LEMBRANÇAS DE LUZ
Capítulo Dez – Hyuuga Sob Todos os Prismas
- R-ren-sama? – gaguejou a menina pretendendo sentar-se e colocar-se o mais longe possível de Ren, mas ele puxou-lhe as cobertas de sobre o corpo antes que pudesse fazer qualquer coisa.
- Você sabe, Hinata-chan – ele passou seus olhos verdes sobre o corpo da morena que ficara somente com a leve yukata de dormir cobrindo-lhe. Quando as mãos dela fizeram menção de ir protetoramente para frente de seu peito, ele as segurou. Hinata forçou-as para se soltar, mas Ren as prendeu firmemente sobre a cabeça da morena e sentou-se sobre os quadris da Hyuuga – Eu lamento não tê-la feito minha primeiro, mas convenhamos que eu não poderia recusar tanto dinheiro quanto o Uchiha ofereceu – ele abaixou a cabeça com a respiração aproximando-se perigosamente da de Hinata.
A morena prendeu a respiração com a proximidade e com o hálito quente em seu rosto. O queria o mais longe possível dela, mas se simplesmente o golpeasse estragaria todo o disfarce. Onde estaria Sasuke? Se ele estivesse lá fora, como disse que ficaria de guarda, jamais nem mesmo teria deixado que Masaru Ren se aproximasse da sua tenda, ainda mais fazer-lhe aquelas coisas. Não queria depender de Sasuke, mas seria o menos arriscado para a missão em sua totalidade. Como, de outra fora, ela poderia explicar para os guardas, se eles eventualmente estivessem por perto, que a pequena e frágil gueixa desacordara o senhor deles, que é maior e mais forte que ela?
- Ren-sama, p-por favor... – ela gaguejou novamente tentando se encolher ao toque dele. Fechou os olhos e virou o rosto para o lado.
- Hinata-chan, querida, não faça isso – ele segurou suas mãos com apenas uma das dele e virou o rosto dela com a mão livre – Não vai ser tão divertido se eu tiver que te machucar ou desacordar. Você ainda é uma gueixa muito preciosa para ficar com marcas roxas pelo corpo – ele sorriu e pegou uma mecha do cabelo dela para levar ao nariz e inalar profundamente – Combinado?
Ele falava numa voz doce, como se não tivesse uma mulher se retorcendo em repulsa sob si. Simplesmente parecia que isso o instigava ainda mais. Ele soltou o cabelo de Hinata que, mesmo que continuasse com o rosto virado para o alto, não abriu os olhos. Com os olhos fechados, ela tentava colocar a imagem de Sasuke na sua frente. A mão Ren desceu lentamente do queixo de Hinata para o pescoço num carinho que ela não desejava; a mão percorreu o colo e um dedo deslizou pela abertura da yukata, afastando-a levemente. Masaru Ren circulou o seio esquerdo de Hinata com o dedo e com a mão cheia apalpou-lhe.
- N-não... – ela gemeu; o nariz reclamando com uma ardência que ela sabia ser de choro.
- Macio – ele murmurou para si mesmo. Sem paciência, Ren arrancou-lhe a faixa da cintura que lhe prendia a yukata ao corpo e abriu-a, revelando o corpo da garota à meia luz. Ele não enxergava muito bem, mas não precisava ver mais do que a silhueta de Hinata. Lambeu os lábios e sentiu seu membro começar a enrijecer somente com a visão dela – Seja uma boa menina, agora, Hinata-chan – ele disse e soltou a outra mão para poder acariciar-lhe ambos os seios.
Hinata fechara muito bem os olhos, mas quando suas mãos foram soltas ela não tinha mais porque fingir. Abriu os olhos rapidamente já com o Byakugan ativado. Mirou a cabeça de Masaru Ren e viu todos os tenketsus. Demorou um segundo para ela encontrar qual deles precisaria acertar para fazê-lo desmaiar e suas mãos agiram antes que as de Ren pudessem alcançar seus seios. O senhor feudal caiu por cima da Hinata e ela o empurrou para o lado com pressa e nojo. Hinata não precisava ser salva, ela não era uma ninja de elite ANBU apenas por sua linhagem – vários Hyuuga eram ninjas ANBU, não apenas ela – ou por sua benevolência – ela podia não matar, mas isso não queria dizer que ela era piedosa em batalha –, apenas não podia quebrar o disfarce, então precisaria da ajuda de Sasuke para terminar com a segunda parte do seu plano de fugir das garras do senhor feudal.
Fechou a yukata o melhor que conseguiu antes de sair da tenda. Onde estaria Sasuke?
Olhou a sua volta ainda com o Byakugan ativado e encontrou-o no mesmo lugar para onde o vira ir através de uma fresta de sua tenda depois que todos estavam se colocando em seus postos. Encarou-o bem e analisou seu fluxo de chakra. Aparentemente tudo estava normal e ele só dormia, mas ali em seu ombro o fluxo passava ainda mais lento, como se alguém tivesse lhe injetado um calmante diretamente nas vias de chakra.
Andou até a árvore e pulou para o galho bem em frente a ele. A cabeça do Uchiha estava meio inclinada em direção a seu peito e os cabelos negros e rebeldes de sua franja cobriam-lhe as feições pálidas e serenas. Ele ficava muito diferente dormindo. Mas para ela tanto fazia aquela expressão serena ou a séria e intransponível que ele ostentava acordado, ela gostava de ambas. Respirou fundo para deixar as divagações com Sasuke de lado. Céus, ela não podia imaginar que ele lhe distraia desse jeito. Concentrou-se nos tenketsus do ombro dele e atingiu-os com seu chakra.
Os olhos negros se abriram instantaneamente, como despertando de um transe, e por reflexo, ao sentir alguém a sua frente, Sasuke puxou Kusanagi de dentro da bainha para fazer sua lâmina aparecer o suficiente para machucar alguém. Também pelo reflexo do ataque, Hinata arrancou da perna de Sasuke uma kunai. Ambos encararam-se, Byakugan e Sharingan, como se fossem dois inimigos prontos para se eliminarem. A kunai que Hinata segurava estava rente ao pescoço de Sasuke – pelas regras ANBU, quando um inimigo te ameaça, mesmo que você morra, pelo menos o leve junto – e Kusanagi cortaria a jugular de Hinata com um mínimo movimento. Reflexos de ninjas podem ser perigosos.
- Hinata... – Sasuke sussurrou quando viu melhor quem estava a sua frente. Afastou Kusanagi com cautela depois que ela afastou a kunai e devolveu-a para a bolsa na coxa do moreno – O que aconteceu?
- Não sei – ela olhou para baixo, para a sua cabana onde Masaru Ren jazia desacordado – Acho que havia algum calmante em seu corpo.
- Não me refiro a mim – ele pegou uma das mãos de Hinata e deslizou o indicador pelas marcas em seus pulsos.
