LEMBRANÇAS DE LUZ
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Capítulo Quatro – Ao Atiçar a Chama
Depois de três dias as coisas no feudo de Masaru Ren aconteciam normalmente. Vez ou outra um mercador, uma mulher de família ou um fazendeiro vinham até a mansão para pedir conselhos a Ren sobre sua situação, o que fazer, o que comprar ou não, o melhor jeito de sanar uma dívida, como plantar e o que plantar. Masaru respondia a todas as perguntas e tinha todos os bons conselhos que as pessoas necessitavam, como um líder decente e bom deve fazer. Na maioria das vezes, Sasuke estava com ele. Raras eram as ocasiões que o senhor deixava o Uchiha vagar sozinho, pois dizia que era muito descortês por parte do anfitrião. Para o shinobi, porém, ele apenas não queria tirar seus olhos de sobre o portador do Sharingan. A confiança demorava a chegar e até que ela não viesse, Sasuke suspeitava que Ren não o deixaria vagar livremente.
No quarto dia Masaru mostrou ao moreno Uchiha uma curiosa coleção de coisas valiosas e raras, peças místicas, lendárias e muito mais antigas até mesmo que a formação do País do Fogo. Era uma sala cheia delas, enfileiradas, em prateleiras, em pedestais, dentro de baús e urnas. Todas etiquetadas e guardadas com os devidos cuidados, muitas peças, inclusive, que interessaram muito a Sasuke.
- Essa é minha coleção mais importante – disse Ren enquanto passeavam pela sala – Desde pequeno sempre gostei de coisas místicas e comecei a colecionar artefatos que eram conhecidos como lendários.
- Hum – resmungou Sasuke como resposta enquanto passeava pela sala aleatoriamente. Nunca gostara de velharias, mas devia admitir que ali havia artefatos que chamavam sua atenção. Passou por prateleiras cheias de livros e pergaminhos com histórias lendárias sobre ninjas e todos os tipos de guerreiros, guerras tribais, entre piratas, entre gangues, entre Vilas, entre países. Até que alguns pergaminhos muito grandes e antigos lhe chamaram a atenção – Esses pergaminhos têm o símbolo do Clã Uchiha.
- Ah, sim, de fato são alguns pergaminhos muito antigos sobre a história do seu Clã. Apenas a história que é contada a todos, não há segredos e técnicas ninja neles. Uma pena, se quer saber – Ren explicou-lhe sem se abalar pelo tom áspero da voz de Sasuke ao falar sobre os pergaminhos de seu Clã. Ele se dirigiu a porta e o Uchiha o seguiu, saindo da sala de antiguidades guardada por dois guardas enormes – O café da manhã já deve estar pronto.
- Salmão, quero salmão, não baiacu – Sakura explicava para o peixeiro. Todas as manhãs era ela a encarregada de sair da okia e ir buscar os peixes frescos numa das lojas da vila do feudo. Não ficava muito longe, apesar de o feudo ser incomensuravelmente grande. E todas as manhãs o velho pescador se esquecia dela do dia seguinte e tentava lhe entregar filés de baiacu, ao invés do salmão que ela pedia – Você acha que eu não sei reconhecer o peixe, meu senhor?
- Esse é mais barato! Salmão é para Ren-sama – o homem retrucava.
- Não me interessa, preciso levar salmão para a okia, é ordem de Ren-sama, também – ela dizia qualquer coisa para que o velho lhe entregasse o salmão. Ele não se lembraria dela no dia seguinte, de qualquer maneira.
- Baiacu! – ele gritava.
- Salmão! – gritava Sakura de volta e batia com o punho fechado na bancada. Todos os peixes pulavam e voltavam a cair sobre as pedras de gelo derretendo. O velho arregalava os olhos e então lhe entregava os cinco salmões que ela tanto queria – Obrigada e até amanhã.
A kunoichi lhe entregava o dinheiro, sorria e ia embora com seu pacote seguro na cesta. Ela era a única que conseguia ser ágil quando se tratava de pegar o peixe com o pescador. As outras empregadas tentavam, mas ele era muito teimoso e elas desistiam rápido. Como a peixaria era muito isolada, apesar de ser a melhor do feudo, ela não encontrava ninguém enquanto estava lá e usufruía do seu poder para apressar as negociações com o senhor fastidioso.
