O ENIGMA DA SIRENE

BY DAMA 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation. Apenas Ariel, Axel, Emmus, Christian, Pepy, Carite, Ariella, Tristan, La Rochelle e Dream Village são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

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Importante!

Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!

Boa Leitura!

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Capitulo 9: Roda da Fortuna

Sinônimo de mudança. A lamina tem a forma de uma roda d'agua, cujo ciclo constante, não retém seus movimentos. Representa a sorte e as mudanças da vida, que surgem com o tempo.

A roda da fortuna representa simboliza os desafios que surgem ao longo do caminho, a coragem que é necessária para se enfrentar os percalços e a recompensa no final do arco íris.

-x-

(...) "Foi um dia memorável para mim, pois provocou grandes mudanças internas. Todavia, acontece o mesmo com qualquer vida. Selecione um dia de sua vida e pense como seu curso poderia ter sido diferente. Quem estiver lendo isso, faça uma pausa... E pense por um momento na longa cadeia de eventos, de espinhos ou flores, que nunca teriam lhe atingido não fosse pela formação do primeiro elo de um dia memorável". (...)

Charles Dickens


.::História Dentro da História – Que venha a tempestade::.

Entraram em casa rapidamente, lá fora uma tempestade caia sobre Londres, com raios e trovões furiosos, como se castigasse com punhos de aço todos aqueles que ali habitavam.

Carite não precisava ser um gênio para saber que isso era coisa da sobrinha. Desde pequena, ela e Endora tinham aquela empatia com as forças da natureza, quando se sentiam tristes, era como se o céu chorasse com elas, o mesmo acontecia quando perdiam a calma e se irritavam a extremos.

Nuvens vermelhas cobriam o céu, enquanto a água caia numa chuva torrencial.

Hoje não era diferente, sem sutileza alguma, Ariel deixara claro para toda sociedade inglesa, que não toleraria aquele tipo de agressão e conveniência, pelos quais os britânicos eram tão conhecidos.

-Lady Carite; Pepe começou, com voz tremula e rouca.

-Tudo bem querida, já mandei buscarem suas coisas;

-Mas não posso ficar aqui; ela falou agitada.

-Claro que pode; Carite tentou acalmá-la.

-Mas...;

-Fique tranqüila querida, Ariel sempre sabe o que faz. Amanhã, com mais calma vamos ver como as coisas ficaram. Até que tudo esteja acertado, você ficara conosco, não tem com o que se preocupar aqui. Alem do mais, vai ser bom ter alguém da mesma idade de minha sobrinha aqui; ela falou dando-lhe um abraço conciliador. –Agora venha, vou lhe mostrar seu quarto;

-Obrigada; ela murmurou timidamente.

-o-o-o-o-o-

Sentou-se no peitoril da janela, observando o céu lá fora. A chuva não dava sinais de cessar, mesmo que estivesse mais controlada agora. Respirou fundo, a quem estava querendo enganar? Ainda tinha ganas de voltar lá e castrar aquele bastardo do Melbourne.

Serrou os punhos nervosamente, precisava manter a mente equilibrada, antes que seus pensamentos ficassem enevoados e perdesse o controle sobre si mesma.

-Ariel;

-Sim; ela falou ouvindo a tia se aproximar.

-Já coloquei Pepe para dormir e vim ver se você precisava de algo;

-Não, tia... Obrigada; ela falou voltando a olhar para a janela.

-Ahn! O que pretende fazer agora? –a ninfa indagou curiosa.

-Tentar dormir; Ariel respondeu com simplicidade.

-Laura Ariel De Siren; Carite falou em tom de aviso, colocando as mãos na cintura e batendo um dos pés no chão.

-Tia, estou tentando não pensar nisso agora, mas fique tranqüila, quando eu decidir o que fazer, você será a primeira a saber e por favor, não me chame de Laura; a jovem a corrigiu com o olhar perigosamente estreito.

-É disso que tenho medo; ela murmurou vendo a sobrinha apenas sorrir levemente, aquele mesmo sorriso enigmático que ela, Endora e Merik davam quando estavam confabulando sobre alguma travessura, que sempre os deixavam em maus lençóis.

-o-o-o-o-o-o-

Recostou-se no acento da carruagem, de onde estava podia ver o leve tremular de uma cortina. A respiração quente e ritmada fazia as janelas da carruagem ficarem esbranquiçadas.

Passou o punho da camisa sobre um vidro e lançou um último olhar para a janela que observava. Com a bengala, bateu no teto da carruagem, mandando o cocheiro seguir em frente.

Não sabia ao certo o que havia acontecido no sarau nos segundos que desprendera seus olhos da jovem, mas a surra que Melbourne levara fora bem merecida.

Detestava tipos como ele e não concordava com o que a família da moça estava fazendo, entretanto, iria ficar de olho em Ariel, ela não era como a maioria das damas inglesas, portanto não sabia que com seu ato de salvar a jovem de Melbourne, adquirira um poderoso inimigo.

-x-

.I.

Assim que a balsa atracou, entraram na limusine. Axel dissera que assim que aportassem em terra, iriam trocar de carro. Embora as estradas fossem boas em La Rochelle, aquele não era o veiculo certo para trafegar ali.

-Então você é grego, Mú? –Axel perguntou tentando entabular conversa com o taciturno cavaleiro.

-Não senhor; ele respondeu.

-Axel, por favor... só Axel; o príncipe pediu.

-Não Axel, sou nascido e criado no Tibet, mas precisamente em Jamiel, que fica na divisa entre a China e a Índia; ele explicou.

-Já ouvi falar desse lugar; ele comentou pensativo. –O acesso até lá é só pelas montanhas, um caminho muito perigoso, diga-se de passagem;

-É uma boa forma de manter os curiosos afastados; Mú falou.

-Há muito tempo atrás visitei esses dois países... É triste que muitas coisas estejam se perdendo com as guerras políticas;

-Infelizmente o homem nunca se contenta com o poder que já tem. Sempre quer mais, independente das vidas que tenha de destruir para isso;

-Mas mudando de assunto...; Laura falou ao notar o olhar sombrio do cavaleiro e a atmosfera pesada que ameaçava sufocar-lhes. Somente Mú não percebia o quanto seu estado de espírito influenciava as pessoas a sua volta.

