.:: O ENIGMA DA SIRENE ::.
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation. Personagens como Ariel, Carite, Christian e Rafaelle são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
Importante!
Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!
Boa Leitura!
CAPITULO 7: O Carro.
Distraidamente bateu a pontinha da carta sob a mesa. Há essas horas ele já deveria ter chegado a Asgard e em breve voltaria para a casa.
Isso obviamente deveria lhe tranqüilizar, mas não... Estava longe disso acontecer. Em seu intimo sentia que havia algo mais naquela terra coberta de gelo que deixava o amigo, tão inquieto e perturbado.
Mesmo depois de quase vinte anos juntos, ainda lhe intrigavam algumas lacunas na vida dele, inclusive as referentes aos primeiros anos junto.
Suspirou pesadamente, era curioso que justamente a lamina que tinha em mãos representasse aquele começo de suas vidas. Como seus caminhos se cruzaram e uma nova estrada havia se aberto.
Baixou os olhos fitando a lamina das mãos que continha a imagem de uma carruagem de rodas douradas. O Carro. A sétima lamina do tarô cigano.
Ela é sinônimo de viagens e mudanças, representa as possibilidades de acontecimentos inesperados. Também quer dizer grandes vitórias, sob poderes usados com prudência.
Como diria Ben Parker. Grandes poderes, requerem grandes responsabilidades.
Naquela época, se ele fosse frio e ambicioso, poderia ter feito o mundo ajoelhar-se a seus pés. Entretanto a pureza de sua alma e coração, fizeram a diferença na balança do destino.
Destino! Era curiosa a freqüência com que vinha usado essa palavra ultimamente. Não que atribuísse todas as coisas que aconteciam ao destino, pelo contrario, como Mú, acreditava que tudo acontecia por conta de uma serie de decisões tomadas sozinhas ou em coletivo, mas que no fim, levavam a um único propósito.
De qualquer forma, parecia mais fácil atribuir os últimos acontecimentos ao Destino, como uma forma simples de não ter de explicar tudo o que aconteceu antes de chegar aquele resultado "X".
Balançou a cabeça levemente para os lados, enquanto jogava a carta junto ao montinho que começa a se formar entre o Mago, a Papisa, a Imperatriz, o Imperador, o Papa e o Enamorado. Todas representavam partes importantes de sua vida e de tantas outras pessoas. E com o Carro, não podia ser diferente.
.I.
Franziu o cenho enquanto atravessavam a rua, já ouvira falar sobre as grandes capitais européias, mas Londres não era bem aquilo que imaginara. Ali era tudo muito calmo e exalava uma tranqüilidade que beirava ao desconfortável.
O sol erguia-se no céu, mas pouco se conseguia ver dele, as nuvens cinzentas estavam por toda parte. Pessoas iam e vinham pelas ruas, tão concentradas naquilo que estavam fazendo, que se acenasse na frente de seus olhos, era possível que nem piscassem.
-Em que esta pensando? –Laura perguntou curiosa, ao vê-lo observar tudo com atenção e curiosidade.
-Tudo aqui parece tão certo e programado; Mú comentou. –Tem certeza que essas pessoas não saíram de algum high-fie tipo Odisséia no espaço? –ele indagou.
-É parte da evolução; ela falou sorrindo. –As pessoas acabam se tornando mais autocentradas quando tem muito no que pensar e planejar. Um dia eu conheci um escritor, que quando estava escrevendo você poderia falar com ele, que ele simplesmente não ouvia nada e isso não era porque, tipo, ele tivesse algum problema de audição;
-Como assim?
-Ele ficava tão concentrado no que estava fazendo que o resto do mundo deixava de existir; Laura explicou. –Isso acontecia com Mozart também, quando ele começava a compor, era como se ninguém mais existisse. Ele ouvia o som das notas e elas penetravam em sua mente de tal forma que ele entrava em um mundo particular, cujas portas ficavam sempre fechadas para os outros;
-Tem certa lógica; ele murmurou um pouco contrariado, mas parou de andar quando viu uma antiga carruagem atrelada a cavalos negros atravessar as ruas Londrinas calmamente.
-Aquela é a carruagem do correio; Laura explicou. –Antigamente os serviços de postagem de correspondências eram feitos por pequenas diligencias, que iam de cidade em cidade, levando os malotes de correspondências. Hoje, esse transporte é feito por carros, que são bem mais rápidos. Aquela é a carruagem da correspondência real. A rainha a usa para suas cartas particulares; ela explicou.
-Pensei que a monarquia houvesse caído há um século atrás; ele comentou.
-O poder monárquico de influenciar o parlamento sim. Mas a influencia da realeza não. Países como a Inglaterra se orgulham muito do período monárquico, por isso ainda se faz necessária à presença de príncipes e reis; a jovem de melenas azuis explicou. –Hoje a Inglaterra é regida pelo primeiro Ministro da Casa, 659 deputados da Câmara dos Comuns e 700 representantes da antiga Câmara dos Lordes, a antiga monarquia foi apenas maquiada para parecer uma republica independente;
-Ahn! Uma curiosidade que eu tenho é, porque os ingleses têm por habito o chá da tarde? –ele indagou, enquanto eles passavam novamente em frente ao Tyller's, , mas em vez de pararem, seguiram em frente.
-Isso só se tornou um habito, no século dezenove. Foi originado na aristocracia, num dia em que a duquesa de Badford decidiu fazer um lanchinho escondido, entre o almoço e o jantar e foi pega. Assim para evitar maiores constrangimentos com outras pessoas. Instauraram a quarta refeição, que seria composto por coisas mais leves e que satisfaria até a refeição no final do dia; ela explicou.
