Oito

A primeira vez que Shinji sente ciúmes de Hiyori é, obviamente, por causa de Urahara Kisuke.

Sinceramente, o homem era um idiota. Shinji tinha ido até ele, e tinha deixado perfeitamente claro, no seu jeito desleixado e de poucas palavras, que Hiyori era território marcado. O que mais um respeitável e centenário capitão poderia querer, indo até um capitão mais jovem no meio da noite e falando bobagens sobre uma pirralha mal educada e barulhenta cujo único objetivo na vida parecia ser maltratá-lo e humilhá-lo o máximo possível? Ele não podia dizer que ela fazia aquilo porque era incapaz de mostrar afeto e intimidade de outra maneira, e não podia dizer que aceitava o tratamento brutal porque era a única maneira de sentir o toque da sua pele e ouvir o som da sua voz, e porque no fundo ele merecia, mereceria por um milhão de anos, até pagar sua dívida com ela. Mas Urahara não era nenhuma criança, e devia ser perfeitamente capaz de entender que Hiyori simplesmente não estava disponível. Não estava disponível para perambular ao seu lado pelos corredores do Seireitei, não estava disponível para passar horas confinada dentro de laboratórios escuros com ele, não estava disponível para fazer o que ele queria, quando ele queria, do modo que ele queria.

Hiyori, obviamente, não tornava as coisas mais fáceis. Ele entendia, claro – ela precisava honrar seu compromisso com Hikifune, velar pela divisão que a ex-capitã deixara em suas mãos, mostrar àquele novo e excêntrico capitão que a Décima Segunda Divisão podia pertencer agora a ele, mas que ainda havia regras e serem seguidas e padrões a serem mantidos. Ainda assim...

Ainda assim, havia coisas que ela definitivamente não precisava fazer. Ela não precisava andar ao seu lado o tempo todo, por toda a Soul Society, como seu fosse seu cãozinho de estimação ou, pior, sua companheira consumada. Não precisava passar madrugadas no laboratório, fazendo sabe-se lá o que com aquele homem estranho e escorregadio. E não precisava, definitivamente, andar por aí o chamando de idiota e chutando-o na cara, oferecendo-lhe livremente os insultos e agressões que antes pertenciam apenas a Shinji.

Ela não precisava, também, gastar cada um dos raros segundos que eles passavam juntos falando incessante e exaustivamente das malditas coisas que fazia com seu novo capitão. A maior parte de seu discurso, claro, consistia em ofensas e reclamações, mas ele conhecia Hiyori bem o suficiente para reconhecer sem dificuldades o brilho entusiasmado em seus olhos ambáricos enquanto ela narrava suas aventuras entre os malfeitores da Soul Society ou descobertas científicas que ninguém nunca esperaria de Hiyori, entre todas as pessoas do universo. Ela também, ele sabia, estava surpresa, agradavelmente surpresa, e era compreensível. Hiyori era inteligente, era dedicada e, acima de tudo, era jovem. Sua vida no Rukongai provavelmente tinha sido vazia de qualquer possibilidade ou perspectiva, mas seus horizontes ainda eram grandiosos, sem limites, e seus desejos e ambições ainda eram indefinidos, sem foco, sem restrições. Descobrir novos desafios e novas habilidades, para alguém como ela, devia ser o equivalente a um lauto banquete e, infelizmente, o homem que lhe estava oferecendo tudo aquilo não era Hirako Shinji, capitão da Quinta Divisão, não mais.

- Idiota, pare de me ignorar!

O brado furioso – ela estava falando sem parar há mais de meia hora, mas ele realmente não prestara a mínima atenção, perdido eu seus pensamentos e contemplações – foi o sinal para que Shinji tentasse proteger seu rosto, mas Hiyori foi mais uma vez mais rápida, atingindo-o com um golpe certeiro e uma sandália suja de lama no rosto que ele limpava e barbeava tão cuidadosamente todas as manhãs. Shinji foi ao chão com um lamento de dor, esperando que, como de costume, ela caísse sobre ele com unhas e dentes. Curiosamente, no entanto, Hiyori permaneceu de pé e distante, contemplando-o com braços cruzados e um ar distante no rosto sardento.

- Você não me deixa te acertar de propósito, deixa, Shinji?

- Do que você está falando, sua idiota selvagem? Por acaso acha que eu gosto de ser o seu saco de pancadas?