A garota desviou o rosto. Ela, por toda a sua vida ninja, nunca conseguira respeitar fielmente o vigésimo quinto princípio – aquele que dizia que eu ninja não deve demonstrar suas emoções. Por mais que tivesse tirado Ren de cima de si, por mais que soubesse que aquilo era uma missão e que aquela era sua obrigação, ser tocada daquele jeito por outro homem – por alguém que não era Sasuke – fizera-a sentir-se suja a ponto de não conseguir encara-lo.
- Alguém tocou em você? – ele perguntou, mas por aquelas marcas já podia adivinhar a resposta.
- E-eu... – ela sentia vergonha de encará-lo. Talvez, se Ren não tivesse soltado suas mãos e esperado que ela cooperasse, ele tivesse feito ainda mais sem que ela pudesse revidar e estragar a missão – Estou bem, Sasuke – sussurrou. Como odiava ser fraca e sentimental daquela maneira – Isso não é importante agora – ela forçou a firmeza na voz e desceu da árvore com um pulo. Sasuke a seguiu e segurou-lhe o braço impedindo-a de dar mais qualquer passo.
- Hinata – chamou e quando a virou, cravou os olhos muito negros do par de pérolas trêmulas. Porque ela estava com medo dele? Era realmente medo? Queria conhecê-la um pouco mais, mas ela sabia esconder seus sentimentos. Não como ele, que simplesmente não deixava que as pessoas entrassem em si por seus olhos. Hinata sabia coloca-los atrás de outros sentimentos e dissimular.
- Ren-sama... – ela se amaldiçoou pelo nome respeitoso que o chamou. Hábito – Ele entrou em minha tenda... – a mão de Sasuke que apertava seu braço retesou-se e as sobrancelhas dele se franziram – A-acho que pode imaginar p-para quê.
- Ele te fez alguma coisa? – Hinata sentiu medo dele naquele momento e foi obrigada a olhá-lo. Estava com vergonha, não com medo, portanto evitava os ônix, mas a voz de Sasuke, rouca e sussurrada, como um sibilar de serpente, aterrorizou-a. Não por si, mas por qualquer um que pudesse ousar colocar-se no caminho do último Uchiha num momento daqueles.
- N-não – gaguejou e continuou observando-o. O aperto em seu braço se afrouxou – Eu o desacordei, agora preciso da sua ajuda.
- Para quê? – ela não respondeu e guiou Sasuke até sua tenda. Eles entraram e Hinata colocou-se ajoelhada próxima à cabeça de Ren. Sasuke também se ajoelhou ao lado da moça.
Ela colocou a cabeça de Ren alinhada ao corpo. Estava prestes a mostrar a Sasuke um dos motivos por ter sido integrada à equipe de assassinos de elite ANBU. Nunca colocara aquele jutsu em prática, porque uma peça essencial estava faltando, mas ali estava Sasuke para ajudá-la. Só esperava que funcionasse.
- O Clã Hyuuga e o Clã Uchiha têm a mesma origem ancestral, por isso as nossas linhagens afetam os olhos e todos dizem que o Clã Uchiha é uma evolução do Clã Hyuuga – ela explicou tentando não gaguejar com o olhar atento de Sasuke sobre si – Há algum tempo eu encontrei alguns pergaminhos muito antigos nos arquivos do meu Clã, pergaminhos de uma época em que os nossos Clãs ainda eram companheiros – Sasuke arqueou a sobrancelha direita. Ele não fazia idéia que ambos os Clãs um dia tivessem qualquer aliança – Que ensinavam uma técnica de manipulação da mente. Como o Clã Yamanaka se especializou nesse tipo de jutsu, nossa aliança não se manteve, já que o jutsu de manipulação do Clã Hyuuga só pode ser feito por um Hyuuga e um Uchiha com o Sharingan em um nível suficientemente avançado.
- Mangekyou Sharingan – disse Sasuke e Hinata concordou com um aceno.
- O jutsu consiste em eu atingir os tenketsus da memória de Ren e baixar todas as suas defesas, deixando suas memórias, mesmo as mais íntimas e as que ele já esqueceu, maleáveis – ela encarou Sasuke – E, com o Mangekyou, capaz de fazer incríveis genjutsus, você molda as memórias dele para qualquer coisa que quiser.
- E o que eu preciso moldar? – ela desviou os olhos de Sasuke de novo. Ele começava a ficar incomodado cada vez que as pérolas se desviavam de sua visão.
- Minha fuga. Você precisa moldar a partir do momento que ele veio a minha tenda e, ao invés de desacordá-lo, eu fugi, assim posso voltar a Vila da Folha sem suspeitas.
- O Clã Yamanaka não consegue moldar memórias – ele interceptou uma parte da explicação anterior de Hinata.
- Mas o que eles fazem é o suficiente – ela respondeu – E não são todos os Uchiha que alcançam o Mangekyou Sharingan.
Hinata pediu para que começassem e Sasuke ativou sua linhagem. Agilmente, Hinata ativou o Byakugan, procurou pelos pontos tenkesu e acertou-os, depois manteve suas mãos espalmadas dos dois lados da cabeça do senhor feudal com o brilho azul do seu chakra emanando delas e pediu a Sasuke para se apressar. Manter todas as portas das memórias dele abertas exigia uma grande quantidade de chakra.
Demorou algum tempo para Sasuke conseguir encontrar a memória certa. Ele viu pelos olhos de Ren quando Hinata entrou em sua tenda e quando alguns dos guardas se preparavam para dormir. Viu quando Masaru Ren se aproximou de si e pousou a mão em seu ombro, olhando-a demoradamente. Arregalou os olhos quando percebeu o que ele fizera, mas não se distraiu, precisava avançar alguns minutos ou Hinata logo ficaria sem chakra. Ele podia ouvi-la ofegando ao seu lado. Viu Ren sair de sua tenda e entrar na tenda de Hinata, viu-o ficar sobre ela e o sono levemente inquieto que ela estava tendo. Sentiu seus punhos se fecharem fortemente quando, através dos olhos de Masaru Ren, ele viu Hinata acordar assustada e o senhor feudal prender as mãos dela sobre a cabeça e sentar-se sobre os seus quadris. Maldito! Se pudesse matá-lo estando dentro de sua cabeça, mas ele só podia desmanchar e remontar suas memórias. Acabou com a cena e colocou Hinata fortemente se debatendo. Fez-la conseguir soltar as mãos e atingir Ren no nariz que, atordoado pela dor, deixou que ela o empurrasse para o lado e saísse correndo da tenda. Foi atrás dela, chamando seu nome, mas a gueixa tinha se embrenhado pela mata. Fez Ren praguejar e sentir o nariz sangrar – assim o Uchiha teria uma desculpa para, de fato, quebrar o nariz de Ren – e então o senhor feudal voltou para sua tenda, frustrado.
