Capítulo 22 – I've been watching but the stars refuse to shine
Abby olhou para Melanie, que estava com a cabeça encostada em seu ombro lutando contra o sono, e passou a mão por seu cabelo carinhosamente tirando alguns fios que estavam caindo em seus olhos.
"Você ta cansada não é princesa?". Ela disse passando pela porta da baia das ambulâncias, seguindo o caminho do metro. "Eu sei, mamãe também está. Foi um dia e tanto...".
Abby a ajeitou melhor em seus braços e continuou caminhando pela noite levemente fria de Chicago. "Mas eu tenho boas noticias, amanhã eu não vou trabalhar, então nós podemos dormir até tarde e ir ao parque depois do almoço, o que você acha?".
Melanie não estava nem ligando para aquilo que sua mãe dizia, sua atenção estava completamente desviada para o céu de Chicago, que estava totalmente estrelado como raras vezes ficava.
Ela esticou o bracinho apontando para cima, tentando chamar a atenção de sua mãe e mostrar aquilo que estava a encantando.
Assim que percebeu que Mel estava apontando para cima, Abby desviou o olhar também, se deparando com um incrível céu, coberto de estrelas.
Ela parou de caminhar e se sentou num banco próximo da onde as duas estavam paradas, a visão era tão perfeita, que era praticamente impossível parar de olhar.
Mel continuava com o bracinho esticado, mas agora com um lindo sorriso no rosto, esquecendo completamente do sono de alguns minutos atrás.
"Você gostou? É lindo não é?". Abby perguntou ajeitando melhor o casaco que ela vestia.
Melanie balbuciou alguma coisa sem sentido e logo em seguida soltou uma doce gargalhada.
Ela apontou para o céu. "Olha ali princesa, são as estrelas".
Melanie voltou a olhar para cima, com o lindo sorriso ainda no rosto.
"Você consegue dizer? Es-tre-la". Abby estava completamente ansiosa pela primeira palavra de Melanie, e mal desconfiava que toda aquela insistência estava a ponto de dar certo.
Mel tirou os olhos do céu, e encarou sua mãe por alguns instantes, completamente concentrada naquilo que estava prestes a fazer.
"Tê-la". Ela conseguiu balbuciar algum tempo depois.
Abby a olhou por alguns segundos, um pouco surpresa com o que tinha acabado de ouvir, mas não demorou muito para que um enorme sorriso aparecesse em seu rosto.
"Vamos lá princesa, diz de novo, es-tre-la".
"Tê-la". Mel repetiu, batendo os braços alegremente na perna de sua mãe.
"Bom trabalho meu amor, você acabou de dizer sua primeira palavra!". Abby a trouxe para mais perto de si, e começou a lhe encher de beijos, arrancando gargalhadas deliciosas. "Agora vamos pra casa? Já esta tarde e frio".
Apesar de ter enfrentado um plantão completamente lotado, Luka tinha passado o dia todo preocupado com Abby.
A primeira coisa que fez quando chegou em casa, foi checar as mensagens em sua secretaria eletrônica, passou pelos recados rapidamente, procurando por aquele que importava de verdade, mas nenhum deles trazia a voz dela.
Ele sentou no sofá e soltou um longo suspiro, a idéia de telefonar novamente cruzou sua mente, mas Abby com certeza não estava em casa, se estivesse certamente teria retornado suas ligações mesmo que fosse só para deixar um recado dizendo que estava tudo bem.
Luka levantou do sofá e caminhou até a porta de vidro da varanda, desviando sua atenção brevemente para o céu, o suficiente para perceber que ele estava coberto de estrelas, como se alguém estivesse querendo recompensá-lo.
Ele abriu a porta e se sentou em uma cadeira do lado de fora, se reclinando um pouco para poder ter uma melhor visão do céu. Com certeza ele podia passar toda a noite ali, só observando o céu estrelado, e de certa forma aquilo o deixava mais tranqüilo.
