LEMBRANÇAS DE LUZ
Capítulo Cinco – Vinte Açoitadas em Você e em Mim
- Maldição! – gritou um dos homens depois de espirrar pela quarta vez – Que lugar frio!
Seus capangas nada disseram. O líder continuou andando depois de apertar um pouco mais a capa contra o corpo. Os guardas riram discretamente. Para eles, que já estavam acostumados, aquelas noites frias de inverno não era absolutamente um problema. Para aqueles sulistas, era. Mas eles eram convidados de Ren-sama, não podiam ter a liberdade de fazer piadas e brincadeiras, então mantinham silêncio.
A neblina de sempre se espalhava pelo feudo. O frio parecia estar junto com ela. Por causa do rio que passava na cidade as casas mais próximas a ele sempre eram mais afetadas pela friagem, por isso os moradores dali tinham que colocar mais lenha no fogareiro para se manterem aquecidos durante toda a noite. Ali não era raro casas pegarem fogo. Os homens de Masaru Ren andavam por entre a névoa completamente familiarizados com o lugar, já os estranhos muitas vezes se perdiam e acabavam pegos pelos guardas.
- Esse frio vai durar quanto tempo? – perguntou o líder para os guardas.
- Todo o tempo que passarem aqui. Talvez neve em alguns dias – respondeu um dos guardas.
- Merda! – o homem voltara a espirrar.
- Que bom que veio rápido, Chiren – Ren esperava por eles na escada de sua mansão. Tinha um sorriso no rosto e seus olhos aquosos brilhavam. Aproximou-se do homem que era o líder dos escoltados e fez-lhe uma reverência que foi retribuída.
- Estou a seu dispor, Ren-sama – respondeu o homem. Chiren tinha ombros largos e era um homem muito grande. Seus olhos escuros não tinham uma cor definida, uma estranha cicatriz em forma de pena marcava de sua garganta até o queixo – Mas detesto todo esse frio.
- Então vamos nos aquecer – Ren apontou para a casa, como um bom anfitrião – Entre, por favor.
O líder entrou e os seus homens foram conduzidos pelos guardas até a casa de chá. Eles poderiam desfrutar da companhia de algumas gueixas antes de irem para os alojamentos destinados a eles. Não eram muitos, apenas uma pequena escolta para a viajem de seu líder ao encontro de Masaru Ren.
- Vamos tomar chá, quero que me conte como vão as coisas.
- Perfeitamente, Ren-sama – o homem o seguia, mas ficou sério e suas sobrancelhas franziram-se de desagrado – Ren-sama, posso perguntar uma coisa?
- Claro, Chiren.
- É verdade que ele está aqui? Aquele Uchiha Sasuke está do seu lado?
- Sim, é verdade – Ren sorriu. Estava satisfeito pelos boatos estarem se espelhando. Gostaria muito de ver a cara do heroi da Vila Oculta da Folha, Uzumaki Naruto, quando soubesse que Uchiha Sasuke iria atacar a Vila que ele lutava para proteger – Ele já se retirou, amanhã você pode conhecê-lo.
- Ele é um demônio, Ren-sama! – alertou o homem.
- Ah, sim, realmente espero que seja.
"Onde que essa garota se enfiou?" pensou Sasuke pulando para outra árvore. Infelizmente, num momento de descuido, perdera Hinata de vista.
No chão a névoa cobria o solo e seus pés ficavam perdidos em meio a ela, por isso ele fora para cima, assim não teria perigo de não ver alguma armadilha. Não que fosse difícil enxergar qualquer coisa com olhos como os dele. Seguira Hinata para fora do feudo por pura curiosidade, tão intensa que se espalhava por seu corpo através de seu sangue que pareciam em chamas ao passar por suas veias.
O som da água corrente ficava cada vez mais forte e Sasuke imaginava estar chegando a alguma cascata do rio que passa pelo feudo de Masaru Ren. Pulou para mais um árvore e não notou o quimono dobrado abandonado entre suas raízes grossas, estava ocupado olhando para o lago onde a lua reluzia na água e na pele de Hinata. Os olhos de Sasuke não conseguiam se desviar dela, de seus movimentos parecidos com uma dança que o Uchiha não sabia definir qual era.
"O que ela está fazendo?" pensava ele, mas a pergunta foi morrendo em sua mente. Daquela distância e com a pouca iluminação que a uma lua crescente proporcionava Sasuke só conseguia ver os contornos do corpo dela e naquele momento esquecera-se completamente que o Sharingan existia e ele o possuía.