- Sasuke! – Hinata o estava chamando para o presente. Quando os olhos do Uchiha voltaram a ficar negros, ela despencou para trás, batendo as costas na madeira que servia de suporte para a tenda, ofegante e suada, o Byakugan se desativando.
- Você está bem? – Sasuke adiantou-se para ela e pegou-a no colo, trazendo-a para perto de si. Hinata repousou a cabeça em seu peito depois de assentir e a sua respiração voltou ao normal lentamente. Ela não fazia idéia quanto chakra aquele jutsu utilizava.
- Deu certo? – ela perguntou.
- Sim – e antes que Hinata pudesse fazer qualquer coisa, o Uchiha levantou o punho e socou o nariz de Ren com força suficiente para quebrá-lo. Hinata encarou-o – e a seu divertido sorriso de canto – incrédula – Tecnicamente, na memória dele, foi você quem fez isso.
- Você moldou uma memória em que eu quebro o nariz dele? – ela perguntou atônita, mas satisfeita. Uchiha Sasuke podia mesmo ser chamado de vingador. Masaru Ren tossiu em sua inconsciência e abriu a boca para respirar quando um filete de sangue escorreu de seu nariz pela bochecha e a dificuldade do nariz quebrado se fez presente.
- Ou você preferia ter acertado outro lugar? – os olhos dele tinham se estreitado perigosamente e Hinata sorriu com aquela audácia.
Enterrou a face na curva de seu pescoço sem reparar que ainda não tinha saído do seu colo, mas como o Uchiha não estava reclamando, ficou ali. Sentiu o cheiro dele demoradamente, aquela mistura gostosa de maçã-verde e madeira. Sasuke se mantinha perfeitamente parado, rígido, como se qualquer movimento pudesse estragar o momento e nem percebeu quando fechou os olhos para sentir os lábios de Hinata se juntando a pele sensível de seu pescoço e os dedos frios da Hyuuga brincarem com os fios negros do cabelo de sua nuca.
Não conseguiu mais resistir e precisou tocá-lo com os lábios com a curiosidade de saber se, além do cheiro, a pele dele também tinha gosto de maçã-verde. Não prestou atenção, porém, porque quando sua língua tocou a pele alva, Sasuke estremeceu e, num movimento rápido, colocou-a de costas no chão e ficou por cima da Hyuuga para juntar seus lábios. As mãos que estavam em sua nuca, brincando com os cabelos, se aprofundaram e puxaram os fios com sofreguidão quando as duas línguas se tocaram com saudade. Não importava se eram anos, meses, dias ou meros segundos entre um beijo e outro, a sensação que eles tinham era de eternas saudades, como se uma vida inteira juntos não fosse o suficiente. Lamentavam e viviam se perguntando por que não tinham se aproximado antes.
Continuaram se beijando até Hinata sentir que as coisas precisariam avançar se eles não parassem quando a boca de Sasuke demorou-se em seu pescoço e colo. Não somente Sasuke desejava a ela, mas ela também queria tê-lo novamente. Retirou as mãos dos cabelos dele e das costas e Sasuke soltou um som de desagrado sem parar de beijá-la, até Hinata retirar sua língua da boca dele e espalmar as mãos sobre o peito do Uchiha, afastando-o, ambos com a respiração irregular e com os lábios muito vermelhos e inchados. Sasuke ainda quis se aproximar mais uma vez, mas Hinata manteve suas mãos firmes no peito dele. Se deixasse que Sasuke se aproximasse, também não resistiria, e ela tinha que chegar a Vila antes que amanhecesse. O moreno soltou um rosnado de desagrado, mas afastou-se dela. Porque ela tinha mesmo que ir?
Afastaram-se e saíram da tenda. Sasuke disse que ela precisava se apressar que ele colocaria Masaru Ren na tenda dele, como fizera acontecer na memória e ela pegou suas coisas. Ia se trocar na floresta antes de chegar a Vila. Hinata aproximou-se dele sem querer deixá-lo para trás e tocou-lhe a bochecha e os fios negros do cabelo que caíam ali.
- Hinata – ele chamou com o nome dela dançando em sua língua ainda meio dormente por todos os beijos – Ninguém, nunca mais, irá tocá-la além de mim.
E a Hyuuga teve certeza da veracidade daquela frase tamanha era a fúria que ela via nos olhos negros. Sorriu docemente em agradecimento e desejou-lhe cuidado antes de correr para dentro das árvores.
- Minha filha também não deveria ter voltado com vocês?
Como se a presença de Neji não bastasse na sala da Hokage naquele momento, Hyuuga Hiashi saiu de trás do shinobi e colocou-se prostrado em frente à Tsunade. A Hokage reprimiu um palavrão e apertou seus dedos na mesa contando mentalmente para se acalmar. Eles já estavam no meio de uma ameaça iminente de batalha, por que os problemas tinham que continuar aparecendo?
- Hyuuga-sama, a Hinata-chan está bem, ela está com Sasuke-kun... – começou Sakura, mas Hiashi não se virou para ela e continuou com os olhos cravados na loira. Neji, por outro lado, encarou Sakura com firmeza, as sobrancelhas tão franzidas que doíam. Como assim, sua prima estava com Sasuke? Sabia perfeitamente bem que Sasuke fora um dos escalados para a missão, mas a frase de Sakura pareceu-lhe por demais sugestiva.
- Tsunade-hime – Hiashi silenciou Sakura e a sala toda prestou atenção nele – Você tem consciência do que fez?
Ninguém na sala pareceu entender o sentido daquela frase, apenas Tsunade que deixou de encarar Hiashi para olhar suas unhas pintadas de vermelho sobre a mesa de madeira.
- Hei, do que ele está falando, dattebayo? – perguntou Naruto para ninguém em particular.
- Você enviou Hinata deliberadamente para o feudo de Masaru Ren mesmo sabendo dos antigos acontecimentos entre o Clã Hyuuga e aquele mentecapto? – todos os ninjas presentes na sala, incluindo Neji, espantaram-se com as palavras do homem – Eu já perdi Hikari – Hiashi despejou com certa relutância. Neji pensou estar enganado quando ouviu na voz do tio o mais puro terror ao completar a frase – Quer que eu perca Hinata também?
- Hiashi, tente entender – começou Tsunade tentando ser ponderada – Somente Hinata poderia fazer Ren distrair-se o suficiente para dar tudo certo na missão.
- Que tipo de Hokage você é para mandar seus ninjas para as mãos do inimigo como fez com ela? – a voz de Hiashi se ergueu. Ele não queria ser ponderado naquele momento – Se eu soubesse que essa seria a missão dela...
- JÁ CHEGA, HYUUGA HIASHI! – gritou Tsunade socando a mesa a ponto de parti-la ao meio – Como você se considera um pai quando não confia nas habilidades de sua própria filha? Hinata é muito mais forte do que você está considerando!
