LEMBRANÇAS DE LUZ

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Capítulo Seis – A Fagulha que Atiça a Chama

- Sentimentos estranhos estão tomando conta de mim – ele sussurrou. A voz rouca, difícil de falar. Tinha os olhos fechados e somente sentia seu cheiro doce, mas não enjoativo. O corpo pressionado ao seu respondia também e ele já começava a sentir o que acontecia consigo quando aquela chama corria por suas veias – Eu deveria tirar você da minha cabeça, mas não quero.

- Sasuke... – a dificuldade de falar era mútua.

Suas mãos procuravam avidamente o obi para desamarrá-lo, mas ele não sabia o que fazer, estava meio perdido entre as camadas de tecido. Queria acariciá-la, toca-la inteira com sua pele, por todas as partes. As mãos pequeninas puxavam o seu quimono para baixo, a parte branca jazia no chão. O penteado já fora desfeito, os enfeites estavam espalhados pelo tatame. Uma de suas mãos delineou o pescoço ainda mais alvo por causa do pó de arroz, fora aquelas duas pontas em sua nuca. O batom carmim de seus lábios já estava espalhado pelo contorno de ambas as bocas.

Então Sasuke parou e ela também. Ofegantes ao extremo, com os corpos juntos, o quimono parcialmente tirado, uma confusão de pernas entrelaçadas e cabelos grudando por rosto e ombros, ambos excitados querendo ir até o fim. Ele a apertou com força contra si olhando seus olhos claros. Ali brilhava desejo, brilhava luxúria e brilhava entendimento e compressão que ele não sabia por que estavam ali, encarando-o e desafiando-o. Tinha certeza que em seus olhos, além de desejo, havia curiosidade. Em outros momentos aquilo tinha sido o suficiente, mas porque sentia que já não era mais?

- Quero você na minha cabeça – ele continuava com os sussurros roucos ao pé de sua orelha, respirando e causando-lhe arrepios – E quero estar na sua.

- Você está.

Ele quebrou o contato visual ao tomar sua boca, gostava de como ela deixava explora-la para depois, timidamente, fazer o mesmo. Gostava de ter o controle, gostava de tê-la para si, mas sabia que ela poderia ser a dominadora, se quisesse, ele deixaria facilmente. A boca pequena passou para seu queixo, pescoço e ficou por ali enquanto as mãos arranhavam os músculos do abdômen. Contraiu a barriga e afastou os longos cabelos de seu pescoço. Mordicou e sugou com alguma força, queria deixar sua marca ali.

- Também quero seus sentimentos pra mim, Hinata.

Acordou de súbito com a menção daquele nome em seu sonho. Arregalou os olhos negros para perceber que eles não estavam negros, mas muito vermelhos. O cabelo grudava na face, o peito estava todo molhado de suor e o volume nas calças era visível. O Uchiha sentou-se na cama, uma mão de cada lado do corpo. Olhou para a janela, já começava a clarear, logo o sol surgiria atrás dos muros do feudo de Masaru Ren.

Levantou-se e foi até a bacia de água no canto que fora deixada lá por alguém e a qual a água era trocada todas as noites. Pegou-a com as mãos em concha e jogou abundantemente por sobre si, nas faces e nas costas, esfregou o pescoço e ficou encarando o reflexo na superfície depois que a água se acalmou. Desativou o Sharingan.

Há três dias Hinata fora espancada, há três dias ele sentira a dor junto com ela. Há três dias ele não conseguia parar de pensar na Hyuuga e há três dias aquele sonho começara e vinha se repetindo. E sempre acordava naquela mesma parte e no mesmo estado, sem saber o que a moça iria lhe responder. Uchiha Sasuke nunca fora o tipo que acreditava que sonho fosse alguma espécie de premonição, mas acreditava que eram desejos do subconsciente, mas há um dia mesmo admitira que ter Hyuuga Hinata não era só um desejo de seu subconsciente, mas de seu consciente também.

