Nota do Erik: Nós desde já pedimos desculpas aos leitores por não termos incluido o off-talk no fim do capítulo. Isso faz parte da nossa estratégia para deixar que os leitores absorvam bem o fato de que este é o último capítulo que terá os Taichi como protagonistas. Depois disso, os Taichi só aparecerão novamente no começo da fase 3, e não serão mais os protagonistas. Por isso aproveitem bem!
(E essa estratégia combina muito bem com o fato de que o Jamie acabou ficando muito mais ocupado do que ele esperava no dia do seu aniversário - e meu também - e só vai conseguir escrever o off-talk no fim de semana.)
Enquanto vocês aproveitam o capítulo, eu vou forçar o Jamie a escrever o primeiro capítulo do meu AU, que deve estar no fictionpress entre hoje, amanhã e sábado. Vai ser em inglês porque o Jamie quer divulgar a nossa história para mais pessoas. Não posso ainda dizer muito sobre o enredo, mas vou dizer que o primeiro capítulo se chama "At the Bookstore". Ah, e hoje meu presente de aniversário vai ser uma conta de e-mail. Daqui a pouco o endereço vai estar no profile do Jamie junto com os demais.
E PARABÉNS PRA NÓS! XDDDDDDDDDDD
CAPÍTULO XLIV
NUMA NOITE DE PRIMAVERA
Rumiko acordou com o barulho de uma caneta arranhando papel. Assim que abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o céu azul com nuvens brancas e anjinhos loiros de cabelos cacheados tocando harpas. Estaria no céu? Somente quando os anjinhos ficaram muito tempo sem se mexer e ela reparou que não ouvia nenhuma música de harpa foi que Rumiko percebeu que estava apenas olhando para uma pintura de teto. Ao virar o rosto para tentar descobrir onde estava, se deparou com uma mulher de longos cabelos loiros e grandes olhos verdes vestindo uma roupa de enfermeira. Era a mãe de Satsuki, Natsuko Kinomoto.
- Oh, já está acordada, Rumiko-chan? – Perguntou a mulher, se aproximando da garota e colocando a mão em sua testa para checar a febre. – Seus pais vão ficar felizes, eles estavam realmente preocupados. Espere um pouco que eu vou chamá-los.
Rumiko ficou confusa com as falas da enfermeira. O que seus pais tinham a ver com sua luta contra Umeragi? Mesmo não sabendo onde estava, a garota sabia que seus pais não deveriam estar ali.
- Onde eu estou?
- Na enfermaria da mansão dos Umeragi.
Ao ouvir a voz muito conhecida e amada, Rumiko se sentou e olhou para o lado, abrindo um grande sorriso ao encontrar Toshihiro sorrindo para ela. O garoto tinha um livro sobre o colo com uma página marcada, provavelmente estava lendo antes de a namorada acordar. Fora o pé machucado, que se encontrava enfaixado e colocado sobre uma pilha de travesseiros, não havia nenhum sinal externo de que o garoto tivesse alguma razão para estar em uma cama de hospital, mas Rumiko achou melhor não fazer muitas perguntas. Ela preferiu gritar e estender o braço para tocar o namorado sem sair da cama.
- Toshihiro! Estou tão feliz em te ver! Estava com tanta saudade!
- Eu também! – O chinês trançado também havia estendido o braço de modo a ficar de mãos dadas com a garota. – Você esteve dormindo por dois dias, todos nós ficamos preocupados.
- Dois dias? Tudo isso? – Rumiko ficou impressionada, pois tinha a impressão de que a luta havia terminado há poucos minutos.
- Aham. Você devia estar mesmo cansada, sua luta deve ter sido incrível! E parece que o Umeragi também não acordou ainda.
- O Umeragi-san... – Rumiko se lembrou do fim da luta e das últimas palavras de seu oponente. Ela precisava seguir com seu plano de fazê-lo se sentir melhor e ter mais amigos, e aquela era uma boa oportunidade para começar. – O Umeragi-san não é mais como era antes. Durante a nossa luta todos aqueles sentimentos negativos foram embora, e a fera-bit dele nos ajudou, e Kid Dragoon e as outras feras-bit foram...
- Nós sabemos, Rumiko. – Quem falou foi Nathaliya, que estava na cama em frente à mestra de Fenki. Rumiko sorriu ao rever a irmã. – As feras-bit roubadas já estão de volta com seus mestres, Ceres nos contou tudo.
- É! Ele não poupou nenhum detalhe! – Na cama ao lado da de Nathaliya, Yoshiyuki tentava ficar de pé no colchão para demonstrar sua animação. – Muito obrigado, Rumiko! Eu e Ceres estamos muito felizes e muito agradecidos e com muita vontade de comer chocolate!
Yoshiyuki se atirou de volta no colchão e apanhou uma barra de chocolate da sua mesinha de cabeceira. Os beybladers sorriram ao observar o garotinho se lambuzar todo enquanto comia com entusiasmo sua comida favorita.
- Bem, eu não teria chegado a lugar nenhum se vocês não tivessem me ajudado, não é mesmo? – Rumiko correu os olhos pelo quarto para ver quem mais estava lá. Na cama ao lado de Yoshiyuki estava Isaac, e ao lado deste, Julian, que parecia estar dormindo. Ao lado de Toshihiro estava Vladmir, e ao lado do russo era possível ver ainda mais uma cama, porém seu ocupante ou era muito pequeno, ou não estava presente.
- É, nós quase morremos por sua causa, não é verdade? - O tom de Isaac era gozação, por isso todos os presentes concordaram entusiasmados e riram. – Agora falando sério, foi como se nós fôssemos um só grande time fazendo um ótimo trabalho de equipe, não é verdade?
- É, foi isso que fizemos. – Concordou Vladmir, colocando o corpo para frente para que Rumiko pudesse ver seu rosto. – Tudo faz parte do trabalho de equipe. – Os Soldier of Russia trocaram olhares significativos, lembrando-se de como finalmente haviam se tornado um time de verdade lutando no rio. Toshihiro e Rumiko não captaram os significado deste sorriso, porém.
- Onde estão os outros? – Rumiko perguntou de repente, percebendo a ausência da maioria dos seus amigos.
- A maioria já foi liberada, só o Hehashiro, o Koichi, a Satsuki e o Shinji ainda continuam em uma sala reservada para receber cuidados especiais. – Respondeu Toshihiro, tentando fazer sua voz soar mais animada do que ele realmente estava ao se lembrar do estado do irmão.
- Cuidados especiais? – Rumiko imediatamente se lembrou de seu sonho e entrou em pânico. E se os fantasmas que apareceram para ela tinham alguma relação com a realidade? E se eles estivessem realmente muito feridos e corressem risco de vida?
- Eles ficaram um pouco mais machucados do que nós, só isso. – Esclareceu Vladmir com sua voz calma. – Shinji foi atingido na cabeça e está em observação para termos certeza de que seu cérebro não foi afetado, Hehashiro quebrou um braço escorregando do barranco e algumas de suas feridas infeccionaram por causa da lama, Koichi quebrou uma costela entre outros e Satsuki...
Quando Vladmir demorou para completar a frase, Rumiko ficou ainda mais preocupada. O que havia acontecido de tão terrível com Satsuki que mesmo o mais calmo e controlado entre os beybladers presentes tinha dificuldade de contar?
- O que houve com a Satsuki?
- Não sabemos ainda. Ela ainda está dormindo, mas tem alguma coisa estranha. Jing Mei se recusou a contar o que aconteceu na luta delas, e ela e o Yuriy sumiram da mansão assim que acordaram, mesmo com Yuriy estando tão ferido quanto o Koichi, ou ainda pior. Ela vai ficar bem, eu acho, mas nós precisamos esperar para ver se alguma coisa aconteceu.
- Entendo...
- Não se preocupe, a Satsuki-Nee-chan vai acordar logo! – Agora que havia terminado o chocolate, Yoshiyuiki voltou a pular na cama com a hiperatividade de uma criança qu acabou de receber uma dose reforçada de açúcar. Seu sorriso meia-lua agora tinha uma mistura de dentes permanentes muito grandes, dentes permanentes que ainda estavam nascendo, e alguns poucos pequeninos dentes de leite, dando-lhe um aspecto ainda mais fofinho de criacinha que está crescendo. – Todos vão acordar e nós vamos todos sair daqui bem antes do meu aniversário! – Foi só começar a falar do aniversário que o entusiasmo do menino gênio foi às alturas, assim como o volume de sua voz – E aí eu vou fazer uma festa com todo mundo lá em casa! Vai ter todos os doces de chocolate, dois bolos gigantes de chocolate, frutas de chocolate, e vai ter também uma arena pra gente comer chocolate e lutar ao mesmo tempo! E eu vou realizar o meu sonho de ser o cupido que vai fazer o Nii-chan e a Satsuki-Nee-chan finalemente começarem a namorar! E eu também vou...
- CALA A BOCA QUE EU QUERO DORMIR! – Gritou Julian de repente, assustando todos e quase derrubando Yoshiyuki da cama. Julian estava sentado e seu grito lançou um rio de cuspe na direção do garotinho. Isaac, que estava entre os dois, se escondera embaixo das cobertas bem a tempo. Ninguém ousou se mexer ou respirar até Julian dar as costas a todos e voltar a dormir.
- O que deu nele? – Perguntou Yoshiyuki, voltando a se sentar na cama enquanto limpava o cuspe da cara. Apesar de tudo, ele ainda continuava com o mesmo sorriso fofinho no rosto.
- Ele se irritou por ter o sono atrapalhado por um bebê empolgado. – Respondeu uma voz que Rumiko ainda não havia ouvida naquela sala, uma voz de criança que tinha um tom sarcástico e que vinha da cama ao lado de Vladmir. Rumiko sorriu ao perceber que o ocupante da cama que era muito pequeno para ser visto era Takashi. Ela devia ter pensado nisso antes. A mestra de Fenki fez uma nota mental de nunca contar isso a Ken, ou o garoto da franja aloprada ficaria fazendo piada com o companheiro diminuto por semanas.