- Forte? Hinata não é forte! Ela não nasceu para ser uma kunoichi – devolveu Hiashi, mas sem alterar sua voz. Seu rosto desviara-se do rosto de Tsunade e uma expressão de desespero se abateu sobre ele – Hoje eu me arrependo de não ter escutado Hikari quando ela me disse isso.
Tsunade pulou por cima da mesa com uma velocidade surpreendente e agarrou Hiashi pelo colarinho. Nem deu tempo do Hyuuga entender o que estava acontecendo. Os ninjas na sala olharam para a cena, ainda petrificados.
- Depois de todos esses anos chamando-a de fraca, menosprezando-a e fazendo-a chorar pelos cantos achando que não era boa o suficiente para ser sua filha, achando que não merecia o seu amor de pai, depois de tudo isso você vem me dizer que podia ter evitado expô-la a vida de ninja e amado-a? – grunhiu Tsunade – Tarde demais, Hiashi, porque o coração dela já está machucado. Agora ela já é uma kunoichi!
E diferente do que ela pensou, diferente do que qualquer um naquela sala poderia ter adivinhado, Hyuuga Hiashi não devolveu suas palavras. Ele virou o rosto para o lado, envergonhado demais com a verdade naquelas frases para encarar a Hokage. Tsunade deixou-o colocar os pés no chão novamente e pretendia voltar para trás de sua mesa quebrada quando ele falou:
- Eu fiz isso a Hinata porque a amo – a frase que Hiashi soltou quase fez Tsunade se voltar para bater nele. Iria dar-lhe um soco tão bem dado no queixo que o faria voar por sua janela – Quando eu percebi que tinha escolhido a vida errada para ela, a única escolha que eu tive foi tentar deixa-la endurecida para agüentar a vida shinobi.
- Está dizendo que você a desprezou para incentivá-la? – só que quem soltou a pergunta não fora Tsunade, mas Naruto. Ele estava possesso e Sakura apertava seu braço para não deixa-lo se adiantar e quebrar a cara de Hyuuga Hiashi ele mesmo – Ela passou a vida acreditando que você a odeia!
- Ela tem todo o direito de me odiar também.
- Não é bem assim, Hyuuga-sama – Shikamaru estava recostado à janela e já tinha terminado seu cigarro. Ele brincava com o isqueiro e as pessoas da sala o encararam – Pode perguntar para qualquer um e todos vão responder que Hinata é incapaz de odiar uma pessoa. De qualquer forma, parece que o seu tratamento com ela deu certo...
- Shikamaru! – gritou Naruto indignado, mas o Nara apenas limitou-se a lançar-lhe um olhar para calar a boca.
- Hoje ela é uma das melhores ninjas de elite ANBU sob as ordens da Quinta Hokage – Hiashi arregalou os olhos, seguido de Neji, Naruto e Sakura. Aquela era uma informação confidencial que apenas os mais próximos a Hokage sabiam, mas não havia perigo em revelar a identidade de Hinata para aquelas pessoas – E, por mais problemático que seja, estou dizendo isso porque vocês fugiram do tema inicial da sua vinda até aqui, Hyuuga-sama.
Com as palavras de Shikamaru, tanto Tsunade como Hiashi lembraram-se do que discutiam antes das habilidades de Hinata terem sido colocadas sob os holofotes.
- Qual é o problema entre o Clã Hyuuga e Masaru Ren? – finalizou Shikamaru olhando de Tsunade-hime para Hiashi, ambos encarando o chão.
Sempre soube que o Clã Hyuuga é um dos mais antigos, poderosos e influentes Clãs, não só da Vila da Folha, mas do País do Fogo. Hiashi me confidenciou que o patriarca do Clã mantém relações estreitas até com o Daimyo. O que nunca poderia imaginar é que todos eles – sim, todos mesmo – viriam para o meu casamento. Sei que não é apenas o meu casamento, mas também o dia em que Hiashi toma posse do Clã, se tornando ele mesmo o líder, e uma celebração de suma importância.
Não são todos que podem estar presentes – é uma festa seleta apenas para as pessoas mais importantes dos Clãs com quem o Clã Hyuuga mantém relações. O que não diminui nem um pouco o grandioso número de convidado. A maioria das pessoas daqui – aquelas que não são da Vila – eu nunca vi antes de hoje e, mesmo assim, eles estão aqui para compartilhar comigo o melhor dia da minha vida, tenho que tentar ser simpática, o que não é de grande dificuldade para uma gueixa.
Até a hora de dançar. Os convidados se sentaram em seus lugares, através das finas cortinas de gaze eu procurei Hiashi com os olhos. Não me importa dançar na frente de tantas e tantas pessoas, porque a única pessoa a quem eu quero agradar é ele. Esta é minha última dança como uma gueixa do Clã Hyuuga. As próximas vezes em que eu ouvir música – ou mesmo sem ela – e segurar os leques ou os panos ou mesmo nada, será apenas para ele.
As cortinas de gaze se separaram, os últimos burburinhos do salão cessaram. O quimono de noiva é bem mais pesado que um quimono normal, mas não atrapalha. A maquiagem foi refeita e deixou de ser aquela leveza de uma noiva para deixar meu rosto branco, meus olhos destacados pelo carvão e minha boca carmim – a pintura do rosto de uma gueixa. O shamisen e o shukahachi tocavam suavemente notas ora compridas e calmas, ora curtas e lentas. Em minhas mãos, como se o peso do quimono não fosse o bastante, eu segurei duas espadas para encenar a história de uma princesa guerreira que precisou, sozinha, defender seu castelo de um exército de monstros. Com um movimento teatral, deixei ambas as espadas caírem. No fim, a princesa não consegue proteger seu castelo, mas ela morre e leva consigo o Lorde que queria tomar seu reino. Soltei os cabelos com um movimento discreto e caí no chão quando as luzes do salão ficaram vermelhas e a música cessou.
Os aplausos ecoaram por vários minutos em meus ouvidos e eu me retirei do palco ainda ouvindo-os, depois de efusivas reverências e agradecimentos. Mantive o cabelo solto e retirei a maquiagem de gueixa antes de voltar ao salão e aos inúmeros convidados.
- Hikari – chamou Hiashi quando me alcançou. Ele ficou muito bem nesse quimono negro de casamento. Ele segurou meu braço me fazendo segui-lo enquanto sussurrava no meu ouvido com um sorriso discreto – Vamos tomar um ar, este lugar está cheio e as pessoas não nos dão sossego.
Hiashi espalmou a mão em minhas costas e tentamos sair o mais discretamente possível do salão da festa. De relance de olhos vi muitas pessoas da Vila reunidas em lugares próximos, sem fazerem muita questão de terem relações sociais com os chefes de Clãs de fora da vida ninja.