Havia um poder muito forte emanado dele e não duvidava que Axel também houvesse sentido. Se sua tia estivesse ali, diria que estava pagando com a língua, por ter de lidar com alguém tão parecido consigo em seus dias de adolescente rebelde, quando causava verdadeiras tempestades por conta de suas mudanças de humor; ela pensou.

-Axel, gostaria que você falasse sobre La Rochelle para Mú, acredito que ele vá gostar da história; ela falou.

-Sim... Sim; Axel concordou prontamente. –La Rochelle sempre foi uma ilha. Começou a ser habitada por volta do século seis ou sete;

-Bastante tempo; o ariano murmurou.

-A ilha sempre pertenceu ao território escocês, mas houve uma época que os normandos do norte da França, aportaram aqui, tentando reivindicar as terras. Foi um período difícil. Ainda estávamos sob o reinado da coroa de Guilherme, tendo de combater os ingleses de Aroldo. Vilas foram saqueadas, famílias destruídas;

-Pra dizer o mínimo; Laura acrescentou.

-O atual dono das terras era Edward La Rochelle, que morreu tentando proteger o rei no começo da guerra. Deixou seu legado para a única filha que anos depois se casou com Ian Considini, que baniu os invasores de La Rochelle. Depois disso tivemos dois séculos de tempos bons, colheitas fartas, tranqüilidade e muitas crianças grudadas às saias de suas mães; Axel falou com um sorriso nos lábios. –Mas no inicio do século XVI o atual Considini foi sagrado príncipe, não apenar pelo grau de parentesco com o atual rei, mas por ser um homem totalmente fiel a coroa e de grande apreço do rei;

-Essa não parece ter sido a melhor das idéias que seu rei teve; Mú comentou diante da expressão de Axel.

-Não. Não foi; ele concordou. –Com a morte do rei Alexandre, seu filho assumiu o trono. Infelizmente dele não restaram herdeiros, pois sua esposa e filho morreram e no desespero de ter um herdeiro para o trono, ele casou-se novamente, mas isso jamais aconteceu. Assim, Margarida da Noruega foi coroada rainha da Escócia com apenas três anos de idade.

-Mas...;

-Neta do rei Alexandre III da Escócia, filha do rei Érico da Noruega. Muitos guardiões foram nomeados para cuidar do trono até que ela tivesse idade para retornar a Escócia, na época à Escócia tinha aliança com Eduardo I da Inglaterra, podemos dizer que eles tinham um acordo tácito para manter a ordem nos dois países. Aproveitando isso, Eduardo assinou um contrato que faria com que Margarida se casasse com seu filho Eduardo II, quando chegasse a Escócia, fazendo assim, com que o país ficasse totalmente a mercê da Inglaterra, mas isso não aconteceu. Anos mais tarde, quando Margarida viajava de navio para a Escócia, a embarcação naufragou, ela nunca conseguiu aportar aqui. Margarida foi à última da dinástica Canmore; Axel explicou.

-Assim a briga pelo trono começou novamente; Laura comentou.

-Isso mesmo, o contrato de casamento entre Margarida e Eduardo dizia que se ela não tivesse filhos ou se morresse no inicio do casamento, Eduardo assumiria total poder sobre a Escócia, mas com a morte dela, antes do casamento. Nenhum dos guardiões foi obrigado a aceitar esse acordo e a guerra pelo trono começou e a aliança com a Inglaterra foi quebrada pelo próximo monarca que também não queria dividir o poder e a soberania sobre a Escócia, com os ingleses.

-Foram dois séculos de tormenta; Laura comentou.

-Até que no inicio do século XVIII, Rafaelle assumiu La Rochelle, ele trouxe a nós o "Reinado de Luz" como chamamos o período pós tirania. Graças a ele, La rochelle é o que vemos hoje;

-Não deve ter sido fácil herdar La Rochelle depois de dois séculos numa Era de Trevas; Mú comentou.

-Rafaelle era um idealista, sonhador e apaixonado. Sempre buscou o melhor para o povo, mesmo quando criança, tendo de suportar a crueldade do avô e do pai, buscando proteger mesmo que parcamente, a mãe; Axel falou.

-Rafaelle era mais do que um idealista; Laura falou ficando seria. –O que ele mais queria era ajudar as pessoas e precisou de muito tempo para ter a segurança de agir por conta própria sem ter a sombra do pai para assombrá-lo;

-Desculpe; Axel falou envergonhado. –Às vezes esqueço que os livros não são tão fieis como pensamos; ele completou.

-Normalmente eles só contam meias verdades; Mú falou notando o olhar trocado entre os dois. –Atualmente você é o monarca que reside aqui, essa função resume-se exatamente a que?

-Bem, não diria monarquia, porque temos presidente e ministros no governo. Entretanto, esse é um país antigo, e as pessoas ainda são muito apegadas às velhas tradições, isso lhes da segurança para enfrentar as mudanças trazidas com a modernidade;

-O que Axel quer dizer, é que embora tenha o titulo, em questão de política, ele não opina. Os bens passados de herdeiro para herdeiro, ainda existem, bem como os títulos, mas só isso;

-Semelhante à família real inglesa? – Mú indagou, lembrando-se do que Laura lhe explicara sobre isso.

-Isso mesmo, atualmente a família real inglesa é a família mais falida do mundo, eles só tem status e nome, mas não tem poder político, que hoje é atribuído ao primeiro ministro da casa. Alguns países como Itália e Espanha, ainda mantém os títulos de sir, lorde, Vossa Graça, Vossa Alteza, para classificar os que ainda sobreviveram a nova Era, pertencente às famílias antigas e tradicionais da monarquia. Algumas famílias ainda são influentes politicamente e mantém títulos como Barão, Conde, Duque e até mesmo Príncipes; ela explicou.

