LEMBRANÇAS DE LUZ
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Capítulo Dois – Entre Moscas e Vozes Macias
Não havia feixes de luz propriamente ditos, mas a claridade entrava no quarto através dos quadradinhos de papel de seda da porta e das paredes do aposento. Sakura nunca fora muito fã de casas de banho exatamente por aquele motivo. Porque eles não podiam ter portas, janelas e paredes como as outras pessoas? Passou a mão nos olhos antes de se sentar no futón. Ao seu lado o espaço estava vazio e as coisas com as quais Hinata dormira já estavam precisamente arrumadas no canto no quarto.
Como ninja adquirira o hábito de acordar cedo, ao menos mais cedo que Naruto e Sasuke, mas quando a rósea abriu a porta que dava para a fora e viu o sol ainda despontando pálido e pela metade atrás das montanhas ao longe achou Hinata completamente louca de acordar tão cedo. Arrumou a yukata meio torta em seu corpo e fechou a porta que direcionava para a fora e abriu a do cômodo em comum entre o quarto delas e dos rapazes. No centro do cômodo um café da manhã estava disposto para servir e abastecer muito bem a, pelo menos, o triplo de ninjas designados para aquela missão. Imaginou se fora Hinata quem mandara preparar aquilo.
Rodeou a mesa e abriu a porta de correr do outro quarto para encontrar a pior bagunça que dois seres humanos seriam capazes de fazer. As roupas limpas que são entregues de manhã lavadas como cortesia da casa de chá estavam esparramadas pelo quarto todo, os futóns de Sasuke e Naruto praticamente já não estavam mais debaixo deles e ambos estavam completamente desarrumados. Uma das pernas de Naruto estava bem em cima do estômago de Sasuke a mão direita deste empurrava a cabeça de Naruto para longe. A respiração de Sasuke tinha um leve ressonar, enquanto Naruto fazia o favor de roncar como uma tempestade.
Sakura ajoelhou-se ao lado deles, uma sobrancelha muito arqueada em reprovação, mas sua expressão mudou rapidamente quando ela ignorou o ronco de Naruto e o filete de baba escorrendo da boca dele para admirar Sasuke. As feições dele, mesmo dormindo, pareciam sérias. Tudo em Sasuke inspirava uma seriedade que Sakura achava muito atraente. A kunoichi levantou a mão, incerta se realmente deveria fazer o que pretendia, mas queria tanto, precisava tanto. Seu indicador correu por um das sobrancelhas de Sasuke e por toda a linha do nariz até sua ponta. Mas afastou a mão rapidamente, como se tivesse sido mordida por uma cobra, quando o nariz de Sasuke se mexeu, ele levou a mão ao local e o coçou impaciente, antes de abrir os olhos.
- Ah... – Sakura murmurou enquanto o rapaz sentava-se tacando a perna de Naruto com brusquidão para o lado. Os olhos negros, então, cravaram-se na Haruno conseguindo adivinhar completamente o que a rósea estava fazendo ali – Eu... Vim acordar vocês! Tem um café da manhã incrível esperando ali na sala, Sasuke-kun.
O shinobi a ignorou e levantou-se ajeitando o quimono. Sakura suspirou aliviada quando o moreno abriu a porta da sala comum que tinha vista para a varanda sem brigar com ela. Chutou Naruto com algum carinho e gritou para que ele acordasse. Não demorou muito e os três estavam sentados na mesa com aquele café da manhã magnífico. O loiro fazia o favor de comer como um desesperado, como se nunca mais em sua vida fosse ver comida e precisasse colocar tudo o que visse para dentro naquele momento. Sakura tentava não observar o companheiro.
- Onde será que a Hinata-chan foi? – Sakura soltou a pergunta para a ninguém em particular, mas como se fosse uma invocação à porta se abriu e Hinata os encarou. Ela tinha o casaco lilás amarrado à cintura, a blusa de rede lhe cobria o abdômen e terminava em uma regata sobre o busto farto e estava segura por uma alça em um só de seus ombros. Os cabelos molhados pingavam água em seus ombros e costas – Ah, estava me perguntando onde você estaria, Hinata. Foi tomar banho?
- Si-sim – a garota corou ao responder e tratou de rapidamente colocar o casaco de volta fechando até em cima. Ela sorriu para Sakura e desejou bom dia antes de se sentar ao lado de Naruto, já que Sakura fazia questão de ficar ao lado de Sasuke – Pensei que vocês acordariam mais tarde.