-Tanta politicagem, por nada; ele resmungou.
-Aquela foi uma época regida pelas aparências; Laura falou sorrindo enigmático. –Ou melhor, desde que o mundo é mundo, isso vem acontecendo;
-Entendo; Mú murmurou.
Continuaram a caminhada, mas ao contrario do que ele pensava sobre pessoas autocentradas, muitas detinham seus passos ao longo do caminho para observar-lhe. Arqueou a sobrancelha levemente e ao voltar-se para Laura, encontrou o olhar divertido dela sobre si.
-Eu disse que caqui e bordô iriam ficar bons pra você; ela falou casualmente, indicando a calça clara e a camisa bordô que pareciam dar uma impressão seria sobre o cavaleiro, mas igualmente descontraída.
-O que isso tem a ver? –ele indagou relanceando um olhar confuso para si mesmo.
-Ai! Ai! Você ainda é tão inocente; Laura murmurou balançando a cabeça levemente para os lados, apenas ele não tinha noção do que estava fazendo com as mulheres que encontravam pelo caminho.
Desde que saíram de casa, logo cedo. Não havia uma mulher no caminho que não houvesse parado para observá-lo passar. Diferente dos homens ingleses, polidos e um pouco indiferentes, ele exalava um calor natural, aconchegante. Que era simplesmente impossível não notar.
-Já que estávamos falando de chá, olhe; Laura falou decidindo mudar de assunto por enquanto.
Apontou para a entrada de um pequeno estabelecimento, a fachada era simples, de arquitetura antiga, as colunas nas laterais da porta eram redondas e lisas, diferentes das caneladas da arte grega. No alto, havia um brasão dourado e sobre ele, um leão igualmente dourado, mas de corpo inteiro.
-O que é? –Mú perguntou, notando algumas pessoas entrarem no local.
-É a casa de chá mais famosa de Londres; Laura explicou. –O Twinings existe desde 1717 e o negócio nunca saiu da família. As maiores personalidades do mundo já tomaram chá ali, incluindo Oscar Wilde, antes da história sobre seu homossexualismo declarado, fechar algumas portas da sociedade como esta para ele. A família Twinings é sinônimo de tradição e é um sacrilégio vir a Londres e não parar para tomar uma xícara que seja de chá aqui; ela falou, enquanto puxava-o consigo para atravessarem a rua.
-O que um chá tem de tão importante assim? –ele perguntou confuso.
-Não é o chá, mas a técnica. A maneira certa de apreciar; ela falou como se não fosse obvio.
Empurrou a porta de vidro, ouvindo um delicado sininho soar, chamando a atenção do atendente.
-Bom dia; um senhor já de idade falou, aproximando-se com um sorriso cordial de boas vindas.
-Bom dia, gostaríamos de uma mesa; Laura falou.
-Por favor, venham comigo; ele falou acenando para eles.
Deixou os orbes correrem por toda à parte, de fora era impossível imaginar que o estabelecimento fosse tão grande. Na entrada estavam o caixa e atrás dele uma parede recheada de portas retrato, com fotos tão antigas que algumas, podia jurar que eram desenhos.
Atravessando um pequeno corredor feito por mesas e próximo a que ficariam, estava uma prateleira repleta de latas de chá e acima delas quadros antigos, pintados a tinta óleo, mas representando a casal real da Inglaterra, pode concluir isso com facilidade quando seus olhos recaíram sobre a imagem de uma mulher idosa e seria numa das molduras. Provavelmente aquela era a famosa Rainha; ele pensou.
-Fiquem a vontade; o senhor falou afastando-se após indicar-lhes a mesa.
-Obrigada; Laura falou sorrindo antes de voltar-se para o cavaleiro.
-O que foi? –Mú perguntou diante do olhar indecifrável que ela lhe lançara, arqueou a sobrancelha, entretanto Laura apenas indicou a cadeira em frente a ela. Arqueou ainda mais a sobrancelha, quando ela franziu o cenho e serrou os orbes.
-É de bom tom, um homem puxar a cadeira para a mulher se sentar; ela falou pausadamente.
-Porque não disse isso antes? –o cavaleiro falou balançando a cabeça levemente para os lados. Tudo aquilo por causa de uma cadeira?
Voltou-se para ela, puxando a cadeira, esperando-a se sentar.
-Obrigada; a jovem respondeu vendo-o dar a volta na mesa e ocupar seu lugar do outro lado.
-Com que propósito foi isso? –Mú indagou aborrecido.
-Um gentleman não é apenas um homem bem educado. Existem alguns macetes que servem única e exclusivamente para se evitar constrangimentos futuros; ela explicou.
-Como?
-Simples, embora muitos homens não saibam usar a cabeça, espera-se que eles tenham pelo menos um pouquinho de sensibilidade quando estiverem acompanhados de uma mulher; Laura falou suspirando cansada. Aquilo ia ser mais difícil do que imaginava.
-Poderíamos deixar os floreios de lado e ser mais específicos?
-Certo! –Laura resmungou. –Não é nada legal andar com um homem que não presta nem pra puxar uma cadeira, ou usar um saca rolhas; ela falou a queima roupa.
-Um o que-...?