Nunca imaginara ficar tão obcecado por alguém depois de matar Itachi, mas aquela era uma obsessão completamente diferente. A morena não saia de seus pensamentos, se pegava pensando nela até quando estava conversando com Masaru ou Naruto sobre um assunto completamente adverso. Já não conseguia controlar, ficava pensando em como ela estaria, se Sakura tinha cuidado bem de seus machucados, se Ren faria alguma outra coisa contra ela, quando poderia vê-la de novo. E ela conseguira esse feito, de deixar o herdeiro Uchiha submisso a ela, em apenas um dia, um encontro e algumas observações atentas.

E o que mais o intrigava é que queria que acontecesse com ela as mesmas coisas que estavam acontecendo com ele em seu íntimo. Queria poder ficar perto dela para conquistá-la como jamais quisera com outras mulheres, especialmente por achá-las todas deveras irritantes. Hinata gaguejava, era tímida e corava com qualquer coisa, principalmente por olhares mais penetrantes. Ele queria vê-la corar sob seus olhares penetrantes, queria-a gaguejando em seu ouvido. Como no sonho, queria-a. Além do desejo, além do corpo. E queria descobrir o que era aquilo, acima de tudo. Hinata era forte, mas não demonstrava e Sasuke sabia exatamente qual era a sua opinião sobre tal. Se as pessoas começassem a elogiá-la por sua força – apesar de não gostar de as pessoas verem-na como fraca – qual seria sua motivação para continuar crescendo?

Sozinho em seu quarto, Sasuke sorriu. Aquela garota de olhos insossos o estava deixando louco com aqueles pensamentos filosóficos e sentimentais, mas a única coisa que almejava era continuar pensando! Quanto mais pensamentos tinha sobre ela, melhor se sentia.

Quando pegou o seu quimono negro e deixou o quarto, o sol já despontava e ele estava decidido que precisava vê-la, nem que tivesse que entrar na okia.


Hinata amara Naruto. Sentira por ele verdadeiro amor, mas diferente de amor. Não era o tipo de amor que uma mulher sente por um homem, era algo mais fraterno – mesmo tendo demorado a percebe-lo –, porém também diferente do amor que ela sente por Neji e Hanabi e até mesmo seu pai. O amor que sentira por Naruto fora crescendo, levara tempo para se desenvolver e, no fim, resultou que ela estava apenas equivocada com os próprios sentimentos.

Sentira alguma coisa por Sasuke, também. Não era amor, porque era muito diferente do que achara que era amor ao sentir por Naruto, mas não sabia dizer ao certo. Com Sasuke fora diferente, não tivera tempo de germinar. Fora súbito e devastador, mais forte que só paixão. Tinha começado quando? Há três dias, no lago? No dia seguinte aquilo, quando olhara em seus olhos de abismo enquanto era açoitada? Talvez quando ele entrou na sala de Tsunade-sama, antes de aquela missão começar, talvez no dia do Exame Chunnin, muito tempo atrás, quando seus olhos se encontraram de esguelha por mero meio segundo, talvez quando fora visita-lo no hospital antes de ir embora, um dia em que Naruto e Sakura não estavam no quarto e ela pôde analisá-lo pela primeira vez? Havia muitos talvez, nenhuma certeza.

E aquele toque. Corava ao lembrar da cena do lago, corava ao sentir o cheiro dele no quimono que ainda não devolvera. Ficava passando a ponta dos dedos por sobre o braço esquerdo onde ele a segurara. Aquele toque deveria ter significado nada para ele, mas para ela significara tanto. E queria chorar ao pensar que ela estava sendo estúpida novamente ao criar expectativas de um sentimento que não seria correspondido. Sasuke não se apaixonava, ele não queria isso. Ele iria apenas arranjar uma mulher boa o suficiente para lhe dar filhos de linhagem Uchiha, porque ele ousaria se misturar com uma herdeira do Byakugan e arriscar que seu filho não nascesse com os olhos vermelhos? Ele não faria isso.