As ruas, mesmo sendo ainda manhã bem cedo, estavam movimentadas com todos os tipos de figuras e isso a fazia se lembrar muito da Vila da Folha. Mulheres na feira, homens com suas barraquinhas ou indo para seus trabalhos, crianças correndo com brinquedos simplórios. Não havia ninjas, apenas os guardas perto das entradas do portão e da casa de Masaru Ren. Os poucos homens que, Sakura suspeitava, pudessem ter um pouco de chakra em seus corpos, estavam hospedados em pequenas pensões ou nos bares. Durante a noite tais homens juntos com turistas e viajantes iriam ter com as gueixas da okia. Era para isso que estavam ali, fora quem tinha negociações e conversas com Ren.
Sakura não era uma gueixa, mas a beleza dela era bem maior que os padrões do feudo e atraia olhares. Olhares nada inocentes. E ela não poderia dizer que não gostava. Na Vila da Folha tais olhares a fariam revidar, muito zangada, mas como ali ela não podia deixar transparecer o seu lado mais brutal, então apenas empinava o queixo e ignorava. Ou tentava. Na verdade, até gostava um pouco de todo aquele assédio e dos olhares que queimavam suas costas.
- Sakura-chan! – ela pulou. Estava tão distraía que a voz de Naruto vinda de trás dela a assustou e quase derrubou os salmões no chão e na sujeira da rua. Virou-se encontrando os olhos de azul escuro dele, mas não estavam brincalhões como ela pensou que estariam por ele tê-la pego de surpresa.
- Naruto! Você quase me matou de susto! – ela gritou para ele aos sussurros e os olhos pareceram se suavizar por um segundo, mas ele não sorria. Ela quase considerou ficar preocupada – O que está fazendo aqui? Alguém pode nos ver juntos, é melhor ir embora.
- Eu não vejo problema em dois criados andarem juntos por aí, Sakura-chan – ela soltou um som estranho da garganta. Tinha se esquecido que eles, realmente, não passavam de criados por ali.
- Ah, é, tudo bem – e deu-lhe a costas voltando a andar. Naruto a acompanhou, muito mais calado que o normal.
"Será que ele está assim por pura encenação?" pensou a garota olhando com o canto dos olhos esmeraldinos. O Uzumaki não a encarava, olhava apenas para lugares aleatórios enquanto caminhavam para o centro mais movimento da vila do feudo "Não, eu acho difícil Naruto controlar tão bem assim seu temperamento sem estar perturbado por alguma coisa".
- Naruto – ela chamou calmamente. Ele fez um sinal de que estava ouvindo, mas não parou de andar nem a olhou. Ela quis se zangar e o parar com um puxão, não o fez, porém. Achou melhor continuar devagar – Tem alguma coisa errada?
- Só o jeito que esses homens todos ficam olhando pra você, dattebayo! – havia raiva na voz dele e Sakura se sentiu corar. Tanto por ele ter percebido os olhares quanto por ser tão sincero com ela – Se a gente estivesse na Vila da Folha eles não olhariam pra você desse jeito porque lá você podia socá-los.
Ela deveria se ofender por ele ter dito que ela assustava os homens? Ela deveria se sentir lisonjeada por Naruto estar zangado pelos olhares? Ela decidiu se sentir zangada, porque estava gostando de ter alguns olhares sobre si, sem que os homens pudessem ter medo que elas os fizessem atravessar algumas paredes com sua força, só para variar.
- Do que você está falando, Naruto? – ela fechou os punhos.
- Você não percebeu, Sakura-chan? Todos aqueles idiotas olhando pra você daquele jeito enquanto você anda na rua... – ele não terminou. Gesticulava e uma das vezes que passou a mão pelos cabelos quase levou a peruca junto.
- Cale a boca – ela sussurrou, zangada. Ele parou, havia escutado – Cale a boca, Naruto.