-Entendo;

-Mas graças a Titãs, eu ainda consigo fazer algo pelas pessoas, não apenas em La Rochelle; Axel continuou.

-Titãs?

-É uma empresa que abri junto com outros dois amigos, da época da faculdade. Nós nascemos aqui e queríamos de alguma forma, aumentar a perspectiva das pessoas que vivem aqui, então criamos a Titãs;

-Como assim?

-No começo éramos três, trabalhando dia e noite. Eu, Willian e Devlin; Axel falou sorrindo ao referir-se aos dois companheiros. –Willian Blackshadows antes de ser advogado, trabalhava com mecânica, enquanto Devlin Rosewood era arquiteto. Com os conhecimentos de programação e informática que eu tinha, nós formamos uma parceria. Naquela época, quem estudava informática era um zero a esquerda, porque os computadores eram recentes demais, grandes demais para serem operados por uma única pessoa;

-Hoje ainda não temos uma grande evolução tecnológica, mas fizemos muito progresso, pois conseguimos até nos comunicar via internet com pessoas do outro lado do mundo e em lugares que não temos torres para telefonia, usamos transmissão via satélite; Laura explicou.

-Naquela época só que tinha acesso a melhor tecnologia de informática era o Japão, eles sempre foram melhores no quesito desenvolvimento, do que os americanos; Axel explicou. –Mas não desistimos, decidimos entrar nesse mercado, assim começamos a desenvolver sistemas eletrônicos para automatizar as fabricas e tornar o serviço mais fácil. Ainda estamos presos ao Fordismo e muitos lugares tem poucos recursos, mas começamos a expandir. Cheguei a viajar para o Japão para aprender a usar as novas tecnologias e as trouxe para cá. Assim a Titãs entrou no mercado como um concorrente em potencial para as multi-nacionais;

-Hoje a matriz fica na capital; Laura contou.

-Graças a isso conseguimos melhorar muitas coisas em La Rochelle, hoje temos novos prédios escolares com parte da renda que conseguimos com o desenvolvimento de projetos. Hoje são muito poucas crianças que não atingem um nível universitário aqui. Estamos trabalhando para remediar isso, mas já fizemos um grande progresso;

-...; ele assentiu, pensativo.

-Atualmente temos mais de duzentos funcionários na área de desenvolvimento. Temos uma filial em Viena e parceria com duas outras empresas, uma na Itália e outra nos Emirados. Como pode ver, eu posso não ter influência política como príncipe, mas por mandar em quase 55% do capital rotativo do país posso opinar numa coisinha ou outra; ele completou sorrindo.

-Entendo;

-Bem, parece que chegamos; Axel falou quando o Land Rover atravessou os portais em arco rumo a entrada do castelo.

.:: História Dentro da Historia – Alquimia::.

Arrumou o laço do chapéu enquanto atravessava a rua. A manhã amanhecera nublada, como reflexo da noite de tempestades que só amainara quando o sol estava para nascer. Entretanto, as pessoas pareciam não se importar, já que aquele clima frio e o céu cinzento pareciam parte da rotina do dia a dia.

Respirou fundo, enquanto seguia as indicações que Carite lhe dera, a tia tentara lhe convencer de todas as formas a não sair de casa tão cedo, mas estava agitada demais para ficar quieta num canto. Nem mesmo as pessoas que passavam por si, cochichando eram motivo suficiente para lhe fazer ficar em casa.

Baixou os olhos para o papel que apertava na mão, talvez fosse tolice sua imaginar que encontraria algo daquele tipo ali, mas já que não lhe restavam esperanças, uma decepção a mais ou uma a menos, não faria diferença. Não perdia nada em tentar; ela concluiu.

-Bom dia, milady; o guarda em frente ao prédio a cumprimento.

-Bom dia, o senhor pode me informar se é aqui que encontro o senhor Pascal? –ela perguntou, segurando o papel, ainda mais tensa na mão.

-Sim, ele é o bibliotecário principal daqui; o guarda explicou. -Já deve ter chegado;

-Ahn! E eu poderia falar com ele?

-Claro, pode sim; o senhor falou indicando-lhe as escadarias. –Pode subir;

-Obrigada;

Nunca pensou que um dia fosse entrar num lugar maravilhoso daqueles, repleto de prateleiras altas formando corredores por toda parte, mesas com luminárias a gás iluminavam uma parte do salão.

Algumas pessoas andavam entre as prateleiras com livros nos braços.

Suspirou de puro contentamento, aquela biblioteca era linda. Aproximou-se do balcão, onde um senhor com óculos meia lua estava resmungando enquanto olhava para os livros que tinha em mãos.

-Bom dia; ela falou em tom baixo, não querendo assust''a-lo.

-Ah! Bom dia, milady; ele respondeu atrapalhando-se com alguns livros.

–Desculpe interrompê-lo, mas onde posso encontrar o senhor Pascal?

-Sou eu mesmo minha jovem, mas o que deseja? –ele perguntou curioso.

-Eu gostaria de dar uma olhada nos livros de história; ela começou, vendo-o ajeitar os óculos na pontinha do nariz.

-Se deseja livros de romance, a biblioteca circulante fica no final da rua; ele explicou.

-Não, é história mesmo; Ariel respondeu.

-Acredito que os livros daqui não vão ter muito a oferecer;

-Mas...;

-De qualquer forma, porque milady iria querer perder tempo com isso? –ele falou especulativo.

-Só quero ver os livros, é possível? –ela perguntou entre dentes, começando a perder a calma.

-Sinto milady, mas não posso permitir que fique aqui sem uma acompanhante;

-Mas...;

-Porque não volta para a casa e descansa, acredito que tenha muitas festas para ir, em vez de se cansar aqui; ele falou complacente, apenas para aumentar a ira dela.

-O senhor percebeu o que esta falando? –ela rebateu. –Pensei que Seu Rei, houvesse decretado que o conhecimento era para todos, ou aqueles discursos da Câmara dos Comuns era pura balela? –ela exasperou.