- Hinata-san? – a voz sobressaltou Hinata que estava distraída demais em seus pensamentos enquanto olhava-se no espelho. Era a voz de Mizuno do outro lado.

- Entre, Mizuno-chan.

A porta se abriu a garota entrou, fechando-a atrás de si. Ajoelhou-se ao lado de Hinata, trazia uma caixa de quimono consigo. Colocou a caixa no chão e abriu antes de levantar o rosto, sorrindo.

- Este é um de seus quimonos, não é, Hinata-san? – perguntou pegando-o pelo colarinho e erguendo-o – É maravilhoso, uma seda de ótima qualidade. As tecelãs do País da Grama têm ótimas mãos.

- Sim – Hinata concordou sorrindo para a garota. Aquele quimono azul com a silhueta negra do castelo que ela segurava não era, nem de longe, o mais bonito da coleção de sua mãe e fora justamente por isso que o trouxera – Porque o trouxe aqui, Mizuno-chan?

Depois do que aconteceu, as moças da okia – as gueixas, para ser exata – recusavam-se a falar com Hinata, a meramente a olharem. Elas poderiam ser desvirtuadas e humilhadas como Hinata fora se falassem com ela, coisa que não acontecia, mas os exageros eram inevitáveis. Fora as mulheres da cozinha, Mizuno e Hae eram as únicas outras mulheres com quem Hinata conversava. Hae porque não era gueixa e não acreditava naquelas bobagens e Mizuno porque era uma maiko e morria se admiração por Hinata. Ela lhe confidenciara isso quando entrara no quarto dela enquanto Sakura cuidava de suas feridas – do jeito tradicional, não com chakra curativo – e dissera, sorrindo, que queria ser como Hinata quando se tornasse uma gueixa.

- Okaa-san me mandou – ela sorriu – Ren-sama parece que gostou muito de você, Hinata-san, ele quer sua companhia hoje.

- I-isso é verdade? – ela nunca imaginara que fosse continuar como gueixa, ainda mais que Ren iria querer vê-la de novo fora do expediente da casa de chá, apesar de ela ainda não estar trabalhando lá.

- Sim, ele disse isso a okaa-san pessoalmente – os olhos da garota brilhavam de admiração – Eu vou ajudá-la a se vestir, Hinata-san.

A mais velha sorriu-lhe, agradecida.


- Ren-sama? – ela chamou timidamente sem encará-lo. Ou melhor, suas costas, já que ambos andavam, ela seguindo-o pelos corredores da mansão em direção a algum lugar que não fazia questão de saber antes de chegarem lá. Provavelmente ele a faria ficar tocando shamisen durante o almoço novamente, mas precisava perguntar uma coisa.

- Sim, Hinata-chan? – ele não parou nem se virou, apenas questionou com sua voz macia.

- Porque m-me chamou para... Vir aqui de novo? De certa forma... Eu estou maculada.

- De certa forma – ele parou e Hinata quase se chocou com ele. Ele se virou, os olhos verdes aquosos presos nela de forma intensa o que fez a moça se encolher e buscar a parede – Mas eu não me importo – Ren deu um passo na direção dela a encurralando entre ele e a parede – De fato, saber que outro homem a viu, saber que ele poderia tê-la, mas não o fez...

As mãos dele contornaram o corpo de Hinata antes de subirem para o rosto maquiado levemente. Quando não ia se apresentar oficialmente, a maquiagem não era administrada completamente. Ele passou os dedos por seus lábios e Hinata sentiu nojo quando o hálito dele bateu em sua boca. Quis se encolher até fundir-se a parede, mas não conseguia.

- Saber disso só faz o meu interesse por você aumentar, Hinata-chan – ele levantou a mecha que caia por sua têmpora que ela nunca conseguia prender ao resto do penteado – Meu interesse em te fazer minha.

