Aemon estava piorando e já quase mão saia do quarto. A piora na saúde do velho consiglieri tornava tudo mais urgente. A situação no Norte estava apaziguada desde que as famílias leais aos Baratheon se declararam a favor de Gendry, deixando Tywin Lannister isolado na Costa Oeste.

Jon conseguiu entrar em contato com os Stark e pedir para que Ned ou Robb fossem até a Flórida. A esta altura, todo território já sabia que Jon e Aegon estavam dançando em volta um do outro, esperando o momento de atacar. Ned Stark não era burro e saberia reconhecer a delicadeza da situação. Além disso, depois da ajuda Targaryen, seria normal espera uma retribuição.

O que Jon não esperava era receber um telegrama anunciando que Ned Stark e Robb estavam a caminho do Sul. Ele esperava apenas um dos Stark, ou possivelmente até um representante com alguma autonomia de negociação, mas aquilo era um sinal de alerta. Aquilo era para intimidar.

Arya estava inquieta desde o momento que soube que o pai e o irmão mais velho estavam a caminho. Se por um lado ela queria vê-los, por outro ela sabia que aquele não seria um encontro pacífico. A ansiedade se tornou insuportável e se antes ela tinha problemas em deixar de lado as questões morais que esbarravam na relação dos dois, agora Arya simplesmente se recusava a permitir que Jon a tocasse.

Não chegava a ser uma surpresa. Jon sabia que ela só se sentiria segura para demonstrar afeto quando tivesse uma resposta positiva do pai. Arya podia ser naturalmente rebelde, mas quando se tratava de Ned Stark ela se tornava dócil como um carneirinho. Não era segredo pra ninguém que ela era a favorita do chefe da casa Stark, enquanto Sansa era a favorita da mãe.

Estava fazendo um calor insuportável quando Ned e Robb desembarcaram na estação. Jon estava suando, mas não sabia dizer se era por calor, ou nervosismo. A cidade não era segura para seus convidados, não enquanto Aegon estivesse à espreita. Drogo ao menos foi gentil o bastante para oferecer um local seguro para que eles pudessem conversar.

Jon se assustou ao ver o tio descer do trem. Ned parecia ter envelhecido dez anos em pouco menos de três meses. Ele se movia com dificuldade e usava uma bengala pra andar. Nem de longe aquela era a imagem do homem que fazia o norte inteiro estremecer.

Robb foi até Jon e o abraçou como se absolutamente nada tivesse mudado entre eles. Como se eles ainda fossem irmãos e melhores amigos. Jon duvidava que aquilo fosse durar muito tempo.

Jon os levou até a casa onde Khal Drogo e Daenerys viviam. Uma bela mansão branca, perto do mar, com um belo jardim. Arya já estava lá, aguardando a chegada deles. Ela e Daenerys estavam sentadas no jardim, aproveitando a brisa que vinha do mar que tornava o calor mais suportável. Ao avistar o carro, Arya se levantou imediatamente.

O reencontro entre Arya a sua família foi algo que deixou Jon inseguro e involuntariamente enciumado. Ela corria até eles e os abraçava tão espontaneamente e com tamanha devoção, que Jon não conseguiu se quer olhar por muito tempo. Custaria a ela tão pouco virar as costas para ele e ir embora. Ned beijou a testa da filha e tocou as pontas do cabelo curto, com uma expressão quase tão magoada quanto a de Jon quando viu o corte pela primeira vez.

- Oh querida. O que aconteceu? Por que fez isso com seu cabelo? – ele perguntou, fazendo Arya rir.

- Descobri que era mais prático. Foi muito útil durante o caminho. – ela disse sorrindo – Bem moderno, não acha?

- Combina com você, eu acho. Sua mãe não vai gostar. – ele disse sorrindo – Como você está? Deus do céu, senti sua falta.

- Também senti a sua. – ela disse com o coração aos saltos. Em seguida ela abraçou Robb.

Após a breve recepção, cheia de abraços apertados e risos mal contidos, eles entraram. Jon pediu para falar com Robb e Ned a sós, recebendo de Arya um olhar de reprovação quase que imediatamente. Ele apreciava toda ajuda que ela estava oferecendo, mas aquele era um assunto que precisava ser tratado de homem pra homem.

Os três se trancaram no escritório de Drogo. Um lugar bem pouco utilizado já que o homem nunca fazia uma negociação, ou verificava um documento naquele lugar. Casa era um lugar sagrado para Drogo. Um lugar de descanso e segurança para ele e a mulher.

Ned e Robb retiraram os chapéus e casacos, um hábito do Norte, difícil se superar. Jon notou que Ned não conseguia andar direito e precisava usar uma bengala para se apoiar. Aquele homem que sempre pareceu tão forte e invencível estava envelhecendo diante dos olhos dele. Era doloroso olhar, mais ainda saber que ele teria de causar ao homem que ele considerou como um pai mais uma dor inevitável.

