Capítulo 14 – Quarenta e uma semanas [Parte II

"Abby Lockhart?". A enfermeira perguntou quando de Abby começou a ser empurrada para fora do elevador.

Ela concordou com a cabeça.

"Sou Tess, vou ser a sua enfermeira".

Abby ia acariciando a barriga em círculos enquanto a maca ia sendo empurrada para uma sala, finalmente aquele momento havia chegado, ela não podia esperar para ter seu bebe em seus braços.

"A bolsa já estourou?".

"Já". Aaron respondeu acompanhando.

A enfermeira colocou o monitor fetal em Abby e Aaron se sentou numa cadeira próxima à maca.

"As contrações estão fortes?".

"Estão espaçadas, mas sim".

"Nós vamos fazer um ultra-som, mas ainda pode demorar um pouco".

"A Coburn já esta vindo?".

Tess concordou com a cabeça. "Ela vai estar aqui em alguns minutos. Você vai querer uma peridural?".

"Se eu não estivesse certa antes, agora estou".

"Covarde!". Susan disse entrando no quarto.

"Hey Susan".

Aaron percebeu que aquele era um momento entre mulheres e saiu do quarto as deixando sozinhas.

Quando Luka voltou ao P.S. parecia que o caos tinha se abatido sobre aquele lugar, Todos os funcionários corriam de um lado para outro e ele podia jurar que nunca tinha visto tantos pacientes ali, mas o que mais o surpreendia é que para todo o canto que olhava, via uma mulher grávida.

"Kakav je zbivanje amo?". (O que está acontecendo aqui?). Luka perguntou ao recepcionista.

"Dok domalo dok vama lijevi, oni kanta ne dvoriti isklju"citi, trudnica volja osloboditi ovamo".(Logo que você saiu, o sistema contra incêndio ficou maluco no quarto andar, está chovendo horrores e eles não conseguem desligar. As gestantes de alto risco vão para o sexto andar, as outras vem pra cá) Ele respondeu tentando organizar todos os exames que estavam em suas mãos.

"Ja volja stavljanje citi moja kaput". (Eu só vou até o lounge vestir meu jaleco). Luka disse caminhando rápido até a sala dos médicos.

"Como você esta se sentindo?". Tess perguntou voltando ao quarto algum tempo depois.

"Apaixonada pelo homem da peridu-". Antes que Abby pudesse terminar foi interrompida pelo som do batimento cardíaco do bebe.

"O que aconteceu?". Ela perguntou um pouco assustada.

"Nada". Tess voltando para perto da maca. "Nós perdemos o sinal".

"O que?".

"Espera...". Tess e Susan começaram a mudar o aparelho de posição procurando o sinal. "Kate? Você pode trazer o ultra-som e chamar a Dra. Coburn?".

"Bem aqui". Susan encontrou o batimento e o alarme do aparelho parou. "Eu acho que ela está se mexendo". Ela disse voltando a se sentar.

"A freqüência é de 140 bpm, tudo está certo".

Abby concordou com a cabeça aliviada.

"Nós temos uma sala de cirurgia?". Tess perguntou para Kate.

"Eu vou ver".

"Espera, eu não vou precisar de uma cesárea!".

"Se o bebe virar, nós faremos seu parto na sala de cirurgia, você não precisa se preocupar".

"Relaxa Abby, é só precaução". Susan disse tentando conforta-la.

Traumas, salas de exames, cortinas, todos os lugares estavam cheios com mulheres grávidas. Algumas no inicio do trabalho de parto, outras dilatadas quase dez centímetros. Apesar de toda a organização, o staff mal sabia para onde ir, qual paciente ajudar primeiro.

Luka já tinha perdido a conta de quanto tempo tinha se passado desde que tinha entrado ali, mas pelas suas contas aquele era o quinto bebe que ele traria ao mundo naquele dia.

"Luka". Uma enfermeira disse entrando na sala. "Mi potrebovati tvoja pomagati". (Nós precisamos da sua ajuda).

"Ja mogu ne dobiti izgnati odmah, kakav dogoditi se?". (Eu não posso sair daqui agora, o que aconteceu?). Ele disse sem desviar a atenção da paciente.

"Mi imati neka Amerikanka na porodjaj, ona govorim hrvatski" (Nós temos uma americana em trabalho de parto, ela não fala croata...)

"Ja volja biti tamo na sekundirati, Jesam skoro kraj". (Eu vou pra lá daqui a pouco, estou quase terminando aqui).

"To kanta ne dvoriti, ona se 10 centimetar". (Não dá pra esperar, ela já esta com 10 centímetros).

Luka desviou sua atenção brevemente. "Ok, mada neko potrebovati dogoditi se ovamo". (Okay, mas alguém precisa vir para cá).

"Ja volja posjeta doktor Nikolić". (Eu vou chamar o Dr. Nikolić). Ela disse saindo da sala.

"Tudo certo?". Susan perguntou voltando a sala, já vestida com scrubs.

"Nós vamos levá-la depois dessa contração, o bebe se mexeu de novo".

Abby suspirou um pouco preocupada, e logo em seguida o aparelho de batimentos cardíacos do bebe começou a apitar novamente.

"Outra vez?".

"A freqüência do feto esta em 90 bpm".

"Eu preciso te examinar". Tess disse colocando uma luva cirúrgica.

"O que você esta procurando?". Susan perguntou enquanto a enfermeira se posicionou no final da maca.

"Tenho que esperar essa contração passar".

Um desespero começou a correr o corpo de Abby, ela olhava para o monitor e para enfermeira sem saber ao certo como agir.

"75 bpm".

"Droga! Prolapso de cordão". Tess disse se afastando da maca e tirando a luva.

