Cap. II

Draco não soube como conseguiu chegar ao dormitório. Sabia que teria sérios problemas no dia seguinte por causa das quatro armaduras que tentou destruir pelo caminho, mas estava pouco se fodendo com qualquer coisa que fosse. Só queria saber qual fora a porra do motivo que o levou a fazer aquilo com a vadia da Granger. Quatro semanas se repreendendo por simplesmente pensar nela, e ele acabou com tudo, foi contra todos os princípios intrínsecos a ele desde de quando ainda não havia nem nascido.

Assim que entrou no quarto, Draco seguiu direto para o banheiro. Em um dia normal, o sonserino teria ido para de baixo do chuveiro a fim de extinguir o desejo latente por uma sangue ruim, mas, naquele momento, ele só queria tirar a sujeira que havia impregnado nele depois de tamanha imprudência. O perfume dela maculando o pijama impecável, o gosto preso na boca dele, e a indescritível sensação dos dedos dele tocando a pela olivada.

Draco teve vontade de fazer com a boca e os dedos a mesma coisa que havia feito com o pijama: colocar fogo. Mas por um fugaz momento de lucidez, percebeu que os danos seriam maiores que o resultado. Depois de mais de uma hora na frustrada tentativa de tirar qualquer vestígio de Granger do corpo, Malfoy resolveu que era melhor tentar dormir. O que também não foi uma tarefa fácil; toda vez que pensava na burrice que havia feito o corpo dele insistia em reagir às lembranças do que tinha acontecido, de um jeito que Draco teve ímpetos de colocar fogo em uma parte, para ele, muito importante do corpo. Quando finalmente pegou no sono, teve pesadelos com Hermione na cama com o Weasley, ambos sorrindo diabolicamente para ele.


Hermione não soube precisar por mais quanto tempo ficou sentada do chão gelado, mas quando saiu de lá, fracos raios de sol indicavam o amanhecer que surgia. Ainda com lágrimas nos olhos, ela caminhou para a torre da Grifinória sem se preocupar se alguém a veria ou não. Quando entrou no dormitório, as colegas ainda tinham um sono profundo.

Ela não sabia como Rony reagiria se soubesse o que fizera, mas não podia deixá-lo sem saber de uma coisa como aquela. Sentia-se como se tivesse lançado alguma das maldições imperdoáveis em alguém. De preferencia que tivesse sido nela mesma.

Pegou pergaminho, pena e tinteiro na cômoda ao lado da cama e se esgueirou para dentro do cortinado a fim de escrever uma carta para o namorado. Ele havia se mostrado terminantemente contra os encontros da namorada com Draco durante à noite; tinha mandado inúmeras cartas, em resposta às que Hermione o mandava, dizendo que não confiava no loiro e que uma convivência com ele não faria bem à Mione. Ela não queria nem imaginar o que aconteceria depois da carta que estava prestes a escrever.

Ron,

Eu espero, sinceramente, que você possa me perdoar.

Eu sei que você não gosta da minha convivência com o Malfoy. E sei que você não confia nele e que eu sempre falo que não haverá problema algum. Mas hoje... hoje aconteceu uma coisa. Não posso culpá-lo, ele não sabia que eu e você somos namorados.

Ele me beijou, Ron. Ele me beijou e tocou de um jeito que me fez sentir coisas que nunca havia sentido antes. De um jeito tão perturbador que parecia que ele podia ver a minha alma com aqueles gestos. Mas o pior foi que eu deixei que ele encostasse em mim. E eu gostei!

Estou me sentindo a pior pessoa universo por ter feito uma coisa dessas. Eu te traí, Ron! Talvez fosse até melhor se eu não te contasse, mas eu não conseguiria conviver com isso. Você confiou em mim e eu, tão levianamente, te traí. E gostei de uma coisa completamente errada!

Ron, por favor, me perdoa. Eu nunca, em toda a minha vida, tive a intenção de fazer algo que pudesse te machucar.

Eu realmente te amo. Muito.

H.


Draco estava decidido a cumprir sua palavra e não se dirigir mais à Hermione. Ser privado do deleite de passar as noites em claro na companhia de alguém que preparava o melhor café e bolo de chocolate que ele já havia experimentado seria um preço baixo a se pagar pelo crime que cometera. Daquele dia em diante, só sairia do dormitório para as aulas e quando extremamente necessário.

A perspectiva de encontrar com Hermione em algum corredor deserto era atordoante.


Hermione não se deu ao trabalho de ir à aula naquela manhã. Ficou o dia todo dentro do quarto fazendo os deveres das aulas que estava perdendo. Imaginou que Rony a responderia assim que recebesse a carta, mas ficou o dia inteiro esperando sem nenhuma resposta. Talvez ele ainda não tivesse lido, pensou resignada. E querendo acreditar que esse fosse o real motivo para não ter resposta.