Eddard Stark se sentou em uma das poltronas e o encarou. Robb e Jon fizeram o mesmo. Ele respirou cuidadosamente, avaliando Jon como um inimigo em potencial, não como alguém que ele criou como a um filho. Robb parecia mais disposto a encarar tudo como um mal entendido.

- Muito bem, Jon. – Ned começou – Eu sei que há um pedido de apoio entalado na sua garganta e pronto para ser jogado sobre mim, mas há coisas que nós dois precisamos esclarecer primeiro.

- Ned, eu...- antes que Jon pudesse dizer qualquer coisa, Ned bateu a mão sobre a mesa, silenciando-o.

- Calado! – Ned disse com voz firme – Eu não sei o que a sua recém-descoberta origem fez com a sua cabeça, e talvez eu tenha culpa por não ter te falado a verdade antes, mas o que diabos você tinha na cabeça quando se achou no direito de tirar Arya de casa e trazê-la pra cá?! Você sabia o plano, eu havia lhe dado ordens expressas, a Flórida era a última opção e mesmo assim você me desobedeceu! Fosse eu um Don menos piedoso, eu já teria dado um fim em você! Mas você é como um filho pra mim, é o filho único da minha irmã, que Deus a tenha. É só por isso que eu estou aqui, pra ouvir um pedido de desculpas. Ouvir da sua boca que isso foi uma atitude impensada, e esquecer que isso aconteceu. Então eu levarei Arya pra casa, e se você quiser apoio pra assumir os negócios dos Targaryen, eu lhe darei. Minha irmã preferiria ver o filho comandando sua própria família do que correndo o risco de ser assassinado por seu meio irmão durante o sono. Então, Jon... Estou esperando o seu pedido de desculpas.

- Então eu sinto muito desapontá-lo, Ned. – Jon disse, encarando o tio como o mesmo olhar duro e frio. Robb se remexeu na cadeira, desconfortável com toda situação – Eu lhe consegui apoio. Não fosse pelos homens que Aemon mandou, Bolton teria dado um jeito de ganhar um bom dinheiro oferecendo a Tywin Lannister a sua cabeça. Então não, eu não vou abaixar minha cabeça e dizer que eu tomei uma atitude impensada, porque essa atitude salvou sua vida.

- E colocou em risco a vida da minha filha! – Ned rosnou – Você atravessou metade do país com ela, deixando um rastro de morte pelo caminho, porque matar o Cão de Caça foi algo muito discreto de se fazer, e a trouxe para este covil de serpentes! Você e Aegon estão a ponto de entrar em guerra e vai ser a minha filha que vai estar no meio disso tudo! – Ned abaixou a cabeça por uma fração de segundos, seus olhos úmidos – Eu não vou permitir que Arya termine como sua mãe.

- Chegou tarde, mais uma vez. – Jon disse sério, notando os olhares de espanto no rosto de Ned e Robb – Eu não pedi por um encontro apenas para pedir apoio. Eu estou aqui por uma questão de honra, porque eu de fato lhe devo explicação, mas acima de tudo porque eu tenho uma grande consideração e respeito por você. Eu vou me casar com Arya e gostaria que me desse sua benção.

- O que?! – foi a vez de Robb se levantar e encarar Jon como se ele tivesse ficado louco – Que merda é essa que está dizendo?! Não pode casar com ela, vocês são irmãos!

- Não somos, Robb. – Jon respondeu de forma controlada – Eu sempre vou considerar você, Bran, Rickon e Sansa como meus irmãos, mesmo que sejamos apenas primos. Com Arya é diferente. Chego a ficar aliviado em saber que nós não somos irmãos.

- Em honra a memória de sua mãe, eu vou fingir que não ouvi uma barbaridade dessas. – Ned disse – Arya vai pegar as coisas dela, e embarcar comigo e Robb no próximo trem. Eu mandarei ajuda em retribuição ao que os Targaryen fizeram por mim durante a guerra e isso é tudo o que farei por você.

- Ned, eu acho que não entendeu. – Jon revidou em tom firme – Eu não estou pedindo permissão pra me casar com Arya. Eu estou comunicando a você uma decisão que já está tomada. Pedi sua benção porque você é importante pra nós, o que não quer dizer que você tem o poder de alterar esta decisão.

- A menos que você acabe morto! – Robb rosnou em resposta.

- Robb, cale a boca! – Ned retrucou.

- Sabia que eventualmente essa ameaça surgiria. – Jon respondeu calmo – Gostaria mesmo que sua irmã voltasse para casa com um filho órfão de pai nos braços?