Hinata chegara à clareira como todas as noites. Retirou o quimono, dobrou-o e colocou sob a árvore depois de ver com o Byakugan se não tinha ninguém por perto. Não vira Sasuke por um triz, ele tinha se desviado um pouco do caminho quando a perdera de vista. Com cuidado retirou a bandagem de cima do braço esquerdo deixando a pele à mostra. Respirou fundo sentindo a boca de seu estômago protestar quanto a entrar na água com aquele frio, mas Hinata ignorou seu corpo e prosseguiu um passo depois do outro para o centro do lago. A água fria a fez se arrepiar inteira, então respirou fundo de novo e colocou-se em posição começando a liberar uma pequena quantidade de chakra e iniciando os movimentos do seu treinamento.
Sasuke podia sentir a emanação de chakra que vinha dela. Era pouca, mas o suficiente para alguém que estava perto, assim como ele, sentir. Desceu da árvore para o chão pousando bem ao lado das roupas de Hinata. Concentrada como estava ela não tinha percebido sua presença. Sentia a curiosidade em suas veias quente como estava começar a se aquecer anda mais. Mas ele não podia ignorar a situação, não podia ignorar a marca no braço esquerdo da Hyuuga. Tinha que se mostrar e tirar algumas satisfações com a moça e o faria se seu corpo se movesse. O seu par ônix observava os movimentos dela sem se desviarem e, por mais que tentasse, não conseguia prever o que ela faria em seguida depois de um giro. Sua imaginação entrou em ação e começou a passar imagens que ele não conseguia – e nem sabia se queria – impedir. Quando uma pulsação fraca começou entre suas pernas ele se mexeu.
Saiu de perto da árvore, das sombras, e colocou-se visível. Cruzou os braços e com o movimentou pareceu chamar a atenção de Hinata para alguma coisa que estava na margem. A morena parou e focou seus olhos nos olhos de Sasuke. Sentiu-se gelar, mesmo com o corpo quente e começando a ficar coberto de suor pelos movimentos incessantes. Arfava, seu corpo paralisou ao ver Sasuke parado ali, os olhos dele não saiam dos dela e ela acreditava ser isto que a impedia de se mexer. Os braços caíram dos lados de seu corpo, suas pernas começaram a tremer levemente. Estava nua no meio de um lago tendo os olhos de Uchiha Sasuke pregados nela, seu segredo revelado, mas não era isso que mais a deixava surpresa e meio assustada. Era aquele desejo que via no brilho dos ônix, um desejo que por algum motivo não estava incomodada dele sentir por ela.
Com a voz rouca Sasuke perguntou:
- Você tem alguma coisa para me contar, Hinata?
"O que aquela baratinha está fazendo no meio da floresta?" era a pergunta que Tsubaki estava se fazendo enquanto entrava na floresta atrás de Hinata. Vira-a saindo da okia por acaso, mas não perderia a oportunidade de arruinar a "nova favorita de Ren-sama", como ela estava sendo chamada.
Antes, há uns três anos, Tsubaki era a favorita de Ren-sama, era ela quem ele gostava de ver dançar, de ter sua companhia fora dos horários de funcionamento da okia, era com ela que gostava de se deitar para acariciar seu corpo, para fazer coisas de homem e mulher. Até que ele enjoou, até que disse que ela tinha perdido a preciosidade que ele apreciava e que podia continuar sendo uma gueixa como as outras, se quisesse. Ela ficara no feudo porque admirava Ren-sama e tentava, a todo o tempo, reconquistar sua confiança, sua apreciação. Agora aquela baratinha tinha chamado toda a atenção de Ren-sama para si mesma deixando Tsubaki sem nada, sem nem mesmo um olhar de esguelha.
Quando avistou o lago ficou escondida atrás de um arbusto. Lá no meio Hinata estava em pé executando uma espécie de dança. Tsubaki já vira ninjas ficarem sobre a água sem afundarem, então o que Hinata fazia não lhe era tão estranho. De repente ela viu alguém sair das sombras na margem do rio, alguns metros afastado dela. Encolheu-se ainda mais e reconheceu quem era. Uchiha Sasuke, o mercenário possuidor do Sharingan e convidado de Ren-sama. Ele ficou olhando para Hinata até que ela parou e também o encarou. Ele disse alguma coisa, mas Tsubaki não ouviu. Abriu um sorriso malicioso e maligno que somente se alargou quando o Uchiha descruzou os braços e pisou na água começando a andar em direção a Hinata.
Ele começou a andar na direção da morena, seus olhos não desviaram dos dela, não queria deixá-la ainda mais constrangida. Não adiantava, porém, ele já havia notado os seios fartos, a cintura fina que terminava numa barriga lisinha e quadris proporcionais ao busto, as pernas não se juntavam no meio das virilhas indicando coxas finas em que ele adoraria passar as mãos, assim como ter seus seios na boca. Enquanto andava tentou ao máximo não pensar em possuí-la, mas as imagens vinham sem conseguir detê-las. Conseguia ver, apesar da fraca luz da lua, o rubor intenso das maçãs de seu rosto. Estava a centímetros dela quando suas pernas resolveram parar. Hinata não tinha feito nenhum movimento para esconder sua nudez, pois não tinha controle sobre seus membros. Parecia que seus braços haviam virado gelatina, suas pernas tremiam como bambu exposto a uma ventania e uma dor leve que não achou nem um pouco ruim latejava em sua intimidade.
