~Los Angeles – CA. -Residência da agente Annie Mack – 01: 54 am.
Noite alta, Annie está em casa assistindo "Titanic" na tv de plasma da sala e comendo pipoca temperada, na maior calma e aconchego do lar. Abre um sorriso bobo no rosto ao ver a cena em que Leonardo DiCaprio, ou melhor, "Jack" está de braços abertos com "Rose" na ponta do navio, ao sabor do vento... O que não daria para estar no lugar daquela atriz, naquele mesmo navio... com Richard. Nisso, a tv desliga de repente. Annie estranha. As luzes da sala piscam e apagam... Dano elétrico? Blackout? Não; longe disso, apenas Richard que acabava de entrar por debaixo da porta "furioso":
-ERA SÓ O QUE EU PODIA ESPERAR DE VOCÊ, AGENTE DA CIA!
-Jesus! Que susto, Richard!-ela leva a mão ao coração.- Há um botão ao lado da porta, chama "cam-pa-i-nha" e foi feito pra ser usado, sabia?
-COLOCOU UM RASTREADOR EM MIM! - gritou.
-Não sei do que está falando... Aliás, sabe que horas são?- se faz de desentendida comendo mais uma pipoca. - É madrugada, vá pra casa.
-Quer fuçar aonde moro, não é? Descobrir com quem falo quando saio daqui!? Não tem noção do erro que está cometendo.
A luz da sala pisca várias vezes e queima, deixando os dois no escuro. Era evidente que Richard estava tão exaltado que havia perdido o controle de seus poderes, o que podia significar um risco para ambos. Annie percebe que só resta uma saída, portanto, levanta do sofá e o confronta:
-POR QUE ACHA QUE FUI EU? DEVE TER TANTOS INIMIGOS QUE QUALQUER UM PODERIA...
-VOCÊ TOCOU NO MEU BRAÇO! PLANTOU O RASTREADOR QUANDO SEGUROU EM MIM ESSA MANHÃ! SUA DIGITAL ESTÁ NELE!
-Minha digital? Hahaha! -ela ri como se ele tivesse contado uma piada.
O fato de Annie negar tudo com a maior cara-de-pau o deixava ainda mais nervoso e lindo. Ela imaginou que ele devia estar se segurando pra não usar seus poderes contra ela...
-ADMITA, CIENTISTA! QUIS ME ESPIONAR! A PERGUNTA É; PRA QUÊ?... SERIA CAPAZ DE ME ENTREGAR PRA CIA?
-Richard, jamais entregaria você sem motivo – admite. - Mas, há respostas as quais gostaria de saber.
-Melhor pra você se ficar sem respostas.
Annie tinha absoluta certeza de que sua digital não estava na escuta, era pequena demais para abrigar uma digital digna de ser rastreada, mas talvez dizer a verdade fosse uma boa tática para conseguir o que queria:
-Por que não abre o jogo comigo? Assim desisto de espioná-lo.
Ele caminha pela sala com os dois punhos fechados, estava a ponto de explodir, ou talvez, preparando-se para bater em "alguém":
-Eu sabia! Sabia que tinha sido você!
Segura de si, Annie anda em sua direção, um passo de cada vez e insiste:
-Pra quem trabalha, Richard?
-Não posso dizer.
-Está bem... Qual é seu nome completo?- ela dá mais um passo, pressionando-o. - Vamos lá, essa pergunta é fácil!
-SE ABRIR A BOCA, SUA VIDA CORRERÁ RISCO! - ele alerta num tom alto e firme.
Annie pára e pensa por um segundo, estavam próximos agora, olhos fixos um no outro, mergulhados num silêncio tenso. Tentando quebrar a tensão, ela pergunta:
-E como faço se precisar contatá-lo?
-EU venho até você. Jamais me procure ou tente me contatar.
-Esse é o problema. Sabe tudo sobre mim, e o que sei sobre você? NADA!
