Capítulo 15 – Quarenta e uma semanas [Parte III

A respiração de Abby estava ofegante, mesmo dormindo ela ouvia em seu inconsciente aquelas frases que tanto a assustavam.

"Droga! Prolapso de cordão".

"Um minuto da pele ao bebe! Bisturi".

Ela só queria que ficasse tudo bem com sua pequena garotinha, mas naquele momento não havia nada que pudesse fazer.

"Segundo ombro, cabeça flexionada, ela saiu".

A respiração ficava mais e mais ofegante, Abby começou a se virar na maca.

"Ela não esta chorando, Susan, por que ela não está chorando?".

Alguém tinha que fazer alguma coisa, alguém precisava fazer alguma coisa, por que seu bebe não estava chorando?

"Ela esta azul".

"EU QUERO VER MEU BEBE!". Abby gritou finalmente conseguindo despertar daquele pesadelo, tentando controlar sua respiração ela deu uma breve olhada em volta, pequenos flashes foram passando por sua mente, e instintivamente ela tocou a barriga, não era só um pesadelo, tudo aquilo realmente tinha acontecido, um medo inexplicável começou a percorrer seu corpo. "Onde ela esta?".

Logo em seguida Susan entrou no quarto acompanhada de Aaron.

"Hey...". Ela disse surpresa em ver Abby acordada. "Você acordou".

Nenhuma das palavras de Susan passaram pelos ouvidos de Abby, seu coração batia rápido, mas ao mesmo tempo com um aperto inexplicável.

"Cadê ela Susan? Onde ela esta?". Um nó já havia se formado em sua garganta, seus olhos estavam carregados de lágrimas.

"Abby...". Susan disse pegando na mão dela e tentando acalma-la. "Ela esta bem, no berçário, não se preocupa".

"Ela esta bem?". Duas lágrimas percorreram o rosto dela. "Você tem certeza que ela está bem?".

Susan concordou com a cabeça, um sorriso confiante no rosto.

Abby deu um longo suspiro, tirando toda aquela tensão do seu corpo. "Eu quero ver ela Susan".

"Okay, eu vou pedir pra uma enfermeira traze-la".

Exausto, aquela era a única palavra que podia o definir naquele momento, depois de mais alguns partos e mais algumas horas de plantão Luka finalmente tinha chegado em casa.

A primeira coisa que fez foi pegar uma cerveja na geladeira e se jogar no sofá, sentia cada parte do seu corpo doendo, costas, ombros, pernas, mas não podia ser diferente, nunca tinha visto nada nem parecido com o que tinha acontecido naquele plantão. Tinha também a certeza que nunca havia feito tantos partos no mesmo dia, era como se alguma coisa diferente tivesse acontecido lá.

Abby, mesmo totalmente atolado no P.S., ela mal tinha saído de sua cabeça.

"Um nome, ela precisa de um nome, escolhe um".

Eram nos pequenos detalhes que ele tinha certeza que ela ainda não tinha saido da sua cabeça nem do seu coração.

"Abby...".

Apesar de tudo, naquele momento era diferente, durante todo o tempo que havia passado longe dela, em nenhum instante tinha se sentido como naquele dia.

Rapidamente levantou do sofá e caminhou até algumas caixas que ainda estavam no canto da sala.

Nada na primeira, nada na seguda, no fundo da terceira caixa, embaixo de algumas revistas, ali estava ele.

Dando alguns passos para trás, Luka voltou a se sentar mas agora com o porta-retrado nas mãos, aquele era seu refugio, sempre que precisava lembrar de algum detalhe do seu rosto, olhava para aquela foto, tão linda, mas ao mesmo tempo tão natural.

Desviando o olhar dali a primeira coisa que encontrou foi o telefone. Por que não? Afinal, eles ainda eram amigos

A enfermeira chegou pouco tempo depois, trazendo a pequena Melanie num bercinho, os olhos de Abby começaram a se encher de lágrimas novamente, tudo o que ela queria naquele instante era segurar sua garotinha.

"Aqui mamãe". A enfermeira disse posicionando Melanie nos braços de Abby.

"Hey princesa...". Ela disse sem tirar os olhos de Melanie, passou os dedos carinhosamente pelo rostinho dela, com um grande sorriso no rosto e um olhar apaixonado.