- Sakura-chan! – mas ela já o tinha empurrado, usado de sua boa força concentrada nos punhos, e ele bateu com as costas na parede atrás dele, no momento eles passavam por uma ruela entre casas e se digiram para a rua principal para voltarem à mansão e a okia – O que foi que eu disse, dattebayo?
A moça correu por um pouco até entrar em outra ruela. Não sabia se estava longe ou perto de voltar para a casa de chá, mas podia ouvir o som das pessoas na rua principal, então não tinha com o que se preocupar. Colocou a cesta com os salmões ao lado e escorregou com as costas na parede. Quis chorar, mas não sabia por que exatamente. Será que era tão ruim assim que as pessoas a desejassem? Ela não acreditava nisso. Qualquer mulher gostava de receber alguns olhares, então ela também podia receber alguns. O que Naruto estava falando? Que direito ele tinha de tentar ser o herói a defender sua honra?
Então sentiu falta, por um instante, do calor de Sasuke naquela noite. Fora só uma noite e só uma vez, ele não estava mais lá pela manhã e ela se sentiu fazia depois, mas se sentiu bem enquanto durou. Era do calor que sentia falta, de ser desejada como Sasuke fizera. Fora apenas por seu corpo, mas fora bom. Ela estava decidida a se sentir desejada de novo, começaria querendo os olhares, mais tarde se preocuparia com o sentimento para preenchê-los. Levantou-se e rumou para a okia com os pensamentos renovados. Ela os deixaria olhar, porque apenas olhar não arrancaria pedaços, do contrário do que Naruto parecia pensar.
Estava nervosa parada lá, sentada sobre os joelhos, o shamisen no colo e as mãos tremendo. Esperava até os passos que ouvia vindo pelo corredor chegassem à sala onde estavam dispostos os pratos do café da manhã, a porta que dava para o corredor ao redor da mansão e para fora estava aberta atrás dela. Tinha um gelo ao redor do seu estômago e ela tentava relembrar todas as notas do instrumento em sua cabeça. Quando a porta se abriu e Masaru entrou, seguido de Sasuke, o estômago dela, com todo aquele gelo em volta, se apertou até quase desaparecer.
- Olá, Hinata, que bom que está aqui – ela se levantou ao colocar o instrumento de lado e lhe fez uma mesura.
- Vim para entretê-los como me pediu, Ren-sama – Mizuno tinha chegado correndo ao seu quarto naquela manhã, ainda era cedo, mas ela tinha que se vestir depressa e comer alguma coisa, fora chamada para passar o dia com Ren-sama e seu convidado, para entretê-los. Ficou nervosa com o pedido, se vestiu com a cabeça cheia de idéias do que o homem pretendia, nenhuma fazia um sentido completo.
- Hinata, esse é Uchiha Sasuke-san – ele se voltou para Sasuke, então, enquanto Hinata lhe fazia uma reverência – Essa é uma das minhas gueixas, Sasuke-san, uma das mais preciosas.
- É um... Prazer conhecê-lo, Sasuke-san – ela lhe sorriu docemente e quando ela levantou a cabeça em que seus olhos se encontraram, Sasuke pensou que realmente era uma apresentação de dois estranhos. Não conhecia Hinata e nem ela o conhecia.
Sentaram-se a mesa enquanto Hinata se ajoelhava perto deles e puxava levemente o quimono sobre os pulsos para servir o chá. Os olhos, Sasuke percebeu, de Ren não deixavam Hinata, como se somente os movimentos dela pudessem fazê-los se mexer. Ele acompanhava-a como uma cobra quando acompanha o camundongo antes do bote. O Uchiha pensou que aquela comparação, de Ren com uma cobra, não era boa. Ele mesmo servia mais para ser uma cobra.
A morena se afastou com um sorriso e se aproximou do shamisen que tinha deixado ao lado. Sentou-se, o rosto voltado para baixo, para as cordas muito bem retesadas, e começou a tocá-lo. O som se propagou por toda a sala e pareceu ressoar dentro deles, através do sangue fluindo para todos os órgãos. O Uchiha nunca tinha escutado aquele instrumento, nunca tivera tempo para ficar apreciando certas coisas. Quando escolhia gueixas em suas viagens, não era aqueles tipos de gueixas, o tipo ornamental, de companhia. Eram mais do tipo que amarravam o nó do obi na frente, assim ficava mais fácil tirá-lo, as prostitutas com pintura de gueixas sobre a pele maculada e impudica. O único som de instrumento que conhecia era da flauta que ele mesmo tocava.
