Capítulo 64 – Expectativas Desleais

Talvez Luka tivesse demorado até aquele momento para compreender a fragilidade de uma vida, que ela, por si só, era o maior dos oxímoros. O mais rápido dos piscares de olhos, o mais curto dos suspiros, eram mais do que o suficiente para que tudo ao seu redor desmoronasse como um frágil castelo de cartas.
Sem pedir permissão ou mandar aviso prévio. O destino simplesmente tomava caminhos desconexos como um carro desgovernado, e assumir um controle absoluto é completamente impossível.
Num segundo você se vê chegando em casa, com flores e chocolate para sua mulher e um simpático ursinho para sua filha, e no instante seguinte, depois de não as encontrar em lugar nenhum do apartamento, acaba descobrindo através de uma overdose de recados na secretária eletrônica que alguma coisa definitivamente está errada.

Ao primeiro ver, a imagem de Abby deitada naquela cama, ligada a todos aqueles aparelhos e com o olhar perdido em qualquer canto daquele quarto de hospital lhe pareceu a da mulher forte, capaz de enfrentar muitos dos obstáculos da vida sem se deixar abalar, mas bastou muito pouco, quase nada para que aquela imagem se desfizesse em não mais do que dor.
Assim que percebeu a presença de alguém ali, o ato subconsciente a fez olhar na direção da porta, e tão logo seus olhos encontraram os de Luka, a pior das dores não a física, mas a moral, voltou a fechar garganta com aquele nó indigesto.
Se os olhos dele pudessem falar, diriam algo como 'eu estou aqui para você', e mesmo sendo tão previsível, de algum modo inexplicável, lhe dava as forças necessárias para esboçar um sorriso, triste, patético, mas ainda assim, um sorriso.
Em meio ao silêncio capaz de dizer muito mais do que uma longa explicação, Luka se aproximou da cama, sentando no pequeno espaço que restava na lateral antes de levar a mão levemente tremula carinhosamente ao seu rosto. Por mais que tentasse e se esforçasse, aquele era o máximo que sua mente podia suportar, numa última tentativa de resistência Abby fechou os olhos e cravou os dentes no seu lábio inferior, mas logo em seguida as lágrimas silenciosas começaram a traçar diversos caminhos pelo seu rosto.
Por um breve segundo Luka se encontrou sem reação, talvez aquela fosse a primeira vez que via Abby tão frágil, com o coração tão partido, precisando desesperadamente de alguém que lhe devolvesse o chão, lhe devolvesse o ar, alguém que lhe dissesse que tudo ficaria bem. Talvez tão devastado quanto ela, Luka era esse alguém, o alguém que por agora, só precisava mostrar estar ali, para o que der e vier.
Havia uma parte do seu coração que desejava ser capaz de receber toda aquela dor em seu lugar, deixar que ela passasse por tudo aquilo sem mágoas, sem sofrimentos, mas por maior que fosse o seu desejo, não havia muito que poderia ser feito, e o que poderia, seria. Ele colocou as mãos nas suas costas, trazendo o corpo dela para perto do seu, permitindo que a frágil Abby se acolhesse ali.
Ele podia sentir os dedos dela apertando alguma parte das suas costas, podia sentir suas lágrimas carregadas molhando o ombro de sua camisa em meio aos soluços que se tornavam cada vez menos espaçados, podia sentir o corpo dela se desmanchando aos poucos nos seus braços, mas o que realmente arrancava pedaços milimetricos do seu coração segundo a segundo era a impotência.
Subconscientemente uma lágrima deixou seus olhos já completamente marejados, talvez naquele momento eles só precisassem compartilhar a tristeza que ambos estavam sentindo. E por certo tempo, foi exatamente isso o que eles fizeram, apenas deixando que as lágrimas caíssem, levando consigo dentro do possível alguma parcela de dor.
Gradativamente Luka sentiu o peso da cabeça de Abby sair aos poucos de seu ombro, e ele sabia o que aquilo significava. Olhar. Ela precisava buscar alguma coisa em seu olhar, que mesmo marejado, e borrado pelas lágrimas, ainda assim sabia transmitir tudo o que ela precisava.
"Ela não encontrou... Coburn não conseguiu encontrar o batimento...". Por um instante Luka desejou apenas poder ter estado ali. Imaginou como os momentos que antecediam o contato do ultra-som com a pela deviam ter sido massacrantes. E acima de tudo, como a esperança devia ter se desfeito aos poucos enquanto apenas o silêncio pairava em cada canto do quarto. E tudo o que ele queria era poder ter estado ali.
Nenhuma palavra se quer ousava passar por sua mente, só lhe restavam gestos a oferecer, então delicadamente colou suas testas e uniu seus lábios por apenas um segundo.
"Me desculpa, Luka, me desculpa". E novamente vinham as lágrimas, que quase lhe impediam até mesmo de respirar.
Talvez aquilo fosse o mais doloroso de tudo, ver Abby se culpando, quando deveria saber de que nem a menor parcela era sua culpa.
Como se tivesse o objeto mais frágil do mundo diante, Luka acolheu o rosto de Abby em suas mãos, retomando o contato visual que já havia se perdido.
"Isso não é sua culpa Abby, não é sua culpa...". E dando pequena conversa por encerrada, voltou a trazê-la para junto do seu corpo tornando a curva do seu pescoço o melhor apoio de cabeça possível.

Durante o resto do dia, Abby tirou diversos cochilos, acordava eventualmente, mas permanecia calada encarando um ponto qualquer do quarto. Esboçava o melhor sorriso que conseguia quando alguém do trabalho passava para lhe fazer uma visita. Mas sorriu verdadeiramente quando Melanie, sempre tão esperta, sempre tão atenciosa, veio lhe visitar.
Durante o resto do dia, Luka permaneceu ali, sentado fielmente ao lado da cama de hospital de Abby, apenas segurando sua mão ou acariciando levemente seu cabelo. Esperando, pois a qualquer segundo ela poderia precisar de algo.

Eventualmente esse segundo surgiu, um momento qualquer da madrugada, mas Abby apenas precisava que Luka a ouvisse, a compreende se.
Em meio a sonolência, talvez um pouco da culpa pudesse ser colocado nos calmantes que ela tinha certeza que estavam lhe dando, Abby foi unindo as palavras mais importantes, formando frases pouco convencionais.
Mioma. Após o parto de Melanie. Histerectomia sugerida. Histerectomia negada. Tratamentos alternativos. Mioma não-respondendo. Mioma crescendo. Útero sofrendo danos. Novos exames. Nenhuma solução. Não havia sido um aborto espontâneo. Miomas. Impedindo a estabilização do óvulo.
Talvez Luka já tivesse compreendido aonde tudo aquilo iria chegar, mas talvez ainda duvidasse ser capaz de receber tantas informações num tão curto espaço de tempo.
E então elas vieram, uma a uma, formando talvez a frase que fizesse mais sentido em meio a toda aquela conversa. Praticamente. Impossível. Ter. Mais. Filhos.

Desde então, Luka era incapaz de dizer o que estava pensando, ou se mesmo havia algo passando por sua mente. Incapaz de dizer o que estava sentindo, ou como se sentiria nos próximos dias. Ele só era capaz de se sentir estático.
Mas Abby, sempre Abby, novamente conseguia virar a mesma em uma outra direção.
"Eu sei por que Deus não quer que nós tenhamos mais filhos...". O tom de voz mais do que nunca indicava uma overdose de sonolência. Qualquer um diria que ela estava a um suspiro de cair em um sono profundo. "Porque nós já temos o mais especial de todos, Melanie é muito mais do que eu poderia desejar".