LEMBRANÇAS DE LUZ


Capítulo Treze – "Só que coração meu podia mais.".(1)

Havia um brilho azul por toda a clareira. Se não estivesse com seu Sharingan ativado, a luz o teria deixado desnorteado e com certeza teria sido atingido. Mas o ataque de Hinata desvaneceu-se, fraco, antes que Sasuke tivesse alguma chance de se defender.

A luz sumiu. E só restauram os olhos dela, brancos, levemente lilases ao redor, encarando seus olhos vermelhos com gratidão. E um sorriso nos lábios cobertos de sangue.

Como tudo aquilo podia estar acontecendo tão rápido e parecer tão devagar?

Não houve sequer tempo para os olhos perolados se fecharam enquanto Hinata caia, sem forças. Os braços de Sasuke conseguiram amparar a queda, mas seus lábios não foram fortes o bastante para conter o grito que veio do fundo de seu peito quando sentiu sangue escorrendo de um ferimento horrível no ombro e outros inúmeros ferimentos menores pelo corpo.

Imediatamente apenas o pior percorreu sua mente.

A floresta estremeceu:

- HINATA!


No fim não foi o ataque dos Punhos Gentis dos Leões Gêmeos de Hyuuga Hinata que pôs fim a vida de Masaru Ren, mas um Rasengan cheio de raiva de Uzumaki Naruto. No fim, não importava, pois o resultado foi o mesmo.

Os exércitos do senhor feudal do Norte foram desfeitos. Os camponeses voltaram para suas terras com mais alguns impostos a serem pagos por danos causados a Vila Oculta da Folha. Os ninjas e mercenários foram presos e esperam as execuções de suas sentenças. O feudo de Ren foi entregue a um senhor feudal vizinho e sua coleção de objetos raros, confiscados pela Hokage.

À Vila foi reconstituída a sua paz. Em duas semanas, os prédios já estavam sendo reconstruídos, os locais das batalhas arrumados e limpos, as pessoas se recuperando. Todos se movendo juntos com a Vontade do Fogo, pois é assim que funciona a Folha.

De todo buraco, há ao menos uma saída: para cima.

Menos para Uchiha Sasuke.


- Nós estamos fazendo todo o possível – dizia Sakura pela quinta vez para uma Hanabi impaciente e um Neji a beira da aflição. Hiashi também estava presente e escutava calado, de olhos duros. Kiba e Shino estavam atrás dos Hyuuga, com o primeiro andando de um lado para o outro – Os ferimentos dela não são graves, a maioria já cicatrizou, e é exatamente por isso que estamos preocupados, não há razão para Hinata estar perdendo sangue.

Naruto ia visitar Hinata todos os dias e mantinha-se informado de sua situação por Sakura. Os lírios laranja que ele levava ficavam na cabeceira da moça, juntos de girassóis, crisântemos, margaridas, todos em tons solares.

Sasuke não estava em lugar nenhum para ser encontrado.

- Veneno? – Hiashi perguntou categórico.

- Sim, já pensamos nisso e fizemos inúmeros exames. Se for realmente veneno, não é nenhum que conhecemos.

- Lembre-se com quem Hinata estava lutando, Sakura – Shino quebrou o curto silêncio que se formara – Masaru Ren tinha uma coleção de objetos místicos, o que colocou Hinata nesse coma autodestrutivo não deve ser algo comum.

- Sim, estamos analisando os pertences dele também, mas ainda não encontramos nada para esclarecer a situação – o olhar de Sakura naquele ponto era tão frustrado quanto o dos outros presentes sem poder para ajudar à morena Hyuuga – Por enquanto só podemos pedir para que vocês sejam pacientes.

- Neji, Hyuuga-san – Tenten vinha apressada pelo corredor, o máximo que conseguia sem ter que correr. Todos se voltaram ao ouvirem o chamado, ela fez uma reverência breve para o mais velho do local – Alguma notícia sobre a situação da Hinata-chan?

- Ainda não há sinal de melhora, Tenten – respondeu Sakura.

A perita em armas balançou a cabeça confirmando a informação e depois se voltou para os Hyuuga que chamara:

– Neji, Tsunade-sama quer que um dos Hyuuga ajude com as buscas nos pertences de Masaru Ren, ela acredita que ele possa ter coisas que olhos normais não estejam enxergando. E ela quer conversar com você diretamente, Hyuuga-san.

- Vamos lá imediatamente – determinou Hiashi ponde-se em marcha, assim como Neji e Hanabi, mas Sakura deteve a última.

- Hanabi-chan, espera – chamou a médica – Eu preciso que você me ajude. Pela sua ficha, seu tipo sanguíneo é o mesmo da Hinata-chan. Ela precisa de uma transfusão.

"Por enquanto Hinata-chan ainda está estável, apesar de estar perdendo sangue numa progressão aritmética", era o que passava pela cabeça da rosada enquanto ela via Neji e Hiashi se afastarem e Hanabi dar um passo a frente para ajudar com o que fosse possível "Mas se nada for feito logo, em algum momento ela começará a perder mais sangue do que podemos repor".

- Os estoques de sangue do tipo A estão baixos depois da batalha, desculpe ter que pedir isso a você.

- Não tem problema, Haruno-san. Provavelmente é até melhor, sangue de pessoas de fora do clã tem maior probabilidade de entrar em conflito com os anticorpos do Byakugan. Vou pedir a alguns outros membros para virem doar sangue para Hinata-nee-san.

- Isso seria de grande ajuda.

- Sakura!

- Tenten, você precisa de mais alguma coisa?

- Só do que eu já expliquei – suspirou a morena – Olhos que vejam o que os meus não podem. Sabe onde aquele idiota do Uchiha Sasuke está?


Aquele som de apitar conseguia ser ainda mais irritante do que a voz de Ino e Sakura juntas, quando elas ainda o perseguiam por aí, em dias há muito passados. Mas naquela época ele ainda podia fazê-las calar a boca. Quanto ao apito, se parasse, era o fim.

