Capitulo 63 – All About Christmas Eve
"Por
que a vovó Maggie não vem?". Melanie perguntou pelo o que Abby
concluiu ser a vigésima vez nos últimos três dias.
"Mel, pelo
amor de Deus, nós já falamos sobre isso uma porção de vezes".
Ela a colocou no chão para poder desocupar uma de suas mãos e tocar
a campainha. "A vovó Maggie vem, mas só amanhã, porque hoje
ainda não é Natal".
"Eu sei, só queria ver se você não ia
cair em contradição...".
"O que?". Abby questionou
encafifada, mal sabendo que sua filha sabia o significado da palavra
contradição.
"As pessoas podem cair em contradição quando
contam a mesma história a mesma vez e estão mentindo".
"Onde
foi que você aprendeu isso?".
"Papai me ensinou quando nós
estávamos assistindo Law & Order...".
"Vocês assistiram
Law & Order?". Às vezes ela se perguntava como Luka conseguia
fazer Melanie assistir qualquer coisa além de Babar.
"Hey...".
Era a voz de Luka, que provavelmente não morreria tão cedo, ecoando
pelo corredor.
Tão logo trocaram cumprimentos e Mel foi para o
colo de Luka, Susan abriu a porta com a aparência que alguém que
estava completamente atarefada, com pouco tempo até para
respirar.
"Entrem por favor, vocês podem deixar os casacos no
quarto, eu já encontro vocês na sala... Estamos com problemas
técnicos na cozinha". Susan falou tão rápido, que eles mal
haviam sido capazes de acompanhar, mas habituados o suficiente com o
apartamento, seguiram as instruções dadas e se encaminharam até o
quarto.
Luka tirou o casaco de Mel, enquanto Abby se livrara da
bolsa, sacolas e do seu próprio casaco. Mas foi quando Luka estava
prestes a tirar o seu, que Melanie os surpreendeu.
"Olha! Um
Visco". Ela começou animada apontando pra cima. "Vocês tem que
se beijar!".
Em certos momentos, aquele seria o gesto mais banal
de todos os tempos, mas agora eles certamente haviam sido pegos de
surpresa, e quanto mais os segundos passavam, mais aquilo parecia se
tornar massacrante.
Mel podia listar milhões de superstições
sobre viscos e quebrar a tradição, e era exatamente isso que estava
fazendo, enquanto esperava que seus pais se beijassem. Um pouco
incerto, Luka apenas diminuiu a distancia entre eles, deixando que
Abby tomasse a decisão. Não por medo, receio ou covardia. Apenas
por respeito, respeito ao espaço dela.
E ela escolheu o que
pareceu certo para o momento, fechou os olhos e juntou seus lábios
aos dele num rápido selinho. Poder sentir seu toque novamente era
indescritível, mas novamente, as coisas não eram sempre tão
simples.
Durante toda a noite, se evitaram claramente. Desviavam os olhos quando esses se encontravam, trocaram poucas palavras, e quando ficavam sozinhos rapidamente procuravam alguma desculpa para sair dali. E assim seguiu a maratona, desgastante para ambos os lados, até que finalmente um dos competidores resolveu colocar um basta na situação, esperando até o último momento, minutos que antecediam a volta para casa... Faltavam apenas os casacos. Mas novamente, era melhor do que nada.
Se houvessem
mil razões para não dizer, haviam mil e uma para dizer. De alguma
forma ficava claro. Abby não havia lhe tirado nada, não havia lhe
privado de cinco anos da vida de Melanie, pelo contrario, ela havia
lhe dado Melanie, sua filha. Havia lhe devolvido a paternidade, a
sensação de amar alguém mais do que a si mesmo, a alegria de ouvir
um serzinho tão especial o chamando de pai.
