Capítulo 27 – 'Feliz Natal Babar... '

"E quando o tio Eric vai chegar?". Melanie perguntou enquanto andava pela calçada de mão dada com a mãe, reparando nos detalhes de Minnesota.

"Amanhã Mel... Ele tem esperar a namorada...". Abby a pegou no colo e atravessou a rua, fazendo o caminho de volta para a casa da mãe.

"Eu aposto que ela é feia...". Melanie disse emburrada enquanto era colocada de volta no chão.

Abby riu um pouco. "Por que você acha isso?" Ela olhou para filha alguns instantes. "Você está com ciúmes do tio Eric?".

Melanie deu de ombros, o imitando o bico da mãe.

"Não precisa ficar com ciúmes princesa, você sempre vai ser a garotinha dele...".

"Mesmo se ele casar e tiver outros bebes?".

"Mesmo assim...".

As duas continuaram caminhando em silencio, até que os olhos de Melanie encontraram um charmoso cachorro, caminhando sozinho pela calçada.

"Olha mãe!". Ela disse soltando da mão de Abby e indo empolgada até o cão. "Um cachorro".

"Melanie, Malanie! Espera... Não toca nele!". Abby correu para conseguir segura-la, antes que ela encostasse no cão.

"Por quê?". Mel perguntou com os olhos já cheios de lagrima, esticando o bracinho para poder tocá-lo.

"Porque ele pode ser bravo, você não pode mexer com cachorros que não conhece".

"Mas mãe, é Natal... Nos precisamos levar ele pra casa e cuidar dele, você mesma já disse que ninguém deve ficar sozinho Natal".

"Eu sei que eu disse, mas ele é um cachorro Mel, nós não podemos levar ele pra casa da sua vó".

"Por que não?". O bico de novo apareceu nos lábios dela.

"Porque ela não gosta de cachorros, e a casa já está cheia".

"Mas ele é tão fofinho mãe". Mel sorriu olhando o cachorro. "Eu acho que ele tem cara de Babar...". Ela se aproximou um pouco mais do cachorro. "O que você acha desse nome Babar?".

Babar – já adaptado ao seu novo nome – balançou o rabo também empolgado com a atenção que estava recebendo, Abby não pode deixar de sorrir olhando a cena.

"Então nós podemos levar ele pra nossa casa?". Os olhos de Melanie brilharam como poucas vezes Abby havia visto, o que a fez se sentir mal, já que sabia que teria que partir seu coração.

"Sinto muito Mel, mas não podemos...".

"E por que não?".

"Porque nós não ficamos muito tempo em casa, eu estou quase sempre no hospital, e você na escola... não ia ter ninguém para cuidar dele, e aposto que aqui por perto tem alguém que gosta muito dele, e iria sentir falta se ele sumisse". Abby pegou a filha no colo e começou a caminhar novamente antes que a situação começasse a se agravar.

Melanie visivelmente emburrada, encostou a cabeça no ombro da mãe, dando tchau para Babar enquanto ainda conseguia vê-lo.

Luka caminhava pelas ruas de Zagreb, fazendo o caminho de volta para a casa do pai, para continuar ajudando na preparação da ceia de Natal, depois de ter saído para comprar alguns ingredientes que ainda faltavam.

Ele andava rápido, fugindo do rigoroso inverno croata, mas não conseguiu evitar e parou assim que viu um pequeno cachorro, deitado perto de uma porta tentando se manter aquecido.

Depois de se aproximar um pouco mais, ele se abaixou, afagando o cachorro carinhosamente. "E ai amigo, tudo bem com você?".

O pequeno cão balançou o rabo, feliz por receber um pouco de atenção.

Luka levantou e o encarou por alguns segundos, sentindo o coração pesar com a idéia de deixá-lo ali, ele abriu um sorriso divertido. "Vem cá amigo, nós podemos passar o Natal juntos".

Assim que ele voltou a andar o cachorro o seguiu, certamente sabendo que aquela era uma boa idéia.

Assim que Luka abriu a porta da casa do pai, o cão entrou, se sentindo a vontade, como se fosse dono daquele lugar.

"Kakav biti taj?". (O que foi isso?). Yosen perguntou quando viu o cachorro passando pela cozinha.

"Neki kuca". (Um cachorro). Luka respondeu colocando as sacolas em cima da mesa.

Yosen encarou o filho alguns instantes, o reprimindo com o olhar pelo comentário óbvio. "Kakav je on radite amo". (O que ele está fazendo aqui?).

(Eu o encontrei na rua, pensei que seria legal se ele passasse o Natal aqui com a gente...).

Antes que Yosen pudesse dizer alguma coisa, a pequena Mare apareceu na cozinha, seguida de seu mais novo amigo.

"Dida, je ova kuca tvoje?". (Vovô, esse cachorro é seu?) O brilho nos olhos dela era enorme, ele não foi capaz de decepcioná-la.

"Da, stric Luka donijeti on". (Sim, seu tio Luka o trouxe para casa hoje).

"Spremati on morati neki imenovati stric Luka?". (Ele tem um nome tio Luka?).

"Nema... Vama stanju birati jedan". (Não... Você pode escolher um).

"Kanta ono biti Babar? Ono biti moj ljubimac karikirati!". (Pode ser Babar? É o meu desenho preferido!).

"Siguran... Ja misliti on nalik ono, nije Babar?". (Claro... Eu acho que ele gosta, não é Babar?)

Abby abriu a porta da cozinha dando passagem para Melanie, que ignorou completamente a presença da vó, e correu até o quarto batendo a porta.