- O que?! – Ned se levantou de uma vez – Você...Eu vou matar você! Vou fazer com que se arrependa do dia em que encostou na minha filha, bastardo desgraçado! – Ned ergueu a bengala que usava para se apoiar, pronto para acertar o rosto de Jon em cheio, quando a porta se abriu.

Arya entrou com a dignidade de uma rainha e a serenidade de uma freira. Ela trazia uma bandeja com copos de suco de laranja. Ned abaixou a bengala ao ver a filha, sem saber o que fazer. Apenas os garotos Stark sabiam o quão cruel o pai poderia ser, mas Eddard nunca alterava seu tom de voz na presença das filhas.

- Parem com as demonstrações desnecessárias de força. Todos nós aqui sabemos do que cada um é capaz. – Arya disse enquanto colocava a bandeja sobre a mesa – E você tem a sutileza de um elefante. – ela disse se virando para Jon.

- Algumas notícias não podem ser suavizadas, babe. – ele disse. O rosto de Ned ficou imediatamente vermelho. – Ned estava me dizendo como ele pretende fazer com que eu me arrependa do dia em que encostei em você. – Arya respirou fundo antes de se virar para encarar o pai.

- Pai, eu sei que é difícil de aceitar, ou mesmo entender, mas eu não vou deixar Jon agora. Nem por você, nem por ninguém. – ela disse sem nenhum traço de duvida em sua voz.

- Arya, isso é ridículo. Eu não vou ficar aqui sentado ouvindo como esse desgraçado traidor a enganou, trouxe pra esse fim de mundo e seduziu você num esforço torpe de me obrigar a ajudá-lo em sua ambição de se tornar o próximo Don. – Ned disse sério.

- Jon pode ter metido os pés pelas mãos no meio do caminho, mas você o criou, pai. Você sabe o que ele é e do que é capaz. – Arya respondeu – E também sabe que eu sempre adorei ele. Jon não fez nada comigo que eu não quisesse.

- Chega! Eu não vou ouvir isso! – Ned rosnou. Robb estava sem reação.

- Pai, eu não sou mais uma criança e por mais que tenha feito o possível pra me manter afastada dos seus negócios, eu sei como as coisas funcionam. – Arya disse séria – Não pode apenas engolir a raiva, nos dar sua benção e seguir em frente?

- Ele está usando você! Ele está usando você pra me obrigar a apoiá-lo! – Ned vociferou – Você não passa de uma criança, Arya. Uma garota ingênua que se deixou levar pela conversa desse vigarista ambicioso!

- Fui eu quem matou o Cão de Caça, pai. – ela disse calma e fria como um lago no inverno – Fui eu quem disse a Jon que o único jeito dele se livrar de Aegon é conseguindo o seu apoio. Jon queria mandar tudo pro espaço quando eu insisti para que nós esperássemos a situação aqui ficar mais estável para contarmos a você que estamos juntos. Eu sei como este jogo funciona, e o senhor também. Sabe que Aegon me tem como alvo justamente porque sabe que me atingir seria a melhor maneira de atingir Jon.

- Vocês dois se colocaram nesta posição. Eu não deveria nem mesmo estar aqui, ouvindo tudo isso. – Ned disse amargurado – Eu não posso acreditar que sobrevivia àquele ataque para ver o dia em que vocês dois me apunhalariam pelas costas.

- Acredite ou não, não estamos fazendo isso por ambição, ou qualquer coisa do tipo. – Arya disse séria – Eu amo o Jon, apesar de ser difícil ignorar o passado. – Jon passou o braço ao redor dos ombros dela imediatamente e Arya encostou a cabeça no ombro dele.

- Está mesmo grávida desse desgraçado? – Ned perguntou.

- Ele está empenhado em me deixar redonda, mas até agora não há nada confirmado. – Arya disse com um toque de desafio, fazendo Eddard e Robb resmungarem em resposta.

- Isso eu não vou permitir. – Ned disse definitivo – Já que vocês dois estão determinados a seguir com essa loucura, se eu for ter um neto filho desse desgraçado, ao menos vai ser um filho legítimo e não um bastardo como o pai.

- Não pode estar concordando com isso, pai! – Robb protestou – Isso é um absurdo!

- Absurdo é eu ter um neto bastardo e uma filha desonrada. – Ned retrucou – Vocês armaram isso tudo e graças a falta de juízo de vocês eu sou obrigado a mandar ajuda para que ao menos vocês sobrevivam no meio dessa confusão.

- Vai apoiar Jon na disputa? – Arya perguntou incrédula.

- Eu teria apoiado se ele apenas me pedisse, mas agora que vocês aprontaram tudo isso eu não tenho outra opção. Não vou deixar minha filha morrer nas mãos de um playboy que pensa ser um gangster. E se você vai se casar com ele, é melhor que ele tenha uma posição respeitável. Filha minha não vai ser esposa de um ninguém. Metade da fortuna dos Targaryen não é o bastante para ter uma Stark. – Ned resmungou – Quem mais você tem ao seu lado?