Hinata continuava encarando-o, mas se ele chegasse um centímetro mais perto ela iria se esquivar. Para baixo, para cima, empurrá-lo, não sabia que opção usaria, mas não deixaria que ele a tocasse.

- Mas tudo há seu tempo, Hinata-chan – não foi preciso nenhuma atitude drástica, ele mesmo se afastou voltando a seguir pelo corredor esperando que a moça o seguisse. Ela o fez com as pernas trêmulas até chegarem a tão familiar sala de refeições. Ao abrir a porta de correr o senhor feudal revelou Chiren que já estava lá, em pé num dos cantos, e Sasuke, sentado no corredor de fora com um pé balançando quase encostando ao gramado abaixo.

- Ren-sama – Chiren fez uma reverência e Sasuke nem o olhou. Continuou indiferente na varanda.

- Estou atrasado para o almoço, peço desculpas – ele saiu de perto da porta revelando Hinata atrás dele – Fui buscar nosso entretenimento – Ren guiou Hinata a Chiren, Sasuke não tinha visto-a – Este é um de meus aliados, Chiren. Esta é Hinata, minha mais nova gueixa.

A menção do nome despertou Sasuke tal qual em seu sonho. Ele virou o rosto tão depressa que teve medo de Ren ter notado sua ansiedade, mas ele estava olhando para Hinata. Um olhar que invocou o ciúme mais profundo do Uchiha, um sentimento que nem acreditava mais possuir.

- Ah, aquela que foi espancada – Chiren disse em sua voz gutural – Doeu muito, Hinata?

Ela não respondeu a pergunta humilhante que o homem lhe fazia. Era apenas para zombar dela, estava claro. A moça fez uma pequena reverência e se dirigiu para o canto ajoelhando-se perto do instrumento. Sasuke seguia seus passos com os olhos, mas não foi retribuído pelos olhos perolados.

Os homens sentaram-se em volta da mesa baixa e Hinata começou a entoar a melodia calma no shamisen, olhando para baixo, o tempo todo para os seus dedos dedilhando as cordas. Os empregados surgiram e trouxeram a comida, ela não os olhou, só ficou atenta quando a conversa começou, uma conversa interessante e pertinente para o motivo de os ninjas da Vila da Folha estarem ali.

- Quando Ryuusuke e Wakusei chegarem eu pretendo fazer uma pequena cerimônia antes de encaminharmos nossos homens para a Vila da Folha – começou Ren – Para dar boa sorte.

- O onde é que você vai atacar, Uchiha-san? – perguntou Chiren desdenhoso sorvendo o saquê disposto ali no lugar do chá.

- Na linha de frente – respondeu Sasuke com seus olhos de adaga. A coisa que mais adorava fazer nos últimos dias era amedrontar Chiren ameaçando olha-lo por muito tempo e, só pelo tempo de uma piscada, deixa-lo ver seu Sharingan. O homem desviava seus olhos rapidamente.

- Uchiha-san ficará ocupado com Uzumaki Naruto, ele é o grande problema da Vila, o último dos Jinchuuriki – Masaru, enquanto falava, comia sem pressa, tinha um tom afável e gentil, como se estivesse tratando do assunto mais agradável que pudesse conhecer – Ouvi boatos que ele está para ser nomeado Hokage.

- As minhas tropas, junto com Wakusei e Ryuusuke, vão atacar pelas laterais da Vila para que Ren-sama possa ir direto pela frente, para a entrada principal – Chiren abandonou o copo e começou a tomar seu saquê direto da garrafa – São ninjas muito bons esses mercenários que conseguimos, mas seria mais fácil se a Akatsuki ainda existisse, não teríamos nenhum trabalho.

- Não é do meu feitio depender de outras pessoas para fazer meus negócios, Chiren – Ren pousou os hashi – Atrai má sorte.

- Você fala muito em sorte, Ren – Sasuke levantou os olhos pra ele que até aquele momento tinham ficado vagando discretamente entre seu prato de arroz e os movimentos de Hinata, quieta e atenta no canto, tocando.

