Três
A primeira vez que Shinji e Hiyori concordam em alguma coisa é, como seria muitas vezes depois, em relação a Sousuke Aizen.
- Um, dois! Um, dois! Corrija a postura! Separe mais os pés, como você vai ter estabilidade com eles juntos desse jeito, sua idiota? Um, dois! Mais rápido! Pare! Pare, você está fazendo tudo errado!
- Cale a boca, idiota!
O brado ardente e furioso foi o sinal para que todos os shinigamis da Quinta Divisão, que treinavam diligentemente mesmo sob o calor sufocante daquele verão, abandonassem o que estavam fazendo por um instante para virar-se na direção do som e ver, mais uma vez, seu poderoso e respeitável capitão sendo atingido por Hiyori. Já tinha acontecido mais vezes do que eles eram capazes de contar, pelos mais variados motivos (e muitas vezes, aparentemente, por motivo algum), mas era impossível não olhar, e impossível não rir, embora eles o fizessem o mais disfarçadamente possível, enquanto o venerável Hirako Shinji era chutado, socado, insultado e jogado ao chão por um sopro de menina com a metade da sua altura e braços mais finos que gravetos.
Nenhum deles sabia o que, exatamente, a garota estava fazendo ali, e ninguém tinha coragem de perguntar, não no humor terrível em que o capitão se encontrava desde que ela aparecera, seguindo-o relutantemente, segurando uma trouxa numa mão e sua espada na outra. Tudo o que eles sabiam era que ela era apenas uma estudante – e, aparentemente, o motivo pelo qual ultimamente o capitão vinha negligenciado cada vez mais os seus deveres para visitar a Academia -, que tinha o temperamento mais assustador do universo e que, aparentemente, dormia nos aposentos do capitão.
Hiyori estava tão surpresa quanto os subordinados de Hirako Shinji. Ela ficara surpresa quando o capitão aparecera em seu dormitório declarando, sem quaisquer explicações, que não ia permitir que ela passasse as férias sem treinar e desfizesse todo o seu trabalho duro. Sua surpresa subira uma oitava ao entender que Shinji esperava que ela passasse as férias no quartel na Quinta Divisão, e atingira níveis decididamente perigosos ao descobrir que ele esperava, também, que ela dormisse em seu quarto.
Aquele fora o primeiro chute que um dos subordinados de Hirako Shinji – um jovem que por acaso estava passando pelo corredor do quarto do capitão naquele instante – presenciara e, rapidamente, como fogo num campo de palha seca, espalhara-se pelos dormitórios a notícia de que o capitão trouxera uma mulher – uma menina - ao seu quarto na noite anterior e fora violentamente recusado.
A surpresa de Hiyori aumentara ainda mais quando, no dia seguinte a uma noite especialmente conturbada – ela fizera questão de dormir no canto do quarto mais distante do futon de Shinji, mas não conseguira livrar-se da desconfiança de que alguma coisa ele devia querer, arrastando-a para o seu quarto daquele jeito no meio da noite – fora apresentada à Quinta Divisão e imediatamente aceita e acolhida como um deles. A surpresa não diminuiu, mesmo quando ela compreendeu que parte daquela boa vontade se devia ao fato de que eles consideravam absolutamente hilário o modo como ela tratava o capitão da divisão, e ao fato de que, ao contrário de seus colegas na Academia, nenhum daqueles homens e mulheres sentia inveja ou medo dela. Era estranho, de qualquer forma, estar num lugar onde olhos cheios de malícia não a seguiam por onde quer que ela andasse, onde elogios sinceros lhe eram dirigidos e o primeiro pedaço de carne lhe era oferecido. Aquilo fazia com que ela pensasse de novo nas palavras de Shinji. Férias. Casa. Família. Ela gostava dali.
Até ser conhecer Sousuke Aizen, é claro.
Ele se apresentara em seu segundo dia na Quinta Divisão, durante a hora do almoço, que ela aproveitara para explorar e conhecer o lugar onde viveria pelo próximo mês. Ele era um homem alto, limpo e agradável, que se aproximara com passos silenciosos e a contemplara com um ar benevolente, apresentando-se como o vice-capitão de Hirako Shinji, encantado em finalmente conhecê-la.
Hiyori teria dado um chute na cara do idiota na mesma hora, se não estivesse sentindo nojo demais para deixar seus pés tocarem-no. Se havia uma coisa que Hiyori sabia detectar a quilômetros de distância, essa coisa era falsidade. E Aizen era falso, da ponta de seus cabelos de um castanho morno e gentil aos seus pés tranqüilos.
Relutante, ela inclinara a cabeça e dissera seu próprio nome, franzindo ainda mais o rosto ao ver os olhos de Aizen cintilando com perigoso interesse, e relaxando apenas ao vê-lo se despedir com palavras gentis e desaparecer com seu passo tranqüilo. Naquela noite, na imensidão do quarto de Shinji – tão maior que os dormitórios da Academia! – ela se deitara com as mãos atrás da cabeça e sondara a escuridão, sentindo que Shinji também estava acordado, por algum motivo incapaz de dormir. Foi apenas alguns minutos depois, quando ele falou, que ela finalmente entendeu que o motivo dele era o mesmo que o dela. Aizen.
- Eu soube que você conheceu meu vice-capitão hoje.