-Saca-rolhas, aquela coisa que a gente usa para abrir garrafas de vinho; Laura falou entre dentes. –Veja bem... Um dia, não estou falando de agora, tão pouco amanhã; ela falou antes que ele pudesse contestar. -Você vai, por exemplo, sair com uma garota e ir a um restaurante, chegando lá a primeira coisa que o metri vai perguntar é se você quer a cartilha de vinhos para fazer o buquê, o que você irá responder?
-Não faço a mínima idéia, não consigo me ver nessa cena; Mú falou dando de ombros.
-Por isso criatura, que estou lhe explicando o que fazer; Laura falou com um olhar afiado. –Na vida você não pode simplesmente escolher o que aprender, tudo que vier é lucro, mesmo que algumas coisas sejam o que você chama de "cultura inútil";
-Não entendo; ele falou confuso.
-Você viveu muito tempo em Jamiel, até entendo o porque isso lhe parece fútil e sem propósito. É o tipo de coisa que você não usaria com freqüência lá; Laura falou acalmando-se. –Mas acontece que agora, você não esta em Jamiel e por aqui as coisas são diferentes. Quando mudamos de ambiente, automaticamente temos de nos adaptar as novas rotinas, por isso estou lhe falando essas coisas, para que você não se sinta mal diante de situações que não esteja preparado para enfrentar;
-Certo! certo! Já deu pra entender; Mú falou dando um pesado suspiro. –E agora?
-Com licença, desejam fazer o pedido? –um garçom indagou se aproximando.
-Por favor; Laura falou calmamente. –Duas xícaras de chá de frutas vermelhas, cada uma com um cubinho de açúcar e duas gotas de limão;
-Mais alguma coisa?
-Não; ela respondeu, vendo-o se afastar. –A prova do chá aqui é levada tão a serio quanto o buquê de um bom vinho;
-Como assim? –ele perguntou verdadeiramente interessado.
-O vinho tem texturas, sabores e diversas especialidades. Existem técnicas para se apreciar o vinho e usufruir de todo seu sabor. Mais vamos ver isso outro dia. Com relação ao chá o processo é o mesmo. Se você colocar açúcar demais, o sabor original vai se perder;
-Qual a diferença do açúcar refinado branco, com o cubo? –Mú perguntou começando a acompanhar seu raciocínio.
-O açúcar branco refinado é mais forte. Tem conservantes e corantes demais, a cor branca só existe por que junto com o processo de refinação é utilizado enxofre; ela falou vendo-o torcer o nariz.
-Enxofre?
-Isso mesmo, já o açúcar de cubo é o açúcar cristal, que vem direto da cana de aguçar. Diferente da refinada, ela não é branca e empedra com mais facilidade, quando exposta a um ambiente úmido. Apenas um cubo dela já é o suficiente para adoçar a bebida, sem que ela perca o gosto, ou ele seja alterado pelos conservantes;
-Interessante; ele murmurou, enquanto o garçom os servia.
-Leite? –o rapaz perguntou pegando uma leiterinha e ameaçando colocar nas xícaras.
-Pode deixar, não vamos usá-lo ainda; Laura falou.
-Porque o leite? –Mú perguntou confuso, fechando os olhos por alguns segundos quando uma lufada de ar quente subiu da borda da xícara.
-Os ingleses têm o habito de tomar chá com uma dose de leite; ela explicou. –Mas isso é puro paradigma;
-Como assim? –ele indagou curioso.
-Digamos que esse é mais um habito que nasceu com a aristocracia; Laura explicou. –Antigamente os nobres eram os únicos que tinham tempo de parar o que estivesse fazendo, provavelmente nada, mas enfim... Para tomar chá. Na época o chá era servido muito quente; Laura explicou, apontando as xícaras de porcelana. –Só que as xícaras na época eram de porcelana chinesa, extremamente frágeis. Então, para evitar que as xícaras quebrassem por causa do calor excessivo, misturavam leite frio para dar o choque térmico;
-Mas se é porcelana, ela já era temperada, não? –Mú indagou olhando para a xícara nas mãos. –Até onde eu sei, vidros ou porcelana, quando vão ser expostas a altas temperaturas, sofrem um processo de tempera, para aumentar a resistência. Então, é fora de lógica usar o leite; ele falou.
-Naquela época eles não sabiam que quando mais quente a porcelana ficasse, mas sólida ela se tornaria. Apenas muitos anos depois foi descoberto o processo certo de tempera para o aço e em seguia para o vidro e porcelana;
-Entendi; o cavaleiro murmurou.
-Agora, antes de provar, pegue a xícara pela alça, procurando tocar o mínimo possível no bojo. Erga-a junto com o pires e assopre o chá pela borda bem de vagar; ela explicou.
-Espero que um dia isso sirva para algo, porque como você mesma disse, eu chamaria isso de cultura inútil; Mú respondeu a contra gosto, enquanto a obedecia.
-Confie em mim, depois que você pegar o jeito, não vai nem prestar mais atenção nessas coisas, vai ser automático;
-Vamos ver; ele resmungou.
Mesmo que não lhe agradasse muito ouvir Laura desfiando ordens para si, que ela obviamente esperava ser obedecia. Obrigou-se a ouvi-la, afinal, como haviam combinado, ela teria dois anos de sua vida e a forma de aproveitá-lo, estava por conta dela. Nem que fosse tomando chá; ele pensou torcendo o nariz.
-x-
.::A História Dentro da História – O Sarau ::.
A carruagem atravessou as ruas úmidas de Londres, logo no final da tarde começara a chover. Provavelmente isso iria interferir muito naquela noite. Recostou-se no banco da carruagem enquanto observava atentamente a sobrinha.