- Ela chegou aqui no dia seguinte a você – demorou um segundo para o shinobi perceber que Masaru falava com ele. Não era do seu feitio ficar distraído, mas a música estava correndo por seu sangue – Ela caiu quando se apresentou para mim.
- Porque ficou com uma gueixa desastrada?
- Porque eu acredito que há mais nela do que uma queda pode mostrar, Sasuke-san – Ren encarou Sasuke, suas sobrancelhas se arqueando para dar ênfase a sua opinião – Será que você não me deixaria ensiná-lo a apreciar coisas raras, Sasuke?
Era a primeira vez que Masaru Ren se dirigia a ele sem o sufixo de respeito.
- Duvido que exista alguma coisa rara que eu queira apreciar, Ren – rebateu o Uchiha encarando-o. Diferentemente, suas sobrancelhas não se arqueavam, mas seus olhos estavam como adagas.
- Garanto que há – a veemência dele deixou Sasuke intrigado. Coisas raras, ele disse. Alguma coisa que deveria estar em sua coleção lendária, talvez até mesmo algo mais próximo, como sua espada. Apreciava Kusanagi, era a melhor arma de batalha que tinha encontrado. O que ele queria dizer? Fosse o que fosse, atiçou-lhe a curiosidade – Vou ensiná-lo isso.
Atrás deles a música mudou, mas o ritmo se mantinha calmo, relaxante para o começo do dia. A kunoichi se mantinha concentrada quando Sasuke desviou os olhos da comida para encará-la. O sol que entrava batia na pele clara dela, acariciando-a e ele notou que ela tremia. Ela estaria nervosa por medo de errar ou por estar sob as asas do inimigo? Sasuke não saberia dizer. Ela, porém, se fosse questionada quanto a isso, diria que era por causa dos olhares lançados sobre ela. A primogênita Hyuuga os sentia queimando sua pele, como uma língua se fogo sendo passada repetidas vezes por seu corpo. Algumas vezes, menos freqüentes, mais intensamente do que outras. Sua face estava tão rubra quanto seus lábios por baixo das camadas de pó branco.
- As mulheres, especialmente, sempre foram um artefato que me chama a atenção – continuou Ren enquanto comiam – Raras, cada uma de um jeito diferente.
Uchiha voltou seus olhos negros mais uma vez para Hinata e notou-lhe um estremecimento. Ela errou uma nota, mas continuou mesmo assim. Ninguém aparentou notar o pequeno deslize.
Entrou em seu quarto, fechou a porta e só então respirou. Sentiu seu estômago começar a voltar ao tamanho normal e todo o gelo em volta dele derreter aos poucos. Começou a desatar o nó do obi com alguma dificuldade, o tremor de suas mãos durante o dia todo fora algo que não conseguira controlar. Não esperava que tivesse sido notado, mas estava presente, incomodando-a. Já era noite e precisava comer alguma coisa, não o fazia desde o café da manhã, quando foi chamada as pressas até a mansão feudal e engolira qualquer coisa antes de sair. Tirou o quimono da okia, um azul dessa vez, com o desenho de cascatas e folhas nas águas de um lago grande, dobrou-o e guardou de volta na caixa. Vestiu o quimono habitual para ficar em casa que Hae-san lhe dera, o com as pétalas de cerejeira nas mangas. Retirou a maquiagem com calma para não machucar sua pele, já que tinha que esfregar com certa força para tirar toda a brancura das faces. Sobre o resto do corpo, tiraria mais tarde, com muito mais água.
