Sete

A primeira vez que Shinji vê Hiyori chorar é, também, a primeira declaração de amor – involuntária e inconsciente – entre os dois.

Estava chovendo tanto que parecia que céu e mar eram amantes, querendo unir-se completamente depois de cinco bilhões de anos, e todas as pessoas com algum bom senso que Shinji conhecia estavam bem seguras dentro de quatro paredes e debaixo de um teto, comemorando alegremente a promoção da capitã Hikifune.

Sarugaki Hiyori, claro, não era conhecida pelo seu bom senso

Ele precisou de apenas alguns segundos para perceber que a garota não estava em parte alguma do grande e barulhento salão – o maior que a Décima Segunda Divisão era capaz de oferecer. A presença de Hiyori, afinal de contas, era tudo, menos discreta. Se ela estivesse ali, alguma briga violenta já teria se iniciado, algum velho venerável estaria sendo escandalosamente insultado, imprudentes doses de saquê estariam sendo derramadas. Tudo, no entanto, estava calmo, tudo menos o mundo lá fora, agitado e sacudido por violentas convulsões de dor, raiva e amargura. Hiyori, obviamente, estava lá fora, também.

Shinji girou sobre os calcanhares e deu as costas para o salão, sem nem mesmo oferecer seus cumprimentos à nobre homenageada da festa. Assim que a porta de correr se abriu à sua passagem, gotas de chuva trazida pelo vento cortante atingiram-no com a força de mil furacões, beliscando e lambendo sua pele como lágrimas de paixão. Ele não precisou parar nem por um instante para sentir o reiatsu de Hiyori, seguindo-o com a confiança de um cego pelo caminho mil vezes percorrido, guiado pelo som do pulsar violento de raiva e tristeza que ecoava dentro de seu próprio coração, cada vez mais forte, à medida que ele avançava em meio à chuva e aos trovões, pelos jardins alagados da Décima Segunda Divisão, pelas ruas vazias do Seireitei e pelos becos escuros do Rukongai, até as fronteiras do mundo que eles habitavam e conheciam, onde o universo chegava ao fim e tudo perdia a importância.

Foi fácil descobrir a menina na paisagem desolada, silhueta dobrada pelo peso das roupas encharcadas e do sofrimento imensurável, cabelos soltos e desordenados escurecidos pela chuva, cabeça baixa para esconder do mundo a visão proibida de olhos vermelhos e lacrimejantes.

Ele se aproximou com cuidado, sentindo o terreno instável e desconhecido diante de si, ombros sacudindo na convulsão que regia a tempestade ao seu redor, punhos cerrados socando o chão que nada fizera, soluços e uivos de dor escapando pelo rosa delicado e macio de seus lábios entreabertos. Parou respeitosamente ao perceber o corpo pequeno se tensionar ao perceber a sua presença, e continuou cautelosamente ao perceber-se não bem vindo, mas ao menos aceito.

- Eu sabia que você estava triste, mas não imaginava o quanto. Desculpe-me.

- Por quê? Você não pode fazer nada. A culpa não é sua.

As palavras saíram com dificuldade, abafadas e constrangidas pelo ranger de dentes e a rouquidão da voz cansada de gritar e chorar, e a amargura nelas contida revelava que Hiyori tinha uma idéia muito específica de quem era o culpado.

- Ainda assim – ele declarou, com cuidado – Eu devia ter imaginado. Hikifune é importante para você.

A tempestade de lágrimas tinha se acalmado, e o único som que se ouvia era o uivo melancólico do vento e o gotejar incessante da chuva enquanto sabe-se lá que pensamentos corriam pela insondável mente de Hiyori.

- É, acho que sim. É. Pena que não seja mútuo.

A voz dela soou estranhamente vazia ao finalmente revelar o que tinha sido escondido por tanto tempo, e Shinji viu-se desorientado por um instante, sem a menor idéia do que fazer diante de um dilema tão profundo e insolúvel, diante de uma verdade tão inquestionável e, ao mesmo tempo, tão errada.

Shinji sabia que precisava de apenas dois dedos para contar as pessoas em que Hiyori tinha confiado em toda a sua vida, e sabia também que ambas tinham-na decepcionado com uma crueldade desumana, ainda que inevitável, ainda que involuntária. Ele sabia que os quase dez anos que tinham se passado desde a formatura de Hiyori não tinham sido suficientes para lavar a dor e explicar a traição que ele cometera ao rejeitar a sua candidatura a um posto na Quinta Divisão. Shinji sabia que Hiyori nunca mais confiaria nele como confiara a princípio, não importando o que ele fizesse para mostrar-lhe que ela era, ao menos para ele, a pessoa mais importante do mundo. Ela não podia entender, porque ele não podia dizer a verdade, e tudo o que ela sabia era que ele a rejeitara e humilhara na primeira oportunidade que ela lhe dera, na primeira vez que ela se colocara numa posição vulnerável, esperando abertamente por aprovação e aceitação.

E agora, Hikifune.

Shinji sabia que Hiyori era feliz na Décima Segunda Divisão, e sabia que grande parte daquela felicidade devia-se à rígida e grave mulher que a comandava. O fato era que, de algum modo, por algum motivo, a improvável dupla de Hikifune e Hiyori tinha dado inacreditavelmente certo. A exigente e inflexível mulher aprendera a oferecer à garota as mais absurdas e improváveis concessões, a mais absoluta confiança, o mais profundo respeito, e Hiyori respondera à altura, dedicando-lhe afeto, admiração e lealdade como nunca se vira antes na Soul Society. Shinji sabia que seu frágil espaço no coração de Hiyori, conquistado com tanta dedicação e sacrifício, mal se comparava ao enorme domínio de Hikifune, e podia apenas imaginar o quanto aquele coração devia estar despedaçado ao ver-se traído e abandonado pela segunda vez.

