Quatro

A primeira vez que Shinji rejeita Hiyori é uma das coisas mais dolorosas de toda a sua longa vida.

Era também, no entanto, inevitável. Mais de três anos tinham se passado desde o memorável dia em que o capitão de Quinta Divisão e a intratável estudante se conheceram, e a idéia de que a menina pertencia a Shinji e à Quinta Divisão já era algo absolutamente instalado e consumado na mente de todos os habitantes da Soul Society. Consumada e instalada na mente de Shinji, também, estava a inquietante e aterradora idéia de que alguma coisa Aizen queria com sua prodigiosa protegida.

Ele gostaria de saber o que, aquilo ele queria, mas anos de convivência não tinham feito nada para ajudá-lo a desvendar seu suspeito e escorregadio vice-capitão, seus desejos, seus objetivos. Inveja, ambição, luxúria, ódio, nenhuma das habituais motivações que regiam a vida dos homens normais parecia adequada para explicar o interesse de um homem sofisticado como Aizen por uma órfã barulhenta, rude e intratável como Hiyori. O fato, no entanto, era que por algum obscuro motivo o vice-capitão estava sempre próximo à garota, oferecendo seus cumprimentos, seus sorrisos, sua ajuda, e saber que ela suspeitava e desgostava dele tanto quanto Shinji não servia de nada para aquietar a sua apreensão.

E, agora, Hiyori tinha se formado e todos na Soul Society, Shinji sabia – incluindo Aizen e a própria Hiyori – esperavam que ele lhe concedesse oficialmente o lugar que ela sempre tivera na Quinta Divisão. Perto dos olhos observadores e da influência venenosa de Aizen. Ele já tinha decidido há muito tempo, no entanto, que aquilo não ia acontecer, de jeito nenhum. Se aquilo era o que todos esperavam, bem, todos iam ficar profundamente decepcionados.

Incluindo, ele sabia muito bem, Hiyori.

Aquilo não significava que ele a abandonaria, obviamente. Contra a vontade dele, abrindo caminho árdua e involuntariamente com seus punhos, sua determinação e sua lealdade, a garota tinha encontrado um lugar em seu coração e, àquela altura da sua vida, Shinji não seria tolo suficiente para negar aquilo a si próprio. Fosse como fosse – ele não ia perder tempo tentando analisar aquilo – Hiyori era importante para ele. Ele não queria, apenas, que ela fosse feliz. Ele precisava daquilo.

Restava, no entanto, o problema de onde, exatamente, encaixá-la. A garota já tinha declarado muitas vezes, durante as suas muitas brigas, berrando com toda a força de seus pequenos pulmões, que não tinha a menor intenção de entrar para uma divisão comandada por um capitão mariquinhas como Hirako Shinji, e que seu verdadeiro desejo era lutar por um lugar na Décima Primeira Divisão. Ninguém, muito menos Shinji, negaria que a idéia fazia sentido, considerando o caráter explosivo e o amor à luta que constituíam Hiyori. Aquilo não significava, no entanto, que fosse uma idéia agradável, pelo menos não para o capitão da Quinta Divisão. Hiyori era inteligente demais, tinha potencial demais. Seria imperdoável desperdiçar tudo aquilo a transformando em apenas mais uma das estúpidas e barulhentas máquinas de destruição da Décima Primeira Divisão. Sem contar que a idéia da pequena e ingênua Hiyori comendo, dormindo, lutando e vivendo entre os homens imorais e de sangue-quente da Décima Primeira era suficiente para deixar Shinji sem dormir por uma semana.

A Décima Terceira e a Oitava Divisão eram pouco melhores, considerando a reputação de seus capitães no que dizia respeito a pequenas e ingênuas jovens estudantes, e Shinji não conhecia os capitães da Terceira, da Sétima, da Nona e da Décima o suficiente para confiar-lhes algo tão precioso quanto Hiyori. Apenas um louco consideraria a pacata Quarta Divisão ou a pomposa Sexta como o lugar ideal para Hiyori, e Shinji preferia comer terra a ver sua protegida transformada num dos misteriosos assassinos da Segunda. A Primeira Divisão estava fora de cogitação - Yamamoto teria um ataque cardíaco se descobrisse que alguém que não tinha a menor idéia de como funcionava o sistema legal que regia a Soul Society conseguira se formar na Academia – e aquilo, no final, deixava Shinji com apenas uma opção.