Desde que saíram de casa, Ariel estava silenciosa e pensativa. Quando perguntara para ela, porque decidira sair repentinamente, ela apenas dissera que recebera um convite de Rafaelle pela manhã e aceitara.
Suspirou pesadamente, Ariel andava tão introspectiva desde a morte de Ekil e a decisão de Merik de se mudar para Milos, ela evitava deixar as pessoas se aproximarem demais.
Balançou a cabeça levemente para os lados, pelo menos ali em Londres, mesmo que por pouco tempo, ela poderia se distrair um pouco, nem que fosse em meio as discussões com Christian, que pareciam ter se tornado parte da rotina agora e a companhia de Rafaelle.
Não sabia ao certo de onde, mas tinha a impressão de conhecer Rafaelle de algum lugar, ele dissera na noite do baile que a mãe já vira seus concertos, depois Ariel dissera que ele era Escocês. Mas nunca fizera um concerto em Edimburgo, de onde então poderia conhecê-lo? –ela se perguntou intrigada.
-Chegamos, milady; o cocheiro falou, abrindo a porta da carruagem.
-Que bom; Carite falou sorrindo, enquanto segurava a barra do vestido para descer primeiro. –Ariel; ela chamou vendo que a jovem ainda estava no mesmo lugar.
Deteve seus passos, vendo que ela não parecia lhe escutar. Voltou para dentro da carruagem e parou em frente a ela.
-Ariel? –Carite chamou novamente agitando a mão na frente de seus olhos, mas não obteve resposta. –Ariel; ela gritou, chacoalhando seus ombros.
-Ahn! O que foi, tia? –ela perguntou piscando quando suas costas bateram contra o encosto do banco.
-Céus, quer me matar do coração; a pianista exasperou.
-Uhn? –a jovem murmurou confusa.
-Já chegamos, estava te chamando e você não respondeu; Carite falou preocupada.
-Ah! Sim... O sarau; ela murmurou olhando mais uma vez para a janela. –Acho melhor descermos então; ela falou.
-Esta tudo bem? –Carite perguntou vendo que ela parecia um pouco desnorteada.
-Não, esta tudo bem; Ariel desconversou, enquanto passava por ela e descia primeiro da carruagem.
-O que será que aconteceu? –ela murmurou preocupada, seguindo a jovem.
-Parece que a chuva não espantou as pessoas; Ariel comentou, vendo outras carruagens chegando.
-Dependendo do evento, as pessoas viriam até de barcos se fosse preciso; Carite brincou, enquanto aproximavam-se da soleira da porta.
-Carite, que felicidade vê-la novamente; a anfitriã falou, indo recebê-las.
-Receba, quero que conheça minha sobrinha, Ariel; Carite falou de maneira cordial. –Ariel esta é Rebeca Green Ville; ela falou indicando a mulher de longos cabelos castanhos e orbes de mesma cor.
Rebeca vestia-se de maneira descontraída e viva, bem diferente das outras mulheres de sua idade, que estavam beirando os trinta e se tornara viúva tão cedo.
-Muito prazer, senhorita; Rebeca falou sorrindo largamente.
-...; Ariel apenas assentiu, fazendo uma breve mesura.
-Quando fiquei sabendo que sua sobrinha viria, tomei a liberdade de fazer um cartão de dança para ela; Rebeca falou, estendendo uma tira de papel pardo para Ariel.
-Cartão de dança? –a jovem indagou arqueando a sobrancelha.
-Nos bailes e saraus, quando abrimos uma pista de dança. É de praxe as debutantes terem um cartão de dança, onde os cavalheiros escrevem seus nomes; Rebeca explicou com um olhar inocente.
-Não será necessário um cartão; Ariel falou friamente. –Não pretendo dançar a menos que me de vontade; ela completou vendo os seis espaços referente as danças na noite preenchidos com nomes que não conhecia.
-Mas...;
-Mesmo assim, agradeço a preocupação; Ariel completou antes de rasgar a tirinha e devolver à senhora.
-Ahn! Bem...;
-Então, podemos entrar? –Carite perguntou com um sorriso forçado, sem saber o que fazer diante do que acabara de acontecer.
-Claro! Por favor; Rebeca falou dando-lhes passagem.
-Obrigada; Ariel respondeu com uma fria cordialidade.
-x-
.II.
Um largo sorriso surgiu em seus lábios, apesar de resistir a algumas coisas, ele aprendia rápido. Durante todo o trajeto pelas ruas de Londres, haviam conversado sobre coisas amenas, enquanto dava-lhe tempo para se acostumar consigo.
Sentia que ele ainda estava reticente em sua presença, mas só o tempo poderia operar seus milagres.
-Uma curiosidade sobre os ingleses é que eles têm verdadeira obsessão por Relógios; Laura começou.
-Nossa, nem da pra perceber isso; Mú falou sem esconder a ironia, ao apontar a torre do Big Bang poucos quarteirões à frente.
-Eles gostam de rotinas e atrasos não são educados; ela defendeu. –Mas também algumas das obsessões deles são papeis de parede, previsão do tempo e jardins; Laura completou.
-Uhn?
-No interior da Inglaterra da para se observar melhor. Infelizmente em Londres, as nuvens de poluição dão uma atmosfera mais sombria a cidade, já no campo, onde só existem casas ou sítios você pode ver mais verde, árvores e natureza; ela comentou.
-Entendo; ele murmurou pensativo.
-Esta vendo aquela loja ali? - Laura falou apontando para uma loja de fachada antiga, tanto quanto a do Twinings.