- Até tu, Brutus! – Exclamou Yoshiyuki ao perceber que um de seus aliados chamara-o de "bebê" – Você não pode falar nada, é só dois anos mais velho do que eu e ainda assim consegue ser uns bons vinte centímetros menor!
- Isso é porque quando a gente chegar na adolescência eu vou começar a crescer tanto, mas tanto, mas tanto, que antes de vocês perceberem eu serei muito mais alto que todos vocês! Vão ver só!
Yoshiyuki e Takashi tentaram continuar a discussão, mas pararam ao primeiro sinal de movimento vindo da cama de Julian. Os dois ficaram bem quietos daquele momento em diante.
- Oh, Rumiko! Que bom que você está bem! – Quando todos já estava mais ou menos calmos, Takao e Sazuke Higurashi entraram sala a dentro derrubando portas e empurrando quem estivesse em seu caminho, só parando ao chegar na cama da filha. Nathaliya riu da confusão enquanto sua irmã era abraçada, apertada e beijada pelo casal aflito. Hikaru, preso às costas de sua mãe, chorava e reclamava, pedindo um pouco de atenção também. – Oh, Rumiko, nós estávamos tão preocupados! Você não acordava nunca! Nós pensamos... pensamos...
- Ela está bem agora, pai, não precisa se preocupar. – Nathaliya havia saído da cama e tentava tirar o bebê choroso das costas de Sazuke antes que Julian acordasse novamente. – Ela só estava um pouco cansada depois da luta épica, não é verdade, Rumiko? – Já com o bebê de oito meses bem seguro em seu colo, a russa sorriu e piscou para a irmã. Hikaru olhou para Rumiko e parou de chorar, esticando as mãozinhas para dizer que queria ficar perto dela.
- É, eu já estou bem, de verdade. A luta foi cansativa, aconteceram tantas coisas...
Nathaliya se colocou ao lado da cama da irmã e passou Hikaru para ela. Rumiko ainda não havia aprendido a pegar um bebê no colo sem ajuda, por isso a russa teve que instrui-la até ter certeza de que seu irmãozinho não seria brutalmente atirado para fora do colo da garota.
- Então conte-nos como foi a sua grande luta! – Pediu Takao, ficando empolgado depois de perceber que a filha estava mesmo bem. – Nathaliya já nos contou tudo sobre a incrível luta na ponte e sua magnífica sincronia com Ciesel! Sabia que ela ganhou asas de fogo?
- Pai… - Nathaliya tentou advertir seu pai sobre o perigo de começar a contar histórias erradas em momentos errados.
- Isso é verdade, Nathaliya? Que incrível! Como foi que aconteceu?
- Depois, Rumiko, depois. Agora nós queremos saber como foi a sua grande luta. – A russa insistiu, fazendo um gesto que indicava que todos os presentes queriam saber a sua versão dos fatos.
- O Umeragi-san já falou alguma coisa pra vocês?
- Umeragi-kun está fechado em seu quarto desde que voltou da luta. Acho que ele ainda está dormindo, ou não quer ver ninguém. Até agora só Umeragi-san foi autorizado a entrar lá. – Respondeu Sazuke, acariciando os cabelos meio bagunçados da filha.
- Ah, entendo...
Rumiko ficou horas contando tudo que lembrava da luta, desde o momento em que deixara o coliseu até o ataque final de suas feras-bit. Takao ficou especialmente excitado quando sua filha contou sobre sua "transformação" em centauro e sobre as flechas douradas. Até mesmo Julian acordou para ouvir, ele parecia bem melhor agora que não tinha mais olheiras ao redor dos olhos e seus cabelos estavam novamente limpos e sedosos.
O sol já estava se pondo quando Rumiko finalmente deixou o quarto em uma nova cadeira de rodas empurrada por sua "enfermeira particular" Natsuko Kinomoto. Suas pernas estavam propriamente enfaixadas e imobilizadas, e, segundo os médicos, ainda faltavam cerca de seis meses para que ela pudesse andar novamente. A japonesa também descobriu que, enquanto estava desacordada, os médicos haviam realizado cirugias para colocar suas pernas de volta no lugar. Depois de insistir um pouco, Rumiko foi autorizada a entrar na sala dos "cuidados especiais".
Não foi nenhuma surpresa encontrar Lily junto à cama de Hehashiro ajudando-o a comer seu almoço. O braço direito de Hehashiro estava enfaixado e preso em uma tipóia, mas o mestre de Kufe parecia estar se divertindo sendo alimentado como um bebê pela namorada, e acenou para Rumiko assim que a viu, não podendo cumprimentá-la verbalmente por estar com a boca entupida de nigiri.
- Oh, Rumiko, como você está? – Felizmente Lily não estava de boca cheia, e pôde cumprimentá-la educadamente.
- Muito bem, obrigada! E vocês?
- É, é, eu podia estar melhor, mas não posso reclamar... – Hehashiro já havia engolido seu nigiri e fez cara de coitadinho erguendo o braço machucado. Ele em seguida sorriu para Lily e ela o beijou na bochecha. – Quando é que você vai andar de novo?
- Não queira saber. Pelo que o pai do Ken disse, ainda vai demorar bastante...
- Ah, eu sinto muito. Toshihiro já me contou como vocês se machucaram. Foi uma estúpida falta de sorte! – Exclamou Hehashiro, se esforçando para olhar para o rosto de Rumiko ao invés de seus pés.
- Não, tá tudo bem. Se não fosse por isso, eu talvez não conseguisse ajudar o Umeragi-san e vencer a luta.
- O que você quer dizer? – Quem perguntou foi Lily.
- Foi porque eu já tinha passado algum tempo nesta cadeira quando a gente estava na mansão que eu comecei a entender como o Umeragi-san se sentia e as suas razões para fazer o que ele estava fazendo.
- Ah, entendi! Porque você também estava na cadeira de rodas, você foi capaz de criar uma conexão com o inimigo e perceber que ele precisava ser ajudado ao invés de simplesmente vencido! – Exclamou Lily com um brilho estranho nos olhos.
- É como dizem por aí, "há males que vem pra bens".
Os três riram, e o casal deixou a garota livre para visitar as outras camas. Em frente a Hehashiro estava Shinji, com parte de sua cabeça embrulhada em uma faixa branca. Um de seus olhos estava coberto e alguns fios de cabelo rebeldes passavam através da faixa. Era uma visão um tanto assustadora, por isso Rumiko relutou um pouco em se aproximar.
- Tudo bem, Rumiko, eu não mordo. – Disse o garoto, indicando que era hora da amiga se aproximar. – Só me sinto um pouco inútil por ainda estar aqui enquanto meus amigos já foram liberados. Agora que temos Kid Dragoon de volta precisamos voltar para casa o mais cedo possível e ajudar nossos pais, e eu só estou atrasando tudo...
- Não fique assim, Shinji! É melhor perder alguns dias agora e ter certeza que não há nada de errado com você do que ficar para trás no meio do caminho por causa de alguma coisa que ninguém sabia que existia, não é verdade?
- Isso é o que todo mundo me diz. – Shinji olhava sugestivamente para Lily enquanto falava, e a Sul-africana sorriu e acenou de volta ao percebeu isso. – Mas nós realmente ficamos tempo demais em Tóquio, eu não quero deixar nossos pais na mão do Watanabe-dono por muito mais tempo.
- Eu entendo. Então vocês vão embora logo?
- Eu vou assim que me deixarem sair.
Os olhos de Shinji brilhavam com determinação. No fundo, Rumiko gostaria que seus novos amigos ficassem mais tempo com eles, porém ela entendia que isso não seria possível e não aconteceria só por causa de sua vontade.
- Nós vamos manter contato, não vamos? Eu quero que vocês nos avisem quando ganharem a luta, ok? – Rumiko sorriu, fazendo com que Shinji sorrise também, mostrando sua confiança de líder.
- Quando tudo estiver resolvido, vamos convidar todos a passarem um tempo com a gente em Hokkaidou.
- Isso! Eu vou adorar!
Os dois conversaram por mais algum tempo, fazendo planos para a visita dos Taichi e Soldier of Russia a Hokkaidou, antes de Rumiko se aproximar da cama de Koichi. O líder dos Taichi estava sentado na cama lendo um livro, havia uma enorme feixa cobrindo todo o seu peito e mais alguns curativos em cortes espalhados por seus braços e rosto.
- Oi, Koichi, como você está?
- Podia estar melhor, mas não me sinto tão mal quanto os medicos sugerem que eu deveria estar me sentindo. – Rumiko sorriu levente ao perceber o tom impaciente de seu companheiro de time. Ela tinha certeza que Koichi estava falando assim de propósito. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo até o garoto voltar a falar. – Bom trabalho, Rumiko. Obrigado por pegar Ceres de volta.
Rumiko não tinha como saber que Koichi a agradecia por muito mais do que simplesmente trazer Ceres inteira de volta. Ela não sabia que seu líder optara por destruir o que ele achava ser o unicórnio sagrado para que pudesse vencer seu oponente, não tinha como saber do remorso que o garoto sentira ao ver o sorriso feliz e os grandes olhos brilhantes de seu irmãozinho ao ter sua fera-bit novamente com ele enquanto o mestre de Fenhir pensava que por muito pouco não transformara este sorriso em lágrimas. Na hora da luta Koichi realmente se importava menos com Ceres do que com a derrota do rival, mas foi só ter Yoshiyuki ao seu lado novamente que suas escolhas se reverteram.
Os dois não conversaram por muito tempo, Koichi não era o tipo de pessoa que gostava de falar. Eles evitaram falar de Satsuki, mesmo a loira estando a poucos metros de distância, deitada na cama em frente ao líder. Seus olhos estavam cobertos por uma máscara e uma máquina monitorava seus batimentos cardíacos. Rumiko passou rapidamente pela cama da amiga e saiu da sala. Estava preocupada com ela, mas também estava feliz porque seus outros amigos estavam bem.