- Esses dois dormem demais mesmo, mas você acorda muito cedo.
- Kiba-kun e Shino-kun acordam muito cedo, também. Acabei me acostumando ao horário deles.
Eles terminaram de comer em silêncio, a não ser por Naruto que fazia o favor de ser bem barulhento e soltar exclamações de agrado sempre que podia. Hinata sorria para ele, gentilmente, admirando a vivacidade do loiro, mas os outros dois apenas continuavam comendo. As criadas retiraram as coisas e a mesa do café da manhã enquanto eles se vestiam e se preparavam para continuar a viagem.
Já na estrada, com o sol cada vez mais quente sobre suas cabeças, Sasuke anunciou que eles deveriam andar, sem cessar, até o anoitecer e comeriam andando. Não havia mais tempo para paradas inúteis, pois enquanto eles andavam Masaru Ren já poderia estar mobilizando exércitos e mercenários contra a Vila da Folha. Naruto protestou contra aquela idéia, Sakura também implorou um pouquinho por, pelo menos, dez minutos de descanso durante o almoço, mas Sasuke foi irredutível. Só descansariam durante a noite. Três dias de caminhada depois, por entre as florestas para que ninguém que estivesse no mesmo rumo que o deles os visse, enquanto iam para o norte e cada vez mais para o norte do País do Fogo, o clima esfriava e a noite caía mais rapidamente.
Na última noite, com o acampamento montado a uma distância segura do feudo, para o caso de ninjas que já estivessem lá não os interceptarem, eles montaram o plano de ação. Sakura e Hinata interromperam as lições de gueixa que Hinata passava para Sakura e eles se colocaram em volta do fogo. Desde que tinham saído da casa de chá Sasuke não tinha mais tirado a máscara, por precaução. Ele retirou da mochila um quimono quase do mesmo estilo que usava quando estava junto com Orochimaru, dava-se para ver o símbolo do Clã Uchiha bordado nas costas e colocou de lado.
- O meu plano era o de chegar um de cada vez, vocês duas juntas, eu e então Naruto, mas reconsiderei – o Uchiha começou – Pareceria muito suspeito tantas pessoas chegarem ao mesmo tempo, de repente – o moreno fixou-se em Naruto primeiro – Então eu e Naruto vamos hoje, você vai atuar como meu servo e eu peço trabalho para você no feudo enquanto estivermos lá.
- Já era ruim o suficiente a ideia de ser serviçal, agora eu tenho que ser seu servo, dattebayo!
O moreno só o ignorou e virou para as kunoichis, os dois pares de olhos claros delas pregados nele.
- Vocês vão chegar amanhã pelo anoitecer, não deixem o sol se pôr, vão antes. Na noite do dia posterior a sua chegada ao feudo nós quatro vamos nos reunir aqui a meia-noite para informar a situação. Informe sua chegada aqui piando três vezes como uma coruja e coaxando uma vez.
Os olhos ônix esquadrinharam os seus companheiros profundamente. Hinata desviou depressa seus olhos dos de Sasuke e saiu do círculo que eles tinham formado para se aproximar de sua mochila e começar a remexer nela. Sakura tentou reter o mais que pôde os olhos de Sasuke nos seus, mas ele passou novamente e observou Naruto com os braços cruzados, um olhar intenso.
- Coloque seu disfarce, Naruto – ele ordenou e pegou o quimono separado ao lado entrando assim na floresta.
Naruto obedeceu. Pegou a mochila e também desapareceu floresta adentro. Sakura suspirou e continuou sentada lá, agarrou as pernas e ficou desenhando coisas na terra ao lado da fogueira antes de Hinata se aproximar dela.
- Sakura-chan, tudo bem?
- Sim, tudo bem – ela respondeu forçando um sorriso.
Já fazia algum tempo, talvez uns dois anos depois de Hinata e Naruto terem terminado o namoro de sete meses deles, que Sakura já não estava mais tão empolgada em fazer coisas que envolvesse ser rejeitada por Sasuke. Por mais que ela gostasse dele, por mais que sempre ficava feliz quando uma oportunidade de ficar junto dele surgia, por mais que fosse persistente, ele não parecia ficar mais interessado nela. Nem depois daquela vez em que se entregara para ele, naquela noite transformada apenas em uma memória envolta em névoa branca e não em sentimento, em que aceitara ser dele, ele não a olhou de forma diferente na manhã seguinte ou em qualquer outra manhã, tarde ou noite. E a partir daquilo, depois de todas as facadas que se fechavam rapidamente e formavam cicatrizes, as facadas agora já não penetravam tão fundo, porque a pele se tornara grossa e dura.