Hiyori espreitou o canto do quarto onde Shinji dormia. O corpo grande e magro estava reclinado sobre o futon, apoiado sobre os cotovelos, e o rosto estava voltado na sua direção. A menina sentiu seu rosto se franzindo instintivamente, embora soubesse que ele não conseguia ver sua expressão no escuro, e precisou de alguns segundos para reunir seu habitual mau humor e responder, laconicamente:
- É. E daí?
Um suspiro pesado veio do canto ocupado por Shinji, que se sentou e falou, a voz despida do habitual e tranqüilo desleixo.
- O que você achou dele?
Se o rosto de Hiyori se franzisse mais um milímetro, provavelmente romperia a barreira do espaço/tempo e criaria um buraco negro que sugaria todo o universo. Felizmente, era fisicamente impossível para a menina fechar ainda mais a sua expressão, e ela limitou-se a responder, tentando entender aonde Shinji queria chegar.
- Eu não gosto dele.
O silêncio veio do futon de Shinji expressando o que palavra nenhuma no mundo conseguiria, e dessa vez a menina sentiu seu interesse definitivamente despertar. Porque, ou Hiyori estava muito iludida, ou Shinji tinha acabado de concordar com ela. E aquele tipo de coisa simplesmente não acontecia, não no universo habitado por eles.
- Qual o seu problema com ele?
- Não fale bobagem, Sarugaki. Por que eu teria algum problema com meu próprio vice-capitão?
- Bem, você tem, não tem?
A resposta de Shinji foi o silêncio, de novo, e a resposta de Hiyori foi, também, bastante familiar – em um segundo a menina tinha pulado de seu próprio futon, consumido a distância que a separava do capitão e voado sobre ele, atingindo seu rosto com um chute poderoso e certeiro.
- Não venha com baboseira pra cima de mim, idiota! Se você tem algum problema, fale de uma vez e me deixe dormir logo!
Shinji, que tinha se deitado de novo com o impacto do chute, levantou o rosto procurando o de Hiyori. Ele não conseguia enxergar a sua expressão direito, mas não tinha dúvidas de que uma careta zangada estava desenhada em seu rosto sardento, e que seus olhos ambáricos brilhavam com invencível energia. Ela não ia desistir, aquilo ele já tinha aprendido. Mas havia coisas que simplesmente não podiam ser ditas.
Ele não gostava de Aizen, e não sabia explicar o motivo. Ou sabia, bem demais. O agradável vice-capitão fazia todos os alarmes internos de Shinji disparar ao mesmo tempo, com sua inteligência viva, seus ouvidos atentos, seu hábito de perambular por aí, oculto nas sombras. Sua zanpakutou.
Não, ele não gostava de Aizen. Ele detestava Aizen. E detestava mais ainda a idéia de Aizen perto de Hiyori, pequena e jovem, forte, sim, mas completamente ignorante em relação a todas as coisas que Aizen conhecia e dominava com profana perfeição. Política. Ambição. Manipulação. Ilusão. O que Hiyori, cuja curta vida até então se resumira a lutar pela sobrevivência e manter o estômago cheio, podia entender daquelas artes sinistras, da busca desenfreada por poder mesmo quando já se tinha tudo necessário para viver? De que maneira ela poderia resistir a Aizen, se ele resolvesse se interessar por ela?
Não, aquilo não, ele não ia deixar. Nem que para isso precisasse abdicar da agradável e praticamente consumada idéia de ter a menina na sua divisão, nem que para isso precisasse matar o seu competente vice-capitão.
Aizen não ia chegar perto de Hiyori, nunca mais.
- Você sabe por que não gosta dele, Hiyori?
A pergunta a confundiu tanto que a menina nem percebeu que Shinji a chamara, pela primeira vez, pelo primeiro nome. Mesmo que tivesse percebido, aquilo não a teria perturbado – Hiyori não era inclinada a formalidades e, de qualquer forma, ela própria já tinha se acostumado a se referir ao capitão pelo primeiro nome, mesmo que apenas dentro da sua cabeça.
Quando ela deu sua resposta, alguns segundos depois, foi com perfeita consciência de quão insatisfatória ela era.
- Sei lá. É só uma sensação.
Ela deu de ombros e viu, na penumbra, o rosto de Shinji balançando para cima e para baixo, concordando silenciosamente, mais uma vez.
- O mesmo comigo, Hiyori. É só uma sensação.
N.A:
Eu sempre imaginei três possíveis cenários para o primeiro encontro entre o Shinji e a Hiyori. No primeiro, eles se conheceriam desde antes da Academia. No segundo, eles teriam sido apresentados por Hikifune, com Hiyori já nomeada vice-capitã. O terceiro foi o que eu escolhi
Após terminar os dois primeiros capítulos, no entanto, um problema se revelou. Considerando a relação construída entre os dois, seria de se esperar, afinal de contas, que Hiyori acabasse na Quinta Divisão. A solução para esse problema veio com bastante facilidade: Aizen. Shinji desconfiava dele, afinal de contas, e a minha impressão é a de que ele sempre teve o instinto de proteger Hiyori o máximo possível. Então, nada mais natural que mantê-la longe do seu mais suspeito subordinado, não? Ok, avisem se eu estiver viajando. De qualquer forma, aí está o capítulo. Espero que gostem!
Críticas, elogios, perguntas e sugestões serão muitíssimo apreciados.
Saudações,
Lady Macbeth
