Dois
A primeira vez que Shinji vê Hiyori triste é culpa dele, e totalmente sem querer.
Em pouco tempo as aulas particulares de Hiyori tinham se tornado rotina, e a visão da menina temperamental e o vaidoso capitão da Quinta Divisão lutando, discutindo ou simplesmente se atracando como hienas ferozes diante de um pedaço de carniça pelos jardins e corredores da Academia deixara de ser um acontecimento que atraía olhares e confusão. O interesse, no entanto, ainda era o mesmo daquela tarde em que Shinji e Hiyori tinham se conhecido, e não era raro que as lições da menina fossem acompanhadas por meia dúzia de professores e estudantes que não tinham nada melhor para fazer.
Naquele dia, no entanto, eles estavam sozinhos. As provas finais daquele ano tinham terminado pela manhã e, no momento, a maioria dos alunos da Academia estava ocupada arrumando as malas e preparando-se para reencontrar a família depois de um ano, trazendo com excitação notícias de sucesso ou com desânimo o anúncio do fracasso. Não eram poucos os alunos que desistiam no meio dos estudos, frustrados com a dificuldade do caminho que tinham pensado em percorrer ou assustados diante das regras e perigos que descobriam existir na vida de um shinigami. A idéia de desistir, no entanto, estava obviamente muito longe da mente de Hiyori, e aquela era mais uma das milhares de coisas incríveis que Shinji vinha descobrindo na menina, desde que assumira o perigoso papel de seu mentor e instrutor.
Hiyori não desistia, não parava e não descansava, nem agora, quando estava tão obviamente esgotada pelas provas. A pele abaixo de seus olhos estava escura e inchada com olheiras pesadas, e a constelação de sardas que geralmente pontilhava seu rosto tinha se desvanecido pela privação de sol. Qualquer um que olhasse a menina, por apenas um segundo, seria capaz de adivinhar que ela tinha passado os últimos dias trancada em bibliotecas escuras, ou estudando sob a luz bruxuleante da pequena lamparina em seu quarto até altas horas da madrugada. Mesmo assim, Hiyori limitara-se a ficar furiosa e ofendida, e atingi-lo com um chute particularmente forte, quando Shinji lhe oferecera uma folga naquela tarde.
- Eu não preciso de folga nenhuma, seu idiota. Mas se você quer dar uma de preguiçoso e dormir, pode ir embora. Não é como se eu precisasse de você, de qualquer jeito.
Não era como se ela precisasse, mas ambos tinham que admitir – ele triunfante, ela relutantemente – que as lições de Shinji tinham provocado um progresso espantoso na menina. Hiyori era uma lutadora natural, agindo, movendo-se e adaptando-se por puro instinto, e ele soubera aproveitar aquilo, refinando e aguçando aqueles instintos, e observando com inegável orgulho enquanto a menina tornava-se cada vez mais apta no ataque e na defesa, e começava a desenvolver seu próprio estilo. E que estilo, ele tinha que admitir.
A postura de Hiyori não era impecável, seus movimentos não eram os corretos, sua atitude em batalha era simplesmente vergonhosa. Mas, de alguma maneira, a jovem estudante tinha conseguido reunir todos aqueles destroços e construir um estilo de batalha de poder e eficiência espantosos. Sem perder tempo com reverências, floreios e delicadezas, Hiyori lutava para derrotar, para esmagar e vencer, e tirava um óbvio prazer daquilo. Ela sorria, com selvagem satisfação, ao ver o sangue desabrochando da pele de seu oponente, e ria e zombava num luminoso triunfo quando o tinha, derrotado e subjugado, esmagado aos seus pés.
Naquele dia, no entanto, os sorrisos de Hiyori pareciam mais efêmeros que de costume, e os habituais insultos e zombarias nem fizeram menção de aparecer. Ela lutava, pela primeira vez desde que Shinji a conhecera, mecanicamente, a postura correta, os movimentos previsíveis, a energia apagada. Finalmente, embainhando a espada enquanto encarava a menina jogada ao chão, rosto desviado para o lado e olhar perdido em coisas impronunciáveis, o capitão declarou, gravemente:
- Seu desempenho foi deplorável. Você está cansada, e provavelmente ansiosa para voltar para casa agora que o ano letivo acabou. Treiná-la nesse estado de espírito vai ser uma perda do meu tempo e do seu. Eu vou embora agora. Boas férias, Sarugaki.
O rosto da menina virou-se para ele, olhos ambáricos arregalando-se e encontrando rapidamente os seus, um murmúrio surpreso escapando pelos lábios entreabertos.
- Férias?
- Sim, Sarugaki. Férias. Imagino que você sinta saudades da sua casa. Da sua família.
O rosto da menina desviou-se novamente para o lado, e ele inclinou a cabeça, tentando decifrar suas atitudes. O rosto pequeno estava franzido com mais força que de costume, os punhos cerrados e, com espanto, Shinji notou o lábio inferior de Hiyori tremendo. Foi ali que ele entendeu e abriu a boca, talvez para dizer alguma coisa, talvez por puro choque, mas Hiyori não lhe deu chance, levantando-se num pulo e sacudindo a poeira de suas roupas.
- Tanto faz. Não é como se eu precisasse de você, de qualquer forma.
Hiyori desapareceu pela saída do jardim, em direção aos dormitórios dos estudantes, e Shinji não conseguiu reunir força e coragem para correr atrás dela, para impedi-la, para exigir uma explicação, para prometer que não queria nem precisava de férias, que podia continuar treinando-a por todo aquele mês, e por toda a eternidade, se necessário. Frustrado, o homem cerrou os punhos e saiu do jardim também, mas em direção ao seu próprio dormitório, no quartel da Quinta Divisão.
