Capítulo 61 – Keep it in Mind

A vida era tão diferente agora, chegava a ser estranho, um estranho bom, porém. Todas as cenas que mesmo subconscientemente ela desejava ver desde o primeiro instante em que havia segurado Melanie em seus braços, mas que acreditava cegamente desde esse mesmo instante que nunca veria, agora passavam a todo o momento diante dos seus olhos, mas ainda assim havia algo, como um pequeno detalhe, constante. O tipo de sonho que as pessoas têm todas as noites, ou então uma pequena agulha capaz de furar a maior e mais resistente das bolhas.
Ao mesmo tempo em que a felicidade em seu coração parecia ser a maior do mundo, havia sempre algo, que mesmo pequeno e aparentemente não identificável, era capaz de furar a bolha onde ela estava. Era fácil saber, fácil reconhecer, culpa. Impossível não sentir culpa vendo Luka e Melanie juntos. Não como dois estranhos, mas como pai e filha. Ele era tão bom.
Mas ainda assim, sempre haveria o tempo perdido, momentos que já haviam ficado para trás, momentos irrecuperáveis, por um motivo que agora ela nem mesmo era capaz de se lembrar.
Ele sempre dizia que o passado era passado, mas era a decepção em seus olhos todas às vezes em que um momento passado vinha a tona falava a verdade. Ela não estava brava por ele não esquecer daquilo tudo, ela não podia, não tinha o direito. O fato era que cada vez que aquela mistura de decepção e tristeza tomava seus olhos, ela sentia uma parte do seu próprio coração morrer.
O que eles estavam fazendo afinal? Seguindo a rotina. A rotina sem previsão definida.

"Como você se sentiu?". O tom de voz natural não só rompia o cômodo silêncio que embalava os minutos necessários para que ambos conseguissem pegar no sono, mas também dava indícios de que após o carinhoso 'boa noite', sua mente não tinha sido capaz de se desligar por um segundo.
"O quê?". Num estado pouco sonolento, aquela pergunta não soou completamente clara em seus ouvidos. Mas mesmo que estivesse completamente acordado, ainda assim não teria entendido, era a típica maneira de Abby começar algo, sendo vaga, na tentativa de ser obvia.
"Como Você se sentiu?". A pequena pausa permitiu não só que o que pareciam ser as palavras certas surgissem em seus lábios, mas também que naturalmente seus olhos se encontrassem tornando ainda mais intimo aquele principio de conversa. "Quando a Melanie te chamou de pai".
Apesar do começo de madrugada não ser exatamente o momento mais propicio para qualquer tipo de diálogo, e de tal fato não ter passado despercebido aos olhos de Luka, aquela era a pergunta que ele estaria pronto para responder a qualquer momento do dia, mesmo que há tempos já tivesse concluído que era impossível explicar com palavras aquilo que havia sentido.
"Feliz, completo, aliviado... Mas quando eu digo, parece muito pouco". Por mais que aquela fosse uma das melhores sensações das quais já tinha provado, e Abby obviamente uma das pessoas com as quais ele queria compartilhar, era indescritível, talvez uma pequena parte fosse compreensível, mas as palavras doces de Melanie vindo em sua direção, só seriam capazes de causar aquele sentimento no seu coração.
O pequeno gesto de por um segundo encarar o teto, mas longo em seguida voltar a fixar seus olhos aos dela, deu a Abby a confirmação de que por mais complexo que fosse, Luka ainda tinha o que dizer.
"É o tipo de sensação que eu não experimentava há muito tempo... Senti pela primeira vez quando nós descobrimos que a Danijela estava grávida da Jasna, depois quando ela nasceu, e da mesma forma com o Marko, mas quando eles morreram, eu acreditei que nunca mais seria capaz de sentir novamente". Por um instante Luka não pode deixar de prestar atenção nas suas próprias palavras, falar deles já tinha se tornado tão natural. "Mas ai veio a Mel, e no começo eu estava tão furioso com você, em seguida veio o acidente, tudo acontecendo tão rápido, e eu tenho certeza que essa sensação estava aqui". Ele pausou trazendo a mão para mais perto do peito "Mas eu só consegui sentir de verdade, quando ela me chamou de pai".
"E você ainda está?". Dessa vez, talvez por estar mais atento, ou então por algum porém que independia de suas vontades ou ações, o tom de Abby parecia mais distante, mais vago e misterioso.
"O quê?". E novamente, era impossível deduzir o que ela estava questionando.
"Furioso comigo". O tom de voz, o olhar, os gestos... Todos indescritíveis, não havia tristeza, não havia dor, e nem curiosidade, apenas uma pequena distância que Luka não era capaz de decifrar.