Desceu as escadas dando a volta para não se intrometer no caminho de nenhuma gueixa que estaria trabalhando aquela noite. Hae-san lhe dissera, quando Hinata perguntou sobre trabalhar, que ela só iria fazê-lo quando Ren-sama ordenasse. Ele ainda não ordenara. A kunoichi Hyuuga suspeitava que o motivo era seu entretenimento particular para ele e seu convidado, Sasuke-san. O pensamento desse nome fez parte do gelo retornar ao estômago da morena. Porque todas as vezes que levantava a cabeça enquanto estava em companhia deles ele tinha que estar com seus olhos negros sobre ela? Qual era a curiosidade que ele tinha sobre ela? Essa pergunta ela não sabia responder e também não sabia se tinha coragem para perguntar. Provavelmente não tinha, Uchiha Sasuke era ainda um assunto obscuro para ela.
Deu a volta por fora sem passar pelo lago com a velha cerejeira em sua pequena ilha e antes mesmo de chegar à cozinha sentiu a quentura e o cheiro da comida que as cozinheiras talentosas da okia tinham preparado. Seu estômago se contorceu e roncou com pressa para que ela o satisfizesse. Abriu a porta e foi recebida com um coro anormalmente animado do seu nome. Ficou assustada com o que pudesse vir dali, mas as moças e senhoras sorriam-lhe, suspiravam, arrastavam-lhe para o interior da cozinha e para a sala de jantar apinhada.
- Hinata-chan, você tem que nos contar, é o assunto do dia! – disse uma delas, a que normalmente limpava seu quarto. Kamiya era seu nome. Os olhos castanhos dela brilhavam tão intensamente que a Hyuuga poderia ter confundido facilmente aquele brilho com lágrimas, mas seu sorriso maroto definia o contrário.
- Deve ter sido maravilhoso, não foi, Hinata? – disse outra, uma senhora de meia-idade que servia se cozinheira.
Ela estava perdida. Não sabia o que lhes responder, não sabia nem do que diabos aqueles mulheres todas estavam falando. Ela foi levada a se sentar e um prato de salmão cheirando maravilhosamente com arroz branco foi colocado a sua frente, assim como também uma fumegante xícara de chá verde. Seu estômago deu outro ronco, mas a comida foi puxada para longe dela.
As mulheres que serviam de criadas eram quase tão numerosas quanto às gueixas daquela okia e ficaram amigas de Hinata rapidamente. A moça não era exigente e mandona como as outras, nem possuía o mesmo gênio esnobe e mesquinho. Hinata arrumava seu próprio quarto e até dizia a Kamiya que ela mesma podia limpá-lo, mas a moça recusava. Comia o que lhe era posto na frente e sempre tinha palavras gentis para com todos, fora muito bem aceita entre elas, mas agora não estava entendendo qual o motivo de toda aquela euforia, até que encontrou os olhos esmeraldinos conhecidos no meio daquela confusão. Os olhos de Haruno Sakura ardiam, Hinata não soube definir bem o porquê, apenas se encolheu.
- QUIETAS! – o grito veio dela e foi obedecido pelas ocupantes da cozinha. Medo de Sakura ou de que o grito tenha sido ouvido na casa de chá e elas seriam castigadas? Não importava, a cozinha se tornara silenciosa – Deixem-na respirar e comer um pouco, depois façam o interrogatório.
O salmão, o arroz e o chá foram devolvidos a Hinata e ela começou a comer, também com certo receio de Sakura. Tinha que admitir que a maior porção do seu medo era destinada a Sakura, a menor ficava com Hae-san. Se aquelas mulheres soubessem quem era a garota dos cabelos rosados, também dividiram seus medos como Hinata.
- Elas estão ouriçadas assim, Hinata-chan, para saber se você ficou junto de Sasuke-san.
"Ah, compreendo" pensou Hinata lembrando-se das chamas nos olhos da nin-médica. Então era ciúme. Dela ou de todas aquelas mulheres?
- Isso, Hinata-chan! – exclamou Kamiya – Ele é tão bonito quanto estão dizendo? Eu o vi de relance outro dia, enquanto limpava seu quarto. Estava se lavando com a água do poço e, céus, eu fiquei com muito calor depois daquilo!
- Eu também o vi! – disse uma mais atrás – Estava andando com Ren-sama e eu estava voltando com as hortaliças para a okia. Ele tem os cabelos e os olhos tão escuros quanto a meia-noite.