A palma de sua mão direita, bem aberta, cortou o ar e atingiu a cabeça de Hiyori, lançando-a de cara na lama. A garota virou-se, apoiada sobre os cotovelos, e encarou-o, fúria e confusão desmanchando por um momento a dor em seus olhos ambáricos.

- O que você está fazendo, idiota?

- A única idiota aqui é você, se não consegue perceber a verdade. Será que não vê que Hikifune só aceitou a promoção porque confia em você?

- Não diga bobagens, idiota.

- Já disse que a única idiota aqui é você, insultando a sua capitã desse jeito. Você sabe que a Décima Segunda Divisão é a coisa mais importante no mundo para Hikifune. E você sabe que ela está indo embora, para sempre, deixando-a nas mãos de um idiota qualquer que nós nem sabemos quem é. Você acha que ela faria isso, que ela realmente conseguiria, se não soubesse que você vai estar lá, para cuidar de tudo? Hikifune confia em você, Hiyori, e essa é a maior prova de amor que ela poderia te dar.

- Não seja idiota. Não sou eu quem vai cuidar de tudo. Não sou eu a maldita capitã.

- Não seja idiota você. Todo mundo sabe que esse capitão novo não vai ter a menor chance, não com você lá. A Décima Segunda Divisão é sua, Hiyori. Ela precisa de você. Eles precisam de você, todos eles. Hikifune precisa de você. Eu pre...

- Cale a boca, idiota.

Ele parou, ligeiramente ofegante, antes que pudesse dizer alguma bobagem, e esperou, sentindo a chuva pesada refrescar seu rosto afogueado. Hiyori se acomodou no lugar onde ele a jogara, sem se importar com a lama ao seu redor, e ele sentou-se ao seu lado, sem importar-se com o olhar venenoso que ela lhe lançou. Por fim, depois de alguns instantes ouvindo apenas chuva, vento e trovões, sua vozinha se ergueu no ar, firme, teimosa e desafiadora como sempre.

- Não importa se ela confia em mim. Eu estou cansada de ficar sozinha.

Ele encarou-a boquiaberto, sem acreditar que aquelas palavras estavam realmente saindo da boca da reservada e pragmática Hiyori, e precisou de apenas um segundo para decidir que, se ela podia falar o que estava sentindo, ele também podia.

- Você não está sozinha, idiota. Nunca vai estar. Eu...

Os olhos dela, graves e imutáveis, fixaram-se nos dele, e por um instante Shinji se esqueceu de respirar. Ela sabia que ele estava lá. Ela aceitava. Ela...

- Você não entende – ela declarou, torcendo o nariz e franzindo o cenho numa careta contemplativa – Eu nunca tive uma família. Sempre estive sozinha. Sempre cuidei de mim. A capitã Hikifune... Ela era... Era a minha família.

- Você não está sozinha, Hiyori. Eu...

- Você não importa. Não é de você que eu preciso, Shinji. Você é outra coisa.

Ele abriu a boca, tentando engolir ar para preencher o vazio no coração, buscando respirar como se tivesse sido atingido nos pulmões por um golpe de espada, e sua expressão ultrajada, ofendida, deve ter sido absolutamente óbvia para Hiyori, pois a garota ergueu-se de sua posição, levantando-se num salto, cruzando os braços e declarando, lógica e absurda como sempre:

- Você diz que eu sou a idiota, mas você não entende, não é? Hikifune era a minha mãe. Você, você não é meu pai, nem meu irmão, nem nada. Você é outra coisa, e eu não quero lidar com isso agora. Então vê se me deixa em paz e vai cuidar da sua vida.

Com um último olhar inexplicável, Hiyori descruzou os braços, girou sobre os calcanhares e lhe deu as costas, indo embora naquele passo de criança que ele conhecia tão bem, balançando quase imperceptivelmente, de um lado para o outro, os quadris estreitos de moleque, e desvanecendo-se no meio da chuva como um sonho com o qual ele nunca se atreveria a sonhar.

Ele nunca se atreveria a sonhar com o que, exatamente, era para Hiyori.


N.A:

Então, dessa vez eu levei mais tempo que de costume para atualizar. A culpa é toda da minha faculdade enlouquecida, juro. Não tive tempo nem de respirar nessas últimas semanas.

Além disso, esse foi um capítulo particularmente difícil. Eu não queria deixar nada muito explícito – para mim, a essa altura, nem o Shinji nem a Hiyori sabem o que, exatamente, sentem – mas também não queria deixar as coisas muito no ar. No fim, acho que acabei sendo mais explícita do que gostaria, mas tudo bem. De qualquer forma, até que gostei de como ficou. E vocês, o que acharam? Estou ansiosa por saber o que vocês pensam, mandem reviews, reviews, reviews!

Saudações,

Lady Macbeth

PS: Para quem já leu o capítulo 375 do mangá: ok, se o Kubo não mostrar a Hiyori lutando eu vou ter um treco. Bem, pelo menos agora nós fomos apresentados à zanpakutou dela. E que espada, hein? Estou pensando em escrever uma oneshot sobre Hiyori e a Kubikiri Orochi, quando tiver tempo.