Ficava em pé ao lado dela, todas as noites, depois de esgueirar-se pela janela do hospital sem ser visto, se perguntando quando é que aquela moça pequena, de aparência frágil e de coração forte e gentil começara a ser tão importante para ele a ponto de fazê-lo preocupado como um idiota, desesperado com a idéia de que, daquela vez, ele não poderia salva-la, que ela mesma não poderia se salvar – por mais que reconhecesse e confiasse na força dela.

Não era tristeza, porque ela ainda estava ali, respirando, viva. Era apenas vazio, como quando todo o seu Clã fora massacrado, como quando deixara Naruto desacordado no Vale do Fim, como quando seu irmão lhe dissera "eu te amo" e depois se fora. Era aquela sensação de ter alguma coisa muito preciosa escorrendo por entre seus dedos como areia, grão após grão.

Poderia sentir esse mesmo vazio por Sakura ou Naruto? Provavelmente sim. Mas com Hinata parecia mil vezes pior, porque ele tinha começado, ele ousara, mesmo que relutante, mesmo que próximo e curto e incerto, a imaginar um futuro ao lado dela.

Deslizou a ponta dos dedos pela pele muito pálida das maçãs do rosto que, se Hinata estivesse acordada, iriam se avermelhar com incrível facilidade. Havia olheiras sob os olhos tão bonitos, mesmo que ela estivesse desacordada desde que a tomara nos braços naquela floresta, vertendo sangue do ombro e dos lábios. Ela podia estar de olhos fechados, mas não estava descansando. E ela estava ainda mais magra deitada naquela cama, com aquelas horríveis roupas de hospital, com um tubo de soro num braço, uma bolsa de sangue no outro e um aparelho para auxílio de respiração. O braço direito onde a agulha de sangue estava espetada tinha marcas roxas, algumas já velhas e esverdeadas ao redor.

A máquina irritante continuava a apitar.

Os joelhos de Sasuke cederam e ele caiu silenciosamente ao lado dela, segurando-se o melhor que podia na mão pequena.

Agora, toda vez que tentava imaginar um futuro, só conseguia se pensasse que Hinata acordaria e estaria com ele. Quando tentava pensar na outra possibilidade, a de que, talvez, ela não saísse viva daquele hospital, havia apenas escuridão e vazio.

Ficou com ela pelo que pareceu uma vida, mas ainda era apenas madrugada quando uma das enfermeiras entrou no quarto. Sasuke usou um jutsu para camuflar sua presença e já tinha aparecido de novo quando a moça testou todos os sinais vitais da Hyuuga, rabiscou alguma coisa no prontuário ao lado da cama e saiu batendo a porta de leve.

Como sempre acontecia certa hora da noite, umas poucas lágrimas finíssimas escorreram dos cantos dos olhos fechados de Hinata. Sasuke as secava confiante de que aquilo era a morena lutando contra o que quer que fosse que a estivesse mantendo em coma. Por isso ele lhe secava suavemente as lágrimas das bochechas, dedos calejados e quentes em contato com a pele fria e pálida, doente.

Depois de duas semanas naquela rotina, as olheiras do Uchiha já estavam quase tão ruins quanto às de Gaara. Às suas costas a janela começava a receber os primeiros raios de luz da manhã. Espiou por cima do ombro antes de se voltar para a morena sobre a cama, se inclinar suavemente e beijar-lhe os lábios.

Mas Uchiha Sasuke não era nenhum príncipe e Hyuuga Hinata não acordou como num passe de mágica.


Mal tinha clareado quando os olhos azuis se abriram, sonolentos. Naruto não era muito de acordar cedo, mas nos últimos tempos aquilo tinha mudado um pouco. Apoiou-se nos cotovelos ainda de bruços na cama, os cabelos meio amassados e, com certeza, mais arrepiados que o normal.

Ficou admirando a moça de costas para ele, sentada com as pernas numa posição estranha, totalmente concentrada em um monte de papeis e pergaminhos, fazendo anotações enlouquecidas. Ela usava seu casaco laranja e preto, as pernas desnudas. As mangas estavam dobradas várias vezes e os cabelos rosados e bagunçados tinham sido presos apenas para pararem de cair sobre os olhos esmeraldinos, presilhas mantinham a franja para trás.

- Sakura-chan... – chamou levemente, ela não respondeu – Posso comer lámen no café?

- Só se você quiser que eu te bata logo de manhã.

Naruto riu antes de levantar da cama e colocar de volta sua cueca da noite anterior. A Haruno continuou fazendo anotações sem prestar atenção, até o loiro se aproximar dela e virar seu queixo para um beijo rápido. Sakura sorriu e o Uzumaki levantou-se de novo em direção ao banheiro e depois à cozinha. Havia duas semanas que sua geladeira começara a ficar mais bem abastecida. Agora havia ovos, legumes e frutas onde antes havia apenas leite e água. A chaleira em cima da pia fumegava com chá recém-feito. Naruto serviu-se de um pouco antes de voltar para perto da namorada.

- Hinata-chan já teve alguma melhora, 'ttebayo?

- Ainda não. Os ferimentos leves já se curaram, menos aquele corte no ombro. Como ele não queria sarar com chakra, eu tive que suturar. A perda constante de sangue está atrasando a coagulação, é claro, e as veias dos braços dela não vão agüentar mais muito tempo as constantes transfusões e perda de sangue, mesmo com cura por chakra – ao fazer aquela pergunta Naruto viu Sakura entrar em seu modo ninja médica.

A kunoichi largou suas anotações, exasperada. Odiava quando as coisas não faziam sentido e não podia encontrar explicações claras e objetivas para os problemas. Simplesmente não havia um motivo científico para a condição de Hinata, mas quem disse que no mundo ninja todos os motivos tinham que ser baseados em um fato explicado pela ciência? Seu próprio namorado tinha uma besta de puro chakra presa dentro dele e como o corpo dele agüentava aquilo estava além de seu entendimento.

- O teme continua indo lá?

- Todas as noites.

"Aquele idiota achou que eu não ia perceber?", Sakura pensara depois de uma semana quando descobriu que Sasuke se esgueirava para dentro do quarto de Hinata durante a noite, bem fora do horário de visitas. Não disse nada. Aquele era o jeito particular e meio retardado dele de se preocupar.