- Aqui, Sakura-chan – a Hyuuga lhe estendia peças de quimono muito mais simples e mal feitos que aqueles que ela lhe mostrara na casa de chá. Esses nem de seda eram feitos, mas só de algodão – Não podemos chegar lá com essas roupas de kunoichis.
- Eu não... Pensei nisso – demorou uns segundos para a Haruno se livrar definitivamente da sensação de amargor em sua boca por causa das lembranças e assimilar o que Hinata dizia.
- Droga de disfarce, dattebayo! – exclamou Naruto tentando socar sem nenhum cuidado o casaco laranja dentro da mochila. Os cabelos loiros tinham sumido embaixo de uma peruca castanha tão arrepiada quando os cabelos do Uzumaki na realidade, um pouco mais compridos na altura da nuca e nas têmporas. Os olhos de azul celeste passaram para um azul escuro e profundo. O quimono simplesmente e cinzento que ele usava caia até abaixo das coxas – Essa coisa não vem com calças! – ele gritou apontando para a parte descoberta de suas pernas encarando as meninas, como se elas pudessem fazer alguma coisa quanto aquilo.
- Pare de gritar – disse Sasuke saindo do escuro com o quimono branco cobrindo suas costas e os braços, mas aberto do peito. A calça preta e simples era larga o suficiente para dar mobilidade a Sasuke e terminava com bandagens desde seus joelhos até os tornozelos. Nas mãos as luvas pretas e num cinto vermelho preso ao quadril vinha Kusanagi embainhada – Lembrem-se, daqui dois dias, a meia-noite. Vamos, Naruto.
- Quer parar de me dar ordens, teme!
Mas mesmo reclamando Naruto seguiu Sasuke. Ambos pularam para os galhos das árvores e logo o chacoalhar das folhas cessou. Sakura e Hinata estavam definitivamente sozinhas na floresta.
O feudo de Masaru Ren era definitivamente enorme e muito bem guarnecido. Sua extensão era toda fechada por altos muros protegidos por guardas com pelo menos algum nível de chakra, mas absolutamente nem um pouco capazes de deterem ninjas como Uzumaki Naruto e Uchiha Sasuke. Imediatamente quando os dois ninjas se aproximaram, Naruto um pouco mais atrás de Sasuke e meio encurvado, como um servo deve ser, os guardas os avistaram e se colocaram a postos, as lanças que empunhavam ficaram em riste. Sasuke parou a uma distância em que as lanças não os alcançariam em um ataque e só pousou, como se fosse um apoio qualquer, o cotovelo no punho de Kusanagi.
- Quero falar com Masaru Ren – ele anunciou.
- Você ouviu isso, Meoki? Ele quer falar com Ren-sama.
- Garoto insolente! – grunhiu o outro – Dê meia volta e vá embora. Ren-sama não recebe a escória no meio da noite.
Sasuke fechou os olhos e suspirou. Quando tornou a abri-los o Sharingan reluziu. De tão longe os guardas não conseguiram ver, mas Naruto sim e lançou, com os olhos, uma pequena advertência a Sasuke.
- Não vou machucá-los – sussurrou o moreno e recomeçou a andar em direção as lanças empunhadas.
- Você é surdo, idiota? É para ir embora!
Uchiha Sasuke não foi embora e continuou andando com o mesmo ritmo até estar perto o suficiente para os guardas considerarem-no uma ameaça real e avançarem com suas lanças, mas o moreno era muito mais rápido e assim que eles estavam prestes a cravar as lâminas em Sasuke ele desapareceu e reapareceu atrás deles. Os seus corpos paralisaram e eles sentiram-se congelar no lugar.
- Vocês podem mandar sua escória para o inferno – a voz dele perfurou-os, rasante como uma flecha, fria como uma adaga de gelo – Mas nem de longe podem me considerar como alguém desse tipo.
E com um movimento rápido desacordou ambos os guardas. Naruto aproximou-se dele correndo, desviando-se dos guardas caídos. Nenhum dos dois se preocupou com eles ficarem jogados ali, apenas abriram o grande portão e entraram no feudo. Era, realmente, um espaço absurdamente grande. Da entrada eles podiam ver, no centro do complexo, o telhado alto da casa do senhor feudal se erguendo imponente na noite. Um pouco mais afastado, mais a oeste, outro telhado pouco mais baixo que o da mansão. As casas e as lojas do feudo eram muito bem cuidadas, contudo naquele momento as ruas espaçosas estavam desertas e a área das plantações não podiam ser vistas da entrada, deviam ficar no extremo norte do feudo. Os dois ninjas começaram a andar pelas ruas mantendo em vista a direção do telhado mais alto, lá era onde eles deveriam encontrar Masaru Ren.