Melanie bocejou, e abriu os olhos devagar, um pouco incomodada com a claridade do quarto, só então Abby pôde notar seus olhos incrivelmente verdes, exatamente iguais aos de Luka.

"Ela tem os olhos dele...".

"Ela é linda". Susan disse ao lado da maca.

Abby desviou um pouco sua atenção de Melanie. "Susan, você tem certeza que ta tudo bem com ela? Nada de errado nos exames?".

"Eu tenho certeza Abby, ela esta ótima, perfeitamente saudável".

Ela concordou com a cabeça, um pouco aliviada e voltou a acariciar o rostinho de Melanie, que se acomodou em seus braços, bocejou de novo e fechou os olhos.

"Acho que ela só queria te mostrar como tem olhos lindos". Aaron disse se aproximando da maca. "Você nos assustou".

Abby deu um pequeno sorriso. "Obrigado por ter ficado aqui".

Ele concordou com a cabeça e colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha dela. "Eu vou ligar pra Brooke, dizer que esta tudo bem, e já volto".

"Será que você podia ligar pro meu irmão?".

"Claro, o que você quer que eu diga?".

"Só precisa dizer que ela nasceu, ta tudo bem, e que eu estou esperando uma visita... Ah, e pede pra ele avisar a Maggie?".

"Okay...". Aaron já estava saindo do quarto, quando parou se lembrando de algo. "Você tem certeza que não quer ligar pra mais ninguém?".

Abby sabia muito bem de quem ele estava falando, e sabia que as coisas não seriam fácil dali para frente, mas ela ficaria bem, ela e Melanie ficariam bem. "Eu... Eu tenho certeza".

Ele concordou com a cabeça e saiu do quarto.

"Eu não vou poder passar a noite aqui, Chuck pegou o turno da noite, e a baba não pôde ficar com o Cosmo".

"Tudo bem Susan, nós vamos ficar bem".

Ela sentou na beirada da maca e olhou séria para Abby.

"A Coburn disse que ia passar aqui para falar com você, mas eu prefiro te contar...".

Abby começou a prestar atenção no que Susan estava dizendo.

Ainda hesitando um pouco ele pegou o telefone e discou o número do apartamento dela, antes de ouvir o sinal da linha deu um longo suspiro.

O telefone chamou uma, duas, três vezes, mas ninguém atendeu, alguns segundos depois ele ouviu sua voz na secretária eletrônica, pensou em deixar recado, mas não ia adiantar em nada, ele só queria conversar, e ter certeza de que tudo estava bem.

Colocou o telefone de volta no gancho e ligou a TV, passando rapidamente pelos canais, mas alguma coisa o incomodou, deu uma breve olhada no relógio, cinco horas da manhã, quase dez horas da noite em Chicago, ela já deveria estar de volta, uma pequena onda de preocupação foi o invadindo. A não ser que, ela estivesse no turno da noite.

Pegando novamente o telefone, começou a discar o número do County, e não demorou muito para que alguém atendesse, era uma voz conhecida do outro lado da linha.

"E.R.?".

"Jerry? Aqui é o Luka".

"Hey Dr. Kovac, como você está? Faz tempo que nós não recebemos noticiais suas".

Luka sabia que Jerry podia passar horas falando, então resolveu encurtar as coisas. "Eu estou bem, escuta Jerry, a Abby está por ai?".

"É...". Ele não sabia ao certo o que deveria dizer. "Não...".

"Não?". Luka perguntou intrigado. "Eu liguei para o apartamento dela, ninguém atendeu".

"Quer dizer, ela esta...". Jerry se atrapalhou um pouco, nunca soube mentir muito bem.

"Você pode chamar ela?". Luka perguntou depois que um breve silencio se formou.

"Não!". Ele disse rápido. "Porque... Porque ela esta no meio de um trauma".

Luka podia perceber que alguma coisa estava errada, mas não sabia dizer o que. "Jerry, Abby esta bem?".

"Sim, ela esta bem".

"Você tem certeza? Não esta escondendo nada?".

"Eu... Eu tenho certeza".

"Certo, eu tento ligar pra ela depois, tchau Jerry".

"Até mais Dr. Kovac". Assim que desligou, Jerry deu um longo suspiro aliviado.

Luka pensou um pouco antes de colocar o telefone no gancho, Jerry não mentiria sobre alguma coisa grave. Ele se levantou do sofá e foi caminhando até o quarto, talvez daqui alguns dias conseguisse falar com ela.