-Esses não são assuntos para milady se preocupar;

-Dane-se; ela berrou fazendo muitos rostos virarem-se na sua direção. –Isso é machismo, a única coisa que quero é ver esses MALDITOS livros, não vou rasgá-los, danificá-los ou roubá-los. Só quero que me indique a prateleira; ela completou com a face vermelha..

-Mas...;

-Só aponte; Ariel completou amassando o papel com força nas mãos, deixando bem claro que queria fazer isso com o pescoço dele.

Hesitante, Pascal indicou-lhe a prateleira, enquanto uma gotinha de suor frio escorria de sua testa.

Pisando duro e bufando, ela seguiu a indicação.

-Malditos bastardos sem cérebro; ela resmungou.

Se Carite a visse agora, ficaria no mínimo escandalizada, mas dane-se, paciência numa fora sua virtude preferida. E odiava! Simplesmente Odiava homens machistas que tratavam as mulheres como bibelôs sem cérebro.

-Grrrrrrr; ela rosnou.

Por isso sentia tanta falta de Merik. Ele nunca a tratara assim. Embora fosse o típico grego, pragmático e possessivo. Ele sempre soubera dosar seu temperamento, para que não as deixasse inibida. Mesmo porque, sabia que em matéria de gênio difícil, ele perdia facilmente para ela e Endora, juntas.

Entretanto, Merik entendia a necessidade que tinham de galgar um lugar próprio no mundo, mesmo porque, vinham de uma família pouco normal. Onde o tio era a reencarnação de uma divindade onipresente, sua mãe uma sereia e seus tios, um time de generais marinas e amazonas.

Suspirou pesadamente, encostando-se em uma prateleira, fechando os olhos por alguns segundos. Sentia tanta falta do amigo que chegava a doer.

Respirou fundo, tentando afastar as lágrimas. Ele e Endora eram como irmãos e por causa daquela mulher perdera os dois; ela pensou.

-Esta se sentindo bem, milady? –uma voz amigável sou a seu lado.

-Ah! Sim... Tudo bem; Ariel respondeu, voltando-se para a voz e deparando-se com um senhor baixinho, gordinho e com bigodes tipo espanador, mas perspicazes olhos castanhos a lhe fitar.

-Folgo em saber que esta bem; ele falou cordialmente. –Mas temo não termos sido apresentados devidamente, ainda; ele falou afastando-se e fazendo uma breve mesura. –Arthur Doyle a seu dispor;

-Doyle... Doyle de A-...;

-Arthur Conan Doyle... Sim; ele falou com um sorriso envergonhado, fazendo as bochechas corarem como maçãs. –Eu mesmo;

-Incrível, sempre quis conhecê-lo; Ariel falou animadamente. –Já li quase todos os seus livros publicados, mas meus preferidos ainda são Signo dos Quatro, Um Estudo em Vermelho e a Vampira de Sunsex;

-Fico feliz que goste das tramas; ele falou. –Mas perdão por estar um pouco surpreso, jovens da idade de milady normalmente preferem...;

-Byron? –ela falou torcendo o nariz. –Ele é bom, para quem gosta de romance com altas doses de glicose, prefiro mais os contos de Doutor Jackyl e Mister Hyde, ou Mary Chelly, Oscar Wilde e aquele outro irlandês, Bran Stoker; ela explicou.

-Eclética; ele murmurou surpreso.

-...; Ariel assentiu, sem se importar com a perplexidade dele.

-Mas milady esta procurando por contos na seção errada, aqui é...;

-História, eu sei... vim procurar um livro, mas já vi que não poderei contar com a ajuda do senhor Pascal; ela falou.

-Quem sabe eu não possa ajudá-la, sou o que chamam de rato de biblioteca, acho que sei aonde estão cada um dos volumes aqui; ele falou sorrindo. –O que procura?

-Algo sobre alquimia; ela falou ouvindo-o engasgar.

-Alquimia?

-Sim, acho que isso deve servir; ela falou pensativa.

-Ahn! Milady, acho que não ira encontrar esse tipo de livro por aqui; Arthur falou olhando para todos os lados, garantindo que ninguém o ouviria. –E também é melhor que milady não seja pega falando sobre isso.

-Porque?

-As coisas funcionam diferentes aqui; ele continuou indicando para que ela lhe acompanhasse.

-Uhn?

-Infelizmente o ser humano teme coisas que desconhece e por ignorância apenas decide não conhecer;

-Não entendo;

-Alquimia é uma arte antiga, passada de pai para filho, de mãe para filha. É um estudo sobre a vida e os elementos que regem a nossa existência, o cosmo, o poder que geramos apenas por existir, pela necessidade de fugir da austeridade da rotina da vida. Entretanto, graças a um grupo de ambiciosos arrogantes, ela se tornou sinônimo de bruxaria e tabu nos círculos sociais.

-Entendo; ela murmurou aborrecida.

-Sei que não é da minha conta, mas quem sabe milady não ache o que procura em outro livro;

-Pouco provável, já procurei em todos os possíveis; ela falou desanimada. –É uma pena que não tenha nada aqui;

-Sim, vou ficar lhe devendo a ajuda; ele falou sorrindo.

-Obrigada mesmo assim e desculpe tomar seu tempo;

-Estar com uma jovem tão bonita e talentosa, nunca é perda de tempo; ele falou curvando-se numa mesura, diante do olhar confuso dela. –Vi a senhorita tocando no Hyde Park esses dias;

-Ah! Sim...;

-Milady toca muito bem, pretende ser uma musicista como sua tia? –ele perguntou.

-Ainda não sei, vou decidir depois que resolver tudo que vim fazer em Londres e partir;

-Então não pretende morar aqui? –ele falou surpreso.

-Não, daqui vou para a Cornualha, tenho algumas propriedades lá, herança de meus avós maternos e é onde quero viver;

-Bom, não irei prendê-la mais, tenha um bom dia;

-Igualmente;

Observou a jovem dama passar pelo balcão principal e por Pascal, rumo a saída.

-Essa menina ainda vai ter problemas; o velho resmungou.

-O que esta falando Pascal? –Arthur perguntou.