Sakura encolheu as pernas e bagunçou sua franja, tirando-a do aperto das presilhas. Já tinha chorado um bom tanto com Naruto secando suas lágrimas, não podia continuar daquele jeito fazendo pesquisa atrás de pesquisa sem nenhum resultado.

- Não é sua culpa, Sakura-chan – a voz do loiro era baixa, pouco mais alta que um sussurro – E também você não precisa fazer tudo sozinha.

- Naruto... – ele podia ouvir o choro na voz dela mais uma vez – Sasuke-kun...

Ela soluçou, tomando golfadas de ar para evitar as lágrimas. Diferente das outras vezes em que Sakura quebrou, ela não tinha mais o que chorar. Já chorara o suficiente por si mesma e por seus dois companheiros de equipe, namorado e amigo, que, por sempre se fazerem de fortes, evitavam ao máximo derramar aquelas lágrimas.

Dessa vez, ela só queria colocar palavras para fora.

- Eu amei Sasuke-kun – ela começou e, estranhamente, aquilo não doeu em Naruto – E ele foi embora, mas você... Você estava do meu lado o tempo todo, sempre seguindo em frente e tentando ajudar seus amigos, por mais perdidos que eles pudessem estar – mais uma pausa para respirar, Sakura continuava olhando para baixo – E eu te amo, Naruto, e eu estou tão feliz com você... Só que... Sasuke-kun já perdeu tudo uma vez... – e então os olhos verdes, brilhantes e alegres, encararam os olhos cerúleos tão profundamente que o loiro precisou sorrir junto com a kunoichi a sua frente, entendendo onde ela queria chegar com seu discurso – Você viu como Sasuke-kun estava ao lado da Hinata?

Naruto concordou levemente com a cabeça. É claro que ele tinha visto, fora o primeiro a constatar o fato da mudança de seu melhor amigo quando ainda estavam no feudo de Ren e Sasuke estava, cego e imbecilmente, socando uma cascata.

- É por isso que, dessa vez, eu preciso fazer alguma coisa para ajudar Sasuke-kun, já que foi você o responsável por salva-lo da última vez. Entende?

Uzumaki Naruto arreganhou um de seus sorrisos solares antes de se inclinar por cima da mesinha de centro e beijar Sakura na testa. Ela sorriu de volta pra ele em uma concordância mútua e silenciosa.

O loiro levantou-se levando consigo as duas xícaras de chá da mesinha. Colocou-as na pia e se dirigiu ao banheiro, Sakura já tinha retomado sua leitura e anotações quando passou por ela.

- Quando você se encontrar com Sasuke-kun hoje, Naruto...

Porque o jinchuuriki da Kyuubi era o único que sabia onde aquele Uchiha se escondia.

- ...diga a ele para ir ao hospital no horário de visita apropriado.

- Você sabe que aquele teme não vai fazer isso, 'ttebayo.

- E que Shikamaru precisa fazer uso do Sharingan.


- Como você ousa sugerir isso, Hanabi? Hinata é sua irmã, minha primogênita, futura líder do Clã Hyuuga!

- Você não conhece minha nee-san – devolveu a caçula. Estavam num dos corredores do hospital e a conversa começara a ficar exaltada desde a sugestão incômoda da pequena Hyuuga, mas ela parecia irrevogável em sua decisão de persuadir o pai – Hinata não quer ser líder, ela apenas quer ser livre e fazer as escolhas dela sem que você a olhe de modo decepcionado, otou-sama!

- E a sua sugestão dá a ela alguma escolha?

- Ela está sofrendo! – a menina já não conseguia mais se aguentar.

Hinata, sua irmã, sua protetora e sua segunda mãe. Ela era tudo o que Hanabi queria ser e mais, ela era o seu sonho. Sempre gentil e forte ao mesmo tempo, cuidando dela enquanto todas as outras pessoas do Clã só pensavam em dever e honra; ouvindo as palavras duras do pai, calada, e devolvendo-as com determinação e coragem e sempre tentando e tentando. Hinata era diferente dos outros Hyuuga e sua irmãzinha não podia admirá-la mais.

Por esse motivo era horrível vê-la naquela cama, perdendo peso, com a pele tão frágil como papel de seda, sem brilho, sem cor, morrendo. A própria Hanabi não se encontrava num estado muito melhor. Passava todo o tempo que podia ao lado da irmã, tinha os braços perfurados e tingidos com enormes manchas roxas pela constante doação de sangue que insistia em fazer. Quando tinha uma missão, fazia todo o possível para cumpri-la com perfeição e voltar logo para a cabeceira do leito de Hinata – porque, com a Vila ainda frágil, absolutamente nenhum ninja, de genin a ANBU, podia ter o luxo de declinar missões.

Sem que percebesse já estava chorando em frente a seu pai. Hiashi ficou surpreso. Nunca vira Hanabi chorar. Sua filha mais velha era tímida, gentil e sensível, mas a mais nova era uma rocha. Determinada, orgulhosa e inquebrável. Embora ela continuasse encarando-o, as sobrancelhas franzidas em uma expressão amálgama de dor e raiva, estava decidida enquanto lágrimas escorriam vivamente pelas faces brancas tão mais parecidas com as de Hiashi do que com Hikari.

- Eu não quero que a nee-san morra, eu quero que ela viva, mas... – ela passou as costas da mão pelas bochechas sem nunca tirar os olhos do pai e controlando a voz para que não tremesse – Mas o que eu mais quero é que ela pare de sofrer, otou-sama.

Hiashi ficou olhando para sua filha caçula com vontade de abraçá-la. Antes que pudesse descongelar seus membros, porém, Hanabi virou-se e seguiu andando pelo corredor até o quarto de sua irmã na próxima curva a esquerda. O líder do Clã Hyuuga, o mais antigo Clã da Vila Oculta da Folha, ficou parado no lugar encarando o caminho que sua filha seguira, mas olhando para o nada.

Primeiro as revelações sobre a carreira de Hinata. E agora os sentimentos de Hanabi.