"Porque você está me perguntando isso?". Por mais absurda que aquela pergunta podia parecer, os olhos a sua frente suplicavam por uma resposta como se daquilo dependesse sua vida. "É claro que não Abby...".
Pela primeira vez em muito tempo não era necessário que alguém tentasse insaciavelmente para fazê-la falar, as palavras foram se derramando dos seus lábios pouco a pouco. "Porque você não sentiu Luka, não sentiu a sensação ao descobrir a gravidez, não sentiu quando a Melanie nasceu, tudo porque eu passei cinco anos escondendo isso de você, e às vezes eu preciso passar horas pensando pra lembrar o por que...". Incapaz de olhá-lo, de olhar a si mesma, Abby sentou-se na cama, aumentando um pouco mais a distância física entre eles.
"Porque nós estamos falando sobre isso de novo? Porque você tá remoendo isso?". A menor menção de se aproximar, a fez se afastar um pouco mais, mesmo inconscientemente. "Nós já conversamos tanto sobre esse assunto Abby, já demos ele por encerrado tantas vezes, porque tudo isso agora?".
"Porque tem uma parte dentro de mim que morre todas as vezes que você descobre algum momento dela que não vai voltar, todas as vezes que ela te chamava de Luka, surpreendentemente todas as vezes que ela te chama de pai, todas as vezes que eu vejo decepção nos seus olhos".
"Agora você está dizendo que a culpa é minha?". Ele não saberia dizer como aquela conversa havia chegado a tal ponto, mas agora ele não podia simplesmente para-la "Você esconde ela por cinco anos e esperava que eu ficasse contente? Que eu não me importasse todas as vezes que eu descubro com cinco anos de atraso coisas que qualquer pai sabe sobre os seus filhos? Que eu não me sentisse um completo estranho na vida dela todas as vezes que ela me chamava de Luka?".
"Eu não disse que a culpa é sua Luka! Eu estava falando sobre mim!". Vendo-o levantar da cama furiosamente, Abby teve a certeza que o patamar que eles haviam alcançado era completamente oposto ao que ela havia imaginado, se é que em algum momento ela havia imaginado.
"Então para de fazer tudo ser sobre você! Você foi a menos prejudicada nessa confusão toda...". Cada palavra vinha como uma estaca em direção ao seu peito, e a força para pará-las se perdia pouco a pouco.
"Você acredita mesmo que foi fácil cuidar dela sozinha esse tempo todo?".
"Você escolheu assim, Abby! Na verdade, você não deixou ninguém mais escolher, você não me deu a chance de cuidar minha filha, porque você preferiu manter esse joguinho de gato e rato, só para ver se era divertido".
"Foi você quem optou por ir embora Luka! Como você esperava que eu te contasse?". Desesperador ou não, tudo o que ela podia ver eram verdades, mas sábios os que diziam que as verdades machucam.
"Contando, Abby, contando! Você foi até a minha casa! Nós nos encontramos no parque! Por Deus, eu te liguei durante todos esses anos e você não teve coragem de me dizer!".
"Você não tem o direito de agir como se tudo fosse simples assim! Você sabe que não é!".
"O que eu sei é que eu passei os últimos cinco anos longe da minha filha! Porque eu nem ao menos sabia que ela existia!!".
Por um instante aquele pareceu ser o momento final, ele tinha o direito de culpá-la, e mais uma vez as relações não se construíam em cima de culpa.
"Isso tudo é loucura". Voltando a soar tão vaga e misteriosa como minutos atrás, ela fez o caminho até o armário calmamente, e enquanto sentia os olhos de Luka queimarem suas costas, capazes de alcançar sua alma, despejava as primeiras peças de roupa que suas mãos conseguiam alcançar dentro de uma mala.
Logo depois, o pijama deu lugar a roupas casuais, o par de tênis foi calçado, e seu próximo destino era o quarto no final do corredor.
Luka assistia a tudo perplexo, quase num estado de choque, uma parte do seu corpo o mandava gritar, impedir que ela saísse dali, consertar tudo aquilo porque eles pertenciam um ao outro, mas foi a parte incapaz de reagir que se sobrepôs.
Sem adeus, nem mesmo até logo. Quando abriu a porta do quarto, Abby ainda teve a sensação de que a qualquer segundo ele a faria parar, a seguraria pelo braço dizendo que estava tudo bem, mas o último sussurro ferido que atingiu seu coração apenas dizia que ela não poderia esconder Melanie por mais cinco anos.