Nove

A primeira vez que Shinji e Hiyori percebem e admitem para si que realmente se amam é, como muitos previam, no dia do fim do mundo.

Tudo começa devagar, aos poucos, como se fosse um dia igual a qualquer outro. Quando eles se encontram, ele acompanhado por seu inevitável e evasivo vice-capitão, ela seguindo fielmente Urahara Kisuke, nada indica que dentro de menos de vinte e quatro horas tudo chegaria ao fim. Ele a ignora propositalmente, sabendo que isso a irrita, ela o ataca como o pequeno animal selvagem que é, e os dois rolam furiosamente pelo chão, não como membros da elite do Seireitei, não como amantes designados pelas estrelas, e sim como duas crianças mimadas e brincalhonas. A trilha sonora, que eles escutam vagamente entre insultos e gritos de batalha, são os comentários casuais e venenosos de Aizen, pontuados pelas observações falsamente aéreas de Urahara. A conversa os interessa, mais pelas pessoas envolvidas que pelo assunto, um monte de rumores e especulações que já rondam a Soul Society há várias semanas. Gente desaparecendo sem qualquer sinal além de suas roupas e sapatos, uma neblina suspeita envolvendo os distritos mais distantes do Rukongai, lendas antigas sobre monstros mitológicos. A Soul Society é supersticiosa, mas Shinji e Hiyori não são, e os únicos monstros em que eles acreditam estão diante deles, pessoas de intenções desconhecidas e segredos sinistros.

Depois eles se despedem, como sempre, tranqüilos pela certeza e segurança de se rever no dia seguinte. Ela ainda o odeia por tê-la rejeitado, mesmo depois de quase vinte anos, ele ainda sente o sangue ferver toda vez que vê as mãos grandes de Urahara pousando sobre os ombros estreitos ou as costas magras da menina para guiá-la em seu caminho, mas tudo está bem, porque tudo é antigo, tudo é familiar e, principalmente, tudo é Shinji e Hiyori, e a verdade é que, mesmo sem querer, eles confiam um no outro.

E é isso que Shinji repete para si, fervorosamente, e é apenas isso que o impede de usar sua espada para cortar Urahara em um milhão de pedaços invisíveis ao saber que há um problema no Rukongai, exatamente aonde o idiota mandou Hiyori há apenas algumas horas. A confiança que tem em Hiyori – que ele treinou e observou por tantos anos – no entanto, não é suficiente para impedi-lo de correr como se sua vida dependesse disso, como se a vida dela dependesse disso, depois de olhar nos olhos de Urahara e perceber que sim, ela estava certa, Urahara Kisuke sabia o tempo todo de algo que os outros não sabiam e, por algum motivo, preferiu se calar a fazer a coisa certa e avisar todos enquanto havia tempo. Ele está lívido agora, pálido e coberto de suor frio, e Shinji sabe que Urahara finalmente percebeu a magnitude de seu erro e as conseqüências de seus atos, sejam elas quais forem, ele próprio não sabe, nem imagina, mas sabe que Hiyori está lá, e isso basta para fazê-lo correr como nunca correu antes, cortando distâncias como se fossem feitas de papel, sem perceber a ameaça e o veneno embebidos no ar noturno que seus pulmões ofegantes sorvem sofregamente, sem perceber, sem se importar por estar ele próprio em perigo.

E quando ele finalmente a alcança, quando ele finalmente se aproxima de Hiyori, tudo que ele enxerga é o seu reiatsu pulsando apavorado, seus olhos ambáricos inundados pelo pânico, suas mãos minúsculas, nuas e indefesas – onde diabos ela deixou a sua maldita zanpakutou? - e a criatura monstruosa, disforme, avançando sobre ela. E não importam os outros, que logo chegam para lutar também, para ver o fim do mundo também, e importa ainda menos se é ou não é Kensei – poderia ser o próprio rei da Soul Society, ele não vai deixá-lo tocar em um fio de cabelo de Hiyori.

E então ela está nos braços dele, sendo carregada de um lado para o outro como uma maldita bola de futebol, e ela devia xingá-lo e surrá-lo por isso, por correr para salvá-la como se ela fosse uma maldita dama indefesa e ele um estúpido príncipe encantado, por levantá-la nos braços como se ela fosse uma retardada qualquer incapaz de andar com as próprias pernas, por sequer pensar em lutar, atacar e matar Kensei, um capitão, um amigo, um companheiro – pois ela sabe que Shinji vai matá-lo, se preciso, e vai se arrepender amargamente disso pelo resto da vida. Mas Hiyori sabe também – ela cresceu, afinal de contas, e não é mais a criança meio selvagem que Shinji conheceu há mais de vinte anos – que por certas pessoas qualquer coisa deve ser feita e sabe, também, que se precisasse matar Kensei para proteger Shinji ela o faria em um segundo, sem pensar, sem hesitar, porque certas coisas, e certas pessoas...

