Annie e Richard entram no lab. secreto. A porta se fecha atrás deles. Não aguentando mais o silêncio dela, Richard cobra:
-Preparou o antídoto?
Apenas alguns passos a frente, Annie vira pra trás apoiando uma das mãos na mesa e avisa:
-Isso é algo a longo prazo, Richard. Preciso de tempo. Há trechos codificados do projeto, sabia disso?
-Se a coisa fosse fácil, agente Mack, eu jamais a teria procurado. Pode decodificar?
Sentando em uma cadeira, Annie consente:
-Vai levar uns dias, mas sim, com certeza – pausa. - Sobre aquele nosso acordo... Quero fazer uma contraproposta.
Tentando imaginar o que ela estaria tramando, e concluindo que seria uma fria, Richard lhe lança um olhar desconfiado:
-Seja o que for, a resposta é NÃO.
A verdade, é que não confiava nela. E, podia sentir que era recíproco. Richard fora treinado para viver em estado de alerta, suspeitando até mesmo de sua própria sombra. Por isso, com pose de espião, passa a andar pelo laboratório xeretando os vidros com fórmulas químicas secretas. Por sua vez, Annie pretendia ganhar tempo pra descobrir tudo o que envolvia aquele misterioso composto testado em Richard, ela sabia o quanto esse produto seria uma ameaça se usado para o mal. Precisava conquistar a confiança de Richard, fazê-lo se abrir, e para tanto, era hora de pôr seu plano de ação em prática. Em tom de desafio, faz a contraproposta:
-Enquanto espera pelo antídoto, posso ensiná-lo a lidar melhor com seus poderes. Conheço esse composto como ninguém, aposto que nem faz idéia das coisas que é capaz de fazer. E, sou a cientista mais indicada para essa tarefa.
-Por que me ajudaria?
-Para descobrir mais sobre os efeitos do GC na sua corrente sanguínea... Por seus lindos olhos azuis é que não seria! – debocha Annie rindo. - Vamos! Será vantagem para ambos os lados!... Claro, a menos que tenha "medo" de uns simples testes.
Por mais que temesse algo, Richard era machista, jamais admitiria o contrário:
-Tá brincando? O que tenho de fazer?
Annie caminha até a ponta da comprida mesa do laboratório e lhe mostra uma bolinha vermelha de borracha.
-Deve girá-la o mais alto que puder – ela aponta para o teto. - Acha que consegue?
Richard abre um sorriso convencido. - Só isso?
É obvio que Annie tinha outro desafio pra ele. Tirando um lenço preto do bolso detrás da calça, ela parte em sua direção e chegando bem perto, avisa:
-De olhos vendados.
Ele balança a cabeça ressabiado:
-Não está falando sério, eu...
Antes que ele terminasse a frase, Annie já havia se aproximado mais e agora amarrava o lenço diante de seus olhos. Richard sente um agradável perfume de sândalo no ar e, por um momento, o cheiro de química do laboratório desaparece por completo. Ele se vê envolvido por aquele perfume feminino e só volta a dizer algo, quando Annie se afasta, perguntando:
-Está pronto?
Richard demora um tempo até responder:
-Como vou mover o que não vejo? É impossível!
Posicionando-se ao lado da bolinha vermelha, Annie afirma:
-Eu garanto que o impossível é possível. Concentre-se!
Richard franze o cenho numa primeira tentativa. Mas, o perfume dela ainda estava gravado em sua mente... O que havia de errado com ele? Era só um perfume de mulher!... A bolinha apenas balança de leve sobre a mesa para decepção de Annie. Richard respira fundo.
-E aí? Funcionou? - ele pergunta sem tirar a venda.
-SEQUER SE MEXEU! – mente Annie o repreendendo. - Não está se concentrando, Richard! Precisa "vê-la" girar, mesmo de olhos vendados! Até uma criança faria melhor do que você!
Irritado com o comentário, Richard esquece de vez o perfume. Ele franze o cenho numa segunda tentativa. A bolinha começa a levitar bem devagar... Annie acompanha o fenômeno de perto. Como magia, começa a girar e subir até alcançar o teto, cada vez mais veloz. A cientista sorri encantada, era inacreditável!... Será que ele tinha noção do alto grau de seu poder? E do perigo real que representava a humanidade?
De repente, ele arranca a venda dos olhos e a bolinha cai sobre Annie, que usa os braços para se proteger. Richard a observa e sorri, é quando seus olhares se cruzam e ele diz satisfeito:
-Consegui, sou o melhor.
Contente com o resultado da experiência, Annie se abaixa para procurar a bolinha no chão, e olhando pra ele, provoca:
-É, conseguiu... Foi um pouco "fraquinho".
Richard vai até ela e se abaixa para ajudá-la a procurar. Eles se entreolham:
-Fraquinho? - repetiu sem acreditar no que ouvia. - Só pode estar brincando!
Annie balança a cabeça negando, mas logo se entrega num sorriso. A verdade é que ele havia ido melhor do que suas expectativas. Richard abre um lindo sorriso correspondendo ao dela... Mas, logo volta a ficar sério...
Agora que estavam tão perto um do outro, Annie repara o quanto aquele homem podia ser atraente. Ela desvia os olhos e encontra a bolinha no chão, no canto detrás da perna da mesa. Estica o braço, sem perceber que Richard havia encontrado ao mesmo tempo que ela. Então, suas mãos se tocam por um segundo e eles voltam a olhar um para o outro. O que acontecia com eles? Eram inimigos! Trabalhavam para agências opostas! Deviam se odiar!... E ao invés disso, a mão dele acariciava a sua, e suas bocas cada vez mais próximas ansiavam por um beijo... Nisso, um forte estrondo faz com que levantassem juntos, soltando as mãos depressa. Richard indaga:
-O QUE FOI ISSO? UM TIRO?
-Veio da sala.
Num gesto automático, Annie leva a mão direita atrás da cintura e saca sua pistola dourada (golden gun), indo em direção a saída da garagem. O que quer que tenha sido, estava prestes a desvendar...