- Hey, Rumiko! Há quanto tempo! – Rumiko não conseguiu reagir rápido o suficiente para escapar do abraço apertado e emocionado do único companheiro de time com quem ela ainda não havia falado. – Já estava ficando com saudades! Eu não fui te visitar no quarto porque eu estava ocupado treinando com a Aiko-chan! Sabe como é, o meu pai está trabalhando aqui, então ele sempre me conta as coisas e eu posso ficar zanzando por essa mansão imensa o quanto eu quiser!
- Que bom! – Rumiko voltou a ficar animada só de ver a animação do do companheiro. Akiko estava logo atrás de Ken, sorrindo para ela também. – Então você já está bem? Aquelas pedras não machucaram você?
- Ah, que nada! Nós escapamos de todas as pedras, e ficamos pra trás só porque estávamos muito cansados pra continuar, não é mesmo, Aiko? – A garota concordou com a cabeça. Como combinado, nenhum deles jamais falaria sobre o cochilo confortável da garota no colo de seu antigo oponente. – E você precisava ver, Rumiko, o Fenrochi falou comigo e tudo!
- E eu dei o meu bit-chip pra ele antes de acabar a luta! – Acrescentou a garotinha, achando muito importante salientar que ela não era malvada e que agora era realmente uma amiga.
- É, pena que ele era falso! Aquele Umeragi-teme enganou todos nós direitinho!
- Eu não sabia de nada! Eu juro!
E Ken e Aiko passaram a contar tudo que aconteceu depois que os Taichi deixaram a sala. Rumiko ficou impressionada com a parte da história que falava do dragão de fogo, ela não imaginava que uma fera-bit poderia chegar tão perto de machucar o próprio mestre.
- E como eu tinha dito, nós estávamos bem, só cansados! – Ken continuou, agora falando do que acontecera depois da luta. – Acordamos quando uns caras gigantes vestidos de preto apareceram do nada e disseram que era pra gente se mandar porque eles estavam indo para a floresta procurar os outros. Parece que eles já tinham recolhido todos os que ficaram pelo caminho depois da gente, incluindo você e o Umeragi-baka, e eles queriam que a gente fosse embora também pra sermos examinados na enfermaria. Só que eu estava me sentindo muito bem e não estava nenhum pouco machucado, então eu pedi pra ir com eles na floresta pra pegar o resto do pessoal porque eu sabia onde todo mundo tava, ao contrário dele.
- É! E eles eram grandalhões e muito feios, mas eram homens muito legais e deixaram a gente ir! – Completou Aiko, dando tempo para Ken respirar depois de falar tanto e com tanto entusiasmo.
- Ou seja, você está tendo a honra de falar com a dupla que achou e resgatou todos os seus amigos! Como se sente agora?
- Oh, mas que grande honra! – Rumiko fez uma reverência desajeitada na cadeira e os três riram. Pouco tempo depois a mestra de Fenki se despediu dos dois dizendo que tentaria visitar Umeragi. Ken desejou-lhe boa sorte com um sarcasmo mal-disfarçado e ele e sua nova amiga foram treinar em outro lugar.
O quarto de Umeragi era um dos dois únicos cômodos localizados no terceiro andar da mansão. Foi Ichirou Umeragi quem atendeu quando ela e Kinomoto-san bateram. Ele era um homem alto, de cabelos castanhos muito bem penteados e olhos negros muito parecidos com o do filho. Fora o detalhe dos óculos de armação fina que escorregavam por seu nariz também fino, Icihrou era a perfeita versão mais velha de Makoto.
- Olá, Umeragi-san. Rumiko-chan gostaria de falar com seu filho, se isso for possível.
Pela cara fechada do homem a sua frente, Rumiko achou que seu pedido seria recusado, porém, para sua surpresa, Ichirou Umeragi sorriu e se ofereceu para empurrar a cadeira da garota dali para frente. Natsuko se despediu dos dois e voltou para a enfermaria.
- Antes de entrarmos, eu preciso te agradescer, Higurashi-chan. – Declarou o homem, parado em frente à porta do quarto do filho. – Desde o acidente Makoto mudou muito, eu não conseguia mais reconhecê-lo como meu filho. Eu queria fazer tudo que estivesse ao meu alcance para vê-lo feliz, por isso criei as novas feras-bit e o dispositivo que o ajudava a caminhar. Eu me sentia culpado pelo acidente e queria consertar as coisas, mas acho que só causei mais confusão. – Ichirou Umeragi respirou fundo, preparando-se para entrar novamente no quarto do filho. – Mas graças a você ele agora tem outros planos. Eu vou deixar que vocês dois conversem sobre isso sozinhos, mas eu queria dizer que você pode ficar tranqüila que a nossa vida vai melhorar muito daqui para frente.
- Eu fico feliz em ouvir isso, Umeragi-san! – Exclamou Rumiko, sorrindo. O homem abriu a porta do quarto – que continha uma placa escrito "Sala Escura" – e os dois entraram.
O quarto de Umeragi era imenso, provavelmente maior do que toda a casa de Rumiko. A cama do garoto estava colocada perto da janela, e era também gigantesca. Ichirou e Rumiko se aproximaram, o garoto estava aparentemente dormindo sentado com meia dúzia de travesseiros apoiando suas costas. Seu pai se aproximou e cutucou-o levente no ombro.
- Filho, você tem visitas. – Umeragi abriu os olhos, focando sua atenção em seu pai antes de perceber a presença de Rumiko.
- Ah, Higurashi. – O garoto levantou o canto de um dos lábios, o mais perto que conseguiu chegar de um sorriso. – Desde quando você está acordada?
- Desde o começo da tarde. Me disseram que eu dormi por dois dias, dá pra acreditar?
- Você gastou muita energia durante a nossa luta, eu não estou supreso. – Os dois ficaram algum tempo em silêncio. Ichirou já havia deixado o quarto. – Como estão suas pernas?
- Ah, disseram que ainda vai demorar uns seis meses pra eu voltar a andar. Acho que vou ficar te fazendo companhia na cadeira por mais algum tempo! – Sabendo que o assunto era um tanto delicado, Rumiko tratou de exibir seu melhor sorriso enquanto falava.
- Eu posso te ensinar alguns truques se quiser. Você vai ter problemas se não souber ir da cadeira para a cama ou para o chuveiro.
- Eu adoraria! Hoje eu quase cai no chão quando a Kinomoto-san tentou me passar pra cadeira! Você não faz idéia de como eu sou desajeitada!
Rumiko continuou rindo. Umeragi não parecia mais depressivo e não estava mais cercado de tanta energia negativa. Era possível perceber ainda um pouco de tristeza nele, mas seu esforço para superá-la também se tornava óbvio durante a conversa.
- Quem sabe isso vai te ensinar um pouco de coordenação então.
- Hum... Umeragi-san, será que eu posso te perguntar uma coisa?
- Que coisa, Higurashi? – Umeragi ergueu uma sobrancelha ao ver a garota corar. Sua curiosidade aumentou quando Rumiko começou a se enrolar para falar:
- É que, sabe... Eu sempre fui curiosa quanto a isso, mas... mas nunca conheci ninguém... ninguém que pudesse me dizer como funciona...
- Funciona o que, Higurashi? – Tanta enrolação estava deixando o garoto nervoso. Mesmo assim ele foi pego desprevenido quando a garota finalmente fez a "pergunta que não quer calar":
- Como você faz xixi?
Se seu corpo não estivesse apoiado nos travesseiros, Umeragi teria caído para trás. Essa definitivamente não estava entre as perguntas que ele esperava que pessoas fizessem para ele. O garoto respirou fundo e sorriu levente, estava convencido de que poderia realmente esperar qualquer coisa de Rumiko Higurashi. Quando se preparou para respoder, seu rosto inevitavelmente tornou-se quente e vermelho, o assunto era um tanto embaraçoso:
- Dependendo da situação, eu uso uma sonda e escondo os sacos na cadeira ou eu... – O restante de suas palavras saiu em um sussurro quase inaudível refletindo seu sentimento de humilhação – uso fraldas.
Não adiantou nada falar baixo, pois Rumiko pediu que ele repetisse até que ela conseguisse ouvir, o que terminou com Umeragi gritando "EU USO FRALDAS" tão alto que provavelmente a mansão inteira o ouviu. Se fosse alguém como Ken que estivesse falando com o garoto, toda essa insistência para falar mais alto seria uma brincadeira para que ele gritasse muito alto e contasse seu segredo mais humilhante para dezenas de pessoas de uma vez, porém Rumiko não tinha nada disso em mente, a garota era movida apenas por sua curiosidade e por ouvidos um pouco debilitados.
Depois do grito, a mestra de Fenki começou a rir. Primeiramente era um riso baixinho, disfarçado, mas aos poucos foi ficando cada vez mais difícil segurar a risada alta, até que isso se tornou impossível e ela explodiu em gargalhadas. Impressionado e influenciado pela alegria da menina, Umeragi começou a rir também, e logo os dois estavam gargalhando feito dois cientistas loucos no quarto.
- Ahahaha, descul... desculpa, eu não queria... – Quando já estava ficando sem ar, Rumiko tentou se acalmar.
- Não, tudo bem. Fazia tempo que eu não ria assim. Tinha me esquecido que era tão bom. – Os olhos da mestra de Fenki se arregalaram quando os lábios de Umeragi formaram o sorriso mais bonito e sincero que ela já vira no rosto do garoto. Era completamente diferente do sorriso malicioso que ele vinha usando até então e que era uma de suas características mais marcantes. O novo sorriso parecia mudar completamente seu rosto, tornando-o mais vivo e mais... normal? Por que não?
- Eu gostei desse sorriso, você devia sorrir mais vezes assim. – Disse a japonesa ao processar seu espanto.
- Daqui para frente eu vou ter mais motivos para sorrir assim.
- O que você quer dizer?