Como pudera ser tão cego sobre suas próprias filhas?

- Hikari – sussurrou. Se sua esposa estivesse viva ela com toda a certeza saberia ler suas filhas. Mas ele... Era apenas um líder, um ninja, um homem. E não sabia se, de fato, podia incluir pai entre suas alcunhas – Você saberia o que fazer.

Recostou-se a parede, pela primeira vez na vida sentindo-se velho e triste. Sua mão direita subiu ao rosto e cobriu seus olhos que tão orgulhosamente ostentavam sua linhagem e o bem mais precioso do Clã Hyuuga.

E que de nada serviam para salvar um de seus bens mais preciosos.

Hyuuga Hiashi retirou a mão dos olhos, desencostou-se da parede e recomeçou a andar, dessa vez para fora do hospital e direto para a Torre do Fogo. Iria expor a sugestão de Hanabi para Tsunade. Ela o aconselharia melhor, tanto como Hokage quanto como médica de sua filha. Neji não gostaria da ideia, afinal ele ainda não tinha se perdoado por deixar Hinata sozinha, já que era o guardião dela. E aquele rapaz Uzumaki também faria um escândalo. E os companheiros de time, caso a sugestão fosse acatada. Ah, e a moça Haruno e Yamanaka e Tenten...

...

Hinata fizera muitos amigos.

E havia também o rapaz, Uchiha Sasuke.

Caso aquela fosse a solução mais misericordiosa para Hinata, como será que ele reagiria? Hiashi ainda tinha dúvidas se Sasuke podia sentir o que quer que fosse e quais seriam os sentimentos dele por sua filha. Ele se mostrara possessivo e protetor durante a batalha e, pelo que diziam os boatos pelo hospital, preocupado e atencioso vindo visita-la todas as noites. Mas aquele rapaz parecia tão frio, orgulhoso, arrogante, tão diferente da índole de sua primogênita, tão semelhante... A si mesmo.

Se Hinata acordasse, ela ficaria com o Uchiha?

E se ela não acordasse jamais, o que ele faria?


Já estava anoitecendo de novo. Três semanas e dois dias agora e Hinata só piorava. Nunca a vira mais magra, mais pálida, mais fraca. E não podia fazer nada, não havia nada para fazer. Precisava confiar em Sakura, e confiava. Precisava confiar em Shikamaru, e confiava – como não confiar? Aquele preguiçoso era a pessoa mais inteligente que conhecia e nem tão preguiçoso assim quando se tratava de salvar seus amigos. E, acima de tudo, confiava em Hinata.

Mas a espera o estava matando.

A espera e a falta que nunca pensou que poderia sentir de alguém – de alguém ainda vivo.

- Vai acabar ficando careca desse jeito, teme – a voz de Naruto o alcançou dali de trás em mais um dos momentos que os dedos longos corriam pelas mechas negras. O rapaz de olhos azuis não demoraria a se tornar Hokage agora. Tsunade o estava treinando nos assuntos burocráticos da Vila desde que o exército de Masaru Ren fora dissipado. Ela considerava que resolver uma crise era o melhor jeito de aprender – E a Hinata-chan não vai mais querer você quando acordar, 'ttebayo.

Queria poder fazer como Naruto, brincando daquele jeito. Mas as palavras chegavam distorcidas a seus ouvidos. O quando acordar se tornava um doloroso se acordar.

O moreno não respondeu, então o loiro tomou a liberdade de sentar ao lado de seu melhor amigo no ponto mais alto da Vila, o cume de um penhasco atrás e acima da cabana de confinamento atrás do Monumento dos Hokages. A vista da Vila com suas luzes e do sol pintando o céu com o entardecer era de tirar o fôlego.

- Já foi até Shikamaru?

Um aceno com a cabeça.

- Fora os documentos Uchiha que eu resgatei dele, não há nada lá que precise do Sharingan para ser lido.

O Uzumaki tinha as pernas e os braços cruzados, os olhos apertados naquela pose pensativa e ridícula dele. Concordou com a cabeça, os lábios num pequeno bico.

- E já foi até a Hinata-chan no horário de visitas e não no meio da noite? – Naruto sabia a resposta, mas Sakura insistia que ele devia convencer Sasuke a fazê-lo. O Uchiha soltou um grunhido baixo de discordância.

Naruto suspirou. Por mais que quisesse alegrar a Sasuke, dar-lhe alguma esperança, a situação estava se tornando cada vez mais preocupante com o passar dos dias. Não havia pessoa que aguentasse perda de sangue tão constante e por tanto tempo. Hinata já estava fazendo grande esforço em se manter viva por três semanas quando outras pessoas não durariam uns poucos dias.

Sempre fora capaz de ajudar seus amigos e a impotência doía.

- Eu sinto como se estivesse correndo atrás dela...

A voz de Sasuke o surpreendeu. Especialmente pelo significado de suas palavras. Não fez nenhum som, deixou o Uchiha falar livremente, pois era extremamente raro que o rapaz expusesse seus sentimentos, mesmo para seu melhor amigo.

- ...mas nunca conseguisse alcançá-la.

Passara sua vida inteira perseguindo abstrações que resultaram em nada mais do que tristeza, vergonha, arrependimento. Matara seu irmão. E para quê? Para descobrir uma verdade que o inocentava. Kakashi acabara morto pelo melhor amigo de infância naquela guerra estúpida e não conseguia evitar se sentir culpado por isso.

Culpa e dependência. Os dois sentimentos que mais desprezava. E quando pensava em Hinata, esses eram os dois sentimentos que, no momento, predominavam.

O jinchuuriki colocou as mãos para trás apoiando-as na grama fria para dar suporte às costas.

- Eu sou um idiota – resmungou o Uchiha passando a mão por seus cabelos de novo. E dessa vez Naruto realmente riu, porque sabia com exatidão de que tipo de idiotice que o portador do Sharingan estava falando.