Quando Sasuke se moveu deixou o quimono branco que vestia escorregar por seus ombros. O vento balançou os cabelos negros de ambos quando passou fazendo Hinata se arrepiar de novo, mas continuar imóvel observando os movimentos do Uchiha de retirar o quimono de dentro da calça e colocar sobre seus ombros pequenos, envolvendo-a. O tecido era leve, quente e tinha o cheiro amadeirado dele – cheiro de madeira de dojo com maçã verde -, descia até suas coxas. Hinata levantou os braços e agarrou a abertura do quimono pressionando uma por cima da outra para esconder seu corpo. Desviou os olhos dos dele para olhar seus pés, envergonhada.
A mão de Sasuke subiu para seu cabelo e sua intimidade latejou com mais força. Queria que ele a tocasse, mais que qualquer um antes, mais que Naruto, queria que Sasuke a tocasse, queria os olhos dele brilhando de desejo para si. E eles estavam. Quando a mão de Sasuke passou de seu cabelo para seu rosto levantou de novo a cabeça e encontrou os olhos ônix. Uma nuvenzinha de fumaça saia dos lábios entreabertos do Uchiha. Curiosidade, Sasuke insistia em dizer para si mesmo enquanto seus dedos percorriam a pele dela. Não podia explicar os choques deliciosos que percorriam seus dedos, seu braço e espalhavam-se por seu corpo, mas tinha que achar alguma desculpa para isso, para o desejo que sentiu ao vê-la, para o ciúme quase doentio que sentiu ao pensar que poderia ter sido outra pessoa a vê-la naquele estado, a inveja que sentiu de Naruto por um dia tê-la tocado e desperdiçado.
Seus dedos deslizaram pelo pescoço dela levando alguns fios de cabelo no percurso. Infiltrou a mão pelo quimono recebendo as cargas elétricas enquanto descia pelo ombro de Hinata até o seu braço esquerdo. Agarrou com a mão inteira e deixou a pequena tatuagem negra exposta.
- Porque não nos disse que é uma ninja ANBU, Hinata? – perguntou Sasuke, a voz rouca saia baixa como a voz de adagas de gelo que usava para ameaçar.
- N-não é... – ela engoliu para limpar a garganta e mordeu o lábio inferior antes de continuar – Permitido.
- Se outra pessoa tivesse te visto poderia colocar a missão em risco – ele balbuciou, os olhos se estreitando conforme os seus lábios finos se aproximavam mais dela. Tinha que levantar a cabeça para ver seus olhos e a fumaça que saia de sua boca batia quente em seu queixo - Quem mais sabe sobre essa sua patente?
- Apenas... Tsunade-sama e poucos outros ANBUs.
- Você deixou alguém ver essa tatuagem?
- Não.
- Tem certeza?
- Eu colo um adesivo de camuflagem por cima dela, mas ele sai na água, então tenho usado bandagens para cobri-la – somente neste instante que os olhos de Hinata se desviaram um pouco dos olhos dele para olhar de esguelha para o montinho de suas roupas sob as raízes da árvore, mas logo voltou para o rosto dele agora tão próximo ao seu que podia notar os poros de Sasuke – Por favor, Sasuke-san, eu peço que não diga nada sobre mim para mais ninguém.
Ele acenou com a cabeça e olhou de novo seu braço.
- Isso explica sua ficha de missões.
- Depois de me tornar uma kunoichi da ANBU, as missões são arquivadas em outro lugar onde ninguém pode encontrar a menos que saiba onde procurar – ela respondeu a pergunta que ele não fez.
Ele ficou olhando para ela, para os seus lábios se movendo, para ser exato. Curioso. De certa forma podia entender a fascinação que Ren tinha demonstrado por Hinata. Ela era uma pessoa cheia de surpresas, coisas que jamais poderia ter imaginado. Sorriu por dentro, porque as pessoas ainda achavam que Naruto era um ninja imprevisível.
- Como é possível? – ela disse, de cabeça baixa. O seu braço ainda era segurado por Sasuke quando voltou a olhar para seus olhos. Suas pérolas estavam mescladas com sentimentos de desapontamento, vergonha e zanga. Sasuke ficou esperando-a continuar sem entender. Ela soltou seu braço das mãos dele e se afastou dois passos com o quimono ainda caído deixando seus ombros expostos – "Como é possível que eu tenha me tornado uma ANBU?", é isso que está pensando.