-Desculpe Sir, estava pensando alto;

-Pois então, compartilhe comigo esse pensamento;

-Essa menina vai acabar arrumando confusão sendo tão voluntariosa. Ouvi rumores hoje cedo que ela bateu em Melbourne, acertando-o bem nas jóias da família; Pascal comentou horrorizado. –E depois levou lady Pepe para sua casa. A família esta irada;

-Não acredite em tudo que houve Pascal, sabe como esses nobres decadentes adoram chamar a atenção para si mesmos. Agora por favor, confira esses livros para mim;

-Sim senhor;

Encostou-se no balcão, enquanto Pascal conferia os livros.

Talvez Pascal estivesse certo, Ariel poderia ter problemas sendo tão voluntariosa, quem sabe se falasse com Dampier, ele não pudesse resolver aqui; ele pensou.

-x-

.II.

Era ainda mais lindo do que visto do porto. As duas torres principais erguiam-se como sentinelas à frente do castelo. Janelas de vidro adornavam as paredes, refletindo o brilho do sol.

-Seja bem vindo a Dream Village; Axel falou quando o carro parou e o motorista desceu, indo abrir a porta e ajudando o príncipe a descer. –O castelo conta uns 200 cômodos aproximadamente. Depois das guerras a ala direita teve de ser reconstruída, portanto, uma nova torre foi erguia, seguindo o projeto de Leonardo Da Vinci para o castelo de Chamborne na França; ele explicou.

-Como assim?

-Daqui você pode ver as duas torres principais, com a mesma distancia da entrada até o centro. O perfil de entalhe as torres é o mesmo. São como torres gêmeas, embora o que exista em cada uma das alas sejam diferentes. Mas nas duas, o numero de cômodos é o mesmo;

-O que Axel quer dizer, é que quando o rei Francis da França decidiu construir o castelo de caça, nos pântanos de Chamborne, ele pediu a Leonardo Da Vinci, de quem era um obcecado admirador, que fizesse o projeto do castelo. Criando as torres principais, como um forte de ostentação, diferente de Dream Village, que as torres são uma forma de comunicação, com os faróis espalhados pela ilha; Laura explicou.

-A partir da Torre esquerda, temos todos os aposentos da família, enquanto os do direito, eram destinados a visitantes e a corte que acompanhava outros príncipes até Dream Village em determinadas épocas; Axel explicou. –Quando foi necessário reconstruir essa ala, foi decidido manter esse projeto, mais por comodismo, do que por qualquer outro motivo;

-Depois dessas portas temos o hall principal e as "Escadarias das Ilusões", em frente ao marco da cruz grega; Laura explicou.

-Como? –ele indagou confuso.

-Você já vai ver; ela falou sorrindo, enquanto seguiam em frente.

As portas abriram-se, enquanto um casal parecia já esperá-los do outro lado.

-Mú, esta é Sophia e este George; Axel apresentou. A mulher e o marido não pareciam ter mais de quarenta anos, embora aparentassem uma vitalidade juvenil.

-Muito prazer; ele os cumprimentou cordialmente.

-Igualmente; Sophia respondeu antes de voltar-se para Laura. –Estávamos morrendo de saudades;

-Gostaria de ter vindo antes, mas tive alguns contratempos; ela explicou.

-O importante é que você chegou; ela falou sorrindo. –Senhor, os quartos já estão prontos como pediu;

-Obrigado, já vou levá-los até lá. Primeiro gostaria de mostrar o castelo ao Mú; Axel falou, vendo que Sophia estava prestes a contestá-lo, completou. –Prometo não me cansar demais;

-Como quiser; ela respondeu, decidindo não discutir, Axel podia ser mais teimoso que uma mula quando queria e aquele obviamente era um desses momentos.

-...; ele assentiu, antes de voltar-se para o cavaleiro. –Esta vendo esse mosaico no chão? –o príncipe falou, chamando-lhe a atenção para o desenho bastante parecido com a Rosa dos Ventos. –Essa é a cruz grega, em cada corredor tem uma e todas estão apontadas para esta aqui, portanto, acaso se perder nos corredores, basta seguir os mosaicos que vai encontrar a saída;

-Entendi; ele falou observando tudo com curiosidade.

-As "Escadarias das Ilusões" são aquelas; ele falou, indicando o local a poucos metros à frente, era como uma grande torre erguia no centro do hall. Entre as colunas que cercavam aquela torre, podia ver vários pares de degraus.

Ergueu a cabeça, vendo que no topo dela, havia um corredor, metros acima. Provavelmente aquela era a conexão entre as torres sul e norte.

-Como a torre Sul, essas escadarias foram trazidas a Dream Village por um de meus ancestrais, apaixonado pela renascença francesa. Em especial, o projeto nos pântanos de Chamborne;

-Porque Ilusões? –Mú indagou.

-Sophia, George. Por favor; ele pediu ao ver que o casal ainda estava ali.

Os dois assentiram e foram em direção as escadarias, mas cada um foi para uma extremidade diferente e começaram a subir. Esperou o momento que eles fossem se encontrar, mas isso não aconteceu.

Franziu o cenho, vendo-os descerem novamente, mas passarem longe um do outro, embora de onde estava pudesse jurar que os lances de escada iriam se cruzar.

-Existem quatro lances diferentes. Quem esta de fora não percebe, mas existe uma distancia bem grande entre cada um deles, por isso não importa por onde você suba, seu caminho nunca ira cruzar com o outro.

-Incrível;

-Leonardo era genial; Axel falou. -Antes que esqueçamos, Mú... Nesse pavimento, a esquerda fica uma sala de visitas, que tem saída para o jardim. E também a entrada para o alojamento dos funcionários. Há direita temos a cozinha, uma sala de jantar e alguns cômodos menores; ele explicou.

-Atrás da escada, tem a saída para o jardim principal; Laura explicou.

-...; ele assentiu, seguindo-os.

-O castelo é abastecido com energia elétrica vinda de geradores, embora eu tenha tentando mexer o mínimo possível na arquitetura com essa implantação; Axel explicou.

-Foi um bom trabalho; Mú concordou.