-O que é? –ele indagou curioso.
-É a Vintage Watch, eles possuem a maior coleção de relógios Rolex do mundo. Ali você pode encontrar modelos de 1926, até os mais recentes; Laura explicou. –Também é um dos prédios que são patrimônios históricos de Londres;
-Você conhece um bocado de história; o cavaleiro falou impressionado.
-Como você já sabe, vivi bastante tempo aqui e gosto de história; Laura falou casualmente. –Por exemplo, daqui a algumas quadras podemos chegar a Prefeitura. O arquiteto que desenvolveu o projeto se chama Norman Froster, ele é um dos melhores arquitetos vivos no mundo. ele projetou também o Estádio de Wembley, o Aeroporto de Hong Kong, a Ponte do Milênio, o Clyde Auditoriun na Escócia e o Viaduto Millau na França;
-Ele andou trabalhando bastante nos últimos anos; Mú comentou. Conseguia imaginar o quão complicado eram aqueles projetos, mas deveria ser interessante, desenvolver algo do nada e vê-lo tomar formas, cores e no fim, algo que pudesse tocar e admirar. Que estivesse ali dali a muitos séculos.
Apesar de não ter tido muito tempo de andar por Atenas, gostaria de ter visto a arquitetura local, alem é claro do Partenon, do museu e do Teatro da Acrópole. Eram lugares que transpiravam história, mas apenas de pensar em todo o processo de criação já valia a pena.
-Em 1990, a rainha Elisabeth II condecorou Norman Froster com o titulo de Cavaleiro do Império Britânico, assim ele passou a ser tratado por Sir. Como eu te disse antes, a monarquia caiu, mas suas influencias foram apenas maquiadas com a falsa idéia de republica independente;
-Vendo por esse lado; ele concordou dando de ombros.
-Mas já que estamos falando de arquitetura e arte. Em Londres podemos encontrar o que é de melhor em arte no Museu Britânico, Galeria Tate, Victoria e Albert e a Galeria Nacional. Podemos ir lá amanhã ou depois, mesmo vivendo há tanto tempo aqui, eu ainda consigo entrar nesses museus e passar horas em cada uma das galerias; ela falou sorrindo.
-Deve ser interessante; Mú comentou, enquanto atravessavam a rua. –Que prédio é aquele no final da rua? –ele indagou depois de alguns minutos de caminhada, quando viraram uma esquina.
-Aquela é a Biblioteca Britânica, ali estão contidos mais de 20 milhões de livros. São 600 quilômetros de prateleiras. Aqui existem acervos originais de Jane Austen, Leon Tolstoi, as partituras de próprio punho de Mozart e a letra de A Hard Day's Night, escrita pelo próprio John Lennon.
-Seiscentos quilômetros; Mú falou surpreso. –Imagino como deve ser para organizar isso, a biblioteca do último templo, não tem metade disso e me lembro bem de ouvir o mestre reclamar varias vezes que ela nunca ficava em ordem;
-Tudo é uma questão de organização; ela falou divertida. –Apesar da aparência sombria, Londres tem muitos parques e jardins onde se pode passar o dia. Por exemplo, o Saint James Park, não é tão gigantesco quanto o famoso Hyde Park, tampouco contém um palácio, como Kesington, onde nasceu a rainha Vitória, mas ele se destaca pela tranqüilidade e fica bem próxima ao Big Bang;
-Quem vem de fora normalmente pensa que Londres se resume a Bing Bang, Hyde Parke, Abadia de Westminster e o Tamisa; Mú comentou. –Mas a cidade é enorme;
-Você ainda não viu a metade dela; Laura falou sorrindo. –Mas sabia que o Big Bang não é o relógio?
-Como assim? –ele indagou confuso.
-As pessoas normalmente falam A Torre do Relógio Big Bang, ou o Relógio Big Bang, mas ambas as alternativas estão erradas; Laura explicou. –O certo é a Torre do Big Bang, ou melhor a Torre que abriga o Big Bang;
-Não entendi; Mú falou.
-Espere, você vai ver melhor agora... Ou ouvir; ela falou puxando-o em direção a torre. Olhou o relógio e notou que faltavam apenas um minuto para as cinco. –É o Big Bang que anuncia a hora do chá em Londres... Vamos lá! Três... Dois...;
-Então o B-...; ele parou quando o sino no alto da torre começou a tocar.
-Um; Laura completou quase gritando para que ele pudesse lhe ouvir. O som era tão alto que não duvidava que o sino pudesse ser ouvido tocar na cidade toda.
-Big Bang é o nome do sino que fica dentro do relógio. Por isso chamamos de Torre do Big Bang, é a torre que guarda o sino; Laura falou sorrindo, quando notou muitas coisas pessoas parando de caminhar para ouvir o sino tocar. –O sino tem 17 toneladas, é só se compara a Grande Marie da França, na Catedral de Notre Dame;
-Surpreendente; ele falou um pouco atordoado pelo barulho alto.
Laura tinha razão, mesmo se conhecesse toda Londres, ainda haveriam lugares que poderia passar horas observando e jamais se cansaria.
Continuaram a caminhada ao longo da cidade, mesmo passando o dia todo assim, não havia se cansado. Eram tantas informações para absorver que não pensava em cansaço ou qualquer coisa do tipo.
Atravessaram ruas, viraram esquinas até chegar a uma calçada onde notou que curiosamente o piso no chão tornava-se vermelho. Ali pode observar que o movimento era maior, os carros já andavam com um pouco mais de velocidade.