A porta foi corrida atrás de nós e continuamos seguindo pelos corredores externos da mansão. O som da música e das vozes ficou para trás. Senti pena de minhas mestras e companheiras, as gueixas que tinham que se desdobrar para servir e entreter todos os convidados devidamente. Os anciãos do Clã Hyuuga jamais se perdoariam – ou nos perdoariam, as gueixas – se ouvissem alguém reclamando sobre as grandiosidades das comemorações que acontecem sob o teto do Clã.
- Você está feliz? – perguntou-me Hiashi, repentinamente.
Será que eu teria que lhe explicar de novo? Desde a primeira vez que dancei naquela reunião, há mais um ano, que estou feliz. Quando vi como os olhos dele me perseguiam todas as vezes que nos esbarramos nos corredores do Clã, como ele me lança sorrisos bobos quando eu danço, sorrisos que nem ele deve perceber que esboça. A primeira vez que ele tocou meu rosto, calmamente com a ponta dos dedos, e, escondidos sob as sombras, eu fiz o proibido e o deixei me beijar. Céus, e quando ele finalmente me disse que os anciãos tinham aprovado nosso casamento e que poderíamos marcar a data? Não poderia me sentir mais feliz!
- Hiashi-aisuru(1) - disse, mas ele entendeu pelo meu tom de voz.
- Desculpe – desde sempre, desde pequenino, Hiashi era um rapaz sério, tal qual Hizashi, apesar de seu irmão ter aprendido a se soltar mais facilmente. Talvez por fazer parte da Família Secundária, talvez por não ter nas costas todo o peso que Hiashi tem que carregar. Não é raro ver os dois juntos pelo Clã hora treinando, hora conversando e hora sendo apenas dois irmãos – É que eu não quero que seus sorrisos desapareçam.
As palavras doces de Hiashi são raras, mas quando ele as declara, eu só consigo corar e começar a gaguejar como uma idiota. Ele deslizou os dedos pela minha bochecha vermelha sentindo a quentura.
- Desculpe interromper, Hiashi-sama – uma voz as minhas costas me sobressaltou e Hiashi tirou a mão de perto de mim. Coloquei-me atrás dele como uma esposa deve fazer e minhas mãos se colocaram uma por cima da outra em frente as minhas pernas.
- Não interrompeu, Masaru-san – respondeu Hiashi. Mentiroso, pensei, e reprimi um sorriso.
- Vocês saíram da festa e logo nós iremos partir – continuou Masaru se aproximando – Gostaria de lhe apresentar meu filho, Masaru Ren, que herdará meu feudo e que eu espero que mantenha as boas relações de amizade com o Clã Hyuuga.
Masaru Kamiyo era já um senhor grisalho detentor de um farto bigode também branco e olhos verdes e inteligentes. Tinha uma expressão forte e sabia manter relações tão fortes quanto suas feições com todas as pessoas que conhecia. Seu filho Ren era ainda um rapazote, talvez da mesma idade de Hiashi. Ele tinha olhos verdes como o pai, mas uma expressão da qual eu não gostei, especialmente quando botou seus olhos sobre mim.
- Pode me acompanhar por um breve passeio pelo jardim? – perguntou Kamiyo a Hiashi. Era um pedido a qual meu marido não podia recusar, por mais que relutasse em dar um passo à frente, eu percebi.
- Claro – respondeu, enfim – Hikari, por favor, leve Ren-san de volta ao salão.
Acenei que obedeceria ao pedido e ia fazer uma reverência para me retirar com o jovem Ren, quando Masaru-san nos parou:
- Não há necessidade, podem esperar aqui porque eu prometo que não vou tomar muito do seu tempo, Hiashi – Kamiyo era um velho bem humorado e ele e Hiashi seguiram pelo corredor até a escada que os levaria para o fundo do jardim. Eu fiquei olhando-os se afastar sem querer começar uma conversa com Ren, por mais que fosse isso que meus ensinamentos de gueixa me obrigassem a fazer.
- Você está muito bonita, Hikari-sama – disse Ren e nem ousei levantar a cabeça, constrangida. Quem aquele rapaz achava que era? – Hiashi-sama realmente tem muita sorte de tê-la como esposa.
Respirei fundo e tentei me colocar a responder. Afinal de contas, eu sou uma gueixa do Clã Hyuuga e somos famosas por nossas danças e por nossa eloqüência nas conversações.
- Tenho certeza que também há muitas mulheres que teriam sorte de tê-lo como marido, Ren-san.
- Gostaria você de ter essa sorte? – ele perguntou e eu arregalei os olhos, achando que não tinha entendido direito. Com uma risadinha, Ren desconversou – Posso esperar por uma filha sua, quem sabe.
Minha garganta ficara muito seca para que eu pudesse responder qualquer coisa e me limitei a olhar para o jardim de onde eu vi Hiashi voltando a passos largos, o semblante fechado como se tivesse sido profundamente ofendido. Dei um passo à frente para perguntar-lhe o que aconteceu, mas Hiashi só pegou-lhe pela mão e continuou andando. Passou por Ren como se quisesse atropelá-lo.
- Não lide com isso desta maneira, Hiashi-sama – disse Ren. O pai dele também se aproximava vindo do jardim.
- Você e seu pai vão sair da minha casa imediatamente. Não vou chamar os guardas para não fazer escândalo na minha festa de casamento, mas saiba que se voltar a pisar nos arredores da Vila da Folha, eu não terei piedade – grunhiu Hiashi de um jeito que eu nunca o vira agir antes. Estava tomado pela fúria – As relações entre o Clã Hyuuga e o feudo Masaru estão permanentemente cortadas.
Hiashi continuou me puxando até nos afastarmos de pai e filho, mas não permiti que retornássemos a festa com os ânimos de Hiashi a flor da pele. Ele se encontrava em tal estado de raiva que só faltava espumar pela boca como um cão. Enfiei-nos numa saleta vazia do Clã, quarto de alguém que não me importei no momento, e coloquei as mãos nos seus ombros, tentando acalma-lo para me contar o que tinha acontecido e, além de expelir sua raiva, satisfazer minha curiosidade.
- Hiashi-aisuru – chamei-o e seus olhos se abriram. A respiração voltava ao normal e ele já parecia mais calmo – O que Kamiyo-san lhe disse?
- Você falou com Ren? – ele perguntou de repente – O que ele disse para você, Hikari?
Travei o maxilar e tentei pensar em algo para lhe dizer. Não podia repetir as palavras de Ren, podia? Não todas as palavras, pelo menos.
- Ele disse que você tinha sorte em me ter como esposa e que esperaria poder se casar com uma filha nossa – respondi-lhe editando um pouco as palavras de Ren – Mas o que foi que Kamiyo-san lhe disse, Hiashi-aisuru?
Percebi que ele voltaria a se zangar e passei a mão pelo seu rosto, tentando conte-lo. Hiashi fechou os olhos e me respondeu ainda com eles dessa maneira, sem me encarar:
- Ele me fez a mais incabível das propostas! – ele grunhiu – Ele me ofereceu uma absurda quantia em dinheiro e relíquias shinobi para o filho poder ter... – percebi a dificuldade dele em concluir a frase, como se tivesse nojo do que Masaru dissera – Poder ter o seu mizuage.