Depois de quase dois dias sem dormir, Hermione achou que conseguiria ter uma noite tranquila depois de tanto tempo, mas a única coisa que conseguiu foram vários pesadelos. Com Draco, Rony, Voldemort, os pais ainda desaparecidos. Uma noite terrível. Na manhã seguinte, achou que seria melhor voltar a rotina que tinha antes de esbarrar com Malfoy.


Draco sabia que conseguiria voltar a rotina de um mês antes. Mas teve certeza de que estava errado quando se viu quebrando tudo quanto fosse possível dentro do quarto poucos dias depois. O principal motivo para isso havia sido uma carta que recebera de Hermione. Ele não tinha admitido nem para ele que estava sentindo falta – ou qualquer que fosse a merda que ele estava sentindo – da companhia da sangue ruim, e ainda recebia uma coisa daquelas. A grifinória só podia ter problemas mentais. Ou aquilo era uma brincadeira de extremo mau gosto!

Depois de destruir tudo o que tinha, foi tomar um banho. Teria que esfriar a cabeça para tentar pensar em algo coerente. Se Granger esperava alguma resposta para a atitude ridícula que tomara, teria que esperar sentada. Ele jamais faria qualquer coisa porque ela havia pedido. Que absurdo!


Hermione continuou com sua rotina. Mas não era mesma coisa, não tinha o mesmo sentido. Ela ficava horas a fio sentada naquela cozinha. Esperando que por algum milagre Draco fosse aparecer. Cada vez que deixava o quadro da cesta de frutas atrás de si e caminhava para a torre da Grifinória, sentia o coração afundar dentro do peito. Sentia uma dor e uma agustia que só sentira dois anos antes, todas as vezes que via Rony agarrado com Lilá Brown. Não gostava daquilo, sentir uma coisa tão grande por alguém tão insignificante. Mas também já não tinha certeza se Malfoy era assim tão insignificante.

Além disso ainda havia o Rony. Mais de uma semana se passara e ainda não tinha recebido nenhuma resposta do namorado. Se é que ainda eram namorados. Ela não se arrependia por ter contado a verdade – mesmo que fosse possível ele nunca ter descoberto -, mas queria pelo menos uma resposta. Não se importaria se fosse uma carta dizendo que eles não poderiam mais continuar juntos e que Rony jamais a perdoaria. Iria doer muito, mas seria melhor que o nada. Ela sempre achou que indiferença era o pior sentimento que podia existir. Preferiria o ódio da pessoa que amava à apatia.

A situação já estava ficando insustentável. Não tinha resposta de Rony, não tinha a companhia de Malfoy. E nada mais parecia interessante, nem mesmo os livros. Quando voltou para o dormitório, cerca de dez dias depois do que ocorrera, antes de se deitar, escreveu outra carta. Mas dessa vez não foi para o ruivo.

Draco,

Não sei se deveria estar te escrevendo. Muito menos se deveria te dizer o que estou prestes a escrever, mas eu estou sentindo sua falta.

Eu não deveria ter deixado aquilo acontecer. Mas agora não tem nada que eu possa fazer e eu - mesmo que seja a coisa mais absurda que eu já pedi para alguém um dia - queria que você voltasse.

A gente pode fingir que não aconteceu nada. Só não me deixa sozinha, por favor. Todos os medos que me esmagavam antes de você aparecer estão voltando. E agora eu não tenho nem o Rony com quem conversar, desde que eu contei para ele o que aconteceu que ele não me responde.

Eu só não quero ficar sozinha outra vez.

Hermione.

No terceiro dia depois de ter escrito para Malfoy, Hermione já não achava que Draco iria aparecer. Continuava indo à cozinha só para não ficar horas rolando na cama. Ia por costume, e por – inconscientemente - ainda sustentar uma ínfima esperança.

Por isso, naquele dia, quando se deparou com todos os archotes da cozinha acesos, o coração de Hermione deu um salto. Aquilo só podia ter uma explicação.


Draco parou a meio caminho da pia, o bolo recém-tirado do forno pendeu precariamente na mão. Hermine estava estática, a porta ainda aberta atrás dela. Parecia respirar pesadamente, e ele se arrependeu por ter ido até lá.

Não tinha como negar o quanto se sentia atraído por aquela sangue ruim de merda. E ela nem tinha nada demais. Cabelos terrivelmente descontrolados, que combinavam perfeitamente com ela; olhos sem atrativo algum, com aquele brilho que só um olhar dela conseguia ter; ainda tinha os lábios, tão tentadoramente sem graça alguma que o fez perder várias, das poucas que tinha, horas de sono. Sem falar no corpo, não tinha nada demais; nenhuma curva que merece real atenção quando ela passava, mas que havia se encaixado perfeitamente ao dele enquanto se beijavam.

