Cinco
A primeira reconciliação entre Shinji e Hiyori depois de uma briga séria vem acompanhada por uma cerimônia formal e um presente que ela detesta.
Desde o dia anterior aos testes para as posições na Quinta Divisão, quando a treinara pela última vez, Shinji não tinha mais visto Hiyori. Ele tinha encarregado Aizen de supervisionar os testes, sabendo que seria incapaz de rejeitar a menina caso visse o seu desempenho, e desde a divulgação dos resultados ela parecia ter se obliterado do universo. Hiyori não estava mais nos dormitórios da Academia, onde alguns dos recém-formados viviam até conseguir um lugar em alguma das divisões do Gotei 13. Tampouco era possível encontrá-la nos domínios da Décima Segunda Divisão, que ele passara a freqüentar quase obsessivamente desde sua reveladora conversa com Hikifune.
Falando naquilo, ele ainda não se recuperara do choque de saber que Hiyori – impulsiva, explosiva, intratável Hiyori – tinha sido capaz de tomar por conta própria uma decisão tão sensata quanto a de tentar um lugar na Décima Segunda Divisão e, acima de tudo, conquistar aquele lugar impressionando a exigente e criteriosa Hikifune. Ele se sentia, ao mesmo tempo, aliviado, orgulhoso, decepcionado e cruelmente magoado por ela não ter nem mesmo tentado confrontá-lo pela rejeição, abrindo mão tão facilmente dele e buscando seu lar em outros lugares. É claro, ele não devia ter se surpreendido – a capacidade de tomar conta de si sem qualquer assistência, a habilidade de levantar-se rapidamente depois das piores quedas e o desapego eram ciências que qualquer criança do Rukongai devia dominar com perfeição se desejasse sobreviver, e Hiyori era inegavelmente uma sobrevivente. Ainda assim...
Ainda assim, ele não era mais uma criança do Rukongai, não depois de mais de cem anos vivendo a fácil e confortável vida no Seireitei. Ao fim de tudo aquilo, fora ele quem acabara machucado, decepcionado, abandonado. Hiyori devia estar furiosa com ele, obviamente, sentindo-se traída e humilhada como nunca, mas a verdade era que no fundo Hiyori esperava aquilo do mundo. Ela estava acostumada demais ao abandono e à solidão para se deixar perturbar por aquilo, e sabia engolir e esquecer a dor quando necessário, e seguir em frente.
Hirako Shinji, no entanto, tinha se esquecido de como fazer aquilo. Hiyori fazia parte de sua vida, e ele não sabia mais como existir sem ela. As manhãs agora pareciam mortas sem o seu enérgico despertar ao primeiro raio de sol, pronta para desafiar e lutar contra o mundo como fazia todos os dias. As tardes agora eram vazias, sem as horas que ele dedicava a treinar a menina, ensinando-a, moldando-a, aperfeiçoando-a exaustivamente. As noites agora soavam desoladoramente silenciosas, sem suas ofensas e reclamações contra a comida no jantar, a hora de dormir e o universo em geral, oferecidas a altos brados a quem quer que estivesse por perto.
Shinji precisava de Hiyori, e que o inferno o consumisse em suas chamas se ele desistisse dela.
E era por isso que ele continuava freqüentando a Décima Segunda Divisão como se fosse sua própria casa, mesmo quando percebeu que os recrutas cochichavam pelas suas costas, imaginando o que ele podia querer ali, mesmo após a milésima declaração de Hikifune de que não, Hiyori não estava ali, mesmo depois de entender que Hiyori não queria vê-lo de jeito nenhum, e continuaria evitando-o com todas as suas forças até o fim do mundo. Obviamente, Shinji conseguiria encontrá-la se realmente desejasse fazê-lo – ele seria capaz de reconhecer e seguir o reiatsu de Hiyori como se fosse o seu -, mas a verdade era que ele achava que seria mais decente, por enquanto, permitir que ela o evitasse em paz. O que não significava que Shinji desistiria de ficar por perto, para aproveitar qualquer chance de reencontrá-la ou estar lá em qualquer momento de necessidade. Ele simplesmente não podia ficar longe de Hiyori. E também não ia agüentar passar muito mais tempo sem falar com ela.
