Capítulo 43 – Have you Ever seen the Rain?
Abby nunca havia imaginado que um plantão pudesse ser tão mentalmente exaustivo. A grande tensão que tinha se estabelecido entra ela e Luka desde o inicio do dia, agora visível aos olhos de todos que também estavam trabalhando naquele turno, parecia se agravar a cada segundo, e por ironia do destino, os dois pareciam discordar em todos os casos que trabalhavam juntos, tudo o que acontecia ao redor.
Naquele instante já não havia mais uma linha que dividia a vida pessoa de ambos da vida profissional, as duas se misturavam, deixando que seus problemas e desavenças pessoais interferissem nos profissionais, causando mais tensões, mais alfinetadas e se era possível mais magoas.
Ela chegou à recepção vindo da sala de uma das cortinas onde achou que seu paciente estaria, mas não tinha o encontrado. "Malik, você sabe onde meu paciente da cortina 2 está?".
"Ele já foi levado para ortopedia". Malik respondeu enquanto anotava alguma informação no quadro.
"O quê?". Ela perguntou confusa. "Eu ainda estava esperando o raio-x novo". Um pouco incerta, Abby tentou se concentrar para lembrar se aquilo era exatamente o que ela havia feito.
"Dr. Kovac disse que não era preciso outro e bipou a ortopedia". Ele respondeu finalmente a olhando nos olhos.
Agora tudo tinha se explicado, Abby balançou a cabeça negativamente, e em seguida soltou o prontuário que estava segurando com força em cima do balcão, visivelmente brava. "Eu não acredito nisso!".
Ela caminhou brava e decidida pelo corredor até chegar na sala de trauma onde Luka trabalhava com Kerry e Carter em um caso.
"Luka, eu preciso falar com você". Ela disse assim que abriu a porta, num tom firme e sério.
"Agora não Abby". Ele nem ao menos notou a alteração que ela tinha na voz, e continuou o que estava fazendo.
Ela apenas o encarou, um olhar fulminante no rosto, se Luka não havia sentido a tensão ainda maior, todos na sala haviam.
"Você pode ir Luka, nós conseguimos dar conta". Kerry disse fingindo ter sua atenção totalmente focada no paciente, mas esperando interferir o menos possível na situação dos dois.
Ele tirou as luvas e o avental saindo da sala sob o olhar de todos, mas fechou a porta assim que passou por ela evitando que qualquer detalhe da conversa fosse ouvido.
"Qual o problema?". Luka perguntou sem tirar os olhos do vidro da sala, não querendo perder nenhum detalhe do que estava acontecendo lá dentro, mas mais do que isso... Não querendo enfrentar outra discussão por qualquer motivo que fosse com Abby.
"Olha nos meus olhos Luka!". O tom de voz, nem um pouco alterado, apenas sério demais fez com que Luka até mesmo se assustasse, desviando seu olhar imediatamente, como um garotinho que estava prestes a levar uma bronca.
Aquele era o momento e ambos sabiam bem disso... Nenhuma alfinetada podia mais ser agüentada, nenhuma discussão, nenhuma provocação... Uma pena que caísse ali seria capaz de causar uma explosão.
"Onde está o meu paciente que estava na sala de exame 2?". O 'meu' foi enfatizado para que ela pudesse provar ainda mais sua razão.
"O que estava com o tornozelo fraturado?".
"O único paciente que estava na cortina 2".
"Eu bipei a ortopedia e pedi que eles subissem com o garoto".
Ela fingiu um semblante surpreso. "Engraçado... Eu me lembro de ter dito que queria um outro raio-x".
"O outro raio-x era desnecessário, seria perda de tempo e dinheiro".
"Com que direito você interfere no tratamento do meu paciente sem nem ao menos me informar?". Ela estava incrivelmente brava, como poucas vezes tinha se sentindo.
"Para de dramatizar Abby, para de querer transformar tudo numa grande confusão... Era só um paciente, só um tornozelo fraturado". Talvez fosse o momento de tornar aquela situação apenas profissional, deixar claro que dentro do hospital eram uma coisa, e fora outra. "E além do mais... Eu sou o atendente, eu tomo as decisões, aprovo o que você faz... E não aprovei o raio-x, pronto, acabado".
O espanto veio evidente aos olhos de Abby, mas o que Luka estava tentando fazer era bem evidente. "Você poderia no mínimo me tratar com respeito já que se julga tão profissional". Ela o encarou séria, não se deixando abalar. "Você não é melhor do que eu por ser o atendente!". O tom de voz saiu alto, despertando a atenção de alguns curiosos que estavam ali em volta, mas Abby já pouco se importava com o que os outros poderiam estar pensando.
A situação já tinha se tornado insustentável a muito tempo, aquele era só o estopim, a ultima gota d'água para o que estava prestes a acontecer, acontecesse.
Naquele instante ela só precisava sair daquele hospital, mas principalmente sair de perto dele. Era de se esperar que ela nem ao menos esperasse a resposta de Luka, rapidamente deu as costas para ele, e em passos largos começou a caminhar em direção as portas da baia das ambulâncias.
Nem toda a chuva forte que caia a impediu de sair de lá de dentro, furiosa, derrotada, magoada, e sem destino, a não ser caminhar por qualquer lugar, espairecer, tentar esquecer nem que fosse por um único segundo tudo aquilo que estava acontecendo.
Luka não hesitou nem por um segundo em ir atrás dela, passou pelas portas longo em seguida, sentindo os pingos fortes que caiam bater contra seu corpo enquanto ele caminhava rápido tentando alcança-la.
"Eu não disse que era melhor que você Abby". Sua voz mesmo alta, saiu abafada pelo grande barulho que a chuva fazia. "Você é sempre tão cabeça dura, que não aceita ser contrariada".
Abby parou de andar assim que ouviu aquela frase, tal ato fez com que Luka parasse de caminhar também, se mantendo a poucos metros dela.
Ela se virou com um olhar indignado no rosto e já completamente encharcada pela água. "Era o meu paciente, você não tinha o direito".
Aquela conversa ia muito mais além de apenas um paciente com um tornozelo fraturado, mas era como se todos os outros assuntos que tinham pendentes pudessem ser transmitidos através desse.
"Mas é claro que eu tinha o direito Abby! Eu sou o atendente, o meu trabalho é te supervisionar".
A discussão sobre ter ou não o direito podia continuar noite a dentro e ela sabia muito bem disso, apenas balançando a cabeça negativamente, como se quisesse se mostrar derrotada ou então incrédula, ela se virou e começou a andar novamente.
Luka não queria que aquilo terminasse assim, colocando tudo embaixo do tapete novamente... Aquela situação precisava se resolver mais cedo ou mais tarde... E o mais cedo seria agora.
Ele voltou a caminhar também, agora em passos ainda mais rápidos, lutando contra a chuva que batia contra seu corpo, mas disposto a alcançá-la a qualquer custo.
Assim que o fez, a puxou pelo braço, fazendo-a virar bruscamente e os deixando agora a apenas alguns centímetros de distância, e voltando a uma posição olho no olho.
Apesar de tudo não havia o que dizer, não haviam palavras... Não havia nada que pudesse ser feito naquele instante, tudo o que seu cérebro tinha sido capaz de maquinar apenas há segundos atrás, agora tinha se apagado, tinha deixado de ter qualquer importância diante daquele rosto, daquele olhar, daquela mulher que tentava assim como ele decifrar o que estava acontecendo entre eles.
