Capítulo 59 - When You Say Nothing at All
O
silêncio que pairava em cada milímetro do quarto já vinha se
arrastando desde manhã. Não que estivessem bravos ou magoados,
apenas não sabiam se deviam, ou o que fariam para acabar com aquele
quase abismo que havia se formado. Durante o dia, apenas casualidades
interrompiam o silêncio; um 'desculpa' depois de um esbarrão,
perguntas rotineiras, comentários costumeiros e nada além
disso.
Agora, apenas as respirações calmas, porém ainda fortes,
intercalavam a quietude, deixando claro que ambos ainda estavam
acordados, e fazendo o mesmo, encarando o teto branco sem previsão
de pegar no sono.
Finalmente Luka, da onde certamente a iniciativa
teria que partir, se deu conta de que ficar olhando o movimento do
próprio tórax ao inspirar e expirar, não ia lhe fazer dormir, nem
o distrair, e tão pouco resolver a situação
Ele abriu a boca
para começar, mas ainda incerto voltou a fechá-la, e então depois
de um breve suspiro, como se estivesse tentando exalar aquela
incerteza, separou os lábios e despejou rapidamente.
"Eu posso
te fazer uma pergunta?".
O suspiro de Abby, por sua vez, tinha
uma mistura de alivio, por aquele desconforto estar bem próximo de
um fim, e também medo, um medo que correu toda sua espinha pelo que
estava por vir. Sua resposta veio um pouco mais silenciosa, um
pequeno concordar de cabeça.
"Você quer ter mais filhos?".
De repente, sua pergunta lhe pareceu muito com a pressão que ele não
queria transmitir, o que o fez recomeçar instantaneamente, tentando
soar agora o mais casual possível. "Quero dizer... Algum dia".
Se para certas situações havia um momento certo, para aquela
situação, se havia um momento certo, ele era agora. Era só dizer,
apenas abrir a boca e usar um tom de voz acolhedor. Parecia bem
simples na sua cabeça, mas quase impossível de colocar em pratica,
aquele podia ser o momento perfeito, mas ela não estava pronta, não
ainda.
"Eu não sei Luka, não sei..". Mesmo que quisesse, não
podia simplesmente parar por ali. "As coisas estão acontecendo
rápido demais... Alguns meses atrás éramos só eu e Melanie, e
agora você voltou, nós estamos morando juntos no nosso próprio
apartamento, e temos um cachorro...". E finalmente ela conseguiu se
virar para passar a olhá-lo nos olhos. "É um pouco assustador
Luka...".
Aquela sensação era boa, extremamente confortável.
Havia mais, além daquilo tudo, mas mesmo assim, deixar com que ele
soubesse o que estava acontecendo a fazia se sentir ainda melhor,
ainda mais segura, ainda mais protegida perto dele.
"Me desculpa
por ter apressado tanto as coisas... Eu não percebi que estava
colocando a gente numa maratona...".
"Tudo bem colocar a
gente numa maratona... Com tanto que seja uma de marcha-lenta".
"Sem apressar mais as coisas, eu prometo...". Com um sorriso
tranqüilo, ele se aproximou dela a envolvendo com seus braços e
unindo seus lábios num beijo rápido, mas extremamente carinhoso.
"A
propósito... Eu fiquei menstruada na semana passada". O tom mais
cauteloso possível não conseguiu evitar semblante decepcionado que
se formou gradativamente em seu rosto, o que a fez parar e esperar
pelo momento em que ele estivesse pronto.
"Mas e todo aquele
apetite? As mudanças de humor? Toda aquela coisa com o perfume do
Morris?". Os sinais eram todos tão óbvios, talvez óbvios demais,
ou então aquela era simplesmente uma maneira de tentar desbancar a
verdade.
"O apetite e o humor devem ter sido por causa da
TPM...". A tentativa era de contornar a situação da melhor
maneira possível, não queria que detalhes bobos, como o tom de voz,
ou as palavras usadas deixassem Luka ainda mais sentido "E o
perfume do Morris era realmente horrível, eu não sei como você não
sentiu". A tentativa de animá-lo, porém, foi em vão.
"Como
eu não reparei que você estava menstruada?". Aquela era a pior
parte, vê-lo tomar uma culpa que na realidade nem ao menos deveria
existir.
"Nós estávamos ocupados com a mudança, foi a semana
mais trabalhosa... E além do mais, você já repara em tudo, não
precisa se preocupar com mais isso". Passando a mão carinhosamente
pelo rosto dele, ela tentou levar um pouco daquele olhar triste e o
trazer pra realidade. A realidade de que assim, em numero pequeno,
apenas eles 3, a vida já era perfeita, não faltava mais nada.
"Me
desculpa por ter criado essa confusão toda... Mas eu realmente
pensei que você pudesse estar grávida". Ele desviou o olhar, mas
voltou a encará-la em seguida. "Eu até quis que nos comprássemos
um apartamento com um quarto extra".
"Foi por isso que você
quis o quarto extra?". Ela perguntou exasperada, como se tivesse
acabado de desvendar um mistério, e recebeu resposta num rápido
concordar de cabeça. "Ainda bem! Eu estava mesmo acreditando que
você ia querer fazer um daqueles quartos só com coisas de homem".
Pela primeira vez então um sorriso tomou conta do rosto de Luka
"Sua boba... Você realmente acha que eu ia perder tempo com essas
besteiras quando eu tenho tudo isso nas mãos?". O isso ao qual ele
se referia era Abby, e cada parte do seu corpo que ele adorava
explorar.
"Nunca se sabe...". Ela respondeu com um tom que ia
além do provocativo.
Ele por sua vez, preferiu deixar as palavras
de lado, agir através de gestos, começando a traçar um caminho
detalhado que começou em seus lábios, em direção ao seu
pescoço.
"Talvez se saiba...".