- Não.
Ela olhou-o por algum tempo muito profundamente. Mentira ou dissimulação foi a última coisa que encontrou na fala do Uchiha.
- Eu não tenho o direito que julgar você, da mesma forma como as pessoas não têm o direito de me julgar.
"Traidor" foi o que Hinata pensou "É assim que as pessoas o chamam pelas costas".
Mesmo tendo voltado, se redimido e recebido o perdão da Hokage, as pessoas não eram tão facilmente coagidas. Sasuke havia fugido da Vila, se aliado a um traidor procurado e a uma organização mercenária, além de muitos outros crimes. É difícil para as pessoas voltarem a acreditar em alguém com esse passado.
- Se vista e volte para o feudo – ele disse e deu-lhe as costas. Antes que pudesse começar a andar a mão de Hinata alcançou seu ombro. Mais cargas elétricas, mais sensação de fogo nas veias.
- Obrigada – ela disse, contudo Sasuke não viu seu sorriso.
- Porque está me agradecendo? – sua pergunta não havia sentido, pois já sabia a resposta, apenas queria ouvir aquilo dos lábios dela.
- Também acredito em você, Sasuke – sem sufixos de respeito ou de carinho, sem adjetivos encorajadores e palavras efêmeras que as pessoas acreditavam que ele queria ouvir.
O que Hinata dizia era apenas a verdade de ambos que ela tivera a coragem de verbalizar, enquanto ele apenas disse:
- Certifique-se realmente que não haja ninguém por perto enquanto estiver treinando - era aquilo que queria dizer? Não, mas não conseguiria dizer outra coisa se tentasse. Não iria dizer palavras doces e ternas, nem rudes e cortantes. Queria dizer-lhe a mesma verdade que ela lhe dissera, mas não sabia como fazê-lo direito.
O Uchiha começou a se afastar com dificuldade assim que ela largou seu ombro – seu desejo era voltar e tê-la - e sumiu por entre a neblina e as árvores de volta para o feudo. Ficou mirando suas costas até se lembrar que estava envolvida com o quimono dele. Corou mais naquele momento do que durante todo o episódio. Sasuke a havia visto nua, a havia coberto e, ela sabia, ela percebera, ele a havia desejado. Com esse pensamento quis sorrir, mas não o fez. Não era certo que ela se sentisse feliz por isso. Sakura. Havia Sakura que o amava, que dizia amá-lo e não podia trair a confiança que a rósea depositava em si. E o que era ainda pior que a fez sentir-me mal, suja, com a bile subindo a garganta é que ela havia gostado de ter os olhos dele sobre si, porque – talvez fosse obra da sua imaginação, provavelmente era – notara outra luminosidade no semblante dele.
Deixou esses pensamentos de lado, devia estar ficando louca e delirando. Podia ter pegado uma gripe ao insistir em treinar mesmo com o frio intenso que se fazia nas noites do feudo de Masaru Ren. Uchiha Sasuke era o tipo de homem que não olharia para o seu tipo de mulher, porque até aquela noite ele também, como os outros, acreditava que ela não passava de uma kunoichi fraca. Uma tatuagem o fizera mudar de idéia e a última coisa que queria era ter que ficar mostrando seu braço esquerdo para as pessoas acreditarem que ela podia fazer as coisas sozinha. Passou a bandagem pelo braço, vestiu suas roupas e dobrou o quimono de Sasuke, devolveria a ele assim que possível. Alisou o pequeno símbolo do Clã Uchiha nas costas e, sem conseguir evitar, levou o tecido a face sentindo seu cheiro junto com o dele ali. Poderia lavá-lo, mas não haveria como fazê-lo e evitar perguntas. Ignorou toda a situação e resolveu esquecer o que se passara ali.
Já era quase de manhã. A neblina ia embora conforme o sol se levantada por trás das casas do feudo. O moreno Uchiha estava sentado na janela de seu quarto na mansão do senhor feudal, não conseguira dormir aquela noite. Um motivo era Naruto estar roncando em sua cama, o outro era seus pensamentos que não conseguia, de jeito algum, desviar de Hinata.
De um jeito tão repentino aquela garota conseguira impressioná-lo. Uma ninja forte como ela que não era reconhecida, que não queria ser reconhecida, absolutamente, ou teria ficado feliz e contado ao menos para seus familiares que era uma ninja da ANBU. Conhecia a fama de Hyuuga Hiashi e o que fazia sua filha mais velha passar. Ela poderia ter recebido as boas graças e o orgulho do pai, mas não o fizera. E sabia por quê. Ela não fora nunca muito reconhecida por ser apenas ela, então porque deveria ser reconhecida depois de se tornar uma ANBU?