Luka não sabia ao certo quanto tempo tinha passado ali, perdido em seus pensamentos, quando ouviu o telefone tocar, ele desviou sua atenção para sala, onde o telefone estava e hesitou um pouco.
Estava cansado e de certa forma irritado, tudo o que menos queria naquele momento era ter que atender uma pessoa inconveniente.
Ele ficou parado, esperando que o telefone parasse de tocar, mas quem quer que fosse a pessoa do outro lado da linha, ela não parecia querer desistir assim tão fácil.
Ele levantou da cadeira e foi se arrastando até a sala vagarosamente.
"Zdravo?" (Alô?). Luka atendeu ao telefone com um desanimo evidente em sua voz.
"Ai ainda mora um croata que deixou vinte mensagens na minha secretária eletrônica?". Abby perguntou com um sorriso estampado no rosto.
Ele soltou um suspiro aliviado, sem tentar impedir o sorriso que se formou, ouvir a voz dela era perfeito, trazia uma tranqüilidade que poucas vezes tinha sentindo. "Você me deixou preocupado". Ele disse num tom calmo de voz. "Eu tentei te ligar desde a hora que ouvi sobre a explosão".
"Eu percebi, mas eu estava no County, Susan e Carter não me deixaram sair até todos os resultados chegarem". Ela se sentou no sofá, trazendo os joelhos para perto do peito, completamente acomodada.
"Você se machucou?". Luka perguntou aumentando um pouco o tom de voz, visivelmente preocupado.
"Três pontos na testa e uma costela trincada, mas eu vou sobreviver".
Ele sorriu aliviado novamente. "Eu sinto sua falta Abby...". Aquela era uma verdade absoluta, que escapou de sua boca por acidente.
Abby se distraiu por um segundo, concentrada nos pequenos ruídos que vinham da baba eletrônica, tentando imaginar se Melanie tinha acordado.
"Abby, você está ai?". Luka perguntou algum tempo depois, sem ouvir nada do outro lado da linha.
"Sim...". Ela disse voltando a se concentrar na conversa. "Desculpa, o que você disse?".
"Que eu senti a sua falta...". Ele pensou um pouco, e recuou em sua decisão. "Quer dizer, não tem ninguém aqui que se compare a você, o seu humor inconstante, seu sarcasmo e ironia...".
"Eu vou levar isso como um elogio". Abby deslizou pelo sofá, ficando mais confortável do que antes. "Eu também sinto a sua falta, ninguém mais comente seus erros de inglês, e nem é tão alto como você".
Mais uma vez, os dois tinham conseguido camuflar o que sentiam.
"Como você está? Você precisa mandar noticias mais vezes".
"Na verdade, nada de novo... as coisas estão bem paradas por aqui, mas eu estou bem".
Luka mal tinha completado sua frase, quando Abby ouviu a campainha tocar.
"Droga". Ela disse olhando para o teto, era tarde e ela não tinha idéia de quem podia estar tocando a campainha. "Me desculpa Luka, tem alguém na porta então eu... eu preciso atender".
"Sem problemas, já está tarde e você precisa descansar". Luka pausou por um instante, ele poderia ficar a noite toda falando com ela apesar de não poder. "E se cuida e fica longe das explosões".
"Pode deixar". Ela disse depois de rir um pouco. "Tchau Luka...".
"Tchau Abby...". Ele respirou fundo no silêncio que havia se formando, já que nenhum dos dois sabia ao certo o que dizer. "Eu sinto sua falta". As palavras escaparam de sua boca, como se ele não tivesse controle sobre elas, mas de certa forma era bom ter dito aquilo.
"Também sinto sua falta...". Abby gostaria de dizer mais do que aquilo, mas mesmo assim aquilo já a fazia se sentir bem.
Dessa vez sem camuflagem, sem tentar esconder o que sentiam.