-Acredite, só chequei o suficiente pra poder me aproximar.
Annie sorri duvidando dele:
-Diga algo que ainda não sabe sobre mim.
Então, Richard aponta com a cabeça para os porta-retratos da estante:
-Não sei sobre sua família. Por que sua mãe e irmã nunca vem te visitar? Diga, cientista, por acaso transformou as coitadas em sapo?
Annie desvia os olhos para um dos porta-retratos (dela abraçada com a irmã) enquanto responde num tom baixo:
-São ocupadas.
-Falo da minha família se falar da sua primeiro – ele propõe.
Cansada das imposições dele, Annie vira o pescoço, jogando os cabelos castanhos pra trás nervosa e o encara irada:
-FIQUE SABENDO QUE SUA VIDA PESSOA NÃO ME INTERESSA NEM UM POUCO! EU QUERO MAIS É QUE SE DANE, RICHARD!- gritou.- NÃO IMPORTA OS RISCOS, VIVER É CORRER RISCO! ABRA DE UMA VEZ PRA QUEM TRABALHA! VOCÊ É KGB? OU K-Directory?
A tensão aumenta. O rosto de Richard começa a brilhar de nervoso (um dos efeitos do composto: ao invés de "corar" de raiva, ele fica "dourado de raiva", acendendo e apagando igual a uma lâmpada com defeito):
-Sua diversão é pressionar os outros, não é?
-Você!
-EU, O QUÊ?-pergunta ele irritado.
-É um prazer pressioná-lo em especial.
-Que coincidência. As vezes também sinto vontade de enforcar você em especial. Por que será?
-Acho que somos como dois pólos iguais que se repelem.
-TÁ EXPLICADO!
-Richard, controle seus poderes, seu rosto está... - ela começa a falar e aponta pro rosto dele, a última coisa que queria era que tivesse um treco por sua causa. Ainda mais, se tratando de um gato como ele!
-Brilhando? - ele pergunta e Annie consente se aproximando dele para "analisar" melhor de perto. - Fico assim quando sinto muita raiva ou vergonha.
-Isso é incrível – diz ela erguendo a mão direita devagar e tocando em seu rosto. – Sequer está febril, é como se brilhar fosse algo natural pra você. - ela desliza a mão pelo rosto dele, sentindo o pinicar da barba por fazer, descendo até os lábios, seguindo seu contorno sem pressa, o que antes era um exame científico, agora era puro gesto de carinho, até que ela se dá conta do que fazia e breca de imediato, sem saber o que dizer. - Desculpa, eu... Não sei o que me deu...
Sem graça, Annie ia baixando a mão, quando Richard segurou sua mão no ar, colocando-a de volta em seu rosto, e com a mão quente dele sobre a dela, pediu:
-Continue... Gosto do seu toque.
Ambos silenciam mais uma vez, sem tirar os olhos um no outro, como imãs ligados por uma energia invisível e poderosa. Estavam tão perto que Annie podia ouvir a respiração de Richard, sabia que seus batimentos cardíacos estavam acima do normal; ele também podia ouvir a respiração dela, enquanto encarava aqueles lindos e agressivos olhos cor de avelã. Frente a frente era difícil controlar o que sentiam, era como se esses momentos de tensão, os ligassem cada vez mais ao invés de distanciá-los. Seria "só" tensão nervosa? Ou, talvez, tensão sexual? Brigavam, quando na verdade se queriam? "Não, impossível!", pensou Annie. Então, o rosto de Richard parou de brilhar de repente... Nossa, como estavam perto! Sozinhos naquela sala escura, a atmosfera era um convite ao romance. Mas... Annie queria fugir desse tipo de aproximação. Por isso, ela baixa a mão, dando um passo pra trás, desviando os olhos para o pé da mesa de centro. Ambos sabiam que deviam manter uma relação profissional, e que qualquer aproximação agora só serviriam pra colocar tudo a perder. Quando Annie levantou a cabeça, voltando a olhar Richard, ele estava com o semblante mais tranquilo, a tensão se dissipava aos poucos. Num tom baixo e acolhedor, ele afirmou:
-Ouça, Annie, se vim até você não foi para matá-la. Queria o antídoto, uma cura que me trouxesse a vida normal de volta... E agora, você me põe em dúvida se esse antídoto vale mesmo a pena.