"Alguém para acreditar nela pelo que é" pensou Sasuke. Era exatamente o pensamento que ele tinha, mas o Uchiha também tinha outra coisa.
Olhou para a cama onde o loiro dormia, a peruca castanha meio torta em seu sono agitado. Sorriu de canto e fechou os olhos. Aquele ali – e Sakura e Kakashi – nunca tinham desistido de acreditar nele. Com Hinata as coisas pareciam ser um pouco diferentes.
"É bom tomar conta dela, Naruto!" foram às palavras de Kiba e mesmo com o que Shino retrucou a ele, parecia que o Aburame também não estava totalmente convencido do que dizia "O melhor jeito de protegê-la é confiar nela". Não, as palavras dele também tinham preocupação com ela não conseguir sozinha.
O mais irônico é que antes de qualquer um de seus companheiros, a pessoa que tinha confiado nela cegamente, sem nem a conhecer direito, fora o inimigo.
"Porque eu acredito que há mais nela do que uma queda pode mostrar, Sasuke-san".
As palavras de Masaru Ren não poderiam ser mais verdadeiras e ele havia sido cético quanto a elas. Como fora estúpido!
Uma batida na porta o impediu de bater com sua cabeça na parede como planejava fazer e desceu do beiral da janela. Pegou um quimono negro que estava por ali e o vestiu de improviso.
- Sasuke-san, Ren-sama o espera para o café da manhã – e, de novo, quando ele abriu a porta só teve tempo de ver a sombra se afastando na esquina do corredor.
Andou pelo labirinto da mansão até encontrar o salão principal. Ren e um homem que não conhecia estavam conversando por ali, mas pararam quando ele entrou e se aproximou. Ren deu um sorriso e serviu de perfeito anfitrião:
- Sasuke-san, deixe-me apresentá-lo Chiren, um dos meus aliados – disse e se voltou para o homem – Chiren, este é Uchiha Sasuke-san.
- Uchiha Sasuke, o Vingador do Clã Uchiha – Chiren sorria de canto, meio desdenhoso. O olhar de Sasuke não se abalou nem um cílio – Ouvi muito sobre você.
- E eu nunca ouvi nada sobre você – Sasuke respondeu para ver os punhos do homem se apertar numa raiva mal contida. Jurava poder ter ouvido seus dentes rangerem.
- Vamos para o café da manhã – mas uma criada surgiu correndo pelo corredor – Mizuno, o que aconteceu?
- Ren-sama, por favor, venha rápido! – ela exclamou – Tsubaki-san está acusando Hinata-san de ter se deixado ver por um homem!
Naquele momento todo o interior de Sasuke pareceu se desfazer.
Sonhou vários sonhos confusos a noite toda em que em muitos deles havia Sasuke ou alguém muito parecido com ele. Um ser parecido com Sasuke que a tocava como ninguém jamais havia feito. Agora escutava passos e vozes pelos corredores. Abriu os olhos e todos os sonhos de que se lembrava pareceram ir embora para um lugar de sua mente que não conseguia alcançar consciente. Sentou-se, arrumou seu futón e suas roupas. Pegou o quimono de Sasuke e o escondeu com cuidado em uma taboa solta do teto perto da janela. Teria que devolvê-lo em outro momento. Quando estava prestes a abrir a porta e ir tomar seu café da manhã, ela se escancarou. Hinata se assustou ao ver Hae-san com um olhar tão terrível, atrás dela estava Tsubaki-san, uma das gueixas da okia e, mais afastada, vinha Sakura. Ela olhou confusa para todos os rostos ali e viu mais e mais moças colocarem os pescoços para fora das portas se seus quartos para observarem a cena.
- Hinata, venha comigo – ordenou Hae puxando-a pelo braço, apertando-o a ponto de machucar.
- Qu-Qual é o problema, Hae-san? – a morena perguntou meio aflita.
- Quieta! – rosnou a mulher e continuou puxando-a até chegaram ao pátio com a cerejeira retorcida. A okaa-san tacou Hinata em uma faixa mais larga de terra e a moça caiu sobre as pernas, as mãos se atolando na terra – Quero que me diga a verdade, garota, não ouse mentir!
- O q-que...?
- Você se encontrou com um homem ontem à noite? – Hinata arregalou os olhos, Hae-san e seus olhos de mosca a inquiriam com força – Responda!
Ela não sabia o que fazer. Apertou a terra fofa que estava sob seus dedos e sentiu-se sozinha e fraca, sem chakra, sem Byakugan, no meio de um vazio que se fechava sobre ela como uma jaula de vidro. Ali, através do vidro, ela viu os olhos de Sakura e também a face de Tsubaki, risonha, atrás dos olhos de mosca de Hae-san. Imediatamente ela soube quem a tinha visto.