- E então, Hikifune? O que me diz?

Ajoelhado no chão, com as mãos pacientemente pousadas sobre o colo, Shinji teve que esperar a grave e nobre capitã da Décima Segunda Divisão terminar toda a sua xícara de fumegante chá verde antes de obter a sua resposta.

- Pelo que você diz, a garota não é fácil.

- Eu nunca sonharia em tentar enganá-la, Hikifune. Não, ela não é fácil. Mas é leal, é forte e tem um potencial imensurável. Principalmente com alguém como você para guiá-la.

- Imagino que o motivo pelo qual você próprio não deseja guiá-la seja muito particular para ser mencionado.

- Exatamente.

Olhos que não perdoavam, não esqueciam e não ignoravam fixaram-se nos seus por um tempo imensurável, e Shinji ofereceu-se ao seu escrutínio, sentindo gotas de suor escorrendo por suas costas enquanto cada pedaço de sua mente e seu coração era profundamente dissecado e analisado.

Por fim, os lábios finos de Hikifune se abriram num sorriso largo e maternal, e Shinji perguntou-se como pudera sentir medo da recusa, lembrando-se de outro motivo pelo qual escolhera depositar sua protegida nos braços daquela mulher sábia e poderosa.

- É curioso, no entanto, que você me peça para oferecer à menina que faça o teste para a minha divisão. Então você não apenas não deseja que ela vá para a sua, mas também não confia nela para escolher sozinha para onde ir?

- Não é uma questão de não confiar. Hiyori é inexperiente, e não conhece os capitães. Ela precisa de alguém que a coloque no caminho certo. E o caminho certo é a sua divisão, Hikifune.

- É curioso que você pense assim, Shinji. Principalmente considerando alguém que conheci hoje de manhã.

- Do que está falando, Hikifune?

- Ah, nada demais. Apenas uma adorável jovem recém-formada, que veio bater à porta do meu escritório. Aparentemente, durante o período de testes por posições em todas as divisões ela escolheu tentar apenas a sua, e foi rejeitada. A minha divisão seria a sua segunda opção, mas ela estava tão confiante em conseguir a primeira que nem mesmo tentou. Eu aceitei testá-la, e devo admitir que ela se saiu extraordinariamente bem. Provavelmente teria conseguido o terceiro posto, se tivesse feito os testes no período certo. De qualquer forma, eu a aceitei em minha divisão, e tenho certeza de que a ascensão dela vai ser rápida. Ela me pareceu uma jovem admirável, responsável, muito educada e trabalhadora. Estou muito satisfeita por ter uma aquisição tão preciosa à minha divisão.

Hikifune ofereceu mais uma vez seu largo sorriso, dessa vez tilintando com uma ponta brincalhona de mistério, e Shinji encarou-a cuidadosamente, entendendo aonde ela queria chegar, mas sem conseguir acreditar.

- Você não pode estar falando dela...

- De fato, a jovem que eu conheci nesta manhã em nada lembra a descrição que você fez da sua protegida. Ela não era barulhenta ou ignorante, e parecia perfeitamente capaz de tomar suas próprias decisões com cuidado e sabedoria. Uma coisa que ela disse, no entanto, fez com que eu me lembrasse dela depois da conversa que tive com você.

- O quê?

- O nome dela, Shinji. Era Sarugaki Hiyori.


N.A:

Capítulo bem curto, não? Apesar disso, é um dos capítulos mais importantes da história – a partir daí, a relação entre o Shinji e a Hiyori vai mudar definitivamente, para sempre.

Espero que tenham gostado, e até a próxima!

Saudações,

Lady Macbeth

PS: Continuo esperando por reviews, hein? Não tem jeito, eu sou carente. É a vida.

PS2: Alguém mais aí já roeu todas as unhas esperando pela próxima aparição do Shinji e da Hiyori no mangá? Eu quero ver esse dois lutando, por todos os deuses do universo!