Capítulo 62 – De pais e filhos, de certezas e incertezas

"O que você acha de a gente comer um sorvete bem grande?". Por mais que a tarde estivesse sendo extremamente agradável, havia algo faltando no semblante de Melanie, talvez aquele brilho que estava sempre presente em seu olhar, e que hoje, por um motivo completamente obvio não estava ali.
Tão rápido quanto surgiu, o sorriso que apareceu no rosto dela, também se foi, causando em Luka um grande espanto.
"Eu não posso comer sorvete pai...". Mel disse com um grande aperto em seu pequeno coração, descobrindo negar sorvete ser um dos seus maiores martírios.
"E por que não?". Ele rebateu intrigado, já que Abby não tinha mencionado nada sobre Melanie estar gripada ou doente.
"Porque eu prometi pra minha mãe que ia me comportar direitinho pra ela não chorar mais, e ela fica brava quando eu tomo sorvete".
Luka soltou um longo suspiro sentindo um nó enorme fechar sua garganta, quase bloqueando a passagem do ar. Por mais que ele e Abby estivessem tentando proteger Melanie acima de tudo, inevitavelmente ela estava envolvida em cada pequeno detalhe daquela situação. Incerto sobre o que deveria fazer, optou por apenas administrar a conversa, e assegurar sua filha de algumas coisas.
"Escuta Mel...". Com a certeza que ia muito além dos olhos coruja, Luka sabia que havia em Melanie uma sagacidade inexistente em qualquer outra criança da mesma idade, que fazia com que ela compreendesse coisas que talvez iam muito além da sua própria compreensão. "Sua mãe não estava chorando por sua causa. Você é uma ótima filha".
"Então porque pai? É porque nós tivemos que voltar pro apartamento antigo? É porque você não está mais morando com a gente?".
"Eu acho que sim princesa...".
"Então por que nós não voltamos? Ou por que você não vem morar com a gente de novo?".
"Porque as vezes os adultos precisam de um tempo separados para pensar em algumas coisas...". Como explicar a ela o que nem ele entendia? A sinceridade plena veio na troca de olhares, enquanto Luka se abaixava para igualar seus patamares.
"Quanto tempo?". Qualquer que fosse o número, seria algo bem próximo de uma eternidade.
"Não tem como dizer exatamente".
"Até hoje de noite mais ou menos?". Um sorriso, mesmo que triste não pode deixar de aparecer em seu rosto, a facilidade com que tudo podia se resolver aos olhos de uma criança certamente era o que fazia deles seres tão especiais. A verdade é que eles deveriam ser os sábios, as coisas não precisavam ser sempre tão complicadas.
"Acho que não filha...". Mas mesmo assim, elas eram.
"Então quando?". Ela questionou começando a se sentir um pouco impaciente com seus pais.
"O mais rápido possível... Eu prometo". Resolvendo dar um fim naquela conversa que certamente estava colocando muitas preocupações na cabecinha de Melanie, ele a envolveu em seus braços e depois de um beijo estalado a pegou no colo. "Sorvete?".
"Tem certeza que ela não vai ficar brava?".
"Certeza absoluta".
E assim pai e filha enceraram mais uma tarde juntos, com uma grande taça de sorvete com diferentes sabores, muita cobertura e claro, muita sujeira e rostos melecados também.

"Já faz um mês Abby! Vocês não podem ficar desse jeito pra sempre". Susan se sentia como a única racional no meio daquela historia toda, parecia que até Melanie com seus quase seis anos saberia lidar melhor com tudo.
"Para de me torturar com isso Susan". Ela sabia exatamente quanto tempo já havia se passado, sabia de cada uma das noites em que ao seu lado não havia nada além do vazio da cama, sabia da cadeira vaga na mesa de jantar, e sabia de cada detalhe naquele apartamento que lembrava Luka.
"Você está se torturando com isso, aliás, vocês estão se torturando com isso". Era tão obvio que todos podiam perceber, mas aparentemente, eles não.