Draco respirou fundo e continuou seu caminho até a pia, como se eles não tivessem ficado duas semanas sem se ver, e não houvesse alguma coisa contorcendo-se dolorosamente no estomago dele. Ele teve que forçar a mente a lembrar do que ela havia escrito. A gente pode fingir que não aconteceu nada. Só precisava avisar isso ao corpo dele.


Draco continuou o que estava fazendo e Hermione, conseguiu fechar a porta atrás de si.

"O que é isso?", perguntou já perto dele, também como se nada de extraordinário tivesse acontecido naquela mesma bancada.

"Bolo", disse virando a fôrma para ela. Ironicamente, era o bendito bolo de chocolate que ela o havia ensinado a fazer duas semanas antes.

"É, a cara até que está boa", disse dando o primeiro sorriso em dias. "Você fez café?"

"Não, pensei que você que fosse fazer."

"Ok", respondeu e se virou para pegar as coisas; nunca fora muito a fim daquela bebida, mas de uns dias para cá tinha aprendido a gostar.

Minutos depois, estavam ambos sentados em uma mesa, um de frente para o outro, saboreando o primeiro bolo do sonserino (teoricamente o segundo, mas como não haviam provado o outro, não valia.). Um silêncio, com o qual já haviam se acostumado, pairou sobre eles por algum tempo, até Hermione lembrar-se de algo e falar:

"Você não tinha me contado que fumava". Depois que sentira o cheiro de cigarro nele, Hermione se deu conta do porquê dele querer tanto o tal café.

Ele desviou o olhar do prato a sua frente e levantou uma sobrancelha para ela.

"Anda me espionando, Granger? Porque realmente não me lembro de ter mencionado isso com você."

Ela corou ligeiramente; não saberia dizer se foi imaginação ou não, mas poderia jurar que, por um efêmero momento, viu um meio sorriso brotar nos lábios do loiro.

"Você é viciado em café, apenas deduzi", mentiu.

"Mas você não me perguntou se eu fumava, afirmou. Tudo bem que você é uma sabe-tudo intragável, mas você foi muito taxativa para uma 'dedução'", replicou como quem sabe das coisas. Alguns segundos depois, continuou: "Como descobriu, Granger?"

Ela sentiu as bochechas corarem novamente; tentava desesperadamente encontrar uma explicação que não fosse a verdadeira. Desistindo, por fim, falou em um fio de voz:

"Eu senti o cheiro, Malfoy. Satisfeito?"


Draco podia dizer que não havia mal algum em Granger assumir que havia sentido cheiro de cigarro nele. Não haveria mal algum se ele não soubesse em qual situação ela conseguira tal feito.

Ele se arrependeu por ter perguntado; mas ela também não tinha nada que ser enxerida!

Um clima estranho pesou entre eles, e Draco achou o ambiente claustrofobicamente pequeno para os dois.

"Já está ficando tarde demais, ou cedo – depende do ponto de vista. Acho melhor a gente ir."

Hermione revirou os olhos, como sempre fazia quando achava que ele tinha feito alguma piada ruim. Com sorrisos sem graça, levantaram-se para arrumar a bagunça que haviam feito.

Cerca de vinte minutos depois, estavam despedindo-se na escadaria de mármore perto do saguão de entrada.

"Boa noite, Granger"

"Boa noite, Draco", respondeu com um singelo sorriso, já subindo as escadas.

Aquele sorriso com certeza renderia mais algumas horas a menos de sono ao sonserino, que seguiu às masmorras se perguntando em que buraco havia se metido.


Os dias foram correndo naquela mesma rotina de aulas, deveres, livros e cozinha. Mas agora os encontros não se limitavam apenas às madrugadas; sempre que tinham tempo livre, os dois iam para a biblioteca - ou, quando estava um tempo bom, para os jardins – e ficavam lendo. Há dois finais de semana, passavam o dia inteiro juntos. Às vezes, muito raramente, dividiam até o mesmo livro.

As pessoas não disfarçavam os olhares curiosos para os dois, mas eles não davam a mínima.

Hermione tentava a todo custo não pensar no que estava acontecendo entre ela e o sonserino. Tinha medo da conclusão na qual poderia chegar. E ela ainda esperava uma resposta do Rony. Já era quase final de Dezembro e ele sequer dera sinal de vida. Ela já havia até se decidido por passar o Natal na escola.


Draco sabia que sentia algo que não deveria pela insuportável da sangue ruim, mas não sabia o que era. Queria ao menos ter forças para ficar o máximo possível longe dela, mas nem isso conseguia mais. Inclusive, estava começando a ter reação absurdas em determinadas situações, por exemplo, ficou ridiculamente feliz quando ela disse que passaria o Natal em Hogwarts e não com o imbecil do Weasley (que até agora não tinha respondido a maldita carta que a anta da Granger mandou, o que o estava deixando bem irritado, porque ela não parava de falar sobre isso.). Ou ter sentido todo o corpo arrepiar quando estavam bem próximos lendo o mesmo livro e a respiração dela chegava feito sopros quentes e suaves em sua nuca.