- Conte, Hinata-chan, o que vocês fizeram? – a Hyuuga corou.
Porque ela tinha que ser submetida aquele tipo de martírio? Porque tinha que falar a elas sobre Sasuke com Sakura ali presente, prestes a explodir de ciúme? E tinha que falar bem, também, de um modo que aparentasse estar tão encantada quanto aquelas mulheres. Mas ela não estava, porque simplesmente não ficava reparando em Uchiha com os olhos de desejo que aquelas mulheres possuíam. Elas esperavam suas palavras, ela também.
- Na-não há nada para contar – disse com os olhos em seu chá, corada até a raiz dos cabelos – Fiquei acompanhando Sasuke-san e Ren-sama ao longo do dia, na-nada mais.
Sua xícara tremia, ela pensou que tivesse controlado isso enquanto ia para a cozinha, quando já não estava mais perto de Masaru Ren. O senhor feudal não estava mais perto, o tremor se devia a alguma outra coisa. Os burburinhos encheram a cozinha com facilidade, o nome de Sasuke era pronunciado muitas vezes e de muitas formas diferentes. Quando os olhos perolados se encontraram com os verdes, estes últimos demonstravam certo alívio.
- Será que Ren-sama pretende te dar de presente para Sasuke-san, Hinata-chan? – a voz de Kamiya se fez ouvir no silêncio súbito que tomou a sala. A moça sentiu um calafrio com aquela frase e o calor em seu rosto piorou. Levou a xícara de chá à boca para ter alguma coisa para fazer com suas mãos trêmulas.
A pergunta ficou no ar. Hyuuga Hinata fora sincera com aquelas mulheres ao dizer que não havia acontecido nada enquanto estava com o senhor feudal e seu convidado, pois não havia, mesmo que enquanto elas murmuravam coisas em volta dela na cozinha ouvira que algumas achavam que Hinata estava mentindo.
Depois do café da manhã, Ren-sama pediu que Hinata os acompanhasse em suas caminhadas e conversas, apenas. Respondia quando era perguntada e dava sua opinião quando solicitada. Tocou para eles também no almoço e de novo no jantar. Eles apenas a olhavam em certos momentos, quando estavam sentados desfrutando o chá ou enquanto ela andava e eles permaneciam parados, mas fora isso não houvera nada. Masaru a mandou de volta a okia assim que o jantar acabou. Ela fez uma reverência para cada um deles e se foi.
- Eu não me importaria se Ren-sama me quisesse dar aquele rapaz! – disse a cozinheira e colocou a cozinha as gargalhadas.
- Você tá muito velha pra ele, baa-chan.
- Baa-chan uma ova, Kamiya!
Sorrateiramente a Hyuuga terminou seu jantar e escapuliu da cozinha sem que as mulheres percebessem e as deixou continuarem a falar de Sasuke. Quando chegou lá fora encontrou Sakura com as costas apoiada em uma das vigas do corredor, olhando para fora. Não percebera quando a rósea saíra de lá.
- Todas sempre gostam do Sasuke-kun, não é, Hinata?
- Elas gostam da aparência dele, Sakura-chan.
- Você acha que elas gostariam menos dele se soubessem de seu passado?
"Sim" ela queria responder. As pessoas temiam mercenários, temiam pessoas perigosas. Era simplesmente da natureza humana, um instinto muito mais primitivo do que pensar, que se temesse o que causa medo. As mulheres dali pareciam ser ignorantes aos fatos que rondavam a reputação de Uchiha Sasuke, diferente de Masaru Ren. Mas ela não sabia que resposta a amiga estava esperando, então se manteve calada.
- Eu não acredito que ele gostaria de nenhuma delas, que só se interessam por seu rosto e corpo. Ele não gosta nem de mim, que conheço até o seu passado obscuro – ela sorriu de modo triste – Mas não posso evitar o ciúme, mesmo sabendo que é egoísmo.
- Você sente ciúme da parte de Sasuke-san que lhe pertence, Sakura-chan, e tem medo que alguém pode roubar isso de você. Ninguém pode, porém – Hinata tinha se aproximado de Sakura e lhe segurado a mão de forma gentil.