-Essa é a avenida The Mall, o piso vermelho indica um caminho direto para o palácio de Buckingham; Laura explicou. –Apesar da polidez calculada dos ingleses, Londres é dividida por varias culturas;
-Como assim? –ele perguntou curioso.
-Podemos dividir Londres por City, o núcleo financeiro e empresarial. Westminster a cede política, religiosa e aristocrática. Temple é a área dos advogados. A boa e velha Mayfair, que desde séculos atrás é sinônimo de status e frescuras da alta sociedade; Laura explicou enquanto torcia o nariz ao lembrar-se das histórias sobre essa época. – Camden já foi um barro popular entre os imigrantes irlandeses, agora os darks e clubbers tomaram conta. Chelsea é o bairro dos artistas, onde fica a antiga Vauxhall, bairro do pintor francês Claude Monet. Aqui temos também o Soho, bairro dos GLS, mas que abriga as melhores danceterias da Inglaterra. Brixton é o bairro da comunidade jamaicana assim como Wembly pertence aos indianos;
-Aparentemente não da pra dizer que existe toda essa miscelânea cultural aqui; Mú comentou.
-Não mesmo, só quem vive bastante tempo em Londres, consegue ver uma parte disso tudo. Mas existem algumas prioridades; Laura adiantou-se.
-Como por exemplo? –ele indagou, já imaginando os outros lugares aonde ela lhe arrastaria.
-Você não pode deixar Londres sem dar uma volta no Olho do Milênio, ir até o Hotel Ritz apenas para ver o hall de entrada coberto de ouro, alias, o hotel todo tem acabamento em ouro puro, a única coisa prateada naquele lugar são as baixelas de chá; Laura falou enquanto andavam. –A Catedral de Saint Paul, ou melhor, o domo da catedral de 110 metros de altura, que só perde para São Pedro no Vaticano. E obviamente a Baker Street, onde fica o museu Sherlock Holmes e a chapelaria Jack Look CO, onde fazem aqueles chapeuzinhos super fofos, usados por Sherlock Holmes e aqueles que Charles Chaplim endossou; ela falou sorrindo.
-Você se refere aqueles chapéus tipo coco? –ele perguntou.
-Isso mesmo, a Jack Lock é mais uma das lojas tradicionais de Londres, como a Twinings. Ela serviu o almirante Nelson, o último Lorde Byron e até mesmo Oscar Wilde. Atualmente a loja tem exatos 332 anos de idade. É patrimônio histórico de Londres; Laura explicou. –Alias, tudo em Londres é conservador e tradicionalista. Como diria Luiz Fernando Veríssimo "Londres espelha uma civilização que só não deu certo, porque o resto da humanidade, infelizmente, não é inglesa";
-Não deixa de ter lógica; Mú falou pensativo. –Até onde você explicou, o sistema político e governamental daqui é avançado e organizado, diferente de outros tantos lugares que costumam entrar em crises desde econômicas a gerenciais, por causa de má administração;
-Tem uma história interessante relacionada a Jack Lock, que não tem nada a ver com Sherlock Holmes; Laura falou, mudando de assunto, assim que passaram em frente a chapelaria. –Dizem que Oscar Wilde, comprava freqüentemente seus chapéus aqui, mas durante o século dezenove, a última conta dele ficou sem pagamento. É compreensível já que pouco antes do prazo para o pagamento, ele foi encarcerado, por ser um freguês assíduo, a divida foi perdoada pelo próprio Jack, o dono da loja na época. Um século depois, um fã do escritor apareceu na Jack Lock para quitar a divida;
-Uhn?
-Ele era um grande fã; Laura falou sorrindo, diante do assombro dele. –O nome dele era Royston du Maurier. Ele quitou a divida, em memória de Wilde. Quando disseram que ele era um verdadeiro gentleman agindo assim, ele respondeu que estava apenas fazendo um reparo histórico e que Wilde agradeceria. Afinal, o escritor sempre teve uma política severa e um pouco irônica sobre as facetas da sociedade e calotes não era uma delas;
-É uma história bastante curiosa, o que mais tem para me falar de Londres? –ele indagou curioso.
-Na época de Wilde, por volta de 1897, o Tamisa era um verdadeiro fiasco e a vergonha de Londres; Laura explicou. –Ele só foi limpo e restaurado em 1982, hoje até os salmões voltaram a freqüentar o rio, o que na época seria insanidade ou um verdadeiro milagre;
-Parece que pouco se perdeu da Londres clássica, não? –ele perguntou.
-Como eu disse, aqui tudo é organizado. Temos muito das raízes inglesas precedentes da herança monárquica e aristocrática, mas Londres e a Inglaterra em si ganharam alguns requintes de modernidade principalmente com a princesa Margareth, irmã mais nova da nossa Rainha; Laura explicou. –Ela é fã de musica, arte, teatro, adora cinema e literatura, não é difícil encontrá-la no Tate Modern ou na Galeria Britânica, em 1929 ela fez sua estréia no mundo da moda saindo na capa da Vouge, ela atualmente é casada com Lord Snowdon, o fotografo inglês para quem ela posou na Vouge, eles tem um filho juntos, o visconde David Lisley, que é designer de interior; ela explicou.
-Impressionante; o cavaleiro murmurou.
-Bem, é melhor voltarmos para casa agora; Laura falou olhando para o céu. –Parece que vai chover;
-Como você pode saber, se esta tudo cinza? –ele perguntou.