- Eu não desisti do meu sonho ainda, Higurashi. Eu sei que um dia vou poder ficar livre da minha cadeira, mas eu vou fazer isso sem usar feras-bit. Eu vou encontrar um outro jeito, e quando isso acontecer todas as pessoas como eu vão poder ficar livres também.
- Isso é maravilhoso! – Empolgada, Rumiko tentou se lançar para abraçar o garoto, porém foi impedida bem a tempo de evitar uma catástrofe. – Ops... foi mal... Eu me esqueci que não posso me levantar...
- Eu também esqueço às vezes.
E a conversa passou a tratar das experências que Umeragi e Rumiko tiveram na cadeira de rodas. A garota ficou feliz ao perceber que seu novo amigo não parecia mais tão triste e angustiado ao falar de suas dificuldades e frustrações. Como ele mesmo explicou naquela mesma conversa, pensar que um dia ele acharia a solução para seu problema fazia com que este problema se tornasse muito menos terrível, o que permitia que pela primeira vez ele conseguisse falar disso abertamente. Foi uma longa e agradável conversa, com muitos risos e olhos esbugalhados, bem diferentes do tipo de conversa que Rumiko imaginaria que pudesse ter com o antigo rival dois dias antes.
- E não se esqueça que a festa dos irmãos Yuy vai ser na quinta daqui a duas semanas! Yoshiyuki faz questão que você venha! – Foram as últimas palavras que Rumiko dirigiu ao garoto naquela tarde, antes de o pai de Ken fechar a porta atrás de si e levá-la de volta para a enfermaria.
Na quinta-feira três de junho Shinji, Hehashiro, Koichi e Satsuki, que acordara naquela mesma tarde, logo depois que Rumiko deixou sua sala, sem se lembrar de quase nada sobre a luta contra Jing Mei, foram liberados. Os quatro foram os últimos a deixar a mansão, e houve uma grande festa para marcar sua despedida. Foi durante esta festa que os Kita no Ookami se despediram de seus amigos:
- Vocês precisam mesmo ir embora? – Perguntou Toshihiro pela centésima vez do dia. Como Vladmir permanecera excepcionalmente quieto durante toda a festa, o chinês trançado tomou como sua missão particular tentar esticar um pouco mais a estada dos lobos do norte.
- Sim, Toshihiro-kun, nós precisamos. – Lin era a única que ainda tinha paciência para responder ao mestre de Fenku. Kazuo e Osamu já havia tentado estrangulá-lo duas vezes, e Shinji sempre arranjava um jeito de desaparecer toda a vez que o garoto se aproximava. – É a nossa missão.
- Nós vamos ficar com saudades.
- Nós também.
Toshihiro sorriu ao perceber que as bochechas da garota tornaram-se um pouco mais coradas. Ele tinha quase certeza que por "nós" ela queria dizer "eu", assim como ele queria dizer especialmente "Vladmir" no lugar do mesmo pronome.
- Manda umas cartas de vez em quando. Eu não sei quando vamos voltar pra Xigaze, mas nós queremos saber notícias da sua missão.
- É, eu sei. Nós vamos escrever para vocês e para os outros assim que tudo estiver bem, eu prometo.
Os dois apertaram as mãos. Toshihiro estava sorrindo, mas Lin tinha dificuldades em sorrir de volta.
- Nós vamos indo então. Até um dia, Toshihiro-kun.
Os Kita no Ookami estavam na entrada da mansão esperando pela garota. Lin estava se enrolando com Toshihiro para tentar procurar por um certo russo de cabelos castanhos, mas seu tempo estava se acabando.
- Até um dia, Lin.
Lin deu as costas ao garoto e já estava quase na porta quando Vladmir apareceu correndo e pediu que ela esperasse. Todos os presentes na festa pararam o que estavam fazendo para observar, com exceção de Nathaliya, que subiu correndo as escadas para o segundo andar. Isaac, percebendo a atitude estranha da companheira, imediatamente foi atrás dela.
- Que bom que eu consegui chegar a tempo. – Disse o russo, um pouco ofegante.
- Onde você estava?
Vladmir ficou em silêncio por algum tempo encarando os olhos escuros de Lin e segurando seus ombros.
- Tentando criar coragem para vir me despedir e desejar boa sorte. – Lin também olhava Vladmir nos olhos. Os beybladers ao redor prendiam a respiração para saber o que estava por vir. – Eu queria ir com vocês.
- Eu sei, mas essa luta é nossa, os Kita no Ookami precisam lutar sozinhos dessa vez. Mas obrigada mesmo assim.
- Eu entendo. E eu vou sentir saudades. – Ao se esforçar para exibir um sorriso fraco, Vladmir sentiu seus olhos começarem a se encher de água. Ele não sabia se ficava feliz ou triste por ver o mesmo acontecer com Lin.
- Eu também vou, mas assim que pudermos, nós vamos providenciar para que vocês possam nos visitar, tudo bem?
- Sim.
Rumiko, Lily, Satsuki, Aiko e até mesmo Toshihiro começaram a chorar quando o casal se abraçou e Vladmir beijou a testa de Lin. Ken, Takashi, Osamu, Kazuo e Yoshiyuki viraram os rostos fazendo cara de nojo e Hehashiro e Shinji abriram um grande sorriso. Porém todos os presentes passaram a exibir expressões cômicas de queixos caídos e olhos saltando das órbitas quando Lin agarrou o russo pela gola da camisa e beijou-o em cheio nos lábios. Os dois só se desgrudaram ao ficarem sem ar.
- Até breve.
- Até breve.
Os dois se separaram e Lin caminhou os poucos passos que restavam até a porta. Um motorista de Umeragi levaria os garotos para a estação de trem, e de lá eles seguiriam para a fazenda no centro da ilha de Hokkaidou.
Enquanto Lin e Vladmir terminavam sua despedida, Isaac encontrou Nathaliya escondida atrás da porta de uma das salas do segundo andar. A garota estava sentada no chão com o rosto escondido pelos joelhos.
- Hey, Nathaliya, você está bem? O que houve? – Como não havia mais ninguém por perto, Isaac não viu problema em usar seu idioma nativo.
- Nada. Sai daqui! – A voz da russa saiu dura e severa, porém não tão firme quanto ela gostaria. Isaac percebeu esse pequeno detalhe:
- Não. Alguma coisa está acontecendo com você e eu quero saber o que é. – O garoto se sentou ao lado de Nathaliya e tentou aproximar seu rosto do dela. Quando Isaac tentou tocar seu braço, a garota lhe deu um tapa bem sonoro e dolorido.
- Já disse pra me deixar em paz. Isso não é da sua conta.
- Se alguém da minha equipe fica triste, é claro que é da minha conta! É por causa do Vladmir, não é? Ou por causa da Lin?
Nathaliya ergueu o rosto com a mensão de seu colega de equipe. Seus olhos e bochechas estavam vermelhos, porém não havia sinal de lágrimas neles.
- Isso é ridículo. É tão ridículo... deixar que uma coisa assim me afete tanto! Isso não devia estar acontecendo.
- Não fale bobagens, Nathaliya. Nós não estamos mais com Hajime Yuy e você não está mais no orfanato, pára de tentar bloquear seus sentimentos desse jeito! – Isaac arriscou colocar a mão no ombro da colega e ficou feliz quando ela não reagiu.
- Mas ficar triste por causa de um garoto é coisa de menininhas fracas e frescas que só pensam em namorar e não têm nada na cabeça!
- Não é, não. – Isaac respirou fundo enquanto Nathaliya virava o corpo para ficar completamente de frente para ele. – Ficar triste por causa de um amor não-correspondido pode acontecer com qualquer um. Eu sei que você gosta do Vladmir e eu consigo imaginar como deve ser difícil para você vê-lo com a Lin, mas se esse é o caminho que ele escolheu, você precisa seguir em frente.
- Cala a boca, Isaac. Você não faz idéia de como eu me sinto.
Isaac soltou um sorriso triste, decidido que era hora de colocar para fora parte das sensações que desde a volta de Vladmir tomavam conta dele:
- É mesmo? Então eu não faço idéia de como nosso peito lateja cada vez que ele aparece, cada vez que eles estão juntos, que conversam, ou mesmo que se olham? Não faço idéia de como é querer enfiar a cabeça no chão para não ter que ver os dois juntos o tempo todo e imaginar como tudo seria maravilhoso se eu estivesse no lugar dele? Acha mesmo que eu não sei como dói ver suas esperanças e seus sonhos se despedaçarem quando eu vejo que eles são mais íntimos e mais importantes um para o outro do que eu jamais serei?
- Isaac? Mas o que...? – Nathaliya se assustou ao ver que o companheiro começara a chorar no meio de sua fala, deixando correr uma fina trilha molhada em sua bochecha direita. Sem pensar no que estava fazendo, a russa usou sua mão para limpá-la.
- Não são só meninhas idiotas que se sentem assim, Nathaliya. Não precisa ter vergonha de gostar de alguém que gosta de outra pessoa e de se sentir triste por isso. – Isaac pegou a mão da garota e a colocou entre as suas. Apesar de ser o Mestre do Gelo, suas mãos estavam bem quentes naquele momento.
- Você...
- Um dia eu prometo que te conto tudo sobre isso. Eu prometo.
- Tudo bem pra mim.
Os dois se abraçaram e deixaram seus sentimentos dominá-los. Durante o abraço Nathaliya colocou para fora toda a sua dor do amor não correspondido por Vladmir, acalmando-se aos poucos à medida que as lágrimas iam saindo. Issac, por outro lado, sentia seu coração apertar cada vez mais. Ele sabia perfeitamente como a russa se sentia, afinal gostava dela há algum tempo. Seus sentimentos por ela fizeram com que ele a seguisse até aquela sala e se oferecesse para consolá-la, mesmo que seu coração fosse espetado por mil agulhas a cada lágrima que Nathaliya derramava por Vladmir. Isaac estava decidido a ajuda Nathaliya o quanto pudesse, ajudá-la a esquecer seu companheiro de equipe e seguir em frente, não somente para o bem dela, mas de todo o time. Quando chegasse a hora, ele lhe contaria seus sentimentos e pediria que ela ficasse com ele, mesmo se ainda não tivesse esquecido realmente Vladmir. Isaac queria ficar próximo de Nathaliya de qualquer jeito que pudesse, mesmo se isso significasse ser chamado pelo nome do rival de vez em quando.