Abby bufou colocando as sacolas em cima da bancada e puxou uma cadeira para sentar, Maggie levantou os olhos das frutas que estava cortando e encarou a filha por alguns instantes.

"Aconteceu alguma coisa?". Ela perguntou sentando também.

"A Mel viu esse cachorro na rua, e queria por que queria trazer ele para casa, quando eu disse não, ela ficou assim... emburrada, bicuda".

"Ah Abby, vai me dizer que você não lembra do dia que quis trazer um cachorro para casa?".

Abby franziu as sobrancelhas, com um bico se formando em seu rosto, pronta para ouvir o que sua mãe tinha a dizer.

"Acho que você era só uns anos mais velha que ela, e chegou da escola com um cachorro, dizendo que ele tinha te seguido, e que nós tínhamos que ficar com ele...". Maggie sentou na cadeira ao lado da filha. "Mas eu não deixei, você não tinha responsabilidade pra cuidar de um cachorro. Então você fez igualzinho a Melanie, correu pro seu quarto, bateu a porta e me deu o tratamento do silêncio por quase uma semana".

Abby soltou um longo suspiro e encarou a mãe. "Tem horas que ela é tão... Geniosa".

Maggie tentou permanecer séria, mas não conseguiu segurar o riso. "Ela é igualzinha a você, o mesmo gênio, a mesma teimosia".

O bico no rosto de Abby foi se formando novamente, e assim que percebeu Maggie apontou pra ele. "O mesmo bico...".

Abby sorriu, sabendo que a mãe tinha razão, Melanie era mesmo muito parecida com ela. "Ela ainda vai me enlouquecer".

"Não se preocupa, eu vou conversar com ela...". Maggie levantou, e começou a caminhar até o quarto de Melanie, com uma caneca de chocolate quente nas mãos.

"Obrigada mãe...".

No dia seguinte...

"Mãe! Mãe!". Melanie desceu as escadas correndo, completamente empolgada. "Mãe! É Natal".

Abby a pegou no colo antes que ela alcançasse o ultimo degrau, e a girou no ar antes de enchê-la de beijos. "Eu sei! Feliz Natal princesa...".

Mel colocou os braços em volta do pescoço da mãe, lhe dando um abraço apertado. "Feliz Natal mãe...". E em seguida retribuiu o beijo, pronta para mudar de assunto e satisfazer sua curiosidade. "O Papai Noel veio?".

Abby sorriu e apertou delicadamente o nariz da filha. "Sim, ele veio... E adivinha só? Te trouxe um monte de presentes...".

Os olhos de Melanie se arregalaram, brilhando docemente. "Jura?".

"Aham, agora vamos... ta todo mundo esperando por você". Abby colocou a filha de volta no chão, e as duas caminharam até a sala de estar onde todos os outro estavam.

"Feliz Natal...". Melanie disse a todos, antes de correr para os braços da vó. "Feliz Natal vó...".

Maggie a abraçou apertado. "Feliz Natal Mel...". E depois colocou a neta no chão. "O que você acha de abrir seus presentes?".

Mel concordou empolgada, e o mais rápido possível foi se sentar ao lado de Abby, perto da árvore para poder abrir os presentes.

Olhando em volta da sala, Luka não podia deixar de sorrir, ali estava sua família, as pessoas que importavam na sua vida, que o faziam se sentir completo... Ou pelo menos deveriam.

A casa estava cheia, todos falavam ao mesmo tempo, e mesmo assim Luka não podia deixar de sentir um certo aperto no peito, sensação de estar sozinho, mas ele conhecia aquele sentimento muito bem, era o mesmo sentimento que o dominava quase todos os dias desde que ele tinha saído de Chicago.

No fundo, ele sabia que apesar de tudo, só existia uma pessoa capaz de curar aquilo que sentia dentro de si, a pessoa que passou os últimos cinco anos tentando esquecer, até aquele momento... Em vão.

Depois de apenas observar a cena, reparando em detalhes que lhe chamavam atenção, Luka caminhou até a varanda, e passou pela porta, caminhando até a areia da praia, ele se sentou observando as ondas quebrando.

Estava distraído, mas percebeu a presença de alguém, olhando pro lado encontrou Babar. "Feliz Natal Babar...". Ele disse acariciando a cabeça do cachorro, que se sentou ao seu lado.

"E então...". Abby sentou ao lado da filha no sofá. "Gostou de tudo?".

"Aham... O Papai Noel foi muito legal". Mel passou para o colo da mãe. "Quando nós voltarmos, eu vou escrever uma carta para ele agradecendo".

"Isso seria ótimo, tenho certeza que ele vai adorar". Abby levantou do sofá, e colocou Melanie no chão. "Agora, vai vestir seu casaco... Nós vamos fazer uma coisa...".

Abby voltou da cozinha com uma sacola na mão, e Melanie já a esperava na porta.

Depois de caminhar um pouco, as duas pararam no mesmo lugar onde tinham parado no dia anterior.

"O que nós estamos fazendo aqui mãe?". Melanie perguntou um pouco confusa.

No instante seguinte Babar apareceu, abanando o rabo, visivelmente feliz em rever as duas.

"Olha mãe! É o Babar". Melanie estava tão feliz quanto ele.

"Eu sei... Nós trouxemos algumas coisas pra desejar um feliz Natal pra ele". Abby tirou uma roupinha de dentro da sacola e a vestiu em Babar, em seguida pegou um osso e entregou para filha. "O seu presente de Natal pra ele".

Melanie pegou o osso, e em seguida o entrou para Babar, fazendo carinho na cabeça dele. "Feliz Natal Babar".