Pousou uma mão no ombro do Uchiha. O céu já estava completamente escuro, as estrelas brilhantes apesar das luzes da Vila Oculta da Folha. Ficaram ali juntos ainda por bastante tempo, compartilhando suas respectivas idiotices em silêncio, até Sasuke se levantar, pois tinha que fazer uma visita a alguém. Naruto o seguiu, precisava voltar para casa e dizer a Sakura que a amava.

Dois idiotas.


"Lembranças de luz. É assim que eu chamo todos os fragmentos envoltos em névoa e claridade que pululam em minha mente. Alguns mais nítidos que outros. Alguns contêm okaa-san, outros não. Quanto mais luz há neles, mais eu percebo que estou começando a esquecer. Então um dia eu me sentei e os gravei com tinta em um pergaminho. Não estão organizados, não são lineares. Como organizar pensamentos e lembranças se eles surgem sem querer e se eles são feitos sem querer?

Okaa-san, tenho uma nova dança, tenho uma pessoa que, quando olha em minha direção, realmente me vê, e tenho novas lembranças para acrescentar aos meus pergaminhos antes que demasiada luz comece a toma-las."

Pousou o pincel mais uma vez ao terminar de escrever. Assoprou um pouco de areia sobre a tinta para apressar a secagem. Enrolou o pergaminho e abriu a tampa de sua escrivaninha para guardar este com uma série de outros pergaminhos idênticos.

Levantou-se e retirou as faixas que impediam as mangas de seu quimono escuro de caírem e se mancharem com tinta. Por mais que ele dissesse que dinheiro para comprar novos quimonos não era problema, Hinata não queria estragar uma obra prima tão linda quanto o tigre e as camélias vermelhas e brancas que eram os desenhos de sua veste.

Seguiu o barulho. Aquela casa não era tão grande quanto a Mansão Principal do Clã Hyuuga e Hinata achava isso tanto melhor. Eles não precisavam de uma casa grande, não quando eram somente os dois.

Por enquanto.

Sorriu com o pensamento no momento em que virou a esquina do corredor externo de sua casa e alcançou o quintal interno onde ele treinava com sua espada. As costas pálidas repletas de músculos visíveis quando ele se movia brilhavam um pouco mais escuras que o normal devido ao suor e ao sol do entardecer. Usava somente uma calça preta, os músculos dos braços flexionando e relaxando com os movimentos que desferia com Kusanagi, os cabelos escuros um pouco caídos por causa do suor e da água que ele insistia em jogar sobre a cabeça nos momentos de descanso.

Sorriu. Como poderia imaginar que terminaria com ele quando foi chamada para aquela missão terrível no feudo de Masaru Ren? De alguma forma, depois de as coisas não terem dado certo com Naruto, Hinata meio que se conformara em apenas se casar com qualquer pretendente que viesse pedir sua mão a seu pai, isto é, se algum pretendente viesse. Ou morreria em missão. Sim, esse era um plano ainda melhor, morrer honradamente em missão defendendo seus companheiros, seu time ANBU.

Mas ali estava ele... E ali estava ela.

- Sasuke.

O chamado fez o rapaz parar seu treino. Ainda sem se virar, com os músculos relaxando, ele pegou a bainha da espada ali perto e embainhou-a com o som de metal deslizando.

E então ele se virou, olhos verdes e aquosos encarando-a com um sorriso que fez Hinata estremecer, sua expressão transfigurando-se em um rosto repleto de espanto e raiva enquanto o seu suposto "marido" lhe lançava um sorriso ferino, de dentes brancos e alinhados que não lhe deixavam mais bonito.

O que Masaru Ren estava fazendo ali empunhando Kusanagi? Tinha certeza que era Sasuke há apenas dez segundos, reconhecia-o completamente: músculos das costas que gostava de arranhar, a pequena cicatriz na lateral esquerda do corpo da luta com Naruto, os cabelos arrepiados, todos os pequenos detalhes que Hinata agora já conhecia tão bem.

- Hinata-chan.

- O que você está fazendo aqui? Onde está Sasuke?

- Uchiha Sasuke? Você não se lembra? – Ren dava passos para a varanda. Sua silhueta agora parecia menor, sem tantos músculos, a pele mais morena – Você o matou ao perder o controle daquele seu jutsu em formato de leões e depois tomei você pra mim e a trouxe para viver comigo aqui no meu feudo.

- Não...

- Ah, sim. A Vila Oculta da Folha foi massacrada e, com ela, todo o seu Clã Hyuuga que ousou espalhar mentiras sobre minha honra e de minha família – ele já tinha chegado à escada e a morena dava passos para trás – Mas você eu poupei. Afinal, você é tão parecida com sua mãe, tão linda, tão gentil.

O lábio inferior de Hinata tremeu. Como ele ousava falar de sua mãe e de seu Clã daquela maneira suja? Ah, ela lembrava-se da batalha. E de como seus Punhos Gentis dos Leões Gêmeos tinham assustado ele e, se não fossem seus truques colecionáveis, ela o teria matado com extremo deleite. Lembrava-se dos olhos vermelhos, oh, tão vermelhos, tanta cor em meio ao azul... Mas seu ataque atingira mesmo Sasuke? Não... Não, não! Não podia ser!

- Você é minha, Hinata-chan.

Quando fora que ele se aproximara tanto? Hinata espalmou as mãos no peito desnudo quando sentiu a respiração de Masaru sobre sua boca. Afastou-se dele com pressa, mas ao se virar a barra de seu comprido quimono impediu que pisasse corretamente. A morena Hyuuga caiu, como da primeira vez que dançara para Masaru Ren, as mãos espalmadas ampararam sua queda. Para onde tinham ido seus reflexos? Para onde tinha ido toda sua habilidade de anos de treinamento, tanto como ninja quanto com os ensinamentos de sua mãe? Nem sequer tinha chakra quando tentou ativar sua linhagem.

Seus punhos de fecharam sobre o chão de madeira bem polida, seu quimono lindo com o tigre simbolizando a força e as camélias brancas e vermelhas ostentando a cor do Clã Uchiha, o Clã de Sasuke, aquele que ele queria reconstruir e renovar seus votos de honra com seus antepassados, aquele Clã que ele queria fazer viver e respirar novamente e que, para isso, escolhera-a. O quimono tinha um rasgo na barra, no lugar em que pisara, bem sobre uma camélia vermelha. Seus olhos e nariz esqueceram-se de pinicar quando as lágrimas começaram a derramar-se sobre sua face e caírem no chão e sobre suas pequenas mãos em punho.