Porém ainda não era hora de dizer nada disso. Quando os dois se separaram e voltaram a ficar apresentáveis, a única coisa que ele disse antes de voltar ao primeiro andar foi:
- Pode contar comigo para o que der e vier. Eu sempre vou estar por perto quando você precisar de alguém. Sempre.
Como Yoshiyuki era uma criança feliz e teimosa que gostava de fazer suas festas de aniversário sempre no mesmo dia que o aniversário, não importa o dia da semana, a festa dos irmãos Yuy foi na quinta-feira dez de junho mesmo. Yoshiyuki não foi para a escola para supervisionar pessoalmente a produção das comilanças achocolatadas e a arrumação da casa. Yukio Yuy, sendo um velho senhor aposentado, havia contratado uma equipe especializada em festas de criança para fazer o trabalho, e assim pôde ficar fora de casa o dia inteiro enquanto a mansão dos Yuy era completamente transformada para aquela ocasião especial.
- Quem será que vai chegar primeiro, Nii-chan? – Perguntou o garotinho quando faltavam cinco minutos para a hora marcada para o início da festa. Os dois irmãos estavam no jardim da frente esperando pelo toque da campainha. Yoshiyuki há muito desistira de esperar os convidados para começar a comer, e tinha em mãos uma grande escultura de chocolate no formato de Fenhir, já sem as asas e as duas patas dianteiras.
- Quando as pessoas chegarem nós vamos saber.
- Ah, assim não tem graça! Eu aposto que vai ser a... – A campainha tocou antes que Yoshiyuki pudesse terminar a frase. Ele foi correndo atender e começou a pular e gritar de alegria assim que percebeu que seu palpite estava certo. – SATSUKI-NEE-CHAN!!!
Satsuki quase não conseguiu chegar até Koichi por causa dos abraços e apertões do pequeno líder dos Soldier of Russia. O garotinho só parou de se agitar quando os dois Taichi ficaram frente a frente, quando ele simplesmente empurrou Satsuki em direção a Koichi para fazê-los se abraçarem e, com um pouco de sorte, se beijarem. Infelizmente para ele apenas o abraço aconteceu.
- Feliz aniversário, Koichi.
Enquanto os dois conversavam assuntos triviais, Yoshiyuki os conduzio até o pátio dos fundos e, sem que eles percebessem, trancou-os ali e voltou para o jardim da frente para esperar o restante dos convidados. O garotinho estava realmente determinado a iniciar o namoro de seu Nii-chan e de Satsuki naquele dia especial, e não descansaria enquanto seu plano não desse certo.
Rumiko, Nathaliya, Vladmir e Toshihiro foram os próximos a chegar. A garota foguinho empurrava a cadeira da irmã enquanto Toshihiro caminhava com as muletas próximo de seu irmão para se garantir.
- Nós vamos ter que ficar aqui na frente por enquanto porque os fundos estão ocupados. – Anunciou o garotinho para seus convidados. Os quatro se entreolharam, tentando imaginar o que estaria acontecendo de importante que ninguém mais poderia entrar. Conhecendo Yoshiyuki, provavelmente se tratava de algo que envolvia seu irmão e a loira CDF. Os garotos acharam melhor não perguntar.
Ken, Isaac e Takashi foram os próximos a chegar. Quando Yoshiyuki mencionou que o pátio dos fundos estava proibido, o trio de baderneiros tentou ir xeretar, mas o gênio mirim os impediu com sua beyblade.
- Não, não, não, meninos! Ninguém vai estragar os meus planos para hoje! – Os olhos do garotinho tinham um brilho tão maléfico que o trio achou melhor não discordar, e ficou quieto até Yoshiyuki liberar a passagem.
- Hey, Toshihiro, por que o Hehashiro e a Lily não estão com vocês? – Perguntou Isaac depois que ele e seus amigos ficaram sem nada pra fazer e precisavam arranjar algum assunto para conversar. Os beybladers estavam sentados em círculo no chão à espera de novos convidados, banhados apenas pelo luar da noite de lua crescente.
- A Lily estava um pouco enjoada, aí o Hehashiro decidiu ficar com ela mais um pouco até que ela melhorasse. – Respondeu o Demônio Aquático Chibi. Lily estava se sentindo mal desde o meio-dia, porém ninguém conseguira até o momento encontrar uma explicação para isso. – Eles vão vir mais tarde, eu acho.
- Tudo bem então, vamos esperar por eles! Perái que eu vou trazer uma coisa que vai ajudar na espera!
Yoshiyuki saiu correndo, entrou em casa e voltou alguns instantes depois trazendo uma bandeja só com docinhos de chocolate que ele acabou comendo quase inteira enquanto todos conversavam animadamente.
Depois de algum tempo a campainha voltou a tocar e o pequeno aniversariante foi correndo atender. Ao ver quem era, o garotinho fez uma reverência e abriu caminho para os convidados passarem:
- Sejam bem-vindos ao meu humilde lar, Mako-chan, Julian-kun e Aiko-chan! Vamos todos nos divertir e comer muito chocolate! – O garoto fechou a porta quando os três entraram – Podem fazer o que quiserem, mas lembrem-se de que não podem ainda ir lá pro pátio nos fundos! O Nii-chan e a Satsuki-Nee-chan tem algumas contas a acertar e é melhor que eles façam isso sozinhos! – Yoshiyuki piscou para Umeragi e o garoto deixou o canto de seu lábio subir um pouco.
- Hey, que tal se fizermos uma corrida de cadeiras de rodas entre a Rumiko e o Umeragi-baka? – Sugeriu Ken tão logo o trio de recém-chegados se juntou a eles na roda.
- Ah, não! Eu tenho medo! Eu não quero!
- O que foi, Higurashi, vai me recusar a chance de ganhar de você em alguma coisa? Vamos aproveitar que estamos em uma festa para nos divertir!
Entre tentando convencer Rumiko a correr contra Umeragi e fazer a corrida acontecer o tempo passou voando. Assim que Umeragi cruzou a linha de chegada – Rumiko ainda lutava para se distanciar da largada – o garotinho hiperativo anunciou que estava soltado o casal do pátio por hora para que eles pudessem aproveitar pelo menos um pouco da festa.
Assim que percebeu que estava trancado, Koichi calmamente conduziu Satsuki para a beira do lago das carpas, onde eles se sentaram para poder coversar com mais calma sobre assuntos importantes. Satsuki foi quem falou primeiro, surpreendendo seu companheiro:
- Eu estou começando a me lembrar da minha luta contra aquela peituda. – A expressão no rosto da loira teria feito Koichi sorrir se o assunto fosse outro.
- Isso é bom. Do que você lembra?
- Ainda não lembro de tudo, mas as coisas que Flamelus me contou me ajudaram. Eu lembro de ter sentido muita dor, de ouvir a voz irritante e prepotente daquela garota oferecida sem poder vê-la, e lembro que em algum momento Flamelus começou a falar comigo.
- Isso é o que você lembra. O que Flamelus te contou?
Koichi vinha tentando saber o que havia acontecido na luta de Satsuki desde que a garota acordara na enfermaria. Satsuki não se lembrava de nada, e por alguma razão ela só conseguira falar com seus amigos uma hora depois de acordar. Durante a noite pesadelos faziam com que ela se debatesse na cama e gritasse desesperada. Ele, Shinji e Hehashiro, os únicos que sabiam dos tais pesadelos – nem mesmo Satsuki se lembrava deles ao acordar – concordaram em não deixar o segredo vazar, ao menos enquanto os eventos da luta permanecessem desconhecidos. Koichi queria saber o que havia acontecido para enteder o motivo dos pesadelos, estava preocupado com ela, afinal.
- Ele disse que o ataque da Jing Mei tirou os meus sentidos um por um, até eu não poder mais ouvir, ver, sentir ou falar, e que neste momento Flamelus assumiu o controle do meu corpo para que eu pudesse continuar lutando. Ele disse que foi diferente do que aconteceu com a Rumiko, o Toshihiro ou Kita no Ookami, porque ele estava só criando um caminho para que eu pudesse continuar usando o meu corpo, não usando a minha energia para lhe dar mais poder. E com isso nós conseguimos atacar e vencemos Athena, mas também fomos atingidos e acabamos daquele jeito. Ele disse que a "Vaca Vagabunda", como ele dizia, não sabia o que aconteceria comigo depois que a luta acabasse, porque ela nunca tinha usado este golpe antes.
Por baixo da franja os olhos de Koichi se estreitaram, porém seu treinamento impedia que ele mostrasse todo o ódio que sentia pela chinesa de roupas curtas. Era a primeira vez que ele ouvia falar em um ataque deste tipo, que atingia o beyblader ao invés da beyblade, e ainda por cima om ataque com efeitos tão devastadores. Considerando o que o garoto sabia sobre Jing Mei e Yuriy, entrentanto, seus métodos de ataque não deveriam ser tão surpreendentes assim.
- Isso até que não me surpreende. Umeragi me contou hoje que o pai de Jing Mei foi encontrado morto em seu apartamento ontem à noite.
- Morto? Como assim? Ele foi assassinado? – Satsuki ficou espantada. Em primeiro lugar, nunca pensara em Jing Mei como alguém que tivesse coisas de pessoas normais, como uma família ou uma casa. E em segundo lugar, a morte de alguém sempre era chocante, não importa quem fosse o morto.
- A polícia está tratando o caso como suicídio, ele foi encontrado com um tiro na cabeça e com a arma na mão, ainda vestindo a roupa do trabalho. Não havia sinal de arrombamento na porta e nada foi roubado. Umeragi sabe desses detalhes porque a polícia contou tudo para o pai dele. Só que eu e Umeragi concordamos que a história não seja tão simples assim.