- Não ouso desafia-la, Uchiha-san – ele respondeu, sorrindo. Chiren se levantou levando a garrafa de saquê consigo e abriu a porta – Já terminou de comer?

- Quero uma mulher, faz tempo que não me deito com uma – ele sorriu, um sorriso que Hinata não viu, mas que a deixaria enojada e fez Sasuke retesar os músculos da mandíbula – Você pode me ceder uma gueixa, Ren-sama?

- Minhas gueixas não são prostitutas, Chiren, a menos que você esteja disposto a pagar por um mizuage que será leiloado esta noite.

- Não tenho tanto dinheiro assim – ele virou a garrafa de saquê e um pouco do líquido transparente escorreu de sua boca manchando o quimono – Vou até os fundos do feudo.

Ren apenas concordou com um aceno de cabeça e a porta se fechou. O fim do feudo era como eles chamavam o lugar onde as mulheres da vida ficavam no feudo de Masaru Ren. Nenhum lugar é perfeito e tantos guardas e visitantes que frequentemente estavam no feudo e que não tinham dinheiro para comprar um mizuage de uma linda e delicada gueixa, se contentavam com as mãos ásperas e a pele há muito seca de mulheres que não se importavam com homens grotescos e ninharias de dinheiro.

- Você não deseja uma mulher também, Uchiha-san? – Ren virou-se para ele, os empregados entraram na sala para retirar os utensílios do almoço. Sasuke o mirou, seu olhar duro como qualquer outro, sem se abalar.

Hinata, em seu canto, não esboçou reação, mas por dentro seu estômago se comprimiu esperando a resposta.

- Como eu já disse na primeira vez que nos vimos, Ren – respondeu o moreno – Meu interesse aqui são negócios e gueixas.

- Você é um homem de gosto apurado, Uchiha-san – Ren riu um pouco e serviu-se de saquê. Um servo abriu a porta e chamou pelo senhor feudal, um camponês precisava da ajuda do senhor – Sim, já vou atendê-lo – olhou para Sasuke com um sorriso que tinha mais segundas intenções do que Sasuke gostaria – Volto em um instante, Uchiha-san, enquanto isso Hinata-chan pode lhe fazer companhia.

"Você nem faz ideia", pensou Sasuke.

O moreno não respondeu e Ren se foi.

- Hinata – Sasuke se levantou e aproximou-se da morena. Ela errou uma nota e quase quebrou uma corda do instrumento quando suas mãos começaram a tremer com a aproximação dele. Não levantou os olhos, pousou o shamisen ao seu lado e colocou ambas as mãos no colo e apertou de leve o tecido de seu quimono – Sinto muito.

Para a Hyuuga aquela foi uma tremenda surpresa. Esperava de Uchiha Sasuke quaisquer palavras, menos aquelas. Ele poderia lhe ofender, poderia lhe fazer perguntas sobre o que estavam comentando na casa de chá sobre o seu açoitamento – que para ele fora duplo –, poderia ter lhe dado algum ordem referente à missão. Mas se desculpar? Sentir pelo quê?

- O... Q-que disse, Sasuke-san? – seus olhos levantaram-se para mirá-lo, mas os olhos negros não a encaravam de volta. Ele sentara-se na varanda novamente, uma perna flexionada com o braço descansando sobre ela, a outra balançando preguiçosamente na beirada e ele olhava algo mais interessante no quintal.

- Sinto muito – ele respondeu diretamente.

- Por quê?

- Se eu não a tivesse seguido, você não teria esses vergões escondidos sob o quimono.

- Você não poderia ter feito outra coisa, Sasuke-san – ela não conseguia desviar seus olhos do perfil bonito que ele lhe apresentava, o sol batia na pele pálida deixando-a ainda mais branca, a marca negra de Orochimaru ainda remanescente em seu pescoço – Como capitão, seu dever...