E então ela perde a linha do pensamento, suas idéias confusas e embaralhadas, pior do que aquela vez em que foi promovida a vice-capitã e Shinji trocou suas roupas – até hoje ela ri ao se lembrar da cara dele depois da surra que levara, e até hoje ela se pergunta o quanto ele teria olhado antes de finalmente embrulhá-la em seu haori. Ela se lembra da sensação da seda do haori de Shinji em sua pele nua, também, e se lembra do quimono rosa e vermelho, guardado até hoje entre seus pertences mais preciosos, e se lembra do rosto dele, tão sério, tão amado, dizendo-lhe que não, ela não estava sozinha e nunca estaria.

Você já devia ter aprendido que é perigoso se importar tanto com alguém. Se eu pudesse, sabe o que eu faria? Eu o mataria.

O pensamento estranho, forasteiro, relampeja na sua mente por um breve instante antes de se embaralhar, junto com todas as lembranças, todos os sentimentos, numa massa confusa e disforme de coisas que ela não consegue mais entender, e então Hiyori se sente sendo arrastada – mas não, ela ainda está bem segura nos braços de Shinji – para algum lugar, muito longe, e trancada, dentro de uma jaula invisível com paredes imateriais, e tudo o que ela consegue imaginar é de onde diabos veio o desejo de matar Shinji, e quem é o idiota que a está arrastando desse jeito, para longe, tão longe dele?

Mas que besteira ficar fazendo essas perguntas. Você sabe muito bem quem eu sou. Eu sou você, você é eu.

Um novo relâmpago – não um pensamento, mas luz de verdade, ofuscante e absoluta – invade a cela imaterial que a tranca, e Hiyori vê de relance o seu próprio reflexo, o sorriso selvagem e zombeteiro, a espada displicentemente apoiada num ombro, o cabelo mais claro que o normal, mais comprido que o normal, caindo numa cascata solta e desordenada pelos ombros nus, e então o seu reflexo lhe dá as costas – como é possível? – e até a trilha de vértebras pontuando suavemente a pele clara é igual à sua, mas como?

Eu também não sei. Eu não soube, por toda a nossa vida, enquanto estive trancada aí, pensando nisso sem parar, sem mais nada para fazer. Agora é a sua vez. Eu não sei como, e não estou nem aí, mas agora é a sua vez de ficar aí trancada, pensando. Divirta-se, Hiyo-chan. Eu sei que eu vou.

E então ela – ou o seu reflexo, ou fosse o que fosse – desaparece, partindo sem olhar para trás, e Hiyori pensa se é assim que Shinji se sente toda vez que ela o deixa jogado ao chão e vai embora sem mais palavras ou explicações. E é então que lhe ocorre, terrível, absurda, a verdade, e apesar de não sentir mais seu próprio corpo, e nem mesmo a própria mente, de alguma maneira Hiyori consegue fazer uma voz que não é mais a sua sair, por uma boca que não mais lhe pertence.

- Shin... Shinji... Me... Solte.

O universo se apaga e silencia, planetas explodem, estrelas colapsam, galáxias colidem. E o mundo chega ao fim.


NA:

Então, chegamos ao fim. Espero sinceramente que tenham gostado, e agradeço a todos que se dedicaram a ler A Primeira Máscara até o fim.

Ok, eu meio que estou me comportando como se tivesse recebido um prêmio Nobel, ou algo do tipo. Mas é inevitável, porque eu raramente consigo terminar as histórias que começo a escrever – esse fim, portanto, realmente significa alguma coisa para mim. E é por isso que eu realmente preciso agradecer, muito, intensamente, estrondosamente, a todos vocês que mandaram reviews. Sem o seu encorajamento, sem saber que havia pessoas realmente acompanhando e gostando do que eu escrevia, chegar ao fim teria sido muito mais difícil. Porque não importa o quão delicioso é escrever – saber que tem alguém além de mim gostando disso tudo é incomparavelmente melhor.

Spacer Hitsugaya k3, nanetys, Lilice_G_D, Tsukishirohime-chan, xxKasuRukiC, Jane Nylleve, Paula-chan, Maryeli, Ladys Cannibal, V. Lovett, tek4: muitíssimo obrigada. É claro que já disse isso milhões de vezes, respondendo a todas às suas adoráveis reviews, mas por favor, deixem-me agradecer a mais uma vez. Foi muito divertido ler sobre as suas opiniões, receber os seus elogios (muitas vezes imerecidos, mas quem sou eu pra reclamar?) e enlouquecer com vocês por causa das intermináveis loucuras do Kubo.

Bem, vou acabando por aqui, mas só por enquanto. Porque, afinal de contas, depois da primeira máscara vem...

A Segunda Máscara

Porque máscaras de osso servem apenas para tornar tudo ainda mais difícil

"... Ela dá uma risadinha, espada apoiada sobre um ombro, sol de mentira incendiando o universo por trás de seu corpo imaterial, olhos estranhos – âmbar sobre negro – brilhando com malevolência, voz cruel e zombeteira.

- Então, você acordou."

Saudações,

Lady Macbeth