- ...minha, Hinata-chan.

Não! Onde estava sua voz? Tentou gritar, mas de novo som nenhum saiu de sua boca. E quando tentou se mexer seus membros ficaram parados com as mãos grudadas no chão de madeira brilhante que ela mesma se lembrava de ter limpado. Não poderia ser tudo um sonho, poderia? E Masaru Ren as suas costas, conseguia ver a sombra da mão dele se aproximando para tocar-lhe o ombro. Não, não, não! Sasuke!

Lutou. Já que não podia fazer mais nada. Não tinha a quem chamar, não tinha a quem recorrer e, então, lembrou-se que não precisava. Sempre estivera lutando e não pararia por estar sozinha. Tentou se mover com todas as suas forças, mesmo em vão, não ousou desistir. O toque, a mera imaginação do toque do senhor feudal a repudiava. Fechou os olhos com força e, mesmo com as lágrimas escorrendo entre suas pálpebras, cerrou os dentes e continuou tentando se mexer. Seu estômago estava ficando pequeno e apertado conforme a mão dele se aproximava e seus esforços para se mover somente aumentavam.

- ...Hinata.

Branco.

A mão de Ren não chegou a lhe tocar. Aparentemente, nunca chegava. Já quantas vezes tivera aquele sonho? Quando ele terminava, sempre da mesma forma, sempre inacabado, parecia que ele se repetia a todo o momento pelo período de tempo de uma eternidade.

E então Hinata voltava para o vazio branco e nevoento de lugar nenhum, seu corpo doendo por completo, flutuando em nada, cada vez mais difícil de respirar, de sequer abrir os olhos. Só conseguia deixar que as lágrimas escorressem dos cantos de seus olhos, impotente para impedi-las ou secá-las. Onde estava? E por que não conseguia sair dali?

Presa... Presa em suas próprias lembranças de luz.


Um aperto agudo se instalou no peito de Sasuke ao ver Hinata naquela noite. Era o primeiro dia da quarta semana que ela estava ali.

Ainda de olhos fechados.

Ainda magra e fraca.

Ainda inalcançável.

Ainda em coma.

As marcas roxas e esverdeadas ao redor, marcavam ambos os braços, na dobra do cotovelo e pela extensão dos antebraços, e as costas das mãos de Hinata; suas veias já estavam enfraquecidas demais para que ela continuasse a receber sangue por ali. Por isso a intravenosa estava aplicada em sua jugular, uma porção de esparadrapos prendia-a no lugar.

Os punhos de Sasuke se apertaram quando ele viu aquilo, rangeu os dentes e, se estivesse um pouco mais longe dela, tinha certeza que seu chakra estava fervendo tanto que destruiria uma rocha com um sopro.

Aquele maldito bastardo que era Masaru Ren! Naruto não deveria tê-lo matado tão facilmente. Se soubesse que o fim da luta ente eles terminaria com a morena numa cama de hospital, o teria deixado vivo para tortura-lo ou o teria matado ele mesmo ou não a teria deixado ir sozinha...

Seus punhos começaram a tremer.

Sentia tanta raiva que era quase incontrolável. Mas raiva era bom, era um sentimento a que já estava habituado e podia canalizar. Era raiva de tudo, especialmente de Masaru Ren e de si mesmo. E raiva do que quer que estivesse mantendo Hinata naquele estado. Raiva de não conseguir lidar bem com aquilo, raiva de ter se apaixonado, raiva de estar perdendo-a, raiva, raiva, raiva, raiva, raiva!

Estava ofegante sem perceber. Escancarou a janela e foi embora por ali – a primeira vez que o fazia sem beijá-la e antes do amanhecer –, tendo o cuidado de fechar ao passar. Se não descontasse logo aquela fúria iria explodir, sabia disso. Conhecia-se como ninguém, então era melhor correr e acordar Naruto – se é que o loiro estivesse dormindo – e, de quebra, enfurecer também Sakura, aí cessaria sua raiva duas vezes mais rápido.

Sabia que amor era um sentimento forte, porém igualmente forte em deixar uma pessoa muito estúpida. E sentia raiva por isso também.

E, pior que qualquer outra coisa, sentia raiva por estar tão desesperado.


- Sasuke, ir até lá é uma viagem de cinco dias ida-e-volta e, mesmo que eu libere essa missão, você não tem nenhuma certeza se Neko-baa terá qualquer coisa que possa ajudar Hinata.

- Neko-baa é velha, ainda mais antiga do que você – rebateu Sasuke e uma veia apareceu na testa de Tsunade, mas ela resolveu ignorar o comentário – Talvez até mais velha do que o Primeiro Hokage. Ela tem artefatos e truques escondidos com ela e, mesmo que não tenha nada físico que possa ajudar Hinata, ela pode ter alguma informação.

- E também pode não ter!

- Tsunade, eu preciso tentar alguma coisa já que, aparentemente, os seus esforços não estão levando Hinata a lugar algum!

- Uchiha Sasuke! – a loira levantou-se da mesa, as mãos espalmadas sobre ela. Os dois estavam tão exaltados que Shizune podia ouvir a conversa sem dificuldades na sala ao lado. Ela mordia os lábios e apertava Tonton contra o peito – Você acha que vale a pena? Acha que vale ficar longe dela por cinco dias perseguindo um objeto mágico ou uma informação inexistente e correr o risco de voltar e Hinata estar morta?

Sasuke, então, calou-se, inábil para responder aquilo.

Estava com seus sentimentos tão descontrolados como jamais os encontrara. Nunca tivera realmente grandes contatos com seus sentimentos, deixava-os agir apenas nas camadas mais profundas de si, impossíveis de abrirem caminho até a superfície. Mas Hinata fora o caminho que eles, seus sentimentos, tinham encontrado para aflorar. E nem todos eles eram bons de sentir.