- Responda, garota! – gritou Hae com a raiva emanando dela.
- Hae – foi a voz ouvida imperiosa impondo-se sobre o grito da matriarca da okia que a fez empalidecer e virar-se – O que está acontecendo?
- Ren-sama – balbuciou a mulher encarando os aquosos olhos verdes do senhor feudal ladeado por um homem que Hinata não conhecia e Sasuke. Ele tinha os olhos duros, mas que não saiam de cima dela – Tsubaki diz que viu Hinata com um homem.
- Eu a vi no lago, Ren-sama! – Tsubaki se adiantou para ele – Eu a vi nua e ele chegou até a tocá-la. Ficou olhando para o seu corpo como um lobo faminto e ela não fez nada!
Os olhos do senhor feudal estudaram a gueixa com cuidado tentando encontrar mentira em suas palavras, mas isso não aconteceu. Ren olhou para Hinata e depois para outra gueixa entre tantas delas e empregadas que tinham se reunido por ali para assistir ao que aconteceria a moça.
- Kazehime, venha aqui – chamou o senhor feudal e uma gueixa pequena, razoavelmente jovem, aproximou-se. Os cabelos azulados dela e os olhos da mesma cor tinham fascinado Masaru – Você não trabalhou ontem à noite, viu Hinata?
- Não, Ren-sama, eu só a vi entrar no quarto e apagar a chama, achei que estivesse dormindo.
- Não pergunte a ela, Ren-sama, Kazehime não sabe de nada! – Tsubaki se embrenhou por meio as gueixas e trouxe uma loira sendo puxada pelo braço, os cabelos presos se desfazendo com o protesto de não ir – Pergunte a Raika, ela estava comigo e também viu ela indo pelo beco.
- É verdade, Raika? – Masaru foi direto.
- Eu... – Raika titubeou e arriscou um olhar de esguelha para Hinata caída no chão – Eu estava com Tsubaki e a vi saindo, mas não sabia para onde ela ia, então Tsubaki foi atrás, mas eu não, eu fiquei na okia.
- E eu a vi com um homem, Ren-sama!
- Que homem?
Tsubaki pareceu engolir sua língua com aquela pergunta. Era fácil para ela acusar Hinata de estar com um homem, mas isso a dizer que esse homem era Uchiha Sasuke, um dos convidados de Ren, já era ousadia demais. Gaguejou por um momento antes de responder evasivamente que não vira seu rosto e nem ouviu o que eles tinham tido.
Quando Masaru desceu do corredor de madeira e aproximou-se da Hyuuga no pedaço de terra em que ela estava caída Sasuke reprimiu seu impulso de dar alguns passos à frente para impedi-lo de pegar o rosto fino da moça entre suas mãos e fazê-la olhar para ele, dentro e bem fundo de seus olhos aquosos em que ele nunca confiou. Sabia que alguma coisa estranha rondava aquele homem, não é nenhum idiota ou incapaz que vira de uma hora para a outra e lança pequenos boatos sobre atacar a Vila da Folha, o maior dos Países Shinobi.
- Isso é verdade, Hinata? – sua voz era mansa enquanto se dirigia a moça, era a mesa voz macia que usava para persuadir – Se você mentir eu vou saber.
Os olhos perolados queriam mirar os ônix, queria dizer para ele apenas ficar quieto, pois ela sabia o que aconteceria no momento em que dissesse a verdade. As punições foram parte dos seus ensinamentos de gueixa.
- Sim, Ren-sama – ela respondeu, por fim – Sa-sai do feudo ontem a noite para ir até o lago e e-esse homem me viu lá.
- Quem era esse homem?
- Não o c-conheço, não deve ser daqui.
- O que vocês fizeram? – Hinata o encarou, horrorizada, e conseguiu ver Sasuke atrás dele. Mandou-lhe um pensamento para que ficasse parado, para que nada fizesse, mas realmente duvidava que Sasuke tentasse qualquer coisa em prol dela ali que arruinasse a missão – O que fizeram, Hinata? – ele repetiu impaciente.
- Na-nada, Ren-sama, ele só segurou meu braço e me disse p-para ir com ele, mas quando eu lhe disse seu nome ele foi embora – podia mentir um pouco, percebera que Tsubaki não arriscaria dizer que Sasuke lhe dera o quimono para se cobrir, já que ele tinha o símbolo do Clã Uchiha nas costas a qual nem a gueixa podia ignorar.
- Tsubaki?
- Sim, Ren-sama, eu os vi conversando e depois ele foi embora.
Masaru deu as costas a Hinata e voltou para o tablado de madeira do corredor ladeado por Chiren e Sasuke.