E fora aquele o motivo pelo qual, após décadas sem comparecer à cerimônia de formatura da Academia, Shinji decidira agraciar o evento com a sua presença, chegando ao amplo jardim onde a cerimônia se daria antes mesmo do nascer do sol.
As cadeiras onde deveriam se sentar os graduandos e os convidados já estavam cuidadosamente dispostas sobre o impecável gramado, e o tablado que os alunos deveriam subir para receber seus diplomas das mãos de seus professores já tinha sido montado e enfeitado com flores e flâmulas coloridas. Alguns alunos que, excitados e agitados com a perspectiva da cerimônia, tinham chegado tão cedo quanto ele, se espalhavam pelo gramado, cumprimentando Hirako Shinji timidamente quando o capitão da Quinta Divisão passava por eles, e cochichando furiosamente entre si quando ele lhes virava as costas. Pouco a pouco, o gramado foi se enchendo, o jardim ficando mais e mais iluminado pela luz do sol, e as cadeiras sendo ocupadas. Não havia, no entanto, qualquer sinal de Hiyori.
Finalmente, faltando apenas meia hora para a cerimônia, Shinji levantou-se de sua cadeira – sempre havia lugares reservados para os capitães naquele tipo de evento – decidido a arrastar Hiyori para cerimônia se necessário. Ele sabia que ela não tinha perdido a hora – a garota costumava estar de pé antes do sol nascer – e sabia que, por mais que fingisse não se importar com aquele tipo de coisa, seria impossível para alguém que vivera uma vida com tão poucos motivos para festejar esquecer-se de uma comemoração daquelas. O mais provável era que ela estivesse decidida a não comparecer à própria formatura, talvez por detestar o sentimentalismo e a nostalgia associados àquele tipo de evento, talvez por continuar determinada a evitar qualquer lugar onde houvesse a mais remota chance de Hirako Shinji aparecer. De qualquer forma, não importava. Aquilo era sério, e Shinji não ia deixar Hiyori fazer a bobagem de faltar a uma das cerimônias mais importantes de sua vida.
Ele precisou de apenas dois minutos, usando shunpo, para chegar aos domínios da Décima Segunda Divisão, e menos de um minuto para localizar o reiatsu de Hiyori e segui-lo. Como ele imaginara, àquela hora da manhã a garota ainda não tinha partido para o Rukongai ou o mundo real para executar as missões de que Hikifune a encarregava. Suprimindo o seu reiatsu cuidadosamente – ela provavelmente tentaria fugir se o sentisse – Shinji finalmente alcançou o bosque na fronteira do território da Décima Segunda Divisão, e Hiyori.
Ela estava treinando, e há muito tempo, pelo suor que escorria pelo seu rosto e encharcava suas roupas. Ele nunca a tinha visto no uniforme de shinigami, e parou por um instante para observá-la, tão diferente que doía, as roupas negras e fazendo-a parecer mais séria e mais velha, a aura calma, firme e inflexível de quem tinha encontrado seu lugar no mundo, a independência de quem não precisava mais de um professor, um mentor, um companheiro. Tão familiar que era doloroso, os golpes de espada cortando o ar, enérgicos e certeiros, o pé esquerdo ligeiramente à frente do direito, o ritmo pausado da respiração ofegante, o rosto sardento, os olhos de âmbar líquido cheios do desafio que ele conhecia tão bem. Hiyori.
Ele se lembrou então da situação e deu os passos finais, aproximando-se tão rápido que ela foi incapaz de perceber de quem se tratava e reagir antes que ele a tivesse bem segura pelos pulsos finos e quebradiços.
- O que você pensa que está fazendo? Por acaso não sabe que a sua maldita formatura é hoje, idiota? Esse tipo de coisa é importante para a Soul Society, faltar a uma cerimônia dessas vai manchar para sempre o seu currículo. Você nunca vai receber uma promoção, e pode esquecer a possibilidade de virar vice-capitã ou capitã!
A garota empurrou-o violentamente e, de algum modo, conseguiu se libertar das mãos que prendiam seus pulsos. Seu rosto se fechou numa careta perigosa, e por um momento Shinji pensou que ela tentaria chutá-lo no rosto ou atingi-lo com sua sandália. Hiyori, no entanto, permaneceu parada onde estava, quieta por um instante, e então falando, cheia de veneno na voz de moleque:
- E daí? Isso não é da sua conta. Não tem nada a ver com você. Eu não tenho nada a ver com você.