E entendi a causa de seu nojo. Eu mesma senti nojo. Como aquele velho asqueroso ousava pedir para que, no dia do meu casamento, eu venda o que guardei para Hiashi? Não há vendas de mizuages dentro dos costumes das gueixas do Clã Hyuuga justamente para que possamos ser desposadas e termos uma vida em família. Não dançamos e entretemos homens para que um deles se apaixone por uma de nós e nos dê conforto e proteção, como um danna. Não somos maculadas exatamente pelo motivo que os homens que nos escolhem – e a quem nós escolhemos – serão nossos futuros maridos.
- Como ele pôde pensar que eu aceitaria uma coisa dessas? – Hiashi abriu os olhos e encarou fundo nos meus – Como ele...
- Calma, Hiashi-aisuru – eu tentei faze-lo esquecer. Aquilo jamais aconteceria, porque nem Hiashi iria deixar e nem eu me sujeitaria àquela vergonha. Mas entendi e compartilhei com Hiashi a indignação perante aquela proposta descabida.
Sem esperar, os braços de Hiashi me rodearam. Ele não me deu espaço e minhas mãos ficaram espalmadas em seu peito. Agarrei com força seu quimono negro de casamento e fechei os olhos para sentir seu cheiro almiscarado.
- Hiashi-nii-san – ambos reconhecemos a voz divertida de Hizashi quando a porta se abriu. Desvencilhei-me de Hiashi, constrangida, e fingi ajeitar meu quimono branco quando Hizashi continuou – Ainda não é hora de tomar a noiva só para você.
- Não seja atrevido, otouto(2) – respondeu Hiashi, mas eu pude distinguir a nota mais tranqüila em sua voz – Vamos voltar para a festa, Hikari.
Concordei com um aceno e permiti a ele me guiar de voltar ao salão. Nunca contei as verdadeiras palavras de Masaru Ren para Hiashi, ele iria correndo atrás dele para matá-lo. Foi com minhas melhores amigas, Tsunade, Kushina e Mikoto, com quem eu dividi o peso.
O sol logo nasceria e Hinata ainda não tinha parado de correr. Suas pernas já estavam bambas e seu estômago reclamava. Estava até surpresa que não tivesse desmaiado ainda. Quando teve certeza que passou a barreira da Vila e já estava no território da Folha, ela reduziu a velocidade. Pulou a árvore onde estava correndo sobre os galhos e ao atingir o chão sentiu seus joelhos fraquejarem. Ativou sua linhagem e procurou por um riacho ou córrego onde pudesse descansar por uma hora antes de entrar na Vila. Naruto e Sakura deveriam ter chegado ao meio dia do dia anterior e, se tudo tivesse se desenrolado como Sasuke gostaria, Naruto teria percebido as segundas intenções escondidas nas palavras do Uchiha e alertado Tsunade-sama.
A moça encontrou um córrego não muito afastado e, com alguma dificuldade, foi até ele. Colocou suas coisas sobre uma das pedras da margem e ajoelhou-se pegando água em concha e jogando sobre seu rosto fazendo a franja farta grudar-se em sua testa. Bebeu muita água, também, e sentou-se colocando os pés dentro da água corrente.
- Que gostoso! – sussurrou Hinata para si mesma ao inclinar o corpo para trás e deitar-se na grama da margem do riacho. Abriu os olhos para o céu muito azul do País do Fogo – Será que Sasuke está bem?
"Que pensamento bobo, Hinata" rebateu a voz de dentro de sua cabeça "Ele é Uchiha Sasuke, é claro que está bem".
Hinata suspirou. Ele é Uchiha Sasuke. Quando em sua vida pensara que podia sentir qualquer coisa além de respeito e curiosidade sobre o último dos Uchiha? Mas ela também não pensara que nunca teria oportunidade de usar aquele jutsu antigo do Clã Hyuuga? E também não pensara que nunca seria louca de dizer a Naruto o que sentia? Mesmo que seus sentimentos eram equivocados, ao menos ela se declarara.
O que Ino diria? Bem, talvez não muita coisa, já que agora ela está firmemente namorando Shino. Com Shino. Aburame Shino. Seu amigo, seu companheiro de equipe, o cara mais improvável do mundo para Ino se apaixonar. Se bem que ela manteve o padrão de morenos e calados, certo? Hinata sorriu. Quem iria mesmo surtar ao saber era Karin. Sim, a antiga companheira de Sasuke na época em que ele ainda era um traidor. Ela, Suigetsu e Juugo tinham cedido seus serviços a Folha, assim como Sasuke. Eles não davam muito trabalho, tirando o fato de que, sempre que estava na Vila, quando não tinha missões, Karin ficava correndo atrás de Sasuke de todas as maneiras possíveis.
E isso preocupou Hinata por um momento. Sasuke acabara lhe contando que já dormira com Sakura – o que chocou Hinata por alguns momentos -, então e se ele também já tivesse dormido com Karin? Ora, ela era linda e estava o tempo todo se jogando para cima dele! Balançou a cabeça para os lados e mandou os pensamentos para longe. Não importava, não era como se Hinata fosse pedir a Sasuke todas as informações sobre as mulheres que tinham passado por sua cama. E sua sala, cozinha, banheiro...
"Estou sendo paranóica!" repreendeu-se e sentou-se na grama. Encarou o horizonte por cima das árvores. Já estava tudo claro o suficiente para ela saber que o sol já nascera por completo.
Tirou os pés da água e secou-os com a yukata que despira. Abriu a sacola e resistiu ao desejo de passar as mãos sobre o quimono preto com a garça branca de penas vermelhas que Hae-san lhe devolvera, o quimono Uchiha. Não tinha tempo para perder com parvoíces. Amarrou os seios bem apertados com as faixas, colocou o short preto apertado que descia até o meio das coxas, a blusa sem mangas de gola alta. Vestiu as luvas que lhe subiam até acima dos cotovelos, mas não continuou vestindo o uniforme padrão dos ninjas ANBU. Ela era elite da ANBU, líder de um time, não precisava. Tirou o lenço roxo de entre suas coisas e amarrou ao quadril. O lenço era apenas um pretexto para esconder o cinto onde Hinata guardava várias kunais. Amarrou a bolsa de shurikens à coxa e a outra, menor e marrom, às costas. Os líderes ANBU de elite normalmente tinham direito a escolher uma arma especial, feita de metal para conduzir seus respectivos chakras, mas Hinata recusara. Seus punhos leves eram as únicas armas de que precisava. A bandana foi presa em volta do pescoço, como habitual, e a última coisa que ela precisava: a máscara de feições felinas. Amarrou os cabelos em um coque mal feito e colocou a máscara sobre o rosto. Voltou a amarrar a trouxa com o quimono de sua mãe.