- Sasuke – chamou Naruto olhando para os lados, apreensivo – Os outros guardas não deveriam ter vindo nos interceptar, datte...? – mas engasgou na última parte lembrando-se que tinha que evitar ao máximo seu vício de linguagem, aquela era uma das formas mais eficazes para reconhecer Naruto.
- Eles vieram.
Foram as últimas palavras de Sasuke antes da rua por onde andavam, ladeada de casas e estabelecimentos, acabar e ele se virem em frente a mansão do senhor feudal, com Masaru Ren esperando na escada e o que parecia ser toda a legião de guardas do feudo prostrados diante deles. Naruto quase sorriu. Se eles soubessem que as informações eram verdadeiras ele poderia derrotar todos aqueles guardas naquele momento e arrastar Ren para a Vila da Folha, mas eles ainda tinham que cumprir a missão.
- Eu estava esperando que você viesse, Uchiha Sasuke-san – Masaru Ren olhou para Sasuke e seus olhos brilharam quando passaram por Kusanagi em sua cintura, depois brilharam ainda mais fitando Sharingan ativado. Ele começou a descer as escadas ainda falando e sua voz soava como algo perigoso, pois era uma voz macia como se pudesse confiar cegamente nela, mas os ninjas da Folha sabiam perfeitamente como evitar a hipnose enrustida naquele tipo de timbre – A sua fama como vingador, remanescente do Clã Uchiha, aquele que matou Orochimaru e Uchiha Itachi e o novo Sannin das Cobras chegou até o meu feudo – as escadas terminaram e ele passou por seus guardas sem medo nenhum de ser atacado – A pergunta que me intriga verdadeiramente é o que o traz aqui?
- Chegaram aos meus ouvidos que você está tratando de negócios que me interessam – devolveu Sasuke com a mesma voz de adaga de gelo que usara nos guardas – Vim tratar desses negócios e desfrutar da fama de suas gueixas.
- Se você veio em paz, então seja bem vindo – Ren levantou uma das mãos e os guardas levantaram as lanças, antes apontadas para Naruto e Sasuke, e se dispersaram novamente. Somente dois deles ficaram e esses não empunhavam lanças, somente armas ninjas convencionais – Quem é este com você, Sasuke-san?
- É o meu servo, Nai¹ – uma veia saltou na testa de Naruto e suas sobrancelhas se estreitaram para o nome que Sasuke escolhera. Masaru não lhe dedicou atenção, apesar guiou Sasuke para a escadaria e ele seguiu o rapaz e o senhor feudal.
Nem Sakura nem Hinata conseguiram dormir muito bem durante aquela noite. Ambas já estavam muito despertas ao raiar do dia e o silêncio foi o principal companheiro das kunoichis enquanto Hinata tentava ensinar algumas coisas de última hora para a nin-médica. Quando o dia passou a ficar mais frio e o sol mais laranja, elas vestiram os quimonos simplórios e se prepararam para ir ao feudo.
Os olhos de Sakura, enquanto esperava Hinata terminar de arrumar às coisas de um jeito que elas pudessem transportar escondidas as armas para dentro sem serem percebidas pelos guardas, estavam voltados o tempo todo para o telhado mais alto que dava para se ver atrás dos muros do feudo. A morena se aproximou de Sakura e seguiu sua linha de visão. Suspirou antes de perguntar o mais gentilmente que podia:
- Está pronta, Sakura-chan?
- Estou – ela respondeu vagamente, sem fazer menção de se levantar. Hinata, então, deixou as coisas caírem de seus ombros e sentou-se no tronco ao lado da rósea. Ficou mirando o telhado da mansão feudal por um tempo.
- Você está preocupada com eles.
Ela não respondeu, não havia necessidade.
- Tenten-chan me disse uma coisa uma vez que eu tomei como verdade – a Hyuuga encolheu as pernas e Sakura lhe encarou o perfil – Os shinobis desfazem muito da força das kunoichis e se lançam nas batalhas para protegê-las e provar que são os melhores quando, na verdade, as kunoichis são as mais fortes.