- Meu dever é não deixar que nada aconteça a meus subordinados! – ele não gritou, não se exaltou. Na verdade, sua voz estava tão baixa e controlada que a morena sentiu a dor das palavras se chocarem com ela ao mesmo tempo em que o som chegou a seus ouvidos.

- Isso não foi culpa sua – a voz dela tinha o mesmo tom, mas sem a dor.

Sua mão pequena deslizou até o ombro, Sakura tinha feito um ótimo trabalho com unguentos nas feridas, mas algumas formaram cascas e ás vezes a seda do quimono as arranhava. Quando ela levantou seus olhos outra vez, encontrou o abismo em que queria cair dentro dos olhos dele. Sorriu serena e, por ele a estar observando, corou levemente.

- Logo não haverá mais marcas e Sakura-chan disse que não vai restar nem cicatrizes – a kunoichi levantou-se e passou a mão para alisar o pano do quimono antes de sentar-se sobre os joelhos ao lado de Sasuke – Por favor, não se preocupe, Sa...

Se naquela manhã Hyuuga Hinata estava se perguntando se estava apaixonada por Uchiha Sasuke ou qualquer coisa do tipo, naquele momento ela acabara de receber sua confirmação. Quando os lábios dele se colocaram sobre os seus tão repentinamente, tão súbito quanto o sentimento que ela sabia ter, mas não sabia de quando ou onde, viu-se estática, os olhos arregalados e a boca congelada entreaberta enquanto começava a pronunciar o nome dele. O beijo provocou correntes elétricas no seu corpo, muito mais intensas do que o toque dele em sua pele há três dias no lago e enquanto ele tocava o seu rosto com as pontas dos dedos durante o beijo, deslizando para seu pescoço e acariciando-lhe os cabelos.

A corrente elétrica começou nele e percorreu seu corpo trazendo com ela uma ínfima esperança de que poderia ser retribuída. Ela se tornara mais uma das que eram apaixonadas por Uchiha Sasuke e a esperança era de que ela poderia não ser só mais uma na coleção dele. Fechou os olhos evitando pensar no que poderia ser e a língua experiente de Sasuke entrou em sua boca como se fosse a primeira vez que ele fizesse isso. Sentiu-se estranhamente renovado quando Hinata retribuiu o beijo e não queria mais parar, apesar do que estava fazendo, num impulso, era extremamente arriscado. Quando teve o intuito de se separar dela, a mão agarrou a barra de seu quimono e ele ficou, prolongando o beijo um pouco mais, e percebeu, com esse movimento de retribuição, que toda a chama percorrendo seu sangue só era acesa pela fagulha que vinha dela.

- Po... Por que f-fez isso? – ela perguntou e Sasuke sorriu sem que ela percebesse ao vê-la corada, ofegante, os lábios molhados com sua saliva.

- Pelo mesmo motivo que você teve para retribuir – aquela frase foi o suficiente para fazê-la estremecer e deixar a esperançazinha que veio com o beijo crescer um pouquinho. Ela deixou a franja farta cobrir seus olhos e se levantou, envergonhada e indecisa e até feliz demais para continuar ali, precisava ficar um pouco sozinha.

Sasuke quis pará-la quando ela se levantou, mas a porta abriu e ele continuou de costas, impassível, apenas ouvindo a breve conversa.

- Hinata-chan, você está bem?

- N-não, Ren-sama. Será que posso me retirar por hoje? – para Ren a voz de Hinata pareceria doente, apática. Para Sasuke, havia uma nota ali que até aquele momento não percebera. Será que não a percebera, porque surgira com seu beijo? Sorriu mais uma vez ao identificar o tom feliz na voz melodiosa.

- Sim, pode ir e descanse – Masaru respondeu e a porta se fechou.

Sasuke não via mais motivo para continuar ali e, antes que Ren perguntasse qualquer coisa sobre o que poderia ter acontecido, o moreno levantou-se e sumiu deixando fumaça branca para trás.