-Sinta o cheiro; ela falou sorrindo, enquanto ela acenava para um ônibus. Seria mais rápido voltar assim, do que atravessar toda Londres a pé e tomar chuva no caminho; ela pensou.
-x-
.::A Historia Dentro da História - A Rival::.
-Querida, se você não estiver se sentindo bem podemos voltar para a casa; Carite falou enquanto sentavam-se em uma mesa, no salão de festas de Lady Green Ville.
-Estou bem, tia; ela respondeu sucinta. –Apenas sou pouco tolerante a hipocrisia;
-Porque diz isso? –a pianista perguntou confusa.
-Porque é exatamente o que aquela tal de Rebeca é; Ariel respondeu, enquanto seus orbes esquadrinhavam o salão, até deterem-se rapidamente sob uma silenciosa jovem do outro lado, próxima a mesa de petiscos.
-Você já conhecia Rebeca de algum outro lugar? –Carite indagou intrigada.
-Eu sei que ela arrumou aquele cartão de dança, como os nomes de cavalheiros que eu nem ao menos conheço, com o único objetivo de afastar o Christian;
-Como? –ela falou surpresa.
-Eles são amantes e ela ouviu sobre o que aconteceu no baile real e esta se sentindo ameaçada; Ariel falou mantendo a expressão fria e indiferente.
-Mas...;
-E como nós bem sabemos o que mulheres despeitadas são capazes de fazer. Optei por deixar as coisas claras para ela. Não estou interessada no mercado de casamentos, tão pouco vou me deixar influenciar por alguém como ela; Ariel completou em tom frio.
-Entendo; ela murmurou.
Como a sobrinha poderia saber tudo aquilo sobre Rebeca? Bem, que Green Ville tinha algumas pretensões com relação a Christian isso não era novidade, alem de ser um homem incrivelmente bonito, ele era o braço direito da rainha e o lorde mais influente na Câmara dos Comuns, isso é claro, sem contar a fortuna acumulada ao longo dos anos. Mas Rebeca o via apenas como um cifrão dourado brilhando diante de seus olhos, mas o que a sobrinha dissera não deixava de ser perturbador.
Antes de falar com Christian, era melhor averiguar o que Rebeca estava tramando, visto que ela mesma do outro lado do salão, ainda lançava esporadicamente seus olhares na direção da mesa, provavelmente esperando o momento que Christian se juntaria a elas, e bem... Não duvidava que isso não demorasse a acontecer; Carite pensou, lembrando-se do quanto ele ficara perturbado mais cedo, quando sua governanta dissera que Ariel aceitara o convite de Rafaelle. Por falar nisso...
-Boa noite, miladies; Rafaelle falou aproximando-se com um sorriso cordial.
-Boa noite; as duas responderam.
-Por favor, perdoem meu atraso, por conta da chuva estava um congestionamento de carruagens lá fora, que foi difícil conseguir entrar aqui; ele falou.
-Esta tudo bem; Ariel falou sorrindo, enquanto indicava-lhe uma cadeira a seu lado.
-Obrig-...;
-Mas que adorável surpresa; Christian falou assustando-as.
Surgindo sabe-se lá de onde, ele apenas apoiou uma das mãos no ombro de Rafaelle e de maneira nada gentil empurrou-o para a cadeira ao lado de Carite.
–Esta um verdadeiro inferno lá fora, por causa das chuvas algumas ruas ficaram alagadas. Por um momento pensei que vocês não fossem chegar a tempo de ver o sarau; ele comentou casualmente.
-Lorde Dampier; Rafaelle falou entre dentes, com os orbes serrados.
-Ah! Cardelli, mal vi que era você...; Christian respondeu com um sorriso petulante. –Mas como vai? –ele indagou com falsa cortesia.
-Estaria melhor se você desaparecesse; ele resmungou.
-Como disse? –Christian perguntou inocentemente.
-Por favor; Carite falou lançando um olhar de aviso aos dois rapazes antes de voltar-se para a sobrinha e ver que ela estava olhando para o outro lado e parecia distraída, ou estava abertamente ignorando os dois. –Ariel?
-Ahn! O que foi? –ela perguntou voltando-se para tia.
-Você estava longe; Carite comentou sorrindo carinhosamente.
-Estava pensando; a jovem respondeu casualmente.
-Os músicos começaram a tocar, me daria à honra de dançar comigo? –Rafaelle indagou chamando-lhe a atenção.
-Hei! – Christian começou, disposto a impedir aquilo, quando a voz estridente de Rebeca arrepiou-lhe até o último fio de cabelo e o fez gelar. Aquele dia já não começara bem, mas não precisava piorar de maneira catastrófica daquele jeito; ele pensou.
-Lorde Dampier; ela falou se aproximando.
-Adoraria; Ariel respondeu enquanto Rafaelle levantava-se e lhe estendia a mão.
-Ariel; Christian chamou, ameaçando se levantar, mas Rebeca adiantou-se colocando-se a sua frente.
Maldição! Mais essa agora; ele pensou furioso. Já não bastava àquele moleque no seu caminho, agora a megera também. Inferno!
-Christian querido, faz tempo que não nos vemos; Rebeca falou melosa.
-Bem, vou falar com uns conhecidos ali; Carite falou evidentemente enojada com a cena. Agora compreendia o porque Ariel reagira de maneira tão hostil. Entretanto, estava surpresa com essa sensibilidade apurada da sobrinha para hipócritas. Que Ariel deste adolescente, tinha verdadeira aversão por homens atirados e mulheres vulgares, não era novidade, mas não sabia que ela tinha desenvolvido uma espécie de sexto sentido para identificar isso; ela pensou.
