Chapter 5: Ballet Shoes.

APOV

Acordei com a claridade invadindo o quarto, me mexi na cama e percebi que aquela definitivamente não era a minha. Abri os olhos e lembrei de tudo o que acontecera na noite passada. Lembrei de Jasper e sua promessa.

E também de me sentir segura enquanto dormia, sem pesadelos somente o cheiro inebriante dele me acalmando enquanto ele me abraçava.

Meu paraíso na Terra.

Olhei para o travesseiro vazio ao meu lado e havia um bilhete ali, peguei e pisquei algumas vezes até as letras muito bem desenhadas entrarem em foco.

"Allie,

Precisei sair para comprar algumas coisas para o restaurante,

mas eu volto logo. Sinta-se na sua própria casa.

Beijos,

Seu Jasper"

Aquilo fez muito coração pular dentro do peito, como alguém podia ser tão perfeito como Jasper? Eu acho que estou apaixonada.

Levantei num pulo e olhei um pouco o quarto, era tudo tão... sem vida. Não havia cores, era tudo branco, tudo muito claro. Isso só mostrava o quanto Jasper apesar de tudo era homem e não ligava para certos afazeres domésticos.

Abri a porta e andei pelo corredor, observando cada detalhe. Até que parei em uma porta onde havia uma borboleta desenhada na porta, ali devia ser o quarto de Marcela.

Entrei, abrindo a porta com cuidado para não fazer barulho. Olhei atentamente para cada quanto do quarto que na verdade era muito parecido com o meu, todo enfeitado de rosa e várias bailarinas de porcelana.

Não sabia que ela gostava de ballet até que vi suas sapatilhas em cima da cômoda. Olhei para ela que dormia tranqüilamente sob as cobertas quentes. Aquele rosto tão angelical como uma mãe tem coragem de legar uma criança tão linda.

Sai do quarto antes que acordasse ela e fui até cozinha onde Consuelo preparava o almoço, olhei no relógio da parede e percebi que já passava das onze da manhã. Consuelo me viu e abriu um largo sorriso.

- Buenos dias. – falou, alegremente.

- Buenos dias. – falei de volta, isso era uma das poucas coisas que eu sabia falar em espanhol.

- Quer comer algo? – perguntou, gentilmente.

- Eu adoraria um café. - respondi.

- Sabe, nunca vi o senhor Whitlock tão feliz como hoje de manhã. – comentou, me passando uma xícara com café – Eu acho que ele está apaixonado.

- Eu gosto muito dele. – falei – Espero que isso dê certo.

- Vai dar, - incentivou – vocês dois foram feitos um para o outro, ninguém pode negar. – Consuelo parecia saber o futuro – Eu fiquei sete anos o vendo em relacionamentos fracassados, nada mais compensador do que vocês dois ficarem juntos. E acredite, eu já vi esse homem sofrer demais para cuidar dessa menina sozinho. – informou.

- Eu agradeço a sua ajuda Consuelo, sei como deve ter sido difícil ele suportar a partida da ex-mulher e ainda ter que cuidar de um bebê. – murmurei, pensando no que ela me dissera.

- Só não o magoe e nem magoe a si mesma, querida. – murmurou, compreensiva.

Sorri para ela que sorriu de volta para mim, peguei minha xícara de café e fui andar pela casa, parei na sala que parecia ser o lugar mais vivo daquela casa. Os sofás tinham almofadas bem elegantes e a cortina que cobria a janela era extremamente delicada e rica em detalhes.

Olhei para o canto da sala e havia um piano de cauda lindo parecia que ele me chamava, corri meus dedos sobre a tampa, fiquei curiosa ao ver uma porta quase imperceptível perto do piano e curiosa como sempre entrei na sala.

Para minha total surpresa era um estúdio de ballet, perfeitamente equipado. Sentei no chão meus pés queriam sair dançando pelo salão, mas meu peito estava apertado minha vontade era chorar.

Ser uma bailarina sempre fora meu sonho, aquela apresentação mudaria minha vida se tudo aquilo não tivesse acontecido. Depois daquela apresentação fui convidada por Julliard a ingressar na carreira, mas eu nunca mais consegui colocar uma sapatilha de ballet.

Toda vez que eu tentava eu lembrava de James rasgando minha roupa...

Senti algumas lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Escutei alguns passos atrás de mim e quando me virei Marcela me olhava com compaixão em seus olhos.

- Não fique triste, Alice. – ela murmurou, me abraçando – Eu vou dançar para você ficar feliz. – disse contente e ligou uma musica que eu conhecia perfeitamente, Quebra-Nozes* fora a minha apresentação naquele dia.

Marcela colocou sua sapatilha e logo começou a rodopiar magnificamente pelo espaço do estúdio, sempre muito concentrada executava cada um dos passos com perfeição e eu olhava aqui admirada, essa menina tinha o dom da dança.

De repente ela parou e eu não entendi o por que.

- O que aconteceu? – perguntei, curiosa.

- Eu não sei fazer o próximo passo. – murmurou.

- Tudo bem, vem aqui que eu vou lhe ensinar. – falei, dando uma piscadela que a fez sorrir.

A música invadiu meus ouvidos, respirei fundo e comecei a executar os passos com exatidão e leveza, apesar de eu estar enferrujada eu ainda me lembrava de cada Demi Plié¹, cada Pirouette², eu me lembrava de tudo.

Mar olhava fascinada para mim, sorri para ela e continuei a dançar até o fim da música. Quando eu terminei a única coisa que eu conseguia fazer era sorrir parecia que tinham tirado um peso enorme de minhas costas, finalmente eu conseguira superar meus medos.

Olhei para trás e vi Jasper que olhava fascinado para mim e sorria alegremente. A única coisa que eu pude fazer foi sorrir de volta.

Eu estava me regenerando aos poucos, mas era assim que tinha que ser, um degrau de cada vez.

_______________________________________________________________________

*Quebra-Nozes é um dos três balés que Tchaikovsky compôs. Fonte: Wikipédia.

¹ e ²: Passos de Balé.


Mais um capítulo, COMENTEM!