Capítulo 34 – I Believe in Memories
Enrolada no edredom e sentada no sofá, Abby assistia um filme qualquer sem prestar muita atenção, era difícil se concentrar quando haviam milhões de coisas passando em sua cabeça, coisas capazes de até mesmo tirar seu sono e a fazer passar a noite acordada no sofá.
Enquanto o mocinho batalhava com o vilão pelo amor da protagonista, Abby deixava hipóteses de como seriam as coisas dali para frente percorrerem sua mente, até ser interrompida por algumas batidas na porta da sala.
Um pouco assustada, ela ficou em silêncio esperando que aquilo fosse apenas um delírio da sua cabeça, mas para um começo de desespero as batidas se repetiram um pouco mais forte.
Essa era uma das desvantagens de se morar sozinha, os menores barulhos eram capazes de deixá-la aflita, mas se tratando batidas na porta em plena madrugada a situação com certeza ficava bem pior.
Abby levantou do sofá tentando decidir o que fazer quando uma brilhante idéia cruzou sua mente – O taco de beisebol que ficava dentro do armário! Uma nova batida fez Abby despertar, e correr rapidamente para pegar o taco em seu quarto.
Quando voltou a sala, caminhou em passos leves e silenciosos até a porta, e soltou um longo suspiro se preparando para acertar quem quer que fosse a pessoa que estivesse do outro lado.
Num movimento rápido ela abriu a porta e já estava quase dando uma tacada quando viu Luka recuar para trás com as mãos para cima, aparentemente mais assustado do que ela.
"Deus Luka! Você me assustou!". Ela abaixou o taco, deixando um sorriso divertido aparecer em seu rosto, diante daquela situação engraçada e embaraçosa.
"Eu não sabia que você jogava beisebol". Luka disse se aproximando novamente, não conseguindo evitar o comentário. "Não é um pouco tarde?". Com o mesmo sorriso divertido no rosto que Abby.
"Não é todo dia que eu consigo companhia". Abby respondeu entrando no jogo dele.
Os dois riram e se olharam nos olhos apenas por um instante, mas o suficiente para dar início a um silêncio desconfortável, Abby abaixou a cabeça lentamente, o que a fez encontrar a fita nas mãos de Luka.
"Você assistiu?". Ela perguntou apontando para mão dele, o clima pesado ainda pairava no ar, mas mesmo assim ela continuou. "Eu sei que não é suficiente... Mas foi a melhor forma que eu encontrei para me desculpar".
Luka tocou a mão dela carinhosamente, mas assim que Abby levantou a cabeça e seus olhos se encontraram novamente ele recuou um pouco incerto com a situação.
"Eu... Eu quis assistir com você".
Melhor do que dizer mil palavras, Abby abriu espaço para que Luka passasse e caminhou com ele até perto do sofá.
"Eu vou pegar um pouco de café para nós...". Ela disse apontando para cozinha.
Abby voltou para sala algum tempo depois, com duas canecas de café na mão, passou uma delas para Luka, e antes de se sentar colocou a fita no vídeo cassete.
"Pronto?". Ela perguntou segurando o controle remoto na mão.
Luka concordou com a cabeça e piscou pesadamente antes de começar a encarar a televisão.
Não demorou muito para que uma imagem em preto e branco um pouco distorcida começasse a aparecer na tela, em alguns segundos ela foi se ajustando e dando forma ao que claramente era um ultra-som.
"O primeiro". Abby disse antes que o som de batimentos cardíacos começou a invadir a sala.
Luka tinha o mais lindo dos sorrisos no rosto, aquele era só o primeiro, mas ele sabia que até o final daquela fita viriam muitos.
"Você gravou todos?". Luka perguntou quando uma nova imagem de ultra-som começou a aparecer, agora mostrando mais claramente os contornos do bebe.
"Bom... Pelo menos os mais importantes".
"Ou seja... Todos".
Eles se olharam com um grande sorriso no rosto, aquilo certamente seria divertido.
Depois de uma seqüência de ultra-sons, uma imagem de Abby grávida começou a aparecer, a grande barriga deixava claro que aquele era o nono mês de gravidez.
"Uau...". Luka disse um pouco surpreso. "Sua barriga ficou enorme".
"Melanie atrasou uma semana". Abby respondeu desviando seu olhar para ele. "Esse era o quinto dia de atraso".
"Sério? Com quantos quilos ela nasceu?".
"Três quilos e setecentas gramas, e quarenta e oito centímetros".
Os dois voltaram a olhar para televisão, que agora mostrava Melanie, certamente recém nascida deitada em cima de uma cama.
"Você não filmou o parto?". Luka perguntou um pouco desapontado.
"As coisas ficaram um pouco complicadas na hora do parto, e... Ninguém teve muito tempo para pensar em filmar". Abby o olhou com um pequeno sorriso triste no rosto, mas logo desviou sua atenção de volta para a televisão.
"O que aconteceu?". Luka não queria tocar em pontos delicados, mas aquela era a vida de sua filha, ele precisava saber tudo o que tinha perdido até aquele dia.
"Eu... Eu tive prolapso de cordão, e...". Ela pausou um instante e olhou para Luka, que tinha deixado desaparecer aquele grande sorriso e agora tinha uma expressão preocupada no rosto. Talvez aquilo fosse o suficiente. "Tudo ficou bem no final".
Ele sorriu simpaticamente, não era preciso de muito para saber que aquele era um assunto que incomodava Abby.
E como se nada tivesse acontecido os dois voltaram a encarar a televisão.
Quando a tela começou a mostrar algo que Luka logo identificou como uma piscina, ele desviou novamente o olhar para Abby estranhando um pouco aquilo.
"O que?". Abby perguntou percebendo o olhar confuso de Luka. "Melanie fez natação para bebes, alias... ela ainda faz".
"Sério? Por quê?".
"Ela não dormia muito bem, o pediatra disse que podia ajudar, e valeu a pena, eu tava enlouquecendo sem poder dormir todas as noites".
"Então, ajudou?".
"Muito, ela amou desde a primeira aula... Até chorou na hora de sair da piscina".
Algum tempo depois a fita que mostrava pequenos detalhes dos cinco primeiros anos de vida de Melanie já havia acabado, mas Luka ainda sentia uma enorme necessidade de saber mais e mais sobre sua filha.
"E qual foi a primeira palavra?".
"Estrela, naquele dia da explosão no County, lembra? Você deixou várias mensagens na minha secretária, e eu te liguei de volta".
"Eu quase não te atendi naquele dia".
"Por quê?".
"Eu tava olhando as estrelas".
Os dois se olharam encantados, aquela era só mais uma das coincidências – se é que se podia chamar aquilo tudo de coincidência – que haviam descoberto durante a noite.
"Mãe?". Eles foram interrompidos por uma Melanie sonolenta, que logo se animou ao ver Luka. "Luka!".
"Hey princesa!". Ali estava ela, sua filha. Uma emoção inexplicável começou a tomar conta de Luka, algo que ele poucas vezes tinha sentido, era uma alegria sem fim. Ele levantou e a pegou do colo, começando a fazer cócegas nela. "Você não deveria estar dormindo?".
"Eu acordei e agora não consigo voltar a dormir".
"O que você diz se eu te contar uma historia bem legal?".
Melanie concordou e encostou a cabeça no ombro dele depois de bocejar. "Você vem mãe?".