A distância até a Vila da Folha foi percorrida sem dificuldades. Quando chegou ao grande portão, ele se encontrava fechado. Claro, com a batalha às portas da Vila, nenhum lugar iria ficar aberto, escancarado ao inimigo. Bateu na porta lateral, menor e mais difícil de ser vista. Kotetsu abriu um pequeno retângulo de madeira para saber quem era.
- Diga a senha – ordenou de pronto.
- "A perda não pode ser lida, apenas sentida"(3) – repetiu Hinata e Kotetsu fechou o retângulo e deixou-a entrar.
- Onde está Tsunade-sama? – perguntou a garota.
- Não faço idéia, já faz algum tempo que Izumo não me trás notícias sobre nada – reclamou o ninja da guarda – Tente no Prédio do Fogo ou no centro da Vila, que é onde estão reunindo os civis. Parece que o tal Masaru Ren conseguiu um novo flanco.
- Sim, estou ciente – Hinata acenou e sumiu numa nuvem de fumaça branca.
- ANBUs! – desdenhou Kotetsu – Eles estão sempre cientes de tudo.
- Onde está Hinata? – perguntou Sasuke a Ren enquanto as barracas estavam sendo desmontadas. O sol ainda estava nascendo.
- Mandei-a de volta ao feudo – respondeu Ren dando de ombros, sem encarar Sasuke. Por dentro o Uchiha sorria ao ver o roxo sobre o nariz quebrado de Ren. Ele ainda tinha pedaços de um lenço dentro das narinas para estancar o sangue. Quando os guardas perguntaram a Ren o que tinha acontecido, ele mentira ao dizer que era sonâmbulo – Decidi que ela não precisava ver tanta carnificina na batalha.
- Sozinha? – Sasuke voltou a perguntar.
- Não se preocupe, Uchiha-san – grunhiu Ren. Ele não parecia estar em seu mais bom humor – Mandarei busca-la quando a batalha acabar e formos vitoriosos. Você poderá usufruir dela de novo – e só assim o senhor feudal o encarou, com um sorriso que devia ser arrogante – Se tiver mais duzentas peças de ouro, é claro.
Sasuke deu-lhe as costas sem aparentar nada. Por dentro, porém, ele sabia bem quando poderia usufruir de novo de Hinata. Depois que toda aquela imbecilidade acabasse, com a Folha vitoriosa, e sem maiores perigos rondando sua Vila.
O acampamento foi levantado, os cavalos foram montados. Estranho, o cavalo de Hinata estava mesmo faltando, como se ela tivesse ido para o feudo, mas Sasuke bem sabia que ela tinha partido a pé. Não importava, talvez Ren tivesse mandado um dos guardas matar o pobre animal, mas se perguntasse levantaria mais suspeitas. Ficou em silêncio e seguiu a caravana a galope em direção a Vila Oculta da Folha.
Uma águia mensageira seguia em direção ao Prédio do Fogo. Hinata corria sobre os telhados quando a avistou e seguiu-a. A águia parou no poleiro das aves e Hinata correu pelas escadas para chegar o mais rápido possível para se apresentar a Hokage. Parou atrás da porta de Tsunade e fez o jutsu que os ANBUs normalmente usam para aparecerem dentro da sala da Hokage e saírem de lá com a mesma rapidez de um sopro. Sentiu um pequeno puxão e apareceu com um joelho no chão, o punho fechado sobre o joelho flexionado e a cabeça baixa.
- Relatório da missão, Hokage-sama – disse para despistar qualquer um que pudesse estar na sala.
- Hinata-sama! – ela ouviu a exclamação e já sabia perfeitamente quem era. Levantou a cabeça a tempo de ver Neji se adiantar a ela e levantou-se. Como ele poderia saber quem ela era? E respondeu a essa pergunta quase no mesmo momento que a formulou: sua voz – Você está bem? Está machucada? Fizeram algo a você?
- Eu e-estou bem, Ne-neji-nii-san – ela respondeu sem tirar a máscara, assim ele não precisaria ver o quão corada ela se encontrava por causa daquela preocupação exacerbada.
- Que bom que retornou, Hinata – disse Tsunade a morena se voltou para ela – Eu quase já não conseguia mais segurar Neji na Vila.
Corou ainda mais. O primo tinha mesmo que fazer isso com ela? Não havia necessidade de preocupar-se tanto, ela é uma ANBU.
- Hyuuga Hinata, relate a missão – pediu a Hokage para evitar o clima que estava se formando.
- Masaru Ren está avançando e pretende atacar pelo flanco principal, ao norte. Uchiha Sasuke está com ele mantendo o disfarce e irá criar uma oportunidade para pega-lo desprevenido quando chegarem a Vila – Hinata fez uma pausa – De acordo com Sasuke-san – quase riu de tamanho respeito que usava para com ele – Apenas se os soldados de Ren o virem cair é que recuaram, do contrario poderão pensar que estamos blefando.
- Não é imprudência deixar que eles se aproximem tanto da Vila, Tsunade-sama? – perguntou Neji.
- Talvez seja um pouco de imprudência, mas Sasuke tem razão – ponderou a Hokage – Apenas se eles virem Ren cair é que recuarão. Para deter a aranha, esmague a cabeça.
A sala ficou silenciosa por alguns momentos enquanto Hinata ouvia o movimento da Vila. Pessoas gritavam coisas, outras pessoas respondiam. Apesar da gritaria, não era o mesmo som da Vila quando estava em paz. Não havia o som de cascos de animais, latidos, miados, cantos de pássaros, risos, brincadeiras. Não havia nenhum som que remetia as coisas à paz.
- Em que posso ser útil, Hokage-sama? – perguntou Hinata querendo prontamente ajudar em alguma coisa.
- O seu time de ninjas ANBU está prestando alguns serviços a pedido meu – ela informou – Vá para casa e descanse. Os mandarei procurá-la assim que terminarem seus afazeres.
- Não preciso descansar – devolveu Hinata.
Tsunade suspirou. A teimosia de alguns de seus ninjas a cansava. Ironicamente os ninjas mais teimosos eram aqueles que tinham alguma relação com Naruto.
- Tsunade-sama – chamou Neji atraindo-lhe a atenção.
- Ah, desculpe, Neji, esqueci que você ainda está aqui – ela riu, mas o Hyuuga não pareceu achar graça – Sobre que estávamos falando?
- Hiashi-sama quer coordenar os ninjas do Clã Hyuuga para atacarem Masaru Ren diretamente, pelo flanco norte, e queremos a aprovação da Hokage para tal – ele pediu e as sobrancelhas da Quinta se uniram em desagrado.
- Quem Hyuuga Hiashi pensa que é? – urrou a loira – Será que eu ainda não ensinei a ele uma boa lição? Como ele ousa querer contrariar meus planos?
- Ele pediu para deixá-lo fazer isso em memória de Hikari-sama – finalizou Neji.