- Urahara deixa. Bem, deixou, pelo menos uma vez. Não sei sobre as outras.

Ele encarou-a do chão, seu rosto grave, testa franzida e olhos distantes naquela expressão pensativa que ele via cada vez com mais freqüência desde que Urahara entrara em suas vidas.

- Bem, por que ele faria isso?

- Não sei. Eu pensei que talvez você fizesse o mesmo, e pudesse explicar.

- Bem, se você pode perguntar a mim, certamente pode perguntar a ele.

Sua resposta foi um revirar de olhos exasperados, a indefectível sandália na cara e, depois, o inevitável insulto.

- Você é mesmo um idiota.

- Por que você não pode perguntar? Vocês se dão bem, afinal de contas, não?

- Ah, claro. Perfeitamente bem. Você e Aizen também, não é mesmo? Por que então você não vai lá e pergunta a ele o que ele quer, se esquivando por aí e fazendo perguntas e comentários suspeitos?

Shinji arregalou os olhos e contemplou Hiyori, boquiaberto. Nunca, nem em um milhão de anos, ele teria imaginado que a aparente intimidade da garota com seu novo capitão fosse apenas um disfarce para a sua desconfiança, e um modo de manter-se próxima e atenta ao que ele fazia. Mais ou menos como o modo como ele agia com Aizen, mas muito melhor, muito mais efetivo e sofisticado.

- Então você... Você não gosta de Urahara?

- É claro que não, idiota. Você realmente achava que eu gostava?

- Mas... Por que não?

Duas coisas passaram pela mente de Shinji ao fazer a pergunta. A primeira, agradável e confortante, era que se ela tratava Urahara como tratava Shinji apenas para fingir gostar dele e disfarçar seu desgosto e sua desconfiança, então era fato que o modo como ela tratava Shinji era uma maneira de mostrar seu afeto e sua confiança. A outra, um pouco mais inquietante e desagradável, era que não dava para negar que os capitães da Quinta e da Décima Segunda Divisão eram bastante parecidos, com sua atitude displicente, seu descaso por regras e tradições e sua absoluta e bem conhecida falta de necessidade de ostentar o poder e a influência que tinham. Mesmo fisicamente, Shinji admitia relutantemente para si, havia semelhanças entre os dois, apesar das óbvias diferenças, e Shinji se viu perguntando-se pela primeira vez o que Hiyori pensaria sobre seu cabelo comprido e a distância que sua altura impunha entre os dois.

- Sei lá – ela declarou, repetindo a resposta que lhe dera em relação a Aizen, há tantos anos – É só uma sensação.

Hiyori deu de ombros, pensou por mais alguns segundos e, por fim, acertou-lhe mais um chute na cara e ordenou-lhe que parasse de olhar para ela com aquela cara de idiota e se levantasse como o maldito capitão que era, ao invés de ficar jogado no chão como um cachorro sarnento.


N.A.

Então, capítulo oito. Esse demorou bastante, mas é que (pra não falar de todas as minhas ocupações e os ataques de frescura do meu computador) é simplesmente tão difícil escrever sobre o Urahara! Ele, na minha opnião, é a personagem mais interessante, mais complexa, misteriosa, moralmente ambígua e bem trabalhada de todo o mangá. E olha que, num mangá tão cheio de gente quanto Bleach, isso é um feito considerável. De qualquer forma, eu ADORO o Urahara, e ele merecia ao menos uma menção (nada) honrosa na minha história.

Enfim, espero que tenham gostado, e não se preocupem, o próximo (e último) capítulo virá em breve. Na verdade, ele já está pronto há séculos, mas não vou postá-lo agora porque sou malvada, e carente, e espertinha o suficiente para saber que as pessoas nunca mandam reviews quando você entrega tudo de uma vez. E eu quero reviews! Quero, quero, quero! *modo criança mimada*

Brincadeiras à parte, elogios, críticas (de verdade, juro!) e sugestões (essas em especial, porque estou sofrendo um terrível bloqueio com a continuação dessa história) serão muitíssimo bem vindos.

Saudações,

Lady Macbeth

PS: Para quem sabe o que acontece nos capítulos 377 e 378, fica a mensagem - Kubo, seu filho da mãe, eu vou furar os seus olhos com palitinhos de dentes, te afogar na privada e arrancar os seus genitais e te sufocar com eles. COMO VOCÊ OUSA???