Hinata virou para Sakura e lhe sorriu.
- Mesmo preocupadas com nossos companheiros nós temos força para lutar e fazermos o nosso melhor. Isso só prova que as kunoichis, que as mulheres, são os seres mais fortes.
Os olhos de Sakura tremeram e ela se levantou com vontade, totalmente diferente da Sakura melancólica de segundos atrás. Levantou o punho cerrado, franziu as sobrancelhas e, sorrindo, disse:
- Vamos, Hinata. Vamos fazer a nossa parte da missão!
A morena se levantou um pouco espantada pela súbita explosão de ânimo na Haruno e pegou as coisas do chão colocando-as de volta sobre o ombro. Elas se embrenharam na floresta e seguiram em silêncio por todo o caminho. Avistaram o grande portão do feudo protegido por dois guardas diferentes daqueles que recepcionaram Naruto e Sasuke. Elas esperaram um segundo olhando para a estrada e escolheram um ponto em que os guardas não poderiam vê-las saindo da floresta.
- Vamos agora – sussurrou Sakura, mas parou e segurou Hinata um instante – E muito obrigada, Hinata-chan.
A outra só confirmou com a cabeça e elas correram para a estrada e começaram a caminhar calmamente em direção ao feudo, a suas costas o sol também iniciava sua caminhada rumo ao chão para dar lugar à noite. Ao se aproximarem o suficiente os guardas uniram as lanças fazendo-as interromperem seus passos. Hinata e Sakura pararam, levaram as mãos ao peito como se assustadas, encenando muito bem.
- O que as moças querem aqui? – perguntou o da direita.
- Viemos... – começou Sakura, gaguejando - ...para nos a-apresentarmos como gueixas.
- Vocês são as novas bonecas de Ren-sama? – elas acenaram com a cabeça – E de onde são?
- So-somos gueixas do País da Grama.
Então o guarda da esquerda se precipitou até elas. Sakura deu um passo para trás e Hinata se encolheu. Ele agarrou o queixo da rosada e analisou-a bem, depois fez o mesmo com o de Hinata. Voltou para o seu lugar e cuspiu no chão.
- Vocês podem passar – disse o da direita e, incertas, elas seguiram o caminho e entraram no feudo – Vão até a segunda maior construção.
Foi a instrução do guarda antes delas se verem completamente perdidas entre pessoas e mais pessoas e construções e crianças e animais. O feudo de Masaru Ren era muito grande e povoado. As pessoas circulavam com pressa, sempre com alguma coisa para fazer ou um lugar para onde ir. Eram educadas, sempre que se esbarravam pediam desculpas e seguiam seus caminhos. Às vezes um fazendeiro gritava para o outro tirar seus bois do caminho, mas era tudo. Sem brigas violentas, sem discussões grosseiras, sem desentendimentos que não podiam ser resolvidos. As kunoichis foram sendo empurradas pela população e pelo fluxo constante até chegarem a frente da mansão do senhor feudal. Guardas estavam a postos nas escadarias, mas nem sequer olharam para elas.
- Estamos perdidas? – perguntou Hinata.
- Se ao menos você pudesse usar o Byakugan, porque de onde estamos todas as construções parecem altas – comentou Sakura, olhando em volta.
- Por favor, com licença, eu preciso voltar rápido para a okia - uma garota passou atrás delas e Hinata ouviu sua súplica. Cutucou Sakura e apontou para onde a menina ia. Ela virou a esquina e elas a seguiram. Quando chegaram à esquina elas a viram correndo por uma rua ladeada de casas até entrar numa construção enorme.
- Porque estamos olhando pra onde ela vai? – perguntou Sakura.
- Porque ela disse okia, é onde as gueixas moram – Hinata explicou e elas se colocaram a andar pela rua reta. Quando se aproximaram o suficiente da construção puderam contemplar uma placa ao lado escrita Casa de Chá – Que incomum.
- O quê?
- Normalmente as okias não são dentro das casas de chá.
Mas os questionamentos pararam por aí. As duas se aproximaram mais e Sakura tocou o sino pendurado ao lado da porta. Ouviram-se gritos lá dentro para que alguém viesse abrir e momentos depois a mesma garota que tinha passado correndo por elas abriu a porta. Estava de joelhos e fez uma reverência antes de levantar a cabeça.
- Em que posso ajudá-las?
- Viemos nos apresentar a okaa-san² para servirmos como gueixas nesta okia – explicou Hinata.