- Khal Drogo e alguns homens que consegui retrucar. Bons homens. – Jon respondeu.

- Imagino que são os Black Brothers que eu ouvi falar no meio do caminho. Ao menos você tem uma reputação melhor do que Aegon. – Ned disse frio – Vai precisar se livrar do Grifo.

- Já sei disso. – Jon disse – Eu só não podia tomar uma atitude como essa sem causar uma guerra, mas agora que eu tenho você como aliado, posso tomar as devidas providências.

- O que te impediu de dar cabo de Aegon até agora? – Ned questionou – Com medo dos Martell?

- Não. – Jon respondeu – Eu não fiz nada em respeito a Aemon. Ele está morrendo e bem ou mal, eu e meu irmão somos a única família que ele tem.

- Não sou a favor de sujar as mãos com gente do meu próprio sangue. – Ned disse austero – Não há honra nisso, mas admito que as vezes não resta outra escolha. Seu respeito pelo velho consiglieri é louvável, mas poderia ter te matado e matado a minha filha. Bote um dos cubanos pra fazer o serviço, ou mesmo um dos seus Black Brothers. Depois disso essa disputa vai acabar. É assim que se resolve as coisas, garoto.

- Foi assim que fez com Brandon? – Jon o encarou em tom de desafio e Ned ficou calado.

- Eu e Robb estamos indo para um dos hotéis sob a vigilância de Drogo. Providencie os papeis. Eu só vou voltar pra New Hampshire quando vocês estiverem devidamente casados. – Ned desconversou. – Vamos Robb.

Os dois se dirigiram até a porta, sem maiores cumprimentos ou explicações. Ned saiu primeiro, com a cara séria e sem se quer olhar para a cara da filha. Robb se deteve na metade do caminho, quando Ned já estava quase fora da mansão.

Ele encarou Jon e a própria irmã com cara de incredulidade e nojo. Jon nunca esperou viver pra ver o dia em que ele e Robb seriam antagonistas de fato, mas aparentemente o dia havia chegado.

- O que foi, Robb? – Arya perguntou. Robb passou a mão pelo rosto e respirou fundo.

- O pai pode ter aceitado tudo isso, mas eu não. – Robb disse sério – Isso foi traição de vocês dois. Foi imperdoável.

- Robb, nós... – Arya não teve tempo de falar. Robb ergueu a mão num gesto que demandava silêncio.

- Eu não quero suas desculpas. – ele revidou.

Robb caminhou até onde Jon estava e num golpe ágil e preciso acertou um soco na mandíbula do primo. Jon se quer revidou, apenas aceitando o soco como se aquilo fosse uma pena pequena diante da gravidade da situação. Arya fechou os olhos e em seguida Robb saiu sem dar mais satisfações.

Uma vez sozinhos ela correu até onde Jon estava, para saber se ele não havia se machucado muito. Jon riu um riso discreto, enquanto acariciava o rosto dela.

- Não se preocupe. Comparado ao que ele é capaz, Robb me socou como se fosse uma garotinha. – Jon disse rindo.

- Isso não tem graça. – Arya resmungou e seus olhos estavam úmidos – Eles me odeiam, Jon.

- Não odeiam. Estão chateados, inconformados e confusos, mas vão te perdoar. – ele disse beijando a testa dela – E quando tivermos filhos, Ned vai ficar fascinado de mais com a ideia de ser avô pra continuar com fazendo birra. É possível que até a sua mãe comesse a simpatizar comigo.

- Isso seria exigir de mais da sua sorte. Eu não me surpreenderia se ela viesse cortar a sua garganta pessoalmente. – Arya respondeu. Jon levou a mão à nuca dela e a trouxe pra perto.

- Era verdade? – ele perguntou com a boca a milímetros da dela.

- O que? – Arya perguntou sem fôlego.

- Quando você disse que me ama. – Jon completou.

- Eu não estaria aqui se não fosse verdade. – e antes que ela tivesse a chance de dizer qualquer coisa, seus lábios estavam sobre os dela.

Nota da autora: E está feita a merda. Então, Ned estava disposto a ajudar, mas não esperava pela facada nas costas. Robb se sentindo traído pelo melhor amigo e pela irmã. Este foi um capítulo bem tenso de escrever e bem divertido, porque normalmente todos pensamos no Ned como um pai amoroso e gentil com os filhos, do tipo que não levantaria a mão pra bater nas crianças e então damos de cara com ele batendo de frente com o Jon em pé de igualdade. Foi interessantes imaginar as coisas por este ângulo e eu espero que tenham gostado. Sem musica hoje por falta de inspiração.

Bjux

Bee