Hinata ficou sem entender ali no canto. Ela retirara a máscara e encarava de Tsunade, que emudecera, para Neji. O que eles estavam fazendo falando de sua mãe? E porque Hiashi queria fazer uma coisa dessas em memória a ela?
- O... O que está acontecendo, Neji-nii-san? – ela perguntou, mas o primo não fez movimento – Tsunade-sama?
- É melhor que seu pai explique, Hinata – Tsunade voltou a sentar. Na verdade nem percebera que tinha se levantado – Ele e você têm que colocar alguns assuntos em ordem, por isso pedi que fosse para casa.
A Quinta, então, voltou-se de novo para Neji. Ponderou por alguns segundos antes de responder:
- As habilidades do Clã Hyuuga são importantes para a segurança da Vila, não posso permitir que todos fiquem em apenas um flanco – ela explicou – Diga a Hiashi que permito que ele escolha quinze ninjas Hyuuga para o flanco norte, incluindo você e Hinata, se ela aceitar.
- Mas... E o meu time? – ela queria aquele flanco por causa de Sasuke, não entendia ainda o que o pai planejava, especialmente quando colocou o nome de Hikari no meio.
- Sai pode ficar responsável pelo seu time.
- Hiashi-sama e o Clã Hyuuga agradecem, Tsunade-sama – Neji ver uma reverência e deu as costas a Hokage. Ele olhou para a prima e esta concordou com um aceno que o seguiria, recolocando a máscara, mas parou de fazê-lo quando a voz da Quinta soou de novo.
- Espere um segundo, Hinata – pediu a Hokage e ambos os Hyuuga pararam – Você pode esperar lá embaixo, Neji.
O moreno fez outra reverência e deixou a sala. Quando a porta bateu, a loira pediu a Hinata que se aproximasse mais da mesa. Foi só naquele momento que a Hyuuga percebeu que a mesa de Tsunade estava pregada com tábuas para não cair partida em dois pedaços. Calculou que aquilo fora causado por um ataque de fúria da Hokage da Folha.
- Sakura me colocou a par de todos os acontecimentos da missão – os olhos âmbar encararam Hinata demoradamente – Absolutamente todos.
A Hyuuga corou e abaixou a cabeça. Estava com vergonha de Tsunade saber assim, mas não arrependida.
- Só espero que Sasuke não tenha te obrigado a nada.
- Não! – gritou a garota, depois percebeu o olhar divertido da outra – Não, eu... E-eu consenti.
- Quem imaginaria! – riu a Hokage. Para ela era um alívio poder dar um pouco de risada em meio ao caos que estava a Vila da Folha. Mesmo que não aparentasse, ela estava ficando velha para tudo aquilo – Você e Uchiha Sasuke.
- Por favor, Tsunade-sama – a voz da morena não passava de um sussurro – Por favor – repetiu – Não conte a ninguém!
- Está me chamando de fofoqueira, Hyuuga Hinata?
- Não, de f-forma alguma, eu só...
- Estou brincando, Hinata, fique calma – ela continuava rindo. Como era fácil constranger essa garota – Eu não vou falar nada, nem Sakura e nem... Bem, eu não posso garantir nada sobre Naruto, já que ele é um tremendo idiota.
Hinata não respondeu. Ela, como todos os amigos de Naruto, e até a própria Tsunade, não precisava deixar claro que confiava cegamente do loiro Uzumaki.
- Só me chame quando Sasuke for falar com seu pai, não posso perder a cara que Hiashi fará! – ela finalizou e dispensou Hinata de sua sala.
A garota voltou a colocar a máscara antes de começar a andar pelos corredores. Quando chegou a esquina para descer as escadas, uma mão puxou seu braço e ela colidiu com algo duro e macio ao mesmo tempo. Demorou uma mísera fração de segundos para ela concluir que era Neji que a tinha prendido contra si em um abraço.
- Nii-san... – ela chamou querendo se desvencilhar dele. A proximidade a incomodava, porque de alguma forma ela sabia que Neji não sentia por ela o mesmo que ela sentia por ele. Corou quando ele apertou ainda mais seu corpo ao dele e os cabelos negros e compridos do primo fizeram cócegas em seu nariz.
- Fiquei preocupado – ele sussurrou em seu ouvido e Hinata precisou fechar os olhos.
Por que as coisas tinham que ser tão difíceis?
Agarrou ao quimono do primo querendo o contato do carinho fraterno que deveria receber dele e mandou para o inferno se aquele gesto poderia parecer a ele um ato de encorajamento. Era assim tão errado querer o primo por perto sendo apenas isso, seu primo, seu irmão, quando ele não se sentia assim? Havia uma batalha prestes a acontecer lá fora e ela nem podia se dar ao luxo de abraçar uma das pessoas mais importantes da sua vida sem que ele pensasse que ela estava retribuindo seus sentimentos. Talvez o perdesse! Será que Neji não pensava nisso?
Não, ele não pensava. Ele apenas sentia. O gênio do Clã Hyuuga, aquele muito conhecido por suas habilidades fantásticas e rápido raciocínio. Ele e Shikamaru juntos eram considerados os melhores estrategistas da Vila da Folha. E quando ele tinha Hinata tão perto de si, ele não pensava em mais nada além do contato da prima. Como sentira falta da pele macia, da voz de sinos, do cheiro de canela. Isso sempre acontecia quando ela ou ele se afastava por mais de uma semana de casa.
Libertou Hinata do aperto quando ouviu passos pelo corredor subindo as escadas.
- Vamos para casa, Hinata-sama.
(1)Aisuru: Algo como querido, amor, benzinho. A partir disso, interprete como quiser.
(2)Otouto: Irmão mais novo.
(3)"A perda não pode ser lida, apenas sentida": Parte de um poema recitado no filme "Memórias de Uma Gueixa".
Olá!
Demorei? Imagina! Por favor, sem pedradas, eu preciso da minha cabeça inteira para continuar escrevendo. Quero pedir desculpas pela demora e agradecer a todas as pessoas que, mesmo assim, não abandonaram e nem abandonarão está fic, obrigada sinceramente. Agradeço também a todos que lêem-na e espero que tenham gostado deste capítulo. Quero muito saber suas opiniões. Desculpe algum erro que me passou despercebido, eu não tenho beta.
AGRADECIMENTOS:
Guida-Hyuuga, Aglaubia15, FranHyuuga, sussex', Elara-chan(2), Ariii(2), pandoraff93, annaakeelly(2), hinahinaaaa, gesy, Madly Silly, Bela F., faninha, Lidy-chan, Samantha Moon s2, jessica-semnadaprafaze123(2), Luciana Fernandes(2), Hana-Lis(2), Louise, Bonnie w. boyd, Yuna Queen, gabriela(2), Hossana(3), mafe c s2, B. Lilac, Pisck, Mandy .Usagi-chi, Lust Lotu's e gabi.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)