A Godaime suspirou quando o silêncio entre eles se estendeu, o moreno a sua frente ponderando a decisão. Por mais que a proposta de Sasuke fosse válida – realmente Neko-baa, por ser uma anciã responsável pelo abastecimento do Clã Uchiha e outros ninjas há tanto tempo, poderia saber de alguma coisa –, mas Tsunade-hime atirara aquela ideia para Sasuke – a ideia de Hinata poder morrer – por causa de algo que Hyuuga Hiashi lhe dissera há alguns dias, uma sugestão de Hanabi.

"Depois de perder tanto, o que você faria se perdesse Hinata, a primeira pessoa que reaprendeu a amar?" era a única coisa que lhe passava pela cabeça enquanto seus olhos âmbares encaravam um muito sério, porém perdido, Uchiha Sasuke. "Jiraiya, seu idiota... Por que você me deixou sozinha com essa responsabilidade?".

Uma batida na porta tirou a ambos de seus pensamentos. Tsunade deu a ordem para entrar e Shizune abriu a porta e deixou Hyuuga Hiashi passar. Hanabi estava com ele. E nenhum sinal de Neji. A Hokage provavelmente sabia o que aquilo significava e não gostou nem um pouco. Abaixou a cabeça um momento e sorriu um sorriso de tristeza e derrota antes de voltar seus olhos para os presentes. Sasuke e Hiashi se encaravam antes do mais velho voltar-se para frente, impassível.

- Tsunade-hime.

- Hiashi – ela saudou, sua voz tinha um tom agridoce – Se você está aqui, devo presumir que tomou uma decisão.

- É prudente conversarmos sobre isso com o Uchiha presente? – o patriarca dos Hyuuga perguntou à loira.

As sobrancelhas de Sasuke se estreitaram. Já suspeitava que Hiashi e Hanabi estivessem ali para tratar de algum assunto referente à primogênita Hyuuga, mas aquela pergunta deu-lhe todas as evidências que precisava. Retirou as mãos dos bolsos e plantou-se ao chão.

- Eu não acredito que Sasuke vá embora pacificamente, não quando o assunto que vamos tratar agora é sobre a vida ou a morte de Hinata.

- Do que estão falando? – o Uchiha se pronunciou, sua voz não demonstrando nenhum sentimento além de ódio pelo que ouvira – Desde quando a morte de Hinata é pauta para qualquer discussão?

Os Hyuuga mantiveram-se em silêncio, restando à Quinta esclarecer o assunto. Bem, era mesmo para ela que o Sharingan de Sasuke estava dirigido, de qualquer maneira.

- Sasuke, os Hyuuga colocaram em questão se não seria melhor para Hinata se... – a loira hesitou. Como não hesitar numa situação dessas? Os sentimentos de Tsunade se embolavam na garganta – Se... Parássemos de lhe dar sangue e desligássemos...

- Ela está sofrendo, Uchiha! – a voz de Hanabi se sobressaiu. Tsunade nem percebera que tinha baixado a cabeça e fechado os olhos até ouvir a voz da Hyuuga mais nova e, quando voltou a clarear sua vista, tinha Sasuke agarrando o colarinho do quimono de Hiashi em frente a sua mesa, os olhos vermelhos de um, as veias saltadas de outro.

- Eu-nãovou-deixar.

- Uchiha! – Hanabi gritou de novo, aparentemente estava com mais raiva do que Hiashi, que olhava impassível para o jovem que o segurava nada respeitosamente – Ela tem uma agulha enfiada no pescoço, perdeu treze quilos e meio e não reagiu nada em quase um mês! PARE DE SER EGOÍSTA E PENSE NELA!

Hanabi tinha ambas as mãos puxando o braço direito de Sasuke que continuava agarrado a Hiashi. Enquanto Tsunade olhava para a cena não conseguiu evitar morder os lábios, para assim conter as lágrimas. Hiashi parecia um velho, apenas. Um homem impotente, derrotado, destruído. Nem sequer tinha os olhos voltados para o Uchiha. Sasuke estava possesso, mas não conseguia mais se mexer. Foi a primeira vez que Tsunade notou que ele também andara perdendo peso e as havia olheiras sob os olhos negros. E a mais nova, Hanabi. Ali, pendurada em Sasuke, a cabeça baixa e lágrimas caindo no chão e em seus pés, não lembrava nem de longe a ninja mais forte de sua geração.

Quem diria que Hyuuga Hinata, aquela menininha tímida, discreta, quase imperceptível, que servia para nada, um dia causaria toda aquela comoção? A Godaime reprimiu uma risada nada condizente com a situação: devia ter percebido que aquela moça tinha algo de especial quando lhe contaram que ela tentara suicidamente proteger Naruto contra Pain.

- Solte o otou-sama... – pediu Hanabi num fio de voz – Ele está sofrendo tanto ou mais que você... – ela mesma desgrudou-se do braço do Uchiha e usou as costas das mãos pequenas para secar suas lágrimas, inutilmente – Desligar os aparelhos foi ideia minha... – apesar das lágrimas, a voz de Hanabi não saia entrecortada ou soluçante, apesar de baixa. Chorando ela ficava igualzinha a Hinata – Hinata-nee-san...

E então a garota não conseguiu segurar mais os soluços, continuando a passar as mãos sobre os olhos. Vez ou outra ainda murmurava "Hinata-nee-san".

Egoísta?

O Uchiha soltou Hiashi tão lentamente que parecia estar numa espécie de transe. Seus olhos voltaram à cor original e ele deu as costas aos Hyuuga e a Tsunade, encarando a janela lateral da Torre do Fogo.

Egoísta? Era isso que estava sendo?

Claro, não era o único que Hinata amava e nem era o único amado por ela. Afinal, essa era a natureza da primogênita Hyuuga. Mas esquecera-se de considerar as outras pessoas que também sofriam ao ver o estado da morena, definhando por perda de sangue, todos impotentes. Shikamaru e a equipe de inteligência não tinham parado de pesquisar; Tenten visitara todos os armeiros que conhecia atrás de informações; Kiba e Shino cumpriam apenas missões simples e rápidas, preocupados como estavam com a companheira; o time ANBU de Hinata via-se perdido sem sua líder; e outros tantos que dependiam da moça.