E então, os cinco
anos passados não mais pareceram importantes, pelo menos não diante
das décadas que ele ainda teria pela frente. Memórias eram
memórias, e eventualmente ele conseguiria construir a suas próprias,
mas o mais importante era não deixar que essa chance escorresse por
entre seus dedos, não por algo que agora ele era capaz de esquecer,
capaz de superar e virar a página do seu livro. Virar a página para
começar escrever sua própria historia, sua historia junto de suas
mulheres, as mulheres da sua vida.
"Eu sinto sua falta Abby...".
As mais doces e sinceras palavras vieram acompanhadas de uma caricia
carinhosa em seu braço, tão sutil, mas capaz de fazer seus joelhos
perderem o pouco de equilíbrio que ainda lhe restava.
Não havia
porque resistir àquilo que ela esperava ouvir desde o momento em que
havia deixado o apartamento algumas semanas atrás. Talvez fosse
exatamente isso o que estava faltando na relação dos dois, deixar
de resistir, criar empecilhos, poréns e se's, apenas deixar que a
vida acontecesse, e que o destino cuidasse das preocupações.
Quando
se virou para poder olhá-lo, Abby não pôde deixar de notar o
pequeno visco acima de suas cabeças, e o sorriso divertido veio logo
depois, causando certa confusão em Luka.
"Nós estamos embaixo
do visco". Ela explicou, apontando apenas com o olhar o pequeno
verdinho acima deles.
Dessa vez, Luka não via em seu olhar uma
tentativa de fuga, via calma, serenidade, via a mesma vontade que
sentia em seu peito, a vontade de fazer com que tudo aquilo acabasse,
vontade de senti-la de novo em seus braços, vontade de que eles
voltassem a ser Lubby como Melanie costumava dizer, e não apenas
Luka e Abby...
"Você sabe o que isso quer dizer...". Se
esforçando ao máximo para conseguir fingir um pesar em sua voz, ele
não conseguia camuflar o pequeno sorriso divertido que teimava em
aparecer no canto dos seus lábios. Abby apenas concordou
silenciosamente com a cabeça, ela sabia o que queria dizer, esperava
aquilo que estava pra acontecer, desejava, era quase impossível
controlar um impulso.
Com uma calma torturante, Luka envolveu seu
delicado rosto em suas mãos, tão grandes que eram capazes de
praticamente esconde-lo, traçou com o seu polegar cada contorno da
sua face enquanto Abby se desligava, deixando que apenas aquele par
de mãos fortes tomasse o controle de todo seu corpo.
Ambos de
olhos fechados, deixaram que apenas o sentido os guiasse. O destino
era certo, era o encontro de dois lábios, dois lábios que tinham na
urgência daquele beijo, a mesma urgência que tinham por respirar,
era como se daquilo dependessem suas vidas, e talvez fosse assim
mesmo.
O beijo durou apenas o tempo necessário, já que haviam
outras sensações que os dois ainda queriam sentir. Luka não
permitiu que ela se afastasse nem um milímetro, pelo contrário, a
trouxe para ainda mais perto de si, a envolvendo completamente em
seus braços, permitindo que ela recostasse a cabeça em seu peito, e
ouvisse as felizes batidas do seu coração.
"Luka...". Ela
sussurrou quase inaudivelmente, embora seu coração pudesse gritar
de alegria.
"Huh?". Paz, quietude, serenidade. Não havia
nada mais que ele pudesse pedir, mas havia muito para dar, depois da
resposta, plantou um pequeno beijo no topo de sua cabeça.
"Eu
estou grávida...".
Melanie sentiu um par de braços a
levantar do estofado macio, e logo em seguida pode encontrar um ombro
para recostar sua cabeça, mas dessa vez havia algo diferente. Não
era o corpo de Abby envolvendo o seu, e sim o de Luka... A diferença
era fácil de ser notada.
"Pai?". Ela chamou ainda tomada pelo
sono. "Aonde nós estamos indo?".
"Para casa princesa...".
Ele acariciou suas costas carinhosamente. "Para casa...".