Notou ao subir as escadas, que nos pilares de sustentação, haviam sido esculpidas em estilo jônico, a mesma usado pelos gregos em determinado período da antiguidade, em vez de seguirem o padrão reto dos pilares romanos. Os desenhos eram arredondados e bem delineados.

-Embora seja um castelo escocês, Dream Village tem a marca de muitas culturas aqui, uma herança deixada por cada ancestral; Axel explicou.

-Como assim?

-A avó de Rafaelle era parte italiana, então sua mãe trouxera para Dream Village a pintura renascentista, temos um salão de bailes de fazer inveja ao castelo de São Miguel em Roma; Axel explicou. –Rafaelle trouxe o conhecimento na forma de uma biblioteca impressionante, na época em que esteve na Inglaterra. Seu filho trouxe a arquitetura grega e por assim foi. Você vai encontrar muitos estilos diferentes aqui, nada muito gritante, mas você poderá perceber com bastante atenção;

-...; ele assentiu.

-Vamos pra direita primeiro; Axel falou quando chegaram ao corredor no topo.

Do alto daquela galeria viu uma escadaria que seguia para cima e para baixo.

-Lá em cima fica o observatório. Antigamente era a torre de vigília. Na ilha temos quatro faróis espalhados em cada canto. Através dessa torre, nos comunicávamos com os faróis, para saber se alguém estava chegando ou tínhamos um ataque.

-...; ele concordou, seguindo-os pelo caminho.

-Seguindo essa escada, lá em baixo temos a central de aquecimento e a casa dos geradores. Todo o sistema operacional do castelo fica ali. Agora seguindo por aqui, vamos chegar aos aposentos destinados aos hospedes. São quase trinta e cinco quartos de padrão básico, para serem ocupados por três a quatro pessoas. Existem mais cinco suítes para casais, são maiores e tem vestíbulo. No final do corredor há um pequeno deposito e uma escada que leva ao andar de cima, que tem o mesmo número de aposentos. Toda essa ala esta fechada atualmente, os poucos hospedes que recebo são amigos íntimos, portanto ficam na outra ala.

-Todas as galerias tem janelas voltadas para o jardim dos fundos, como pode ver; Laura comentou, enquanto seguiam pelo corredor.

Aproximou-se do parapeito de uma, onde podia ver o jardim repleto de flores, mas o que chamou-lhe a atenção foi o labirinto que vinha após um pequeno declive.

-Ah! Essa foi idéia minha; o príncipe falou ao notar o olhar dele. –Sempre quis um labirinto de eras como os descritos nas histórias sobre Byron; ele explicou.

-Axel pode tentar negar, mas é um romântico incorrigível; Laura falou sorrindo.

-Você fala isso porque conhece essa época, eu ainda acredito que nasci no tempo errado. Não acharia ruim viver no século XVIII com todas aquelas coisas; ele falou suspirando.

-Deve ter sido uma época interessante; Mú comentou.

-Tirando alguns por menores, sim; Laura concordou.

-Para chegar ao labirinto, você tem que passar pelo salão de baile que fica ali; Axel aponto, indicando uma porta de vidro lá embaixo. -No terceiro andar ficam os aposentos da família, no segundo, algumas salas de descanso e a biblioteca. No primeiro estão o salão de baile, uma outra sala de jantar maior e uma cozinha industrial;

-Nossa! – o ariano murmurou, precisaria de um mapa para guardar tudo isso e não se perder ainda; ele pensou.

-Esta vendo aquela torre? –ele falou e apontou a Torre da esquerda.

-Sim;

-Chamamos aquela torre de Solar da Rainha, as paredes da torre são cobertas por janelas de vidro, é onde o sol tem maior incidência, é uma área reservada para as mulheres que viviam no castelo na antiguidade, onde podiam ficar mais a vontade. No mesmo pavimento do solar, esta o antigo berçário;

-Tudo é muito grande;

-Você ainda não viu o lado de fora; Laura falou.

-Do lado de fora, na área norte, tem uma capela, todos os domingos é celebrada uma missa e os moradores da vila vem para cá. Nós fazemos um grande almoço no jardim; Axel explicou. –Acho que esse é o único dia que a cozinha maior é usada aqui; ele comentou.

-Dream Village foi construída inicialmente para servir de fortaleza; Laura lembrou. -Você pode notar que diferente de outros castelos medievais, este não possui muros a sua volta, isolando o vilarejo principal do castelo; ela explicou.

–Quando passamos pelas guerras, os moradores da vila eram abrigados dentro das galerias de pedra, que ficam abaixo do castelo, escavadas no penhasco e barcos ficavam a postos na baia, se o castelo fosse invadido, as pessoas teriam tempo suficiente para fugir. Meus ancestrais acreditavam que muros apenas instigariam os invasores a destruir tudo, então, se não houvesse condições de lutar, tentariam uma rota nova, de forma que pudessem salvar o máximo de pessoas possível. Nesse período, muitas coisas foram destruídas em Dream Village, como a ala Sul, sem contar as outras que necessitaram de reformas a cada nova geração.

-Quantos anos Dream Village tem? –Mú perguntou.

-Basicamente tem mil anos, entretanto, como disse, já chegamos a perdê-la quase toda, para reconstruir do zero. O que você esta vendo aqui tem pelo menos quinhentos anos.

-Nossa; ele murmurou mal podendo conter a surpresa.

Continuaram atravessando os corredores até a ala norte, pararam em alguns momentos para Axel mostrar alguns quadros na parede.

-Por ser a ala familiar, foram colocados aqui alguns dos quadros que pertenceram a meus ancestrais. Os retratos oficiais ficam na sala da coroa no primeiro andar, próximo ao salão de baile. Esses são retratos informais, feitos em óleo sobre tela. A técnica reconhecida na época;

-São lindos; ele falou acompanhando-o pelo corredor e observando uma por uma das telas.

Cada quadro marcava bem o período que fora concebido. Ali estavam quatro gerações de Considini e suas consortes.