- Do que você está falando, idiota? Por acaso eu não te treinei por três anos? Por que diabos você acha que eu fiz isso? Para ver você estragar o seu futuro por pura teimosia? Deixe de ser idiota, enfie uma roupa limpa e vamos imediatamente para a sua formatura. Agora!
- Dane-se a maldita formatura! Eu não preciso dela! E dane-se você! Eu não preciso de você. Eu não preciso de mais nada. Estou bem onde estou. Deixe-me em paz, seu idiota.
Shinji encarou Hiyori por um instante, de volta ao impasse da primeira vez que a vira, há tanto tempo. Agora, no entanto, não havia ninguém assistindo. Agora, no entanto, ele a conhecia. Agora, no entanto...
- Bem, dane-se você também. Mas eu não gastei três anos da minha vida te treinando só para você se tornar uma shinigami qualquer que não conseguiu mais nada na vida por ser estúpida e teimosa. Se você não vai por bem, vai por mal.
E, sem dar atenção aos protestos de Hiyori, Shinji fez exatamente o que tinha feito há mais de três anos, agarrando a garota pela cintura e jogando-a sobre seus ombros, correndo como se sua vida dependesse disso enquanto ela gritava furiosamente e o atingia com seus punhos pequenos e fortes.
Para a surpresa da garota, ele não a levou diretamente ao jardim onde se daria a cerimônia, e sim de volta à Quinta Divisão, carregando-a pelos caminhos que ambos conheciam tão bem até os banhos públicos e jogando-a displicentemente à água. Ela levantou-se furiosamente, cuspindo, tossindo e quase caindo pelo peso das roupas molhadas, mas Shinji simplesmente enfiou-a de novo na água e jogou uma toalha em seu rosto.
- Tente se limpar um pouco e parecer apresentável. Seja rápida. Eu vou arranjar alguma coisa decente para você vestir. Você vai parecer uma idiota se aparecer por lá num uniforme sujo enquanto todos estão vestidos com suas melhores roupas.
Quando ele voltou, cinco minutos depois, Hiyori já estava fora da água, cuidadosamente embrulhada na toalha que lhe fora deixada. Shinji lhe estendeu a roupa prometida – que ele não tinha simplesmente arranjado, como dissera, e sim comprado há muitos meses, sabendo que Hiyori jamais se daria o trabalho de comprar algo elegante para usar na cerimônia de formatura – e a garota simplesmente encarou-o, incredulidade e rejeição perfeitamente estampadas em seu rosto infantil.
- Você é idiota ou o quê? De jeito nenhum que eu vou vestir isso.
Ela abaixou-se para pegar o uniforme jogado ao chão que estivera usando antes, mas seus movimentos, restringidos pela toalha, foram mais lentos que os dele, que pescou rapidamente as roupas suadas para longe do seu alcance e lhe estendeu novamente a yukata nova.
- Vista isso logo. Nós vamos chegar atrasados.
Ela encarou a roupa como se ela a tivesse insultado pessoalmente e depois desviou os olhos para ele, uma expressão estranhamente contida banhando o âmbar de seu olhar.
- É rosa, seu idiota.
- É vermelho. Você gosta de vermelho.
Era as duas coisas, o tecido de um rosa novo e brilhante, estampado com cascatas de flores vermelhas derramando-se dos ombros para as costas e os braços, e pétalas solitárias caindo até os pés. Relutantemente, como se a roupa fosse capaz de mordê-la, Hiyori segurou-a e repetiu, naquela voz estranhamente contida:
- É rosa. E eu não vou à formatura. Eu não quero ir. E muito menos com você.
- Você não tem opção, idiota. Conforme-se e vista logo isso.
- É rosa.
- Se você não vestir isso nesse instante, eu vou arrancar a sua maldita toalha e enfiar essa maldita roupa em você.
- Bem, eu não vou me vestir com você olhando.
- Sem problemas.
Ele virou as costas, ouvindo pacientemente o som abafado da toalha pesada caindo no chão e, depois, o rumor suave de seda escorregando por pele macia e sendo cuidadosamente ajustada.
- Eu não sei amarrar isso.