- Vieram servir de gueixas? – uma voz as costas da menina desdenhou. Não era uma voz que agradou as duas. Áspera, com mais anos de experiência do que seu número de rugas apresentava, irritante como o zumbido de uma mosca. Ela fez um sinal com a mão e a menina se retirou – E o que as faz pensar que podem chegar assim aqui na minha okia e ser gueixas?
- Muito prazer, okaa-san – disseram ambas depois de fazerem uma mesura – Nós somos gueixas do País da Grama – continuou Sakura – E viemos pela fama da sua okia.
- Claro que sim, porque mais seria? – a Haruno não gostou do tom de voz dela especialmente quando soltava frases arrogantes – Se já são gueixas devem ter algum quimono para pagar o preço do ingresso na minha okia.
- Temos quatro quimonos, okaa-san – Hinata ofereceu a ela a bolsa com os quimonos de sua mãe.
- Entrem, então – a mulher agarrou de suas mãos a bolsa e deu-lhes passagem.
O corredor de madeira pela qual seguiram era amplo e todas as portas de várias salas de mesmo tamanho estavam abertas, todas elas com o piso de tatame. Em uma ou outra havia uma mulher limpando. Elas foram até o fim e encontraram uma escada para o primeiro andar. Subiram e lá em cima os corredores e as salas eram de menor tamanho. Embaixo funciona a casa de chá e em cima o quarto das gueixas. Okaa-san abriu a porta de seu quarto e as empurrou para dentro, entrou logo depois e sentou-se atrás de uma mesinha mais ao canto. Hinata e Sakura se sentaram sobre os joelhos à frente dela, o tatame pinicando-lhes as pernas.
A morena Hyuuga observou com pesar a mulher abrir os quimonos e passar por eles suas mãos. As lembranças de sua mãe. Prometeu para si mesma que pegaria aqueles quimonos de volta no fim da missão, não importando o que acontecesse. Ela colocou os tecidos de seda de lado e olhou para as duas demoradamente. Levantou-se e elas fizeram o mesmo.
- Pelo que me parece vocês são bem alimentadas – ela rodou em volta das moças e começou sua analise.
Apalpou primeiro as nádegas e coxas de Sakura com tanta firmeza que Hinata pensou que a Haruno fosse dar-lhe um soco para atravessar a parede, mas a rosada se manteve firme em seu papel. Apertou sua barriga lisa e levantou a manga do quimono até os bíceps. Mediu seus pés, suas canelas e seus seios. Levantou o queixo para ver seu rosto de todos os ângulos e a fez arreganhar os dentes antes de passar para Hinata e fazer o mesmo procedimento. Enquanto a Haruno se mantivera firme, Hinata não pôde evitar corar e se retrair repetidas vezes.
- Diga-me, garota – ela segurava o queixo da morena com firmeza, do mesmo jeito que fizera o guarda, e olhava seus olhos com demasiada atenção – Quem foi responsável por colocar todo esse luar dentro dos seus olhos?
Mas ela não respondeu e okaa-san não insistiu, apesar de ficar encarando-a por mais um tempo, depois deu outra volta em torno delas, mandou-as sentarem-se e mirou seus olhos castanhos de mosca em Sakura.
- Vocês duas parecem jovens e saudáveis, mas você é muito menos encorpada e seus braços têm muitos músculos. Pode trabalhar aqui como empregada, estava mesmo precisando de alguém para isso. Dorme nos fundos – e então colou os olhos em Hinata – Você pode se apresentar como gueixa e dorme aqui em cima. Vou procurar alguém para ser sua onee-san³ e fazer sua estréia em breve.
Sakura e Hinata apenas balançavam as cabeças em concordância.
- E como é nome de vocês?
- Sou Hinata e está é Sakura.
- Hinata... – okaa-san não a olhou, só repetiu o nome fazendo-o soar repugnante aos ouvidos da morena.
As regras da okia e instruções continuaram mais um pouco e elas foram dispensada para conhecerem a casa de chá logo depois, mas somente até a casa de chá ser aberta, depois disso elas teriam que ficar em seus quartos, em silêncio. Os quimonos de Hinata ficaram com okaa-san. Logo depois que elas saíram okaa-san avisou a garota que as atendera, de nome Mizuno, que iria sair.
Seu percurso foi rápido até a mansão feudal de Masaru Ren.