- Você veio até aqui porque se decidiu, Hiashi? – a voz de Tsunade despertou Sasuke, mas este não se virou.

- Decidir... Decidir se eu quero que minha filha continue sofrendo, com uma mínima chance de acordar, ou se quero que ela morra... – a Hokage jamais pensou que estaria viva para presenciar Hyuuga Hiashi tão enfraquecido algum dia. O patriarca do Clã Hyuuga, aquele que mal se abalara quando seu irmão gêmeo morrera em seu lugar, que não chorara quando enterrara a esposa.

- Hiashi...

- Eu não tomei uma decisão, porque eu precisaria saber como lidar com essa decisão... E eu não sei como lidar com a morte da minha filha.

E antes que qualquer um ali pudesse reagir, Hiashi já estava sobre os joelhos. Hanabi foi a primeira a se aproximar, chamando pelo pai. Mas não havia nada de errado com a saúde de Hiashi, havia apenas dor demais em seu peito, dor demais para um homem tão velho, dor demais para um homem que até ali fora forte, mas ter Hinata tirada de si assim – mesmo com anos de afastamento que infligira a sua filha – era demais para suportar.

- TSUNADE-SAMA!

O grito viera de trás da porta fechada, mas fora alto o suficiente para chegar até a sala. O dono da voz ainda demorou vários segundos para alcançar a torre, o que possibilitou a Hiashi se levantar. Hanabi tinha se esquecido de suas lágrimas e Tsunade enfim percebera as dela. Secou com as costas da mão, um pouco de seu batom vermelho borrou sua bochecha.

O Uchiha continuava parado.

- Tsunade-sama, você precisa vir comigo! – a porta escancarou-se e Maito Gai entrou na sala, sem preocupar-se em fazer uma reverência ou qualquer outro sinal de respeito para a loira. Shizune entrou logo atrás dele – Hiashi, você também, já que está aqui!

Aquilo preocupou a todos imediatamente. Se Gai estava buscando tão desesperadamente por Tsunade, e incluíra Hiashi no momento em que o vira, algo definitivamente ruim devia estar acontecendo e envolvia Hinata.

- É sobre Hinata-chan!


O atual grupo de genin que Gai comandava estava fazendo o habitual recolhimento de armas na floresta. Depois da guerra, Tsunade ficou preocupada com possíveis armas envenenadas que pudessem ficar esquecidas pelo campo de batalha e acabar causando acidentes, por isso os genin, acompanhados de seus professores, ficaram responsáveis por aquela missão Rank D de resgatá-las.

O local da batalha de Hinata e Ren era o último a ser vasculhado, uma vez que era o mais afastado da Vila. Não demorou muito para que os genin, com mochilas cheias de kunai, senbons e shurikens nas costas, além de outras armas, percebessem algo estranho e corressem chamar por Gai-sensei, que carregava duas mochilas cheias de armas, ainda esbanjando muito Fogo da Juventude. Todos os quatro deixaram as mochilas numa clareira antes de voltarem para o local de onde os pequenos shinobis tinham fugido.

Ali, num espaço da floresta não muito aberta, havia marcas de uma batalha feroz. Mas não eram os arbustos destruídos nem as várias linhas penduradas nas árvores e nem os troncos grandes, resto de armadilhas, caídos num canto. Ali, uma árvore qualquer no meio de tantas outras árvores quaisquer, estava diferente.

Imediatamente Gai mandou os genin voltarem para a Vila o mais rápido que pudessem, depois voltaria para pegar as sacolas com as armas. Ficou para trás um instante, depois correria e facilmente passaria a frente dos alunos para avisar a Hokage o mais rápido possível. Os genin consentiram um pouco amedrontados e impressionados com a cena que viram.

Ali, onde acontecera à luta entre Hinata e Ren, havia uma árvore com uma arma de lâmina prateada enfiada em seu tronco, longa de mais ou menos 35 centímetros. Do local onde a lâmina estava presa na madeira, inscrições de tinta branca saíam formando um círculo ao redor da adaga. Haviam doze inscrições, disponibilizadas na mesma direção dos pontos cardeais ou dos animais do zodíaco, todas elas diziam a mesma coisa: Hyuuga Hinata.

Mas foi quando se aproximou da árvore que Gai finalmente sentiu algo estranho. Olhou para cima, para milhares de folha rubras, parecendo tão pesadas como se alguma coisa as tivesse encharcado. Foi quando reparou que o tronco e os galhos também tinham aquela coloração sangrenta. Alguma coisa vinda de cima atingiu Gai na maçã do rosto, bem embaixo do olho esquerdo, e escorreu como uma lágrima. Levou a mão ao local e viu o sangue em seus dedos.

Uma enorme árvore vermelha de sangue com o nome de Hyuuga Hinata cravado nela.

Gai correu.


(1) "Só que coração meu podia mais": o capítulo da fic dessa vez está entre aspas porque é um trecho do romance de Guimarães Rosa, "O Grande Sertão: Veredas". A todos, recomendo a leitura, vai mudar a vida de vocês.


Olá!
Primeiro, ai-que-sono!
Segundo e mais importante, desculpem-me a demora com o capítulo. Como sempre, culpem a minha faculdade, por favor. E, sinceramente, espero que tenham gostado do capítulo. Apesar de não muito comprido em comparação a demora, ele é cheio de emoções difíceis de transmitir, por isso eu tentei fazer um bom trabalho. Digam-me vocês se o trabalho deu frutos, certo?
Tentarei não demorar tanto com o próximo, já que é reta final.

AGRADECIMENTOS:

Luci Moon s2, Blue Hime, Mirtilo Saltitante, Hana-Lis, B. Lilac, srta uzumaki, Pisck, Sabrina Martins, Aryel-Chan, Pri H. U. Ryuu, Luciana Fernandes, Haru x3, LemuriaHime, Loveanju, Helena, Hyuuga Carol Dias D, Guest e Maira.

OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)