Ele disparava soco após soco na água caindo da cascata não muito grande do lago onde vira Hinata. Já estava banhado de suor e água e, atrás de si, o sol se punha. Não demonstrava que iria parar. O quimono negro que estava usando e Kusanagi jaziam sob a mesma árvore que as roupas da morena Hyuuga no outro dia. Porque queria se cansar? Porque ficava dando socos e treinando ali? Naruto foi quem lhe trouxe a resposta.

- Você tem jeitos bem estranhos de demonstrar que está feliz, teme – Sasuke parou quando ouviu a voz do melhor amigo. Virou o rosto para vê-lo sorrindo largamente, as mãos atrás da cabeça, apoiado preguiçoso em uma árvore – Seria mais fácil só sorrir, dattebayo.

- Do que está falando, dobe?

- Nem tenta desviar o assunto, Sasuke, eu vi! – o Uchiha só continuou encarando-o enquanto o loiro se desencostava da árvore e andava sobre a água em sua direção com um olhar semi-cerrado e um sorriso malicioso de quem sabia alguma coisa realmente interessante. Ele se aproximou e, cobrindo um lado da boca com a mão, disse – Você e a Hinata e aquele beijão, dattebayo.

Sasuke continuou olhando-o.

- Não sei do que você está falando, Naruto.

- Ah, qual é? – o loiro gritou, mas depois desistiu, com Sasuke aquilo de jogar na cara simplesmente não funcionava, era capaz de o Uchiha negar até a morte do que simplesmente admitir que Naruto estivesse certo de bom grado. Ele já tinha feito muito quando pediu desculpas por ter ido embora. Ficou sério, então – Não faça aquilo de novo com ela.

A sobrancelha de Sasuke se levantou, sem entender o que Naruto queria dizer. Primeiro ele vinha gritando que ele estava feliz, agora ele queria mandar sua felicidade embora?

- Você não está fazendo sentido, dobe.

- Eu não vou deixar você magoar a Hinata-chan, dattebayo! – aquilo Naruto gritou virando-se para Sasuke. O pegaria pelo colarinho se ele estivesse usando alguma camisa, mas o dorso estava nu – Já basta a Sakura-chan ferida por você, Sasuke.

Aquilo, para Sasuke, vindo de Naruto, foi pior que um soco.

- Só a beije de novo quando tiver certeza do que sente por ela, assim o motivo da felicidade que você está sentindo agora será verdadeiro – finalizou Naruto deixando o seu semblante se suavizar – E mútuo.

O capitão fez uma cara azeda e pensativa, mas depois deu um de seus meio sorrisos e encarou Naruto, cruzou os braços sobre o peito, as sobrancelhas franzidas juntas.

- Porque é que você está sempre me dando lição de moral?

- Porque todo mundo fica muito burro quando o assunto são os próprios sentimentos – o Uzumaki riu – E você sempre foi péssimo pra lidar com eles!

- E você pra lidar com mulheres.

- É por isso que nós somos amigos, dattebayo.


Olá!
Nossa, ficou um capítulo mais curto do que eu esperava e eu tinha em mente que o Sasuke pegasse a Hinata numa sala e a prensasse na parede e coisas acontecessem, mas parece que não foi isso que saiu, não é? Bom, esse capítulo é essencialmente pra falar sobre os sentimentos do casal principal e, não sei por que, tô com essa mania de finalizar capítulo com essas ceninhas de amizade de Sasuke e Naruto.
Enfim, espero que tenham gostado e, eu prometo, muitas coisas acontecerão no próximo capítulo, vai ser maior que este. Obrigada a todo mundo que está acompanhando e desculpem-me pelo capítulo decepcionante.

AGRADECIMENTOS:

Elara-chan, Sabaku no Aretha, Amandy-san, Mrs. Loockers, Pinkuiro, gesy, Bela F., Lust Lotu's, Ariii, misha-chan, Hana-Lis, Jane Nylleve, FranHyuuga e Keli-chan.

OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)