-Por quê? Se arrepende de algo?
-Porque meus poderes são uma boa desculpa pra estar do seu lado.
-Richard... Isso é loucura!
-Eu sei... Não é seguro pra mim, nem pra você. Mas, podíamos tentar nos conhecer melhor, sem que isso envolva assuntos secretos do governo. Tentar confiar mais um no outro... Que me diz?
A agente volta a sentar no sofá com o pensamento vagando longe, talvez esse fosse o momento de se abrir com alguém sobre Alex, e num tom ressentido, revela:
-Minha irmã era apenas uma criança quando foi contaminada pelo GC, eu fiquei ao lado dela, guardamos segredo de todos por três anos, mas tinha certeza de que ela nunca usaria seus poderes para o mal. Já você...
-Se quisesse usar meus poderes pro mal, pra que ia querer desistir deles?
-É o que me pergunto e, pra dizer a verdade, não consigo entender.
Richard senta no sofá próximo a ela, exceto pela bacia de pipocas, e revela:
-Há pessoas no governo que se soubessem o que posso fazer, me isolariam em uma sala e espetariam agulhas em mim, eu seria alvo de experiências, uma cobaia humana pro resto da vida. É disso que quero escapar.
Annie olhava em seus olhos, ele não parecia estar mentindo. Só ainda não entendia uma coisa:
-Por quê eu? Podia ter procurado outro cientista envolvido no projeto, um ex funcionário da usina, sei lá... Ainda pode fazer isso, basta desfazermos o acordo.
-Nunca. Quando entrei naquele armazém abandonado e a vi, tive certeza que seria a escolha certa. Confio no seu conhecimento de cientista, sei que é boa nisso. Annie, a minha vida está em suas mãos.
-Ah! Então, faz idéia do perigo que corre – diz ela exibindo um sorriso de superioridade. - Posso fazer o que quiser com você? Quais são suas últimas palavras?
Ele faz um carinho rápido no rosto dela – Aconteça o que for, confie em mim.
Após uma breve pausa, ela resolve lhe dar uma chance, mas no fundo o que queria mesmo era testá-lo:
-Sua vez, fale da sua família.
-Não tenho.
-Não tem, o quê?
-Uma família.
-Viu? - reclamou. - Disse que se eu falasse dos meus pais...
-Annie... É difícil pra mim falar disso -ele a corta no meio da frase, parecia disposto a revelar algo profundo, algo de seu passado sombrio.-Eu... Perdi meus pais muito cedo, me virei como pude, não é todo mundo que tem a sorte de ser chamado pra trabalhar na CIA, ou que possui uma família unida como a sua... Não sou um assassino, nem trabalho pro lado negro da força, e se quer saber... Admiro sua lealdade à agência... Sua irma Alex deve ter imenso orgulho de você.
Annie consente, desviando os olhos para aquele porta-retrato onde ela e a irmã apareciam abraçadas e sorridentes. Richard checa o relógio de pulso:
-Preciso ir, logo vai amanhecer.
Ele levanta do sofá, olha pra ela mais uma vez, transformando-se em poça d'água. Mesmo sem luz, desvia da mesa de centro com velocidade e atravessa a porta da rua. Sozinha, Annie não se contém, corre até a estante pega o porta-retrato, e se deixa cair no chão chorando sentida:
-Oh, Alex!... Foi minha culpa!...
(Fanfiction escrita por Annie Lane... Não copie. Crie.)