- Como assim?
- Umeragi me disse que os dois já estavam planejando eliminar alguns obstáculos em seus planos de fugir juntos e formar alguma espécie de grupo criminoso. Talvez o pai dela seja um desses obstáculos. Fora que o tiro que matou Tse-san foi disparado próximo de sua orelha direita, e a arma também estava em sua mão direita, só que ele era canhoto. Talvez ainda demore um pouco para a polícia perceber detalhes como estes, a incompetência deles às vezes me assusta.
- Bem que você podia entrar para a polícia, não? Se tornar um investigador que resolve crimes e põe muitos criminosos na cadeia!
- Eu já tinha pensado nisso. – Satsuki sorriu ao ver um dos cantos dos lábios de Koichi se erguer discretamente. – Como investigador, terei acesso a informações que podem me ajudar a encontrar meu pai e terminar o que começamos ano passado. A chance de capturar Yuriy também seria um ótimo bônus.
Satsuki ficou um pouco nervosa ao ouvir Koichi falando do pai. Ela sentia – e sabia que seu amigo também partilhava dessa sensação – que Hajime Yuy não ficaria muito tempo escondido. Não era seu estilo, mesmo que ele fosse um criminoso internacionalmente procurado.
- Eu tenho certeza que você vai ser um grande investigador, Koichi.
Pouco tempo depois Yoshiyuki e os demais covidados da festa se juntaram a eles no pátio. O garotinho hiperativo alegou que seu irmão precisava se tornar um ser mais social, por isso precisava ficar mais tempo rodeado de gente, porém Koichi sabia que o garotinho estava mesmo é tentando descobrir até onde seu plano fora bem-sucedido.
- Chegamos, pessoal! Agora vamos comer, comer, comer e festejar!
Depois que toda a comida foi trazida para os fundos, os convidados começaram a se espalhar em grupos pequenos para conversar, rir, contar piadas ou simplesmente ficar juntos em silêncio. Yoshiyuki foi o único que não se fixou em um grupo em particular, decidindo passar um tempo com cada grupo gritando e fazendo todo mundo festejar e comer chocolate com ele.
Em meio à confusão, Koichi se aproximou de Umeragi, que se encontrava mais distante dos demais, observando a multidão se divertindo.
- Não ficar fazendo barbaridades como todo mundo? – Perguntou ele, posicionando-se ao lado da cadeira.
- Não, eu só gosto de festas quando eu sou o centro das atenções. – Ambos garotos olhavam para frente, não ousando se encarar. – E você?
- Sou um ser anti-social por natureza que não gosta de tumulto.
Eles ficaram algum tempo em um silêncio confortável até Umeragi encontrar outro assunto para conversar:
- Só porque eu vim pra sua festa e porque eu fiquei amiguinho dos seus amiguinhos isso não significa que nós não sejamos mais rivais. Nós temos ainda mais três anos para provar quem é o melhor antes de terminarmos a escola, e depois vamos competir para ver quem é o melhor profissional. Você não vai se livrar de mim tão cedo.
- Se é isso que quer...
Silêncio de novo, os dois ficaram mais alguns minutos observando seus amigos. O silêncio não era desconfortável, ou o silêncio constrangedor de quem não tem assunto para falar e fica desesperado procurando por alguma coisa para reavivar a conversa, era o silêncio de duas pessoas que estavam acostumadas, por bem ou por mal, a ficarem juntos por bastante tempo e não sentiam mais a pressão de ser polido. Desta vez demorou um pouco mais de tempo para Umeragi voltar a puxar assunto:
- E quando é que você vai pedir a Kinomoto em namoro? Seu irmãozinho já está ficando histérico.
O fato de Umeragi chamar Yoshiyuki de "seu irmãozinho" ao invés de "bebê" não passou despercebido por Koichi, que sorriu levemente, ainda sem encarar o rival.
- Eu já considero Satsuki como minha namorada, de uma certa maneira, e acho que ela também pensa assim. Eu só estou enrolando para ver até onde o Yoshiyuki vai chegar com essa história de cupido.
Umeragi abriu um largo sorriso orgulhoso e finalmente passou a olhar para Koichi, que passou a encará-lo também:
- Eu sabia que você podia ser sádico até mesmo com seu irmão. Parabéns, você está mais perto de se tornar um ser-humano de verdade.
A resposta de Koichi foi um sorriso cínico, que fez Umeragi gargalhar. Os dois voltaram ao seu silêncio contemplativo até Yoshiyuki chamá-los para a grande rodada de lutas antes de começar a comer o bolo e soprar as velinhas. Lily e Hehashiro haviam chegado pouco depois de o bando se deslocar para os fundos da casa e também participariam das lutas. A garota ainda estava um pouco enjoada, mas não queria perder a festa de jeito nenhum.
Quando todos já haviam tomado seus lugares, a campainha tocou novamente. Yoshiyuki foi correndo atender, sem dar tempo para seus amigos tentarem descobrir quem ainda estava faltando. O garotinho voltou acompanhado de uma garota um pouco menor do que ele, de Maria-chiquinha no cabelo e bonitos olhos azuis.
- Pessoal, essa é Miyuki Kamiya. – Anunciou o garotinho. Miyuki fez uma reverência ao ser apresentada – Eu conheci ela faz algum tempo quando fui xeretar a biblioteca de livros infantis. Nós ficamos amigos muito rápido porque ela também gosta de chocolate, gosta de ler e gosta de assistir pessoas lutando beyblade, então eu decidi que tinha que convidá-la para minha festa! Isso não é legal?
Miyuki sorriu para os beybladers, um pouco envergonhada depois da apresentação de seu amigo. Seu sorriso era incrivelmente parecido com o de Yoshiyuki. Ao ver que os dois estavam de mãos dadas, Ken sussurrou alguma como "cupido apaixonado" no ouvido de Satsuki, fazendo a garota rir. A garota começou a se imaginar trancando os dois garotinhos em sua casa, retribuindo na mesma moeda o que o menino gênio estava fazendo com ela.
- Então agora que estamos todos aqui vamos ao que interessa: LUTAR! – Anunciou novamente o garotinho, cada vez mais entusiasmado. – Rumiko, você vai ter a honra de inaugurar a minha arena nova! Pega essa garrafa de refrigerante – Yoshiyuki estava com a garrafa de vidro em mãos e a entregou para a garota ao mesmo tempo que posicionava sua cadeira para que ficassem bem e frente à arena – e quebre ela aí dentro! Nós vamos ter que lutar no refrigerante que espirrar! Assim vai ser mais difícil e mais divertido!
Ken, Takashi, Aiko, Miyuki e Takashi adoraram a idéia de lutar no refrigente, mas os outros pareceram um pouco relutantes em seguir as orientações do menino gênio. Depois de alguma discussão, Rumiko finalmente fez como proposto, porém a garrafa não quebrou, apenas ficou rolando pela arena.
- O que é isso, Rumiko? Não tem força nem pra quebrar uma garrafa? Então pode deixar que eu vou terminar o serviço pra você!
- KEN, NÃO...
Os beybladers tentaram impedir Ken de fazer o que ele queria fazer – lançar Fenrochi para quebrar a garrafa – mas o japonês de franja aloprada foi mais rápido e a beyblade vermelha atingiu seu alvo antes que eles pudessem terminar de falar. Assim que a garrafa se quebrou, o refrigerante espirrou para todos os lados com uma força explosiva, melando tudo e todos que estavam em volta. Quando Ken sentiu a força das dezenas de olhares raivosos dirigidos a ele, o garoto correu até o banheiro e lá ficou por um tempo considerável, até ter certeza de que o perigo já havia passado.
- Acho melhor limparmos essa bagunça.
Vladmir preparou sua beyblade e a lançou na arena. Imediatamente começou a chover sobr o pátio dos Yuy e todos ficaram molhados, mas ao menos livres do melado.
- E agora deixem que eu dou um jeito nas nossas roupas.
Nathaliya lançou Ciesel e uma pequena fogueira foi criada pelo peão. Todos se agruparam em volta deles e em pouco tempo estavam todos secos novamente.
- Agora vamos começar as lutas então! Como o meu plano do refrigerante foi por água a baixo, eu quero que a Rumiko e o Mako-chan se dirijam agora à arena para enfrentar a mim e ao Nii-chan! Vamos fazer o confronto do século!
Os envolvidos não tiveram coragem de recusar o desafio do pequeno aniversariante, e assim as quatro beyblades ganharam a arena. Fenki e Zeus aparentemente gostaram muito de lutar do mesmo lado e até não foram tão mal contra os irmãos Yuy. Porém a luta não era séria, o clima era de brincadeira, traduzido principalmente pelos nomes dos ataques escolhidos por Yoshiyuki, que incluiam "Torre de Concreto Diluído" e "Bolo de Chocolate com Limão". Depois de dez minutos de muitas emoções e risadas, a luta acabou com um empate na arena e com quatro beybladers sujos de chocolate.
A luta seguinte foi entre Toshihiro e Vladmir e Hehashiro e Lily, porém ela foi interrompida quando a mestra de Roufe voltou a passar mal. Hehashiro levou a garota para o quarto e ficou com ela por lá. Por causa disso, os irmãos que restaram passaram a lutar um contra o outro, com a mesma rivalidade de quando Vladmir havia recém chegado a Xigaze. Apesar de último confronto entre os dois ter terminado com a vitória de Toshihiro, desta vez foi Vladmir quem levou a melhor, para alegria de sua equipe e desespero dos Taichi.
- Você tentou, Toshihiro, é isso que importa... – Rumiko tentou animar o namorado, porém Isaac, Nathaliya e Yoshiyuki haviam se juntado em um coro que cantava o quanto Toshihiro havia lutado mal e feito muitos movimentos estúpidos, o que atrapalhou consideravelmente seus esforços.