-As primeiras gerações só existem através de documentos que temos na biblioteca e alguns esboços doados ao museu local. Muita coisa foi destruída com as guerras. Portanto só temos guardado em Dream Village as telas das seis últimas gerações; Axel explicou.

Observou atentamente o primeiro quadro, onde estava um homem de longos cabelos dourados e orbes acinzentados, notava-se a expressão alegre e a forma como os orbes fitavam intensamente a dama de cabelos vermelhos a seu lado.

Estranho, aquela moça lhe parecia familiar.

-Este é Rafaelle Considini; Laura falou. –Ao lado dele, Arabella Dampier; ela falou notando que ele voltara-se imediatamente em sua direção. Sorriu ao ver que ele compreendera a ligação imediatamente, mas optou por não comentar nada mais sobre isso.

Diferente de Tristan, irmão gêmeo de Arabella, que nascera com cabelos negros da mãe e olhos do pai. Arabella herdara de Christian os cabelos cor de fogo e seus olhos violeta; ela pensou.

-E este sou eu, quando jovem; Axel falou tirando-os de suas divagações, ao indicar o quadro mais recente da galeria.

Passou os demais quadros, mas parou em frente ao penúltimo, olhando fixamente para a mulher que chamara-lhe a atenção. Ela tinha duas marquinhas na testa próxima a junção das sobrancelhas, iguais as dele e de Axel.

-Como deve ter percebido, minha mãe também era Lemuriana;

-Uhn?

-Você sabe, um dos pertencentes aos poucos que sobreviveram à destruição do continente a milênios atrás; Axel explicou.

-Ahn! Bem...;

-Axel, imagino que você também esteja cansado, então, vamos deixar as outras histórias para depois. Vocês terão muito tempo pra conversar sobre isso mais tarde; Laura o cortou.

Viu o príncipe abrir e fechar a boca seguidas vezes, como se não esperasse por aquela interrupção. Por bem, decidiu não mencionar mais o assunto.

.IV.

Deitado sobre a cama confortável, de lençóis macios e perfumados, ele sentia as horas se arrastarem. Já passara da meia noite e nem sinal do sono chegar.

Era em momentos como aquele, que por mais exausto que estivesse, não conseguia dormir, fora assim na última semana em Londres. Jogou as cobertas de lado e levantou-se, quem sabe se fosse dar uma volta lá fora, conseguisse dormir depois; ele pensou vestindo a calça que deixara jogada sobre uma cadeira.

Mesmo que tivesse faltado só espernear quando vira o quarto que lhe fora arrumado, acabara sendo convencido a ficar ali por Axel.

Aquele quarto parecia saído das galerias de Versalhes, tudo era muito dourado e suntuoso. Quase opressivo, mas Axel dissera que não via necessidade dele ficar na outra ala, como bem dissera mais cedo, estava fechada e desarrumada.

Respirou fundo, cansado. Discutir com Axel mostrara-se perda de tempo. A lógica precisa dele era tão irritante, que lhe dava nos nervos, mas era obrigado a admitir que ele tinha razão.

Deixando as outras roupas de lado, antes de transportar-se para fora do castelo, precisamente para a entrada do labirinto, que vira da janela lá em cima.

Estava intrigado com aquele lugar, sentiu uma brisa suave chocar-se contra sua pele e uma inexplicável lufada de ar quente guiou seus passos por entre as paredes de eras.

A noite estava tranqüila, o som das cigarras parecia uma sinfonia, as árvores balançavam ao sabor do vento.

Ao fim do labirinto, já sentia a mente mais leve. Observou as estrelas brilhando e foi inevitável lembrar-se dos momentos que passara com Ilyria na torre do castelo em Jamiel vendo as mesmas estrelas. Não, não as mesmas, porque agora ela não estava ali.

Nesse momento a amiga estava em algum lugar do mundo, sem que pudesse encontrá-la e contar tudo que havia acontecido.

Caminhou até a beira do penhasco, dali ouvia o som das águas do mar, chocando-se nos rochedos. Axel dissera que La Rochelle era a única ilha do arquipélago a possuir uma encosta tão alta como aquela.

Ali, se erguesse os orbes para cima, sentia que poderia tocar as estrelas, de tão alto que estava.

-Também venho aqui quando preciso acalmar meu coração; uma voz conhecida soou a suas costas.

Virou-se, encontrando Axel a poucos passos dali, sentando num banco de pedra. A perna direita esticada sobre a grama, enquanto a bengala de madeira polida, descansava encostada no banco.

Naquele momento notou as linhas de cansaço e desamparo na face dele. Parecia muito mais velho do que quando se conheceram naquela tarde. Agora era como se o peso do mundo estivesse em suas costas.

-Genevieve costumava dizer que esse era o único lugar que ela conseguia esquecer os problemas e aliviar o coração; Axel continuou.

- Genevieve? –Mú indagou confuso.

-Minha esposa; ele respondeu. –Nos conhecemos quando estive em Toulouse na França, numa viagem de negócios pela Titãs. Ela era escritora e viajava pelo país, buscando lugares que a inspirassem. Nunca conheci ninguém como ela; ele falou nostálgico. –Ela também gostava de lendas e histórias sobre labirintos, por isso mandei construir esse. Gene adorava ver as estrelas daqui; ele falou.

Assentiu, esperando-o continuar, sem ousar interrompê-lo.

–É como se pudéssemos alcançá-las daqui, mesmo que pareçam tão pequenas, quando na realidade, somos nós as formiguinhas em relação a elas. Nesse ponto a vida é engraçada, ao mesmo tempo em que quero acreditar que exista mesmo uma força maior por trás da criação de tantas coisas maravilhosas, também acho difícil de acreditar que essa mesma força é capaz de causar tanta dor e sofrimento, ao nos afastar daqueles que amamos; Axel falou.

-Uhn?

-Eu a amava mais do que tudo, mas o destino decidiu separar nossos caminhos, colocando uma distancia intransponível entre nós. Depois que ela se foi, tentei seguir em frente, me dedicando ao trabalho, sabendo que jamais amaria outra mulher e me casaria com ela, como foi com Gene;

Observou-o atentamente, não sabia ao certo porque Axel lhe contava aquilo, mas sentia que deveria escutar até o fim, calado.