Ela sentia pela dor da kunoichi, sentia que não podia ser correspondida. Ela podia, de coração, compartilhar essa dor de Sakura, pois também passara por ela quando Naruto não a olhava. Depois que ele olhou e depois que eles não deram certo, a dor voltou. Foi difícil, muito difícil mesmo espantá-la, mas Hinata foi forte e venceu. Agora era só olhar para frente. Ela queria dizer aquilo a Sakura, só que sentia que aquele tipo de batalha cada um tinha que lutar sozinho, da mesma forma que tinham de fazê-lo para afastar a tristeza, a solidão, a amargura.
- Você sempre sabe o que dizer, Hinata.
Então, sem avisar, Sakura abraçou-a como agradecimento por lhe dar algum alívio para o coração. A luta contra seus sentimentos por Sasuke estava diminuindo, ela podia dizer, mas ainda estava acontecendo.
Naruto colocou o chá que trouxera para Sasuke como desculpa para ir até o quarto dele para conversarem na mesinha perto da janela e colocou mais uma tora no fogo. Ele não precisava agir como um criado quando o único presente era o Uchiha, mas o estava fazendo inconscientemente. E estava calado.
O moreno estava sentado à beirada da janela, a casa de chá como paisagem. As luzes de alguns quartos em cima estavam acesas, abaixo o som de música, risadas e conversas se propagava para cima e para os lados. Desde que o Uzumaki entrara desviara sua atenção para o loiro, já que ele não havia simplesmente entrado e começado a reclamar sobre alguma coisa. Quando Naruto se encontrava naquele estado Sasuke não conseguia evitar se preocupar um pouco e, mesmo seco e sem vida, perguntar:
- Qual é o problema, dobe? Apesar de seu silêncio ser um alívio, essa cara amarrada me incomoda.
- Eu não consigo entender a Sakura-chan, teme! – o rapaz explodiu e Sasuke se sentiu melhor. Naruto gritando era muito mais fácil de interpretar que Naruto quieto e introvertido – Uma hora ela diz que eu sou grosso, aí quando eu tento protegê-la ela me manda calar a boca, dattebayo!
Ele estava tão alterado que andava pelo quarto gesticulando muito e até se esquecera de evitar seu vício de linguagem. O Uchiha quis repreendê-lo, mas sua aflição o calou para aquele pequeno deslize. Naruto caiu na cama arrumada e o portador do Sharingan se sentiu um pouco culpado. Ele não tinha nenhuma culpa por Sakura, em momento algum, pois lhe deixara claro a situação milhares de vezes que com ela não queria nada e que aquela noite fora apenas aquilo, uma noite. A culpa vinha por parte de Naruto. Sentia-se culpado por Sakura olhar tanto para ele que parecia um cavalo com antolhos e não conseguir ver o que tinha bem ao lado, ou seja, Naruto. Quis enfiar Kusanagi em alguém para descontar a raiva, só não conseguia se decidir se nele mesmo ou em Sakura.
- O que é que você fez? – a pergunta súbita de Naruto o pegou de surpresa. Do que ele estava falando? Ele não precisou perguntar para Naruto adivinhar por seus olhos que ele não entendera – O que você fez para Sakura-chan se apaixonar por você, Sasuke?
- Eu não fiz nada – foi à resposta curta e seca.
- Droga! – ele voltou a deitar-se na cama – Todos aqueles homens nojentos olhando para ela...
Naruto falava sozinho e o melhor amigo sentado no batente da janela parecia não ouvir. Muito pelo contrário, os ouvidos de Sasuke estavam atentos. Muitos olhares para Sakura, o loiro dissera. De fato, pelo que ele observara, ali Sakura era uma das mulheres mais bonitas. Ainda não vira as gueixas, mas comparando-a aos padrões comuns, os homens deviam adorar. Tentava atender a aflição possessiva, o egoísmo viril dele quanto a ter seu objeto de desejo sob os olhares de todo um feudo. Podia entender, deu-se conta, o sentimento de ter seu objeto de desejo sob o olhar de um único homem que representava todo um feudo.
