Capítulo 57 - Lar Doce Lar

A velocidade em que as coisas estavam acontecendo a deixava um pouco assustada. Parecia que num abrir e fechar de olhos, Luka tinha voltado, descoberto sobre a paternidade de Melanie, os dois haviam reatado e agora estavam a um passo de terem seu próprio apartamento. Literalmente. A porta de marfim desgastada, mas que ainda assim combinava com todas as outras do corredor, em pouco tempo, depois de uma reforma a dois, se tornaria a porta do seu novo lar, idéia que dificilmente havia cruzado seus pensamentos.
"Deixa eu te ajudar...". Desviando sua atenção, e com o mesmo jeito atencioso de sempre, Luka colocou as caixas que tinha em mãos no chão e fez o mesmo com as que ela estava trazendo para em seguida tirar um molho de chaves do bolso e posicioná-las na fechadura. "Pronta?".
Abby esfregou uma mão na outra, não podendo deixar de se sentir ansiosa com aquilo tudo, e concordou com a cabeça silenciosamente. "Se você estiver...".
Sem mais delongas, ele colocou um pouco de impulsão na porta, deixando a sala de entrada, coberta de jornais, lençóis e cheia de trabalho para ser feito exposta.
"Lar doce lar...". Acima do tom sutil de voz, estava o toque irônico característico. O fato era que a cada vez que aquela porta se abria, parecia que um pouco mais de trabalho para ser feito surgia, chegando ao ponto de deixar Abby cansada só de olhar.
Os papeis nas paredes estavam descascados, o piso de madeira precisa ser lixado e encerado, mas não antes de toda aquela poeira ser retirada. A maioria dos móveis deixados pelo último proprietário não seria aproveitada, mas os que ficariam, como os armários da cozinha e dos banheiros precisavam de manutenção urgente. Para todos os lados que se olhasse, havia algo para ser feito.
"Não é tão ruim assim...". Por mais otimista que Luka tentava ser o tempo todo, a situação quase beirava o caótico, o que o fazia tender para o lado de Abby. Em alguns momentos, ele parecia se sentir em um daqueles filmes onde os protagonistas herdam um lugar, e quando vão até lá tudo não passa de uma enorme bagunça, o que os faz quase desistir, mas então eles persistem, e depois de uma daquelas arrumações de cinema que não duram mais do que 3 minutos, o lugar fica impecável, e todos vivem felizes para sempre.
Não que ele duvidasse sobre seu final feliz ao lado de Abby, Melanie e o que quer que o futuro reservasse para eles, mas não tinha tanta certeza quanto a parte da arrumação de apenas 3 minutos, sem cansaço, roupas manchadas de tinta e sem desmanchar o penteado.
"Não é tão ruim assim?". Abby abriu os braços, mas sem apontar para nenhum lugar em especial, já que todos os lugares precisavam e mereciam ser apontados. "Quem você é? A Pollyanna?".
"Ok, talvez seja ruim...". Voltando até a entrada, ele colocou as caixas para dentro do apartamento, fechando a porta em seguida, mas não sem antes ouvir um grande rangido e ganhar um olhar vencedor da parte de Abby. "Mas nós podemos dar um jeito um tudo...".
"Exatamente... Em tudo". Ela se jogou no sofá coberto por um lençol branco, que devia estar ali há anos, fazendo com que uma grande nuvem de poeira levantasse, desencadeando uma serie de espirros.
"Você acha que tomamos uma decisão ruim?". Luka se sentou ao seu lado, passando o braço em volta do seu ombro e afastando um pouco da poeira com a mão.
A verdade era que aquele apartamento era perfeito para eles. A suíte principal tinha um closet, espaçoso o suficiente para as roupas de ambos. O quarto de Melanie também era uma suíte, grande o bastante para os moveis e algum espaço a mais para que ela pudesse brincar. Havia também o quarto extra que Luka fazia tanta questão de ter, e que os dois haviam decidido que por agora ficaria fechado.
A sala iria acomodar a TV, mas também as prateleiras para todos os livros, a mesa de jantar ficaria bem na área próxima a janela e a ilha separava o ambiente da cozinha, que era um pouco menor do que o necessário, mas com um pouco de organização se tornaria perfeita para Luka, já que aquele era território proibido para Abby.
"Não!". Luka estava tão animado com a idéia, que ela até mesmo se sentiu mal por fazê-lo hesitar. "É só que... Tem trabalho pra caramba aqui, e tem também Melanie, Lubby, e o hospital... Eu fico cansada só de pensar".
"Eu sei que tem bastante trabalho aqui, mas nós não precisamos nos apressar... Aos poucos vamos dar conta de tudo, e antes que você perceba já vamos estar morando aqui".
Abby deixou um sorriso divertido tomar eu rosto e com um impulso levantou do sofá, puxando Luka pelo braço "Vamos lá Pollyanna, se não começar, nunca vai terminar".
"Quem fica com o assoalho?". Sem sombra de dúvidas aquela seria a pior parte de se fazer, e Luka com certeza queria se livrar dela.
"Você pode ficar com ele, eu não faço questão". Com seu melhor desempenho de desapego, Abby tentou usar a técnica para se livrar do assoalho, mas Luka não cairia tão facilmente assim.
"Não vai funcionar, Abby...".
"Ok...". Ela levantou as mãos como em uma espécie de sinal de trégua. "Vamos resolver isso de um jeito adulto".
"Cara ou coroa?". Ele disse meio à uma pergunta e uma sugestão.
"Eu estava pensando em 'par ou ímpar'".
"Certo, você pode escolher primeiro".
"Eu quero par".
"No três... Um, dois, três!". Ao mesmo tempo, os dois lançaram suas mãos para frente, Luka optando por um 4, enquanto Abby optou por um 2.
"Seis! Seis é par! Eu ganhei, o assoalho é todinho seu...". Comemorando silenciosamente, ela se abaixou pegando apenas o que precisava para limpar os vidros da janela, e lixar a moldura de madeira.
"Isso foi injusto, Abby!".
"Ah Luka, não seja um bebe chorão...".
"Se você tivesse perdido estaria fazendo o mesmo".
"Não estaria não... Agora, chega de falar e vamos começar logo com isso, eu quero me mudar antes do Natal...".
"Nós estamos em Abril...".
"Exatamente, agora coloca a lixa no chão, e começa a esfregar!".