Os aposentos dos capitães eram confortáveis e espaçosos, muito diferentes dos espartanos quartos dos estudantes da Academia. Ainda assim, Shinji sentia-se incapaz de considerar tudo aquilo como algo além de um dormitório, um lugar aonde ele ia apenas para descansar durante as noites, para se recuperar e reunir a energia gasta durante os dias, para esperar que a insônia passasse ou o sol finalmente nascesse, o que viesse primeiro. De qualquer forma, não era uma casa. Um lar. Aquilo, ele não tinha. Nunca tivera. E Hiyori, agora ele percebia, também não.
Realmente, ele era um idiota por não ter percebido antes. A agressividade e a insensibilidade, a reserva e a determinação que constituíam a natureza de Hiyori, tudo aquilo era apenas os escombros que conseguiram sobreviver a uma batalha travada há muito tempo, por muitos anos, em apenas um lugar.
Rukongai
Ele não voltava lá há muito tempo, desde a época em que conseguira uma posição na Quinta Divisão e um lugar decente para dormir. Mas nem todo o tempo do mundo poderia fazê-lo esquecer a insegurança, o medo, o abandono. A sensação de que não se podia confiar em ninguém, a necessidade de dormir com um olho fechado e o outro aberto, a fome corroendo as entranhas, as noites estáticas em que o frio era tanto que parecia fazer o coração parar de bater, congelado. A solidão profunda, inexpugnável, e a constante ameaça de se tornar mais um entre os tantos espíritos que simplesmente se extinguiam no ar, sua vida póstuma chegando a um fim precoce por uma lâmina afiada, um estômago vazio ou simplesmente a falta de força para continuar.
E Hiyori, agora ele sabia, passara por tudo aquilo, também. E passaria, ainda, pois depois daquela noite os dormitórios da Academia se fechariam durante um mês para as férias, e a menina não teria nenhuma casa para a qual retornar, nenhuma família para reencontrar. Ela voltaria, como ele mesmo sempre costumava voltar, para o único universo que conhecia, o único lugar que podia aceitá-la.
O Rukongai, de novo.
Shinji olhou pela janela e inspirou com força, sentindo os cheiros exalados pela noite quente preenchendo seus pulmões. As flores inchadas e vermelhas nos jardins, a carne cozinhada no refeitório, o saquê derramado em segredo nos quartos dos seus subordinados. Em Rukongai, tudo que Hiyori seria capaz de cheirar era lama da chuva nas ruas sem calçamento, lixo despejado que ninguém recolhia, sangue dos fracos derramado em disputas sem fim. No Rukongai, Hiyori não ouviria os sons dos pássaros noturnos, os murmúrios dos amantes secretos, as risadas dos companheiros unidos. Apenas gritos de raiva ou terror, e o constante ronco do seu estômago.
Shinji percorreu mais uma vez com os olhos os detalhes de seu dormitório, o futon bem arrumado num canto, a estante coberta de livros e relatórios do chão ao teto, a mesa e a cadeira onde ele trabalhava e despachava a interminável papelada pela qual os capitães eram responsáveis. A vitrola num canto, o espelho pendurado na parede, em cima da mesinha com a bacia onde ele lavava o rosto ao acordar. Em tudo aquilo, a opressora presença do vazio, da falta de uma vida, um lar, uma família.
Shinji suspirou, sabendo que, no fundo, já tinha tomado a decisão, e girou sobre os calcanhares, saindo pela mesma porta por onde tinha acabado de entrar, atravessando a noite espessa e quente na direção da Academia, dos dormitórios, do quarto onde, àquela hora, Hiyori reunia seus poucos pertences à luz bruxuleante de uma lamparina velha, preparando-se para retornar ao inferno que a criara.
Ele não tinha um lar, e nem de longe uma família. Mas tinha espaço para Hiyori.
N.A:
Então, segundo capítulo. Não há muito que explicar, há? Eu sempre senti uma vibração "Rukongai" vinda tanto do Shinji quanto da Hiyori. Ou alguém consegue imaginar um desses dois pertencendo, de fato, a uma família nobre? Sei lá, para mim ambos têm aquela atitude de quem sempre levou uma vida difícil, e simplesmente se acostumou a isso. Quanto ao final, parece-me o tipo de coisa que o Shinji faria, mesmo.
Muito obrigada pelas reviews do primeiro capítulo, elas realmente me animaram a escrever. É mais fácil (e mais rápido), quando a gente sabe que tem alguém vendo o que a gente escreve e, surpreendentemente, gostando. Enfim.
Ah, uma coisa que me esqueci de mencionar no primeiro capítulo é que, talvez, algumas das situações retratadas na minha história possam parecer familiares. É inevitável. Eu gosto de fanfiction. Eu leio fanfiction. Eu sou influenciada por fanfiction. Só para citar algumas das minhas influências (vocês deviam checá-las, por sinal, caso não se incomodem em ler em inglês), "24 Chips of Bone to Make a Mask to Hide the Truth", de Tasogare-Taichou e "Magnets", de Enchantable são algumas das histórias que melhor retratam o Shinji e a Hiyori. Decididamente, é impossível não ser influenciada por elas.
Enfim. Espero que tenham gostado, e até o próximo capítulo.
Saudações,
Lady Macbeth