- Então agora eu e o Isaac desafiamos a Nathaliya e Satsuki! – Declarou Ken, encarando as duas meninas com um olhar muito determinado e um tanto assustador. As duas loiras concordaram, porém nada puderam fazer contra o perfeito trabalho de equipe dos gêmeos do fogo e gelo. A vitória dos garotos foi esmagadora.
- Humpf, vocês vão ver só quando eu lutar sério! – Declarou Nathaliya depois de ter sua beyblade congelada por Comulk e ser oficialmente derrotada. Isaac sorriu para ela com uma superioridade tão irritante que a russa explodiu e saiu correndo atrás do garoto. No meio da corrida Isaac tropeçou em uma pedra que estava em seu ponto cego, caindo no chão. Nathaliya não conseguiu parar e caiu por cima deles. Ken e Takashi logo começaram com os comentários maldosos, fazendo Isaac corar e Nathaliya sair correndo atrás deles.
Enquanto a nova perseguição continuava, Yoshiyuki deu a Isaac e Julian dois violinos e pediu que eles tocassem alguma coisa. Os dois se olharam e, percebendo que fariam o fundo musical para uma perseguição, passaram a tocar a terceira parte do "Outono" das Quatro Estações, que representava justamente uma caçada. Julian representava os caçadores e Isaac ficou responsável pela parte rápida e aguda da presa encurralada. Depois de algum tempo tocando, porém, os dois esqueceram-se da ordem original da música e passaram a tocar de acordo com o que estava acontecendo entre os dois mestres do fogo – Takashi obviamente não estava correndo, já havia há muito desistido e levado o castigo que merecia: os fundos de suas calças estavam chamuscados e sua cueca de caminhõezinhos coloridos estava bem à vista.
Depois de tanta correria os beybladers novamente se dividiram em grupos dispersos. Ken – também com as calças queimadas e a cueca aparecendo – Isaac, Aiko, Julian e Takashi riam alto perto do lago se alimentado de chocolate e refrigerante. Depois de algum tempo, o mestre de Fenrochi começou a dar sinais de que estava ficando bêbado por causa da Coca-Cola e um festival de arrotos e idiotices começou. Os outros quatro se divertiram fazendo Ken de bobo, ainda mais sabendo que o garoto provavelmente não se lembraria nada disso no dia seguinte.
Julian e Takashi, na verdade, tentavam não pensar no dia seguinte, pois seria o dia de seu retorno à Nova Zelândia. A festa estava muito divertida e eles estavam gostando demais da companhia dos amigos para pensar na despedida. Takashi até tentou contar para os outros que estava pensado em começar a treinar beyblae seriamente, com a ajuda de Julian, mas foi tão zoado por seu melhor amigo que decidiu mudar de assunto. Era impossível argumentar com o Ken bêbado, ele ficava muito mais inteligente que sua versão normal e conseguia até mesmo usar palavras complicadas em seu sentido correto.
Os garotos decidiram falar de música então, já que três dos cinco integrantes do grupo pensavam em se tornar músicos profissionais. Isaac e Julian discutiram suas diferenças de gosto – o primeiro preferia música clássica enquanto o segundo gostava de Heavy Metal. Todos ficaram surpresos quando o neo-zelandês declarou suas preferências, ele era uma das últimas pessoas que eles associariam com homens maquiados de caveira gritando no palco e brincando com suas guitarras. O garoto sonhava em se tornar bateirista de uma banda, Issac gostaria de entrar para uma orquestra como seus pais – tocando violino ou piano, ou quem sabe os dois – e Aiko ainda pensava em ser cantora, mas também gostaria de virar professora de música para ter muitos aluninhos que se tornariam seus fãs. Ken e Takashi, os dois zero-à-esquerda musicais, ficaram bem quietinhos ouvindo o trio discutir seus sonhos e seus planos para o futuro, fingindo que entendiam tudo que eles estavam falando.
No quarto escuro dos irmãos Yuy, Lily encontrava-se deitada em um futon ainda sentido sua barriga dar voltas e uma forte vontade de vomitar, mesmo com seu estômago completamente vazio. Hehashiro estava ao seu lado, acariciando seus cabelos e parecendo muito preocupado.
- Está melhor, Lily? – Perguntou ele após algum tempo em silêncio. O garoto estava começando a se sentir enjoado só de ver a namorada enjoada.
- Um pouco. Eu queria tanto ir lá pra fora, a noite está tão linda!
- Só deixo você ir se tiver certeza que não vai vomitar em cima do bolo.
- E quem é você para dizer o que eu posso ou não fazer, hein, senhor Hehashiro Urameshi?
Os dois tentavam permanecer sérios ao encenar uma briga, porém não conseguiram fazê-lo por muito tempo e logo estavam rindo em meio aos insultos:
- Eu sou o seu marido! Eu tenho a autoridade maior na casa! Mando em você, mando nos nossos filhos, eu controlo o mundo e a senhora minha mulher só pode baixar a cabeça e me obedecer!
- Ah, é? Pois daqui a alguns anos essa senhora sua mulher vai se cansar da vida de obediência e vai fugir de casa para estudar psicologia bem longe desse senhor meu marido controlador!
Hehashiro não se abalou. Os dois já haviam discutido seus planos para o futuro e decidido que assim que seus irmãos menores terminassem a escola eles os levariam para viver em Tóquio, onde Lily poderia estudar e Hehashiro teria mais opções de carreira para escolher. O jovem de quase dezenove anos ainda não sabia o que gostaria de fazer da vida, por isso dedicava-se a ajudar sua namorada a realizar seus sonhos. A única razão pela qual eles ainda não havia se mudado para Tóquio era que Lily gostaria que Hehashiro passasse mais alguns anos com os pais para recuparar o tempo perdido na drástica separação seis anos antes. Então por enquanto os dois continuariam sendo vizinhos do casal Urameshi e se aproveitando da vida tranqüila da pequena vila antes de enfrentar a agitação da grande metrópole.
- Então este seu marido controlador vai atrás de você arrependido com o rabo entre as patas e vai deixar você fazer tudo que quiser se prometer voltar para ele e desculpá-lo. – O mestre de Kufe fez uma cara muito convincente de cachorro pidão que fez Lily soltar um "oohh" e abraçá-lo.
- Tudo bem, senhor meu marido, é claro que eu aceito!
O abraço evoluiu para um beijo preguçoso, e logo os dois estavam deitados lado a lado no futon trocando carinhos. Hehashiro acariciou a barriga da namorada para tentar aliviar seu enjoo. Naquele momento os dois nem imaginavam que ele repetiria este gesto um sem-número de vezes pelos próximos oito meses por uma razão muito diferente.
Yoshiyuki e Miyuki estavam realmente se entendendo muito bem. Os dois arrumaram um canto mais afastado do pátio para ficar sentados na grama e comendo toneladas de chocolate enquanto conversavam em altas vozes sobre assuntos de criança. Rumiko, Toshihiro, Vladmir e Nathalia os observavam, estranhando ver o garotinho gênio acompanhado de alguém da sua idade, mas achando a experiência muito interessante.
- Yoshiyuki está mesmo feliz hoje, não é? – Comentou Nathaliya depois que o pequeno líder soltou um grande "OBA!" e passou a morder seu chocolate feito uma máquina trituradora enquanto Miyuki ria alto.
- É, é até hoje só vi ele com esse tipo de sorriso quando ele vê a Satsuki e o Koichi juntos! – Completou Rumiko, sorrindo também só de ver a felicidade crescente em volta do garotinho.
- Se continuar assim, não vai demorar muito para que Yoshiyuki seja o garoto trancado no quintal com uma garota... – O comentário de Vladmir fez os quatro exibirem sorrisos sugestivos.
- Aposto que Satsuki adoraria fazer isso! – Exclamou Toshihiro, rindo ao imaginar uma Satsuki vestida de cupido com uma grande chave na mão e Yoshiyuki e Miyuki presos em uma gaiola. – Falando em Satsuki... vocês sabem onde ela foi?
- E você tem alguma dúvida? – Nathaliya ergueu uma sobrancelha – Aposto que o nosso querido garotinho gênio está tão feliz assim porque foi bem-sucedido em trancar os dois em algum lugar novamente.
Os quatro riram. Pouco tempo depois a dupla de pirralhinhos se juntou a eles. Yoshiyuki tinha em mãos uma grande chave prateada e seus olhos brilhavam de um jeito quase malígno.
- Agora o Nii-chan e a Satsuki-Nee-chan só saem de lá quando anunciarem o namoro! MWAHAHAHAHAHAHAHA!!!
O casal-alvo do garotinho gênio havia se refugiado no jardim da frente em parte para dar um pretexto a ele para trancá-los lá. Koichi havia finalmente decidido que Yoshiyuki e Satsuki haviam esperado demais, e a loira podia sentir que era isso que ele tinha em mente quando os dois se sentaram e ficaram em silêncio observando a lua e as estrelas que brilhavam no céu.
- Essa lua está ainda mais sorridente que no dia do seu aniversário. – Comentou Koichi de repente. Satsuki sorriu ao se lembrar do dia em que, iluminados apenas pela luz de uma lua sorridente em quarto de hotel em Ottawa, Koichi confiara a ela seus segredos.
- Isso significa que eu posso esperar um dia mais especial ainda do que aquele? – A loira não saberia jamais explicar de onde saia sua capacidade de fazer indiretas para Koichi, esse tipo de coisa não era parte de sua personalidade. Porém ela tinha certeza das inteções do garoto, eles estavam esperando por esse momento há muito tempo. Satsuki sempre soube que este dia chegaria, e por isso agora sentia-se mais segura ao se dirigir ao garoto.
- Antes de mais nada, tem algumas coisas que eu preciso te dizer. – Koichi virou-se para poder encarar a garota de frente e esticou a mão para tocar seu rosto. – Já faz muito tempo que eu quero fazer o eu vou fazer hoje, mas eu decidi esperar todo esse tempo porque eu, no fundo, tenho medo de assumir essa responsabilidade. Eu tenho medo de fazer alguma coisa que te machuque, mesmo sem perceber. Quando a Jing Mei apareceu eu fiquei sem saber o que fazer e me culpando porque você ficaria triste se soubesse que eu estava andando com ela, mesmo que fosse só por causa do Yuriy.