-Houve um tempo que pensei não acreditar em destino. Alias, me recusava a acreditar que o controle de minha vida estivesse nas mãos de alguém que não era eu. Foi quando conheci Laura. Ela era a filha que eu sempre pedi a Deus para conceber, mas tal feito me foi negado. Ela ajudou a apaziguar meu coração e por isso lhe serei eternamente grato e como a qualquer pai cabe velar pelo bem estar do filho, não vou permitir que ela se magoe;

-Não pretendo fazer isso, se é o que esta insinuando; Mú falou por fim.

-Não de propósito, talvez... Mas ninguém é passível de erro; Axel falou sabiamente. -Laura é uma guerreira, mas como você também sabe, é frágil e tem sentimentos. Não quero que ela sofra se esse treinamento nada trouxer;

-Você não tem como saber; Mú rebateu.

-Não, nem você é capaz de afirmar que tem controle total sobre seus sentimentos;

-Uhn?

-Ou não estaria aqui; Axel continuou. –Não é difícil amá-la, desejar protegê-la, derrotando seus demônios e dragões, ou se apaixonar por ela, mas proteja seu coração menino, é um conselho de um velho que já viu bastante do mundo. Só existe uma pessoa na vida dela e isso, nem o tempo vai mudar;

-Não pretendo deixar isso acontecer; Mú afirmou.

-Você não tem como saber; Axel repetiu.

-Isso é um pouco sem sentido, não acha? –o ariano falou, voltando o olhar para o mar. –Somos aquilo que construímos e por mais que você não entenda, não pretendo deixá-la se aproximar mais do que o necessário. Essa é minha prerrogativa!

-Mas...;

-Como você, já tive alguém em minha vida, mas diferente... Não quero isso novamente; ele falou, antes que Axel pudesse cortá-lo. –Prometi a ela, dois anos de minha vida, nada mais do que isso; ele completou antes de dar-lhe as costas e encaminhar-se novamente para o labirinto.

Mal deu dois passos, sentiu os olhos embaçarem. Apoiou-se na parede de eras, sentindo um nó formar-se em sua garganta.

-Você esta bem? –Axel perguntou pegando a bengala e aproximando-se preocupado ao vê-lo apertar os olhos.

Sentiu a cabeça pesar e a respiração tornar-se difícil. No momento seguinte viu-se em outro lugar, caminhando sobre um extenso tapete de neve fria.

Um arrepio correu o meio de suas costas ao deparar-se com a elevação de uma colina poucos metros de onde estava.

Os joelhos tornaram-se fracos ao ver a placa de mármore quase encoberta pela neve.

Dor e fúria misturavam-se em seu coração, fazendo-o cravar as unhas na palma da mão. Tinha mais alguém ali, embora não visse.

Gotas vermelhas pingaram sobre a neve imaculadamente branca. Aliviou a pressão das unhas, vendo a palma marcada por quatro luas crescente avermelhadas.

-Você sabia que não era para sempre; uma voz feminina sussurrou em seu ouvido, fazendo a dor em seu peito aumentar.

-! - alguém gritou, fazendo-o piscar e voltar a realidade.

Uma dor intensa queimava suas costas, quando percebeu estar caído no gramado.

-Calma; Laura falou ajoelhada a seu lado.

-O que aconteceu? –ele perguntou num fraco sussurro.

-Você desmaiou. Axel foi correndo nos chamar; ela explicou, lembrando-se do susto que levara quando o amigo surgira acordando o castelo inteiro, gritando por ajuda.

-Estranho, eu...; parou pensativo. O que fora aquilo que vira afinal? –ele pensou confuso. –Estou bem agora; ele completou, tentando se levantar.

Respirou fundo, tentando se equilibrar, quando Laura ajudou-o e começaram a andar.

-Tem certeza, podemos chamar um médico; ela falou apoiando o braço dele em seu ombro e quando levou uma das mãos as costas dele, ouvi-o gemer e esquivar-se, como se seu toque houvesse queimado-o.

-O que é isso? –ela murmurou preocupada, afastando com cuidado os cabelos lilases das costas dele e imediatamente sentiu-o ficar tenso.

-Devo ter batido quando cai, só está um pouco dolorido, logo passa; Mú falou sem muita convicção.

-É, talvez...; ela murmurou vendo uma sombra arroxeada no local que tocara, marcando a pele clara. –Vamos entrar então; ela completou, decidindo deixar aquele assunto de lado por enquanto.

Iria investigar aquilo outra hora, porque, mesmo que Mú não soubesse, Axel não ficaria tão perturbado apenas por conta de um desmaio. E a forma como ele aparecera no castelo, era como se a próxima Guerra Santa estivesse começando.

-Mú, quantos anos você tem? –ela perguntou depois de um tempo.

-Treze; ele respondeu confuso.

-Uhn! Entendo...; Laura murmurou pensativa e voltou a silenciar.

Embora soubesse que ele deveria ser bem jovem, já que fora recentemente sagrado cavaleiro, não pensou que fosse tanto. Ele não aparentava ter apenas treze anos, dezessete ou dezoito parecia mais lógico.

Não era à toa que ele estava tão hostil com as coisas que aconteceram naquela semana. Se desde pequeno ele vivera isolado em Jamiel, só conhecendo a Grécia por pouco tempo, ele nada experimentara do mundo.

Era normal que sentisse medo e insegurança frente aquilo que encontrava. Estava tão acostumada a lidar com pessoas que já viram o melhor e o pior de tudo, que cometera um erro ao julgá-lo pelas mesmas bases.

Agora entendia melhor o que ele quisera dizer quando se conheceram, sobre não estar "interessado" em gostar de alguém.

Ele já sentira isso e ninguém estava presente para lhe ensinar a lidar com a dor da perda.

Suspirou pesadamente, a partir de agora agiria de maneira diferente. Aquele seria um novo começo para eles e faria de tudo para proteger e ajudar seu mais novo "amigo".

Continua...