Sentindo as palavras começarem a faltar em sua boca, Abby desejava silenciosamente em seus pensamentos que um buraco se abrisse no chão para que ela pudesse se esconder do mundo, nem que fosse por alguns poucos segundos. Mas não foi preciso que nenhum buraco danificasse o piso do County General, já que Abby foi salva pelo gongo. Um gongo de aproximadamente 1,80, cabelos pretos, olhos verdes e uma garotinha no colo.
Ignorando Susan completamente, ela deu a volta no balcão da recepção, para poder receber Luka e Melanie, mas sem grande alvoroço. Assim que a distância permitiu, ela esticou os braços para fazer Mel trocar de colo, e claro, a encher de beijos estalados.
"Eu senti sua falta baixinha!". A ajeitando melhor em seus braços, Abby procurou o fundo dos seus olhos, para achar alegria, tranqüilidade, o brilho que ultimamente o olhar de sua filha estava perdendo. Estava ali, assim como uma calmaria grande que invadiu seu coração. "Como foi o passeio?".
"Muito legal! Meu pai prometeu que da próxima vez vai tirar as rodinhas da bicicleta, e depois nós fomos tomar sorvete!".
"Isso eu posso ver! Seu rosto ta todo sujo!". Abby trocou um riso singelo com os dois, comprovando a hipótese de Luka, que ela não ficaria brava.
"Como você tá Luka?". Os três começaram a caminhar em direção ao lounge em busca de um pouco mais de privacidade, mas sempre sob os olhares curiosos de todos que estavam ali.
"Eu estou bem... E vocês?". O que realmente importava, elas, somente elas, as mulheres da sua vida.
"Nós estamos bem também...". Antes de dar continuidade a conversa, ela colocou Melanie de pé em uma cadeira ao lado da pia, e ligou a torneira. "Lava suas mãos e o seu rosto ok?".
Os dois se afastaram alguns passos, para tratar não mais do que os assuntos que envolviam Melanie, bem como haviam feito durante o último mês.
"Escuta Abby...". Luka sussurrou querendo privar a filha do assunto. "Você quer trocar de apartamentos? Lá tem mais espaço para Mel, e ela já estava se acostumando. Se você preferir eu fico no seu apartamento só enquanto procuro um pra mim". Por um segundo, mesmo que só por um segundo, ela chegou a acreditar que talvez ele pedisse para que elas voltassem, e eles voltassem a ser uma família. Tão feliz quanto antes.
"Não se preocupa Luka... Nós estamos bem lá, foi onde nós moramos nos últimos cinco anos, já nos acostumamos". O que não deixava de ser verdade, porém, assim como nos últimos cinco anos, havia alguma coisa faltando, um alguém faltando.
"Eu sei... Mas ela é uma criança, e naquele apartamento tem espaço demais só pra mim...".
"Nós estamos bem... Eu juro". Abby esboçou seu melhor sorriso na tentativa de tranqüilizá-lo, mas não tinha muita certeza se iria funcionar.
Tão logo o assunto se deu por encerrado, Melanie pulou da cadeira e veio em direção aos dois, completamente limpa para os padrões de uma criança de quase seis anos.
"Nós já vamos pra casa?".
"Daqui a pouquinho filha... Meu plantão ainda não acabou".
"Você pode ir se quiser, eu posso cobrir o tempo que falta".
"Sério?".
"Claro... Eu já estou aqui e meu plantão já esta pra começar".
"Obrigada Luka...". Depois de orientar Mel a se despedir, ela caminhou até seu armário recolhendo casacos, bolsa e tudo mais o que fosse preciso, mas por um segundo não pode deixar de observá-los, juntos, eles eram perfeitos.
E assim se despediu também, com promessas e vê-lo no dia seguinte, passou pela recepção e avisou Susan que Luka cobriria seus últimos minutos, mas antes de deixar o P.S. ainda pode ler nos lábios dela:
"Você tem que contar pra ele".
Não só ela sabia, sabia que tinha a obrigação de contar, mas também vinha se torturando com aquilo por mais tempo do que pensou ser capaz de suportar.