E agora ela estava ali, na frente dele, toda agasalhada devido ao inverno que se aproximava, deliciando-se com um sorvete de chocolate. Ela adorava chocolate! Ele segurava uma caneca fumegante de café, tentando fazer as mãos esquentarem um pouco.

Há alguns dias eles estavam sentando no mesmo lado da mesa, com as cadeiras de frente uma para a outra.

Súbito, Hermione largou a caneca com sorvete na mesa e olhou para ele.

"Draco, nunca te vi sem blusa de manga comprida!", disse como se só houvesse percebido isso naquele momento. "Por quê?"

Por alguns segundos, Draco não soube o que responder. Ficou olhando para ela que, definitivamente, esperava por uma resposta.

"E que diferença isso faz, Granger?", disse virando-se para frente na mesa.

"Nenhuma, eu só pensei que pudesse ser por-

Sem deixar que ela terminasse o que ia falar, ele disse:

"Só uma mania que eu tenho, nada demais", voltou a olhá-la, ela estava – como sempre que comia sorvete – suja de calda. "Você está suja, Granger", mudou de assunto.

"Ah", falou procurando por alguma sujeira na blusa, sem encontrar, perguntou: "Onde?"

Draco ficou na ponta da cadeira, inclinando-se perigosamente para perto da boca dela.

"Aqui", disse passando o dedo perto dos lábios avermelhados, possivelmente galados e com gosto de chocolate e, decididamente, tentadores. Ele viu Hermione fechar os olhos com a proximidade e o contato, e achou que já havia esperado tempo demais para beijá-la novamente. Agora que ele sabia, que se fodesse o imbecil do Weasley, ninguém mandou que ele largasse a namorada por tanto tempo.


Hermione não gostou nada do quão perto Draco estava dela, podia até sentir a respiração dele contra o rosto. Fechou os olhos para poder clarear os pensamentos, mas mal teve tempo de respirar novamente, sentiu seus lábios sendo possessivamente tomados pelos do loiro.

Por breves segundos, ela esqueceu o que deveria fazer. Prendeu a respiração e quando voltou a soltá-la, não pensou duas vezes antes de levar as mãos à nuca de Draco e corresponder ao beijo.

Draco tinha gosto de café, menta e tabaco, talvez não nessa ordem, mas inexplicavelmente bom. Segundos, minutos, ou horas depois, ele separou seus lábios e começou a beijar o pescoço dela; uma mão ávida procurando pele sob as blusas que ela vestia. Ela queria dizer que aquilo estava errado, que ela não podia fazer aquilo, mas não tinha certeza que conseguiria proferir qualquer coisa coerente.

"Eu te odeio, Granger!", disse ao ouvido da morena, apertando a coxa dela perigosamente perto da virilha.

Eu também te odeio, pensou, juntando forças que não tinha para levantar-se e sair dali.

"Eu tenho que ir", falou entrecortada, já em pé e com Draco a milímetros dela.

"Não tem, não, Granger", disse puxando-a pela cintura e a encostando na mesa. "Já esperei tempo demais por isso, e não se atreva a dizer que você não quer!"

Ela não respondeu nada; mesmo que pretendesse, não teria dado tempo, Draco voltou a beijá-la e a tocar, daquele jeito quase hipnotizante que ela imaginou só ele ser capaz. Hermione queria dizer que ele era um completo filho da puta, egocêntrico, mau caráter e muitas outras coisas, mas a cada segundo tinha menos noção do que estava ao seu redor; só fazia sentir as mãos, lábios e todo o corpo do sonserino que estava sempre mais próximo, prendendo-a contra ele.

Quando sentiu Draco a sentando na mesa e se colocando entre suas pernas, Hermione achou que aquilo estava indo longe demais.

"Malfoy," puxando os fios loiros com demasiada força – a fim de extravasar tudo o que estava sentindo -, disse colada à boca dele "isso não vai dar certo... Não devíamos fazer isso..."

Ainda na mesma posição, parecendo nem sentir que Hermione quase arrancava o cabelo dele, Draco respondeu:

"Só tem um jeito de saber se vai dar certo ou não, Granger", respirou pesadamente e mordeu o lábio dela antes de continuar: "Vamos sair daqui... algum lugar mais confortável". Sem esperar resposta, começou a arrastá-la até a porta.


N/A: Gente, segundo capítulo postado! Espero que tenham gostado. O próximo capítulo promete, está quentíssimo! E obrigada pelos comentários!

Bjs e até o próximo! *-*