneira nervosa, cravando as unhas finas sob a palma rosada, mal podia esperar pela oportunidade de se tornar o Anjo Vingador que faria Afrodite pagar por todos os seus pecados, desta e de tantas outras vidas.

Um raio cortou os céus e seu estrondo soou tão alto que repercutiu nas paredes de madeira da antiga casa. Embora não fosse uma mansão Tudor. A casa que pertencia à tia em Londres era grande e bastante arrojada como a mansão Sollo, onde vivera boa parte de sua infância.

Nuvens carregadas obscureceram o céu, tão nubladas quanto seus pensamentos. Passou a mão nervosamente pelos cabelos, enquanto forçava-se a sentar-se em frente à penteadeira. Ainda estava um pouco pálida, mas nem por isso seu cosmo havia refreado a intensidade.

Logo a tempestade desabaria sobre Londres e nesse momento simplesmente não queria se acalmar, tão pouco refrear aquela agitação que lhe queimava por dentro. Sentia-se assim nesse momento, mas se fosse Endy ali, provavelmente o mundo estaria de baixo dágua; ela pensou não conseguindo conter o sorriso.

Endora tinha o temperamento ainda mais turbulento que o seu, Ekil dizia que embora tivessem o mesmo signo, as duas eram como o sol e a lua, cada uma refletia os próprios sentimentos com uma intensidade imprevisível. Poderia ser como uma brisa suave ou como o mar no meio de um tormento.

Mas Endora era a inquieta da família, mudava de humor tão rápido quanto às horas passavam. Entretanto, até mesmo ela concordaria consigo nesse momento, Afrodite merecia uma retaliação que a deixasse prostrada no chão, implorando clemência.

-Por onde devo começar? –ela se perguntou pensativa. Obviamente Christian não aprovaria essa idéia de vingança, mas contanto que não ficasse em seu caminho, não teria de se preocupar com duque.

Primeiro iria à biblioteca britânica, lá deveria haver algum livro que lhe desse alguma pista de como cercar Afrodite. Não podia contar com a ajuda de ninguém alem de si mesma. Carite iria preferir trancá-la num castelo protegido por dragões a aprovar sua decisão. Bufou exasperada, a tia sabia ser exageradamente super protetora quando queria.

Não podia falar com Apolo, ele já fizera muito no passado e provavelmente estava de mãos atadas ainda por conta do conselho.

Enquanto buscasse as respostas, teria que manter Christian longe de problemas, sabia que por causa do seu destempero no parque, ele ficaria desconfiado e alertaria Carite a qualquer momento, isso não podia acontecer. Pra isso, precisava fazer algo que detestava.

Ir a bailes! Bufou irritada, por mais que detestasse aquelas festas cheiras de frescuras teria de ir, dos males esse era o menor, mesmo porque, poderia satisfazer algumas expectativas da tia nesse meio tempo. Carite vivia dizendo que era anti-social e precisava conviver mais com pessoas de sua idade.

Enquanto estivesse freqüentando estes eventos, Carite não iria suspeitar que estava tramando alguma coisa. Assim Christian também não teria motivos para se preocupar e ficar especulando sobre o que planejada.

Agora precisava começar a colocar seu plano em pratica e sabia bem como ela pensou lembrando-se do convite que recebera de seu mais recente amigo em Londres.

Rafaelle dissera que esperaria por uma missiva sua, mesmo que ela levasse uma resposta negativa. Então, precisava apressar-se se quisesse que ele recebesse a carta em tempo; ela concluiu.

-o-o-o-o-o-

Os passos inquietantes da deidade pela sala estavam lhe aborrecendo, queria respostas e Carite achava que ficar daquele jeito iria lhe desviar de seus propósitos. O que obviamente não iria acontecer.

-Carite, é melhor me explicar isso direito; Christian falou entre dentes.

-Você conhece a história, não tem o que explicar; ela respondeu impaciente.

--Nós quase a atropelamos no parque Carite; ele exasperou, vendo-a parar de andar e voltar-se para si. –Tivemos tempo de parar, mas se fosse outra pessoa, talvez não;

-Christian, Afrodite não vai parar; a marina falou aflita. –Eu achei que pudesse proteger Ariel tirando-a da Grécia, mas Afrodite insiste em continuar com essa insanidade. Ela pos na cabeça que quer vingança e todos que tiverem relação com o que aconteceu, vão sofrer com isso;

-E os outros? –ele perguntou. –Ninguém pode intervir?

-Anteros conseguiu lacrá-la por seis anos, mas depois disso o equilíbrio foi comprometido e Caos o impediu de se meter de novo, os demais estão de mãos atadas por causa do conselho. Acho que só morrendo pra Afrodite nos deixar em paz; ela completou cansada.

-Foi o que Ariel disse; o jovem duque murmurou pensativo.

-Como?

-No caminho pra cá Ariel disse que a única forma de Afrodite parar é matando-a e me perguntou se eu sabia como matar um Deus; ele falou vendo a expressão chocada dela.

-Espero que você não tenha contado a ela; Carite falou desesperada.

-Não, mas ela vai descobrir a qualquer momento Carite, Ariel é inteligente, mais do que qualquer outra garota de sua geração, basta apenas juntar as pistas aqui e ali para descobrir; ele respondeu.

-Tem razão; ela falou. –Não é ato a que ela se tornou a líder dos marinas; ela completou pensativa.

-Como? –ele perguntou surpreso.

-Isso mesmo, quando ela e Endora retornaram de Kinaros, após completarem o treinamento. Ekil passou a liderança dos marinas que antes era de Tétis para Ariel;

-Porque não Endora? –Christian perguntou intrigado.

-Não sei, Ekil tinha um jeito próprio de acertar as coisas. Na época ele apenas disse 'Assim quis o destino' nada mais. Tanto ela quanto Endora eram capacitadas para controlar os generais e as sirenes, mas porque uma e não outra, não faço idéia;

-Curioso; ele falou intrigado.

-Com licença; a governanta falou entrando com uma bandeja de chá.

-A senhora sabe como está Ariel? –Carite perguntou notando o silêncio no andar de cima.

-A menina disse que precisava descansar um pouco para o sarau desta noite; a governanta respondeu.

-Não sabia que ela ia; Christian comentou casualmente.

-Nem eu; Carite respondeu intrigada. –Ela mesma disse que não pretendia freqüentar as festas de Londres, porque mudou de idéia? –ela se perguntou intrigada.

-A pequena-dama foi convidada pelo Lorde Cardelli para o sarau e decidiu ir; a senhora falou casualmente.

-Como é? –Christian perguntou irritado ao ouvir o nome daquele fedelho.

-Isso mesmo, ela acabou de enviar uma missiva pelo mensageiro, eu vi; a senhora ressaltou veemente.

-Entendo, obrigada pela informação; Carite falou agradecendo o chá e dispensando-a ao ver Christian ficar ainda mais vermelho, tão vermelho quanto seus cabelos. Estranho, jamais o vira reagir assim.

Mas também, não era algo que pudesse dizer que não esperava. Alias, as coisas iriam ficar mais interessantes dali pra frente; a marina pensou contendo o sorriso que ameaçava formar-se em seus lábios.

Entretanto, precisava ficar ainda mais atenta ao que a sobrinha iria aprontar. Sabia que Ariel não era de levar desaforos para casa e que na primeira oportunidade enfrentaria Afrodite.

Continua...