- Uma pena, realmente bonita essa garota, Ren-sama – desdenhou o homem recém-chegado. Sasuke lançou-lhe um olhar de canto que o homem não percebeu, mas havia um brilho rubro que teria sido fatal se Chiren o tivesse encarado de volta.
- Hae, acoite Hinata vinte vezes com a varinha de bambu – foi à ordem de Ren.
As gueixas começaram um burburinho, as empregadas ficaram preocupadas e Sasuke viu o movimento da nin-médica do outro lado para se aproximar, as sobrancelhas rosadas apertadas em preocupação e espanto. Ele fez um sinal com a cabeça e ela se manteve no lugar. Naquele momento o Uchiha agradeceu por Naruto ter o sono pesado e não estar ali, ao loiro seria difícil segurar perante aquilo. A si mesmo estava sendo difícil segurar por saber que era o responsável, mas não poder colocar a cara a tapa para não estragar a missão e o destino da Vila Oculta da Folha.
Ele havia notado o olhar de Hinata para ele. Não era de súplica, não era de alguém que pedia misericórdia ou para ser salva, era um olhar para que não interferisse. Ela sabia o que iria acontecer antes de Ren falar e estava tentando alertar o portador do Sharingan, mas Sasuke só se deu conta do que ela queria dizer quando o senhor feudal anunciou o castigo.
Chiren estava se virando para ir embora enquanto Hae pegava uma comprida vara de bambu e descia para a terra, Hinata tinha os joelhos juntos e a cabeça quase se encostava ao chão. Água foi jogada em suas costas fazendo o quimono grudar ao corpo.
- Não – chamou Ren – Vamos ficar e ver isso.
Apanhar somente não é o castigo, mas saber que há pessoas envolta ouvindo seus gritos e sua humilhação é que tornam o show emocionante. A Hyuuga só se lembrava de um momento de tamanha impotência: quando fora ferida por Neji frente à Naruto. O loiro não estava ali para encorajá-la e ela achou melhor assim, ele não conseguiria ficar parado só assistindo, mas Sasuke estava e ela podia sentir claramente os olhos dele em si. Ele iria fazer mais que olhar, ele iria pegar cada golpe que ela receberia e aplicaria em si mesmo.
E o pensamento de Hinata não podia estar mais certo. O Uchiha não teria suportado ir embora, não poderia abandoná-la. Quando Hae levantou a vara e ela zuniu de encontro às costas de Hinata ele também sentiu. O grito que ela não soltou para as pessoas ecoou em sua cabeça. Ele queria trocar de lugar com ela, ele queria poder pegá-la e tirá-la dali, correr para longe sem se importar com a missão. O moreno assistiu a Hinata suportar sem gritar e sem abrir os olhos a todos os vinte golpes e ele sentiu-os ampliados em sua própria pele. Poderia jurar que se tirasse o quimono veria os vergões vermelhos na pele muito branca, tanto do corpo de Hinata quanto no seu próprio.
- Menina burra! – gritou Hae, ofegante com os golpes. Subiu de novo para o corredor de madeira e deixou Hinata na terra. Sem conseguir se conter, Sakura avançou para Hinata e chamou seu nome várias vezes, mas a Hyuuga ficou na posição de cócoras, tremia um pouco, mas não se movia.
- Eu tenho uma casa de chá para gueixas, Hinata, não para prostitutas – Masaru cuspiu a palavra nela e Sasuke sentiu mais dor por aquilo do que todas as açoitadas. Se ele dissesse mais alguma coisa não tinha dúvidas que mandaria aquela missão para o inferno e resolveria aquilo naquele momento mesmo ao matar Masaru Ren com suas mãos.
De onde vinha toda aquela revolta? Não sabia explicar, mas mais que qualquer outra raiva que sentia só se comparava ao tempo que queria matar seu irmão por vingança. Sentia-se responsável por Hinata, mais que isso, era aquela sensação de carga elétrica e fogo nas veias que ela despertava e a voz dela que queria ouvir de novo com toda a liberdade que ouvira na noite passada quando ela dissera que acreditava nele.
"Acredito em você" o pensamento saltou em sua cabeça, em frente a seus olhos, e ficou repetindo mais vezes do que o Mangekyou Sharingan poderia fazer. Queria dizer a ela, subitamente. Precisava dizer.
- Você fez a coisa certa, Tsubaki – Ren disse e os olhos negros do Uchiha fixaram-se nela. Notou como quando a moça começou a tremer, morrendo de medo. Ren virou-se e chamou-os – Por favor, Chiren, Sasuke-san, vamos tomar nosso café da manhã.
- Estou morto de fome depois desse espetáculo – Chiren riu e seguiu Ren.
O shinobi virou-se por último depois de lançar um olhar para Sakura que ela entenderia. Para a gueixa o seu olhar foi muito mais gélido que o olhar de adaga, algo impossível de descrever. Junto com Masaru Ren ele tinha certeza que mataria aquela mulher. Quando ele passou por ela, Tsubaki desabou sobre os joelhos e teve de ser socorrida por Raika.