- Eu não me dou bem nesse tipo de serviço. Varrer não presta pra nada, sempre tem alguém que pisa onde você acabou de limpar! – Naruto começou a reclamar assim que fechou a porta do quarto de Sasuke. Trazia o jantar do moreno em uma bandeja para manter as aparências de servo. Colocou sobre a cama perfeitamente feita. Ao que parecia o Uchiha não dormira na noite passada e se encontrava sentado no beiral da janela, sem medo de cair do segundo andar, observando a frente da casa de chá – Oi, Sasuke, você tá me ouvindo?
- Hinata e Sakura já chegaram – respondeu e então mirou a porta. Naruto ficou confuso com o olhar do Uchiha e virou-se também. Alguém bateu.
- Sasuke-sama, desculpe incomodar, mas Ren-sama gostaria de falar com o senhor – a voz de um empregado soou abafada pela porta – Ele te espera no escritório.
Quando Sasuke abriu a porta de correr já não havia mais ninguém lá fora, apenas uma sombra que desaparecia apressada na curva do corredor. Ele olhou para Naruto e disse em voz baixa.
- Não tenha idéias idiotas de ir procurar Sakura ou Hinata, isso pode colocar tudo a perder.
- Eu sei disso, dattebayo – respondeu Naruto no mesmo volume, apesar de zangado.
- E consiga informações com os criados, é um dos meios mais fáceis.
- Vou começar a fazer perguntas, mas você tem que se apressar com o tal Ren, não temos todo o tempo do mundo se o que Tsunade-baa-chan falou for verdade.
- As relações de amizade e confiança entre assassinos e mercenários são muito mais complexas do que simplesmente começar a fazer perguntas – Sasuke fitou Naruto para fazer com que ele entendesse através da tensão e apreensão que estavam espalhados pelo corpo do moreno. Como líder daquela missão ele tinha sobre os ombros as responsabilidades, as vidas de seus amigos, dos moradores da Vila, até daqueles que aceitaram sua volta a contragosto, e ele aprendera com Naruto a não ser mais um ninja que deixa para trás aqueles que precisa proteger – Um movimento em falso e é o fim da missão. E então a Vila da Folha cai, Naruto.
O loiro franziu as sobrancelhas e acenou que sim com a cabeça. Confiava em Sasuke e nas habilidades dele como ninja, então não ficou temeroso pelo melhor amigo quando ele fechou a porta do quarto e seguiu pelo corredor.
Sakura e Hinata desceram as escadas depois de andarem por todo o andar superior. As noticias correram rápido e todas as outras moças da casa já sabiam quem eram e o que fariam as kunoichis ali. Para Sakura elas nem ligavam, mas lançavam olhares de desprezo para Hinata por onde passavam. Nos fundos da casa de chá havia um pátio quadrado onde no meio um lago grande e calmo refletia as paredes e o tablado de madeira em volta dele. Algumas cerejeiras o rodeavam e, em seu centro, numa pequenina ilha que alcançava a beirada do lago por uma ponte, jazia uma cerejeira solitária, tão grande, velha e retorcida que suas flores tocavam a água. As kunoichis rodearam o lago e foram até a outra extremidade onde fica a cozinha e os alojamentos das empregadas.
- Eu sinto muito, Sakura-chan – disse Hinata em voz baixa enquanto rodeavam o lago – Aquela mulher não deveria fazer isso, o certo é avaliar uma gueixa por suas habilidades, não seus atributos físicos.
- Então ela escolheu certo, Hinata – respondeu Sakura, mas sorriu – Não tem problema, eu não sei dançar, é melhor que você faça isso. E você notou todos aqueles olhares hostis das outras gueixas sobre você?
- É compreensível. Elas me veem como concorrente, pensam que eu posso roubar o danna delas.
Sakura balançou a cabeça, ela sabia que se qualquer uma daquelas gueixas olhasse para ela como olharam para Hinata, ela acertaria um soco em cada uma delas, mas Hinata só continuavam andando. E elas entraram na cozinha.
- Ren? – chamou Sasuke esperando do lado de fora da porta de Masaru Ren.
- Entre, por favor, Sasuke-san – a voz veio abafada e Sasuke fez a porta deslizar para encontrar o senhor feudal sentado sobre os joelhos em uma almofada, a janela incidia sua luz diretamente na mesa baixa em frente ao homem e ele parou o que estava fazendo quando Sasuke entrou. O quarto feito de escritório não era muito grande e em suas paredes jaziam estantes com livros e pergaminhos. Atrás de Masaru Ren havia dois mapas em pergaminho, um deles do feudo e o outro das nações shinobi – Em um segundo eles trarão o chá.