Balançou a cabeça, estarrecido com seus próprios pensamentos. Tentou entender o que Naruto via em Sakura. Um rosto bonito, curvas razoáveis, feminilidade? Não, Naruto era muito movido por suas emoções impulsivas para gostar de uma mulher por tanto tempo quanto ele vinha gostando de Sakura apenas por aqueles motivos. Precisava haver algo mais, algo que nem mesmo o Sharingan e o Byakugan juntos podiam ver. Sasuke queria ver, atiçara sua curiosidade. Não só aquilo, mas Hyuuga Hinata também. Aquilo que Ren havia dito sobre ela.
"Porque eu acredito que há mais nela", foi o que ele dissera. Mais nela. O que poderia haver de mais nela? Sasuke não a conhecia, nunca trocara nenhuma palavra com ela antes de deixar a Vila da Folha, não que se lembrasse, e depois que voltara foram apenas os cumprimentos quando, raramente, se cruzavam na rua. Aqueles dias de viagem até o feudo foi o maior tempo que passou, relativamente, junto dela.
As palavras de Ren o tinham deixado curioso, acenderam uma fagulha perigosa em sua personalidade. Uchiha Sasuke curioso podia ser tão perigoso quanto quando estava empenhado em fazer alguma coisa usando todas as suas habilidades de ninja e mercenário. Podia unir sua vontade de saciar sua curiosidade com a vontade e o empenho que estava depositando para fazer com que aquela missão fosse bem sucedida.
Uzumaki Naruto continuava deitado na cama, resmungando. Sasuke pensou que logo ele dormiria ali, não importava para ele. A neblina densa que ele se acostumara a ver descer sobre o feudo já estava presente quase o impedindo de ver as coisas muito além, mas com os seus olhos as coisas que ele não podia ver eram realmente muito limitadas. O som que vinha da casa de chá tinha diminuído e, fora alguns outros bares, o lugar estava escuro e silencioso.
- Se eu olho pra ela daquele jeito, ela me faz atravessar algumas paredes como punição, dattebayo – Naruto continuava falando, tinha se virado de bruços na cama.
Sasuke o olhou de soslaio e voltou sua atenção para fora. Agradeceu muito por Naruto ter resmungado naquele momento ou não teria prestado atenção justamente naquele lugar, numa das janelas da okia onde a luz estava apagada, mas por onde a silhueta esguia de Hinata se impulsionava para fora. As pernas dela passaram pela janela redonda rapidamente seguidas do resto do corpo e dos braços. Ela aterrissou no chão muito bem, as pernas flexionadas para amenizar o impacto.
A primogênita Hyuuga olhou para os dois lados, certificando-se de que não havia ninguém.
"Esqueceu de olhar pra cima", pensou Sasuke.
Viu a figura dela seguir rapidamente entre as ruelas do feudo, escolhendo sempre as mais escuras, apertadas e escondidas. O olhar do Uchiha pousou em Naruto na cama. Ele dormia, roncava muito levemente e murmurava sobre Sakura em seu sono. Sem hesitar, pulou a janela e aterrissou quase no mesmo lugar de Hinata. Começou a segui-la. Dentro dele a fagulha de curiosidade se espalhava por todo o seu corpo, partindo do umbigo e atingindo o resto. O sentimento de descobrir qualquer coisa sobre ela parecia mesmo como chamas que lhe queimavam. Não era doloroso nem ruim ou incômodo. Na verdade, era estranhamente prazeroso.
Olá!
Hei, até que esse não demorou, não é? Agora vamos começar com as partes mais Sasuke/Hinata, o que será que ele vai descobrir sobre ela? E o que será que o Ren quis dizer? Muitas perguntas, poucas respostas. Talvez no próximo capítulo. Tô morrendo de vontade de comer chocolate, mas não faço ideia do porque tô escrevendo isso aqui.
Obrigada a todos que deixaram reviews ou não, aqueles também que me disseram que leram pelo Orkut.
AGRADECIMENTOS:
Marcy Bolger, Hachi-chan2, Hana-Lis, Elara-chan, Lust Lotu's, Camila, Uchiha Luh, Amandy-san, zal-chann, Emy e Ariii.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)