- Eu vou matar ele! Não importa o que Tsunade-obaa-chan disse, eu vou matar ele! – vociferava Naruto, já ao crepúsculo, andando de um lado para o outro do quarto de Sasuke, furioso por acabar de saber o que tinha acontecido com Hinata – Porque você não fez alguma coisa, teme?
- Você acha que eu não quis fazer, Naruto? – Sasuke se levantou da janela tão rápido que Naruto se assustou com a reação do amigo – Eu queria ter quebrado o pescoço de Masaru Ren naquele momento.
A voz dele estava baixa, mas não para ser discreto, porque o ódio não o permitia levantá-la. Naruto se calou. Fora Sakura quem contou a ele sobre o que tinha acontecido a Hinata e ela teve que segurá-lo bem para que não saísse correndo a procura do idiota do senhor feudal para acertar-lhe a cara. Ela contou que Hinata dissera que mandara inúmeros olhares para Sasuke não agir e que foi bom Naruto não estar presente, a qual o loiro se indignou, mas Sakura apresentou-lhe a lógica. Impulsividade não seria a resposta.
Hinata não contou quem era o homem e Sakura repassou a mentira que era um estranho. Sasuke, porém, contou a verdade para o amigo. Ele a seguira, dissera, para saber o que ela fazia, se estava colocando em risco a missão, e ele mesmo o fizera. Pior, colocara a vida de Hinata em risco. A punição podia ter sido a morte.
- Você só estava tentando agir como capitão, Sasuke.
- Que tipo de capitão tenta proteger seus soldados os colocando em perigo maior? – ele rosnou.
- Todos os capitães se perguntam alguma vez se são bons capitães, mas ás vezes não dá pra salvar todos os soldados, dattebayo – Naruto olhou para ele, bem nos olhos, e sorria ao completar a frase – Mas o que importa é dar tudo de si para fazer o melhor!
E Sasuke ainda ficava se perguntando que Tsunade estava esperando para passar o chapéu de Hokage para Naruto.
- Naruto – o loiro tinha se sentado, a crise de raiva, melhorado – Você ama Sakura?
- Ah, porque é que você tá me perguntando isso tão de repente, dattebayo? – ele balbuciou, corado até a alma.
- Porque não diz a ela?
- Eu acho que você sabe bem o porquê.
- Você devia dizer a ela, assim Sakura me esqueceria.
- Não seria tão fácil depois de vocês dormirem juntos.
Sasuke gelou e encarou os olhos tristonhos de Naruto sentado na cama.
- Ela chegou pra mim toda sorridente no dia seguinte, somos os melhores amigos dela, pra quem mais ela contaria? Não pra Ino, seria contar vantagem, apesar de que aquela lá parece bem feliz com o Shino agora – Naruto levantou-se e colocou as mãos atrás da cabeça se colocando ao lado de Sasuke na janela – E depois, quando você disse que não passava de uma noite, quem enxugou as lágrimas dela?
- Desculpe – foi o que Sasuke disse, depois de um longo silêncio. Não se desculpava por Sakura, por ela ter criado falsas ilusões, mas por ferir seu melhor amigo. Era muito fácil agora dizer que se sentia pior que escória e quem nem cem açoitadas poderiam redimi-lo.
Naruto negou com a cabeça, um sorriso no canto da boca.
"Acho que eu ter namorado a Hinata já foi castigo suficiente, só que você ainda não percebeu isso, Sasuke" pensou o loiro.
- Esquece, dattebayo – Naruto ergueu o punho fechado – Eu não te trouxe de volta pra perder sua amizade por causa disso, teme.
- É por causa desse tipo de coisa que as pessoas da Vila acham que a gente é gay – respondeu o Uchiha tocando com o punho fechado o de Naruto.
O loiro deu de ombros voltando os braços para trás da cabeça.
- Tudo bem, desde que eu fiquei atrás.
- Vai sonhando, dobe.
Olá!
Uaah, desculpem a demora com esse capítulo, eu tava viajando com meus pais e é super desconfortável escrever na presença constante deles. Especialmente essa cena de nudez, espero que vocês tenham gostado. Esse capítulo foi feito com muito carinho, leiam com carinho também.
Obrigada a todas as reviews, algumas pessoas novas apareceram, e pelos alerts e favoritações!
AGRADECIMENTOS:
Hachi-chan 2, Camila, Bela F., Marcy Bolger, Hana-Lis, Emy, gesi, Camis, Ariii, Lust Lotu's, Kinha Oliver, FranHyuuga, Keli-chan, PessoaSemIdentificação o.o e Amandy-san.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)