"O QUE?". Abby perguntou mais assustada ainda.

"O cordão sai antes do bebe, privando ele de oxigênio".

"Eu sei o que é!". Ela disse numa mistura de desespero e irritação. Se inclinando para frente ela tentava ver o que estava acontecendo

"Bipa a Coburn".

"65 bpm, nós precisamos tirar o bebe".

"Ela só esta com 6 centímetros de dilatação, nós temos que fazer uma cesárea".

"Segura o cordão". Susan disse para e enfermeira, começando a empurrar a maca.

"Eu não acredito que isso esta acontecendo, não pode estar acontecendo". Abby disse com os olhos cheios de lagrimas.

"O que nós temos?".

"Dra. Castiglione, médica clínica". A paciente começou. "Estou naminha trigésima quarta semana. Tinha uma indução marcada para segunda-feira".

Luka escutava com atenção enquando vestia o avental e as luvas cirurgicas.

"Minha membrana rompeu há 40 minutos, estou com dilatação máxima". Ela respirou fundo. "Eu preciso ir pra uma sala de parto".

"Sinto muito, mas elas estão em manutenção, mas não se preocupe, nós faremos seu parto aqui em baixo". Ele se aproximou da maca.

"Carcinoma da mama, estágio 3". Ela se ajeitou na maca. "Fiz uma mastectomia há seis anos".

Luka continuava a prestar atenção nela.

"O cancer voltou na primavera passada, iniciei a quimioterapia e tinha marcado radioterapia quando descobri que estava grávida".

"Alguma implicação pro feto?".

"Tudo estava bem no ultra-som". Castiglione começou a se contorcer ao sentir uma contração. "Mas eu só vou ter certeza quando ver ela".

"Não vai demorar muito". Ele disse se posicionando no final da maca.

"Ela tem bons anjos da guarda, se eu tivesse feito a radiação, ela receberia uma dose toxica".

"Você suspendeu seu tratamento?".

"Não foi uma escolha dificil, ela tem a vida toda pela frente".

"O que aconteceu?". Coburn perguntou chegando à sala de cirurgia.

"Prolapso de cordão". Susan disse ajudando Abby a mudar de maca.

"Susan". Abby disse baixo tentando chamar a atenção dela, Susan a olhou com um olhar confiante. "Me promete que você vai salvar ela, e que se alguma coisa acontecer...". Ela respirou fundo. "Se alguma coisa acontecer você contar tudo pra ele".

"Não vai acontecer nada Abby, vocês duas vão ficar bem".

"Por favor Susan, promete".

"Eu prometo, mas vai ficar tudo bem".

Abby fechou os olhos fazendo com que uma lagrima percorresse seu rosto, da maneira que conseguia foi buscando as palavras em sua mente.

"Por favor, não deixa nada de ruim acontecer com ela, ela é só um bebe, ela precisa ficar bem".

Nem toda agitação e o barulho conseguiam desviar sua atenção, ela conseguia ouvir frases ditas aleatoriamente.

"Um minuto da pele ao bebe! Bisturi".

"Não faça nada com ela, ela precisa ficar bem".

"Segundo ombro, cabeça flexionada, ela saiu". A voz de Coburn penetrava em sua mente a deixando cada vez mais apavorada.

"Viu, ela esta aqui!". Susan disse tentando acalma-la.

"Ela saiu?". Abby se concentrou tentando ouvir alguma coisa. "Ela não esta chorando, Susan, por que ela não está chorando?".

"Dê um tempinho a ela".

Ela viu sua pequena garotinha sendo colocada num leito ao lado de sua maca. "Ela esta azul".

"Ela já vai ficar rosada".

"Qual é o Apgar?". Nada em volta daquela sala conseguia desviar sua atenção, Abby só precisava ter certeza que seu bebe estava bem.

"Não se preocupa Abby".

"Qual é o Apgar Susan?". Ela disse um pouco mais brava.

"O de cinco minutos é mais preciso".

Abby começou a se sentir zonza, deu uma breve olhada para o reservatório ao lado de sua maca, estava sangrando muito.

Sua visão começou a ficar embaçada, as vozes começaram a ficar distantes.

"Eu quero ver o meu bebe". Aquelas palavras saíram da sua boca como um último apelo.

As vozes cada vez mais distantes, as imagens mais distorcidas, sua visão foi tomada por um grande clarão, e como num passe de mágica tudo o que estava a sua volta parecia ter desaparecido.

"Você está indo bem, continue empurrando". Luka a incentivava "Têm mecônio no fluido".

"Lave com 500cc de soro". Ela disse num impulso.

"Não se preocupe, só faça a força".

"E o batimento cardíaco do bebe?".

"140, boa variabilidade". Luka disse olhando o monitor.

Castiglione se reenconcostou na maca, estremamente cansada. "Eu não estou progredindo".

"Você consegue, continue empurrando".

Alguns minutos se passaram, e naquele momento só se podia ouvir o choro suave da mãe deitada na maca, um choro de alegria, com um sorriso estampado no rosto.

"Prontinho". Luka disse posicionando a pequena garotinha nos braços dela.

"Olá pequena". As lagrimas continuavam a cair. "Você é tão linda e saudavel".

Luka assistia a cena ao lado da maca.

"Eu não pensei que seria tão dificil". Ela desviou sua atenção do bebe para o Luka. "Você pode dar um nome a ela?".

"O que?". Ele perguntou um pouco surpreso.

"Um nome, ela precisa de um nome, escolhe um".

"Eu não posso". Ele disse tentando recusar.

"Por favor doutor, é a minha maneira de agradecer".

Ele olhou para pequena garotinha nos braços da mãe, e disse a única coisa que estava em sua mente, durante o tempo todo.

"Abby...".