- Aquela Peituda Ofercida! Vaca Vagabunda!
- Você tem ciúmes dela, não tem?
Satsuki olhou para baixo, envergonhada demais para encarar Koichi. Esse era o momento de contar-lhe suas inseguranças, afinal ele estava fazendo o mesmo confessando seu medo. Era agora ou nunca.
- Olha pro corpo dela! Ela é uma mulherona! Ninguém consegue não notar! E olha pra mim! Eu sou uma criança! Não tem nada em mim que possa atrair alguém!
- Nada além da sua inteligência, generosidade, coragem e espírito guerreiro? Satsuiki, com essa sua personalidade você poderia ter nascido menino e meus sentimentos seriam os mesmos. Você ainda está crescendo, a Jing Mei é mais velha do que eu até, e eu não preciso olhar para o seu corpo para saber que você é uma pessoa maravilhosa de quem eu gosto muito. – Depois de um tempo em silêncio, no qual Satsuki o encarava com olhos grandes, queixo caído e bochechas muito vermelhas, o garoto acrescentou. – E você também sabe quais são as chances de eu repetir um discurso como esse num futuro próximo, não sabe?
Satsuki se recuperou do choque e abraçou o garoto, agora devidamente emocionada com as palavras que pareciam que nunca saíram de sua boca. Os dois estavam sorrindo e o vento cuidava da difícil tarefa de afastar a massa de cabelos negros dos olhos azuis brilhantes.
- Sim, eu sei. E é por isso que eu vou guardá-lo com muito carinho!
- Satsuki... – Koichi voltou a ficar sério. A loira percebeu a mudança e diminuiu um pouco o sorriso. – Eu realmente tenho muito medo do que vai acontecer daqui pra frente. Eu ainda não estou acostumado a me importar com as pessoas, ou ter muitos amigos por perto. Tudo ainda é muito novo pra mim, então eu não sei muito bem o que fazer. Há um ano atrás eu jamais imaginaria que pudesse sentir alguma coisa assim, e agora...
- Tudo bem, Koichi. Eu também não sei o que vai acontecer, mas eu não me importo. O que tiver que ser, será, e eu sei que, não importa o que aconteça, o que eu sinto agora por você não vai mudar. Então esqueça esse medo, deixe de lado essa insegurança, porque a gente vai enfrentar o que vier da maneira que vier e vamos passar por tudo isso juntos, ok?
Os dois se abraçaram bem forte. A cabeça de Satsuki estava apoiada no peito de Koichi e ela podia ouvir seu coração acelerando cada vez mais enquanto o garoto permanecia em silêncio. Por fim ele respirou fundo e segurou as mãos da loira, encarnado-a nos olhos com seus olhos parcialmente descobertos:
- Sim. Vamos fazer isso juntos daqui pra frente. Satsuki, você... – o coração da loira deu um salto, esse era o momento pelo qual ela vinha sonhando desde o momento em que seus olhares pela primeira vez se encontraram. Ela prendeu a respiração esperando pela continuação da frase, e Koichi também teve que parar, respirando fundo antes de fazer o pedido há muito entalado em sua garganta – ... quer namorar comigo?
A resposta de Satsuki foi pular nos braços do garoto com tamanha força que chegou a derrubá-lo no chão e agarrar seu pescoço com força. Algumas lágrimas atrevidas escolheram este momento para correr por suas bochechas, e por algum tempo os dois ficaram naquela posição, apenas curtindo a proximidade um do outro e o calor que emanava de seus corpos.
Foi neste momento que Yoshiyuki abriu a porta e pulou em cima dos dois, gritando uma série de coisas ininteligíveis em uma velocidade absurda e um volume muito desconfortável. Somente quando o garotinho começou a ficar sem ar foi que suas palavras puderam ser entendidas por todos:
- E eu cumpri a minha promessa! Eu cumpri a minha promessa! Nii-chan e Satsuki-Nee-chan são namorados! São... namo...rados!
Yoshiyuki foi finalmente obrigado a parar de falar para respirar, e Koichi aprovitou a oportunidade para se livrar do garotinho:
- Agora que você já extravasou a sua felicidade, Yoshiyuki, será que poderia sair de cima da gente? Você está machucando a Satsuki
- A... ahan... – Yoshiyuki obedeceu, mas continuo observando tudo que eles faziam.
- Só existe uma coisa que nós podemos fazer agora. – Exclamou Ken, sorrindo marotamente ao encarar o líder da equipe. Seus olhos em seguida cruzaram com os de Takashi e Isaac e os três sorriram ainda mais. – MONTINHO!
Koichi e Satsuki não tiveram tempo de reagir antes de serem esmagados por todos os beybladers que não estavam presos a uma cadeira de rodas ou muletas. Ouvindo a confusão, Hehashiro e Lily deixaram o quarto para ver o que estava acontecendo, e o líder dos The Strongest se juntou aos seus amigos assim que percebeu o que estava acontecendo.
- Ah, não, o Hehashiro é muito gordo! Ele não! – Gritou Takashi, desesperado. Por ter sido um dos primeiros a pular, ele estava bem embaixo na pilha de corpos.
- Eu estou pulando pelo meu irmão também, então aguenta aí! – Ele gritou de volta, movendo seu corpo só pra perturbar. Os demais beybladers se revoltaram e acabaram literalmente chutando o jovem pra fora da pilha. Koichi aproveitou este momento para acabar com a confusão e se liberar, e o montinho foi completamente desfeito. – Viu, se não tivessem tentado me tirar, nada disso teria acontecido!
Como resposta, os beybladers fizeram um novo montinho em cima do mestre de Kufe.
- Gente, gente, vamos comer os bolos!
No meio da farra dos montinhos, Yoshiyuki lembro-se das maravilhas culinárias que os esperavam no fundo da casa. O bando de crianças hiperativas, lideradas pelo aniversáriante, rapidamente atravessou a casa, parando apenas para admirar a beleza dos dois bolos de cinco andares cobertos com todos os tipos de chocolate existentes. Mesmo depois de passar o dia comendo chocolate, nenhuma das crianças se atreveria a recuzar tal guloseima.
- Parabéns pra mim! Parabéns pra mim! Muitos chocolates e muitos anos de vida! – Yoshiyuki cantou seu próprio parabéns em ritmo acelerado antes de pegar a faca e começar a cortar os primeiros pedaços de seu bolo. O garotinho então mandou que todos cantassem para o seu irmão enquanto ele comia os pedaços já cortados.
- O parabéns do Koichi vai ser um beijo da Satsuki! – Gritou Nathaliya, dando início ao coro do "Beija! Beija! Beija!" que incluiam até mesmo os infantilóides que tinham nojo do contato dos lábios e troca de saliva. Satsuki corou furiosamente, as bochechas de Koichi tornaram-se um pouco mais rosadas, e no fim coube a um Yoshiyuki extremamente lambuzado e a uma Nathaliya triunfante empurrar um em direção ao outro para fazer o tão aguardado beijo finalmente acontecer. Entrando no clima, Hehashiro agarrou Lily pela cintura e executou outro dos beijos de cinema que pareciam ser sua especialidade, e Toshihiro aproximou-se da cadeira de Rumiko e protagonizou algumas cenas cômicas enquanto tentava encontrar o ângulo certo para fazer o mesmo. Em resposta ao clima subitamente romântico, Ken, Takashi e Yoshiyuki fingiram vomitar no chão e Isaac surpreendeu a todos dando um selinho rápido em Nathaliya. A russa corou e deu um sonoro tapa na cara do garoto. Os dois riram.
Os restos mortais dos dois bolos colossais jaziam esquecidos em algum lugar do quintal e os beyblades estavam espalhados pela grama esperando seus organismos processarem todo o abuso de açúcar que haviam consumido. Lily estava sentada no colo de Hehashiro, brincando com o cabelo super-bagunçado deste e beijando sua bochecha quando ele ficava muito distraído. Toshihiro apanhara uma cadeira para ficar sentado no mesmo nível que Rumiko e se divertia vendo a japonesa brincar com sua trança-cobra. Satsuki e Koichi estavam sentados no chão, ela com a cabeça apoiada no ombro deste, ainda naquele estado de torpor mental de quem está no paraíso e não consegue descer à Terra. Ken e Takashi se entretiam em batalhas disputadíssimas de jan ken po, em que Takashi havia ganho vinte das primeiras vinte disputas. Os Soldier of Russia, com exceção de Yoshiyuki, estavam deitados na grama com as cabeças encostadas conversando baixinho em russo sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Aiko, também sentada em uma cadeira, decidira espantar o tédio fazendo pergunta atrás de pergunta para Umeragi com sua cara fofinha de menina meiga que o garoto não tinha como não responder. Depois de algum tempo ela havia deixado a cadeira para se acomodar no colo do garoto e começar a procurar pelos ditos sacos de xixi que ele dissera esconder na cadeira. Yoshiyuki e Miyuki terminavam com os restos de chocolate às margens do lago, conversando e rindo e dando comida para as carpas. Depois de um tempo Isaac se separou de seus companheiros e se juntou a Julian para tocar a Primavera das Quatro Estações para combinar com a agradável noite primaveril em que se encontravam. Ouvindo aquela música os beybladers sentiam-se leves como a brisa que soprava no quintal, livres de preocupações, felizes. Pelo menos por enquanto não haveriam mais lutas.
Naquela noite enluarada ao som da Primavera, uma energia muito estranha unia para sempre aquele grupo de jovens especias. Seus laços haviam se tornado tão fortes que nem mesmo as armadilhas do destino poderiam separá-los. Eles não sabiam ainda o que o futuro lhes reservava, mas sabiam que seriam capazes de enfrentar o que viesse, quando viesse enquanto estivessem juntos.