Ele se virou e entendeu imediatamente ao ver Hiyori mantendo a yukata fechada com uma mão e estendendo-lhe com a outra o obi, cujo vermelho vibrante combinava perfeitamente com o que coloria seu rosto sardento. Ele pegou o tecido das mãos da menina e ordenou-lhe que lhe virasse as costas. A operação era complicada, mas não impossível – ele já tinha ajudado mais de uma mulher a tirar e voltar a colocar suas roupas – e, depois de alguns minutos, Hiyori estava vestida e relativamente apresentável, apesar das meias e sandálias sujas e o cabelo despenteado.
Depois de três anos treinando com Shinji, Hiyori não teve dificuldade em acompanhá-lo enquanto ele usava shunpo para voltar ao jardim onde se daria a cerimônia. Os alunos já estavam sendo chamados para receber seus diplomas, mas felizmente, ainda não chegara a vez de Sarugaki Hiyori, que se enfiara rapidamente entre as cadeiras reservadas aos graduandos e cumprimentara as pessoas ao seu redor com seu habitual olhar firme e desafiador. Como ela esperava, ninguém ousou comentar o seu atraso ou a absurda e incontestável cor de sua roupa e, quando seu nome foi finalmente chamado, foi com inegável orgulho que ela se levantou e subiu o tablado, cumprimentou os professores brevemente e pegou o diploma pelo qual tinha trabalhado tanto. O tempo todo, Hiyori sentira os olhos de Shinji sobre si, pesados e protetores. O tempo todo, ela percebeu, desde o dia em que eles tinham se conhecido.
Aquilo não significava que ela tinha esquecido o que acontecera, ou que o perdoara. Ela ainda estava furiosa, e ficaria por um bom tempo. Mas talvez, só talvez, ela pensou, enquanto descia cuidadosamente os degraus do tablado com os movimentos restringidos pela yukata – como ela conseguira usar shunpo vestindo aquilo era absolutamente incompreensível – ele tivesse um bom motivo para fazer o que fizera. Ela ainda não conseguia entender, de jeito nenhum. Também não conseguia perdoar. De qualquer forma, Shinji estava ali. E, ela tinha a impressão, ele sempre estaria.
E como diabos ele tinha arranjado aquela estúpida yukata rosa em menos de cinco minutos?
N.A:
Hey! Capítulo novo!
Esse demorou um pouco mais que o habitual, ainda que tenha saído bem rápido pelos padrões do , não acham? De qualquer forma, não me culpem - a culpa é toda da minha faculdade maluca e da minha vida pessoal caótica. Além disso, há pouco mais de uma semana eu postei uma história nova, então acho que tenho sido bastante produtiva. O que posso dizer? Shinji e Hiyori me inspiram.
Enfim, espero que tenham gostado. Para quem não entendeu, a turma da Hiyori já se formou e fez os testes para entrar para as divisões do Gotei 13, mas a cerimônia de formatura só aconteceu alguns meses ou semanas depois. E o Shinji poderia ter seguido o seu reiatsu e se reencontrado com ela antes, mas preferiu dar o espaço de que Hiyori precisava – até ver que aquilo acabaria prejudicando-a tanto quanto a ele. Não é incrível o jeito como ele pode ser maduro e compreensivo num minuto, e um completo idiota no outro?
E fala sério, eu precisava colocar a Hiyori numa roupa rosa. E precisava fazer o Shinji saber que ela gosta de vermelho. E claro, precisava fazer a pobre garota corar. De raiva ou de vergonha? Com Hiyori, nunca se sabe...
Bem, até o próximo capítulo!
Saudações,
Lady Macbeth
PS: Eu sou sem vergonha, insistente, e não me canso de pedir. Reviews, reviews, reviews! Mesmo que seja só algo como "Ok, ler a sua fic não foi uma perda total de tempo.", ou "Oh, espero ler o próximo capítulo logo!", ou ainda "Querida, você vai fazer um favor ao universo e a si mesma se parar de perder tempo com isso. Escrever não é o seu talento. Mas ouvi dizer que abriram vagas para gari.". Obviamente, também aceito perguntas, sugestões, elogios, críticas, análises detalhadas sobre a minha escrita, propostas de casamento (apenas de homens gatos e milionários) e barras de chocolate.
PS2: E não, Bleach não pertence à minha pobre pessoa. Se pertencesse, Hisagi Shuuhei não apareceria no mangá. Ele ficaria trancado no meu quarto o dia inteiro, e nós teríamos uma longa conversa sobre aquela tatuagem no rosto dele