-O que quer Rebeca? –Christian perguntou entre dentes, enquanto de soslaio observava Rafaelle e Ariel pelo salão.
-Oras! –Rebeca murmurou fazendo beicinho. –Não vai me dizer que prefere aquela franguinha a mim, não é? –ela falou aproximando-se mais dele, de maneira insinuante.
-É melhor moderar a língua Rebeca, não vou tolerar esse tipo de coisa; Christian falou afastando-a friamente.
-Mas Chris...;
-Ouça de uma vez por todas Rebeca, nós não temos e nem iremos ter nada um com o outro; o cavaleiro falou em tom seco. –É melhor colocar isso na cabeça de uma vez, não sou propriedade de ninguém, tão pouco pertenço a você... E se de alguma forma você insultar Ariel de novo, esteja ciente dos problemas que iria acarretar com isso; ele avisou.
-Ela não passa de uma fedelha, Christian ela tem idade para ser sua filha; Rebeca alfinetou, vendo-o serrar os orbes de maneira tão perigosa que ela teve certeza de que fora longe demais.
-Ariel é uma pessoa muito importante para mim Rebeca, que fique claro para você, ou qualquer outra pessoa, que se alguém ousar magoá-la, mesmo que para me atingir. Vai conhecer o inferno de perto, e acredite, não iria voltar de lá; ele completou antes de lhe dar as costas e afastar-se, indo encontrar Rochester do outro lado do salão.
Encostou-se na beira da mesa, buscando um ponto de apoio. Jamais vira Christian reagir a nada nem ninguém daquela forma, tão pouco apresentar um brilho tão feroz nos orbes azuis.
Engoliu em seco, vendo-o encontrar John e entabular uma conversa sem propósito, respirou fundo, tentou se recompor e aos olhos dos convidados que ouviram as palavras de Christian, fingiu que estava tudo bem e voltou a bancar a anfitriã perfeita.
-x-
.III.
Fechou a mala e deixou-a sobre a cama, enquanto aproximava-se da janela. Depois de uma semana ali já se acostumara com o céu cinzento e o clima outonal de Londres.
Terminou de fechar os últimos botões da camisa petróleo quando ouviu dois toques na porta.
-Pode entrar; ele falou vendo Laura parar na porta.
-Está pronto? –ela perguntou indicando com um olhar a mala.
-Sim, é só isso; Mú respondeu enquanto fechava as cortinas e voltava até a cama para pegar a mala.
-Vamos então, já tem um carro esperando por nós; ela falou saindo.
-...; assentiu silenciosamente.
Laura ainda não explicara exatamente aonde iriam, apenas que era um local entre Londres e o Santuário, de forma que teriam tranqüilidade para iniciarem o treinamento.
Pegou a mala sobre a cama e saiu do quarto, enquanto descia as escadas de mogno, olhou uma última vez para a sala principal, antes de encontrar Laura na porta.
-Como vai ficar a casa depois? –ele indagou curioso.
-Minha tia vai passar um tempo aqui e cuidara da casa, enquanto estou fora; Laura respondeu. –Alem disso, tem um sistema de segurança implantado na fechadura, depois que eu virar a chave, todas às portas e janelas serão automaticamente trancadas e qualquer tentativa de arrombamento acionara a policia local; ela explicou.
Assentiu, enquanto pegava a mala que ela deixara no chão e virava-se para atravessar o jardim, mas estancou ao ver um Mercedes negro estacionado na frente do portão e um homem vestido elegantemente de terno preto se aproximar.
-Me permita senhor; ele falou pegando as malas de sua mão.
Virou-se para Laura, mas ela apenas deu de ombros, enquanto passava por si, em direção ao carro.
-Gosto de viajar com estilo; ela brincou quando ele lhe alcançou.
-Você não é nem um pouco discreta; Mú resmungou, enquanto abria-lhe a porta.
-Você não viu nada; Laura falou sorrindo ao ver que ele finalmente estava pegando o jeito.
Pelo visto a semana não fora de toda perdida, mesmo que ele fosse teimoso, tinha o potencial de um gentleman. Dali a alguns anos ainda o chamariam de Lorde; ela pensou satisfeita.
Depois que entraram no carro, o motorista deu a partida. Da janela fume viu as ruas de Londres passarem rapidamente, todo o caminho que havia percorrido durante a semana com Laura, aprendendo um pouco sobre a cidade.
Cerca de vinte minutos depois chegaram ao Aeroporto, mas diferente de outros carros que pegavam a via lateral para a parada de desembarque de táxis, ele tomou outro caminho, entrando na área restrita aos hangares particulares.
O motorista manobrou parando ao lado de um hangar e desceu para abrir a porta.
-Nada discreta mesmo; Mú falou saindo do carro e estendendo a mão para ajudá-la.
-Ah! Isso não foi idéia minha; ela falou se defendendo.
Não de toda idéia sua; ela pensou. Entretanto ele não precisava saber de todos os detalhes por enquanto, esperaria o momento certo para lidar com os resmungos dele; ela pensou sorrindo largamente.
-Obrigada pela carona, James; ela falou quando se afastaram.
-Disponha, madame; o chofer falou acenando com o quepe.
Dentro doh angar foram recebidos pelo piloto e sua equipe, trinta minutos depois estavam sobrevoando Londres e deixando a Inglaterra, por tempo indeterminado.
Continua...