No momento em que ele pronunciou essas palavras um criado entrou sem precisar bater ou se anunciar trazendo a bandeja e a depositou na mesa. Ren fez um sinal para que o criado se retirasse, ele mesmo serviria o chá e apontou para a almofada a sua frente:
- Sente-se – Sasuke obedeceu.
- Seu criado disse que queria falar comigo. O que é?
- Na verdade você é quem deveria me responder essa pergunta, foi você, Sasuke-san, quem veio primeiro até mim.
- Eu acredito que minha presença aqui é bem óbvia – os olhos negros fitaram os movimentos lentos de Ren para servir o chá. Ele estendeu a xícara para Sasuke e então para si mesmo. Saboreou o cheiro e o vapor – Vim confirmar os boatos que ouvi.
- E esses seriam?
- Que você está montando um exército para atacar a Vila da Folha – o Uchiha foi direto ao ponto e viu os olhos de Masaru se abrirem tão levemente que passaria despercebido por qualquer outra pessoa, mas os olhos de Sasuke já eram treinados para esses pequenos detalhes.
- Então você está aqui para se juntar a mim ou para me deter – não havia interrogação no fim dessa sentença de Ren, apenas uma constatação simples do que Sasuke poderia ou não fazer.
- Se for verdade, quero me juntar a você. Tenho assuntos pendentes com aquela Vila.
- Um assunto chamado Uzumaki Naruto, se não me engano – Ren ainda não tinha bebido o chá – Ele é um amigo de infância, não é?
- Ele é alguém que preciso matar.
- Entendo.
Ren, então, pousou seus olhos aquosos no chá e pegou-o. Sorriu. A varinha de seu chá estava boiando em pé. Um criado bateu na porta e anunciou:
- Ren-sama, Hae-san está aqui e disse que precisa falar com o senhor. Disse, também, que é rápido.
- Sim, mande-a entrar.
O criado abriu a porta e deu passagem para uma mulher. Sasuke não se virou e ela passou por ele sem olhar. Fez uma mesura quando se aproximou de Ren e ajoelhou, falando-lhe ao ouvido:
- Há uma gueixa nova na minha okia que irá lhe interessar, Ren-sama.
- Como é o nome dela?
- Hinata – Ren balançou a cabeça, sorriu e olhou para Sasuke.
- Bem, Sasuke-san, seus negócios comigo estão indo bem e parece que seu interesse por gueixas poderá ser satisfeito. Hae-san tem uma nova garota para nos divertir – virou-se para Hae – Quando Hinata estará pronta para se apresentar?
- O mais tardar em dois dias, Ren-sama.
Masaru balançou a cabeça e dispensou os dois. Hae saiu apressada e desapareceu pelos corredores, mas Sasuke andou lentamente de volta para seu quarto. Não havia gostado nem um pouco do jeito que os olhos de Ren brilharam ao pronunciar o nome da Hyuuga.
¹Nai: Significada "nada". Uma brincadeira do Sasuke com o nome e a posição de servo de Naruto.
²Okaa-san: Significa "mãe" e é como é chamada, pelas gueixas, a matriarca da okia.
³Onee-san: Significa "irmã mais velha" e é como é chamada a gueixa mais experiente que "cuida" da maiko, a aprendiz de gueixa.
Danna: É como é chamado o homem que toma para si uma gueixa sob proteção. Como gueixas não podem se casar, então elas têm dannas que cuidam delas.
Galho boiando em pé: Na superstição japonesa, quando o galhinho do chá bóia em pé é sinal de boa sorte.
Olá!
Vixe, esse capítulo demorou mais do que eu previa! Era pra eu ter postado esse semana passada, mas a minha prima furacãozinho estava na cidade e nem deu pra terminar, quanto mais postar.
Mas as coisas estão começando a acontecer e espero que vocês tenham gostado do que eu escrevi até agora, estou tentando fazer dessa fic a melhor que eu posso!
Agradeço a todas as pessoas que mandaram reviews, que não mandaram, que favoritaram e tudo o mais, obrigada mesmo!
AGRADECIMENTOS:
Kinha Oliver, Elara-chan, Dondeloth, Gesy, Hachi-chan2, Hana-Liz, BelaRaven, Sazame Hyuuga, Nii-chanzinha, Lust Lotu's, hinachantilha, Ane Caroline, Amanda, Nostra-chan, Toph-baka, Amandy-san e Marcy Bolger.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim!
