Retratações: Não sou a proprietária e nem a criadora dos personagens de Gundam Wing. Eles pertencem à Bandai, Sunrise e Sotsu Agency. Mas a história, o roteiro e os personagens originais me pertencem. ^-^
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.Desafio Gundam Wing 2010 – Amores Possíveis
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Fanfic: On the Road
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Gênero: Yaoi, Romance
Casal: 3x1; 1x3
Censura: M; NC/17; + 18
Avisos: As partes em itálico significam lembranças.
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Capítulo 2
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Apesar de toda a neve que caía, o dia estava plácido e o fraco sol tentava demonstrar sua força entre o nublado horizonte e a grande parceira de viagem, que apesar de estar vazia estava menos solitária naquela manhã do que os dois rapazes, que continuavam perdidos em seus próprios mundos e conflitos.
Nada conseguia penetrar a barreira de segurança que ambos criaram ao seu redor. Mas na verdade ambos os mundos estavam interligados por aquela estrada. Um, guiando o veículo sem saber para onde estava indo, confiando apenas nas instruções do parceiro ao lado e o outro, sentado à sua revelia na poltrona ao lado, indicando o caminho para o local da fuga e refúgio do amigo, levando-o para onde um dia já fora o seu lugar seguro... Para dentro da parte mais secreta e dolorosa de sua existência.
A casa localizada no interior de uma grande aérea repleta de árvores desnudas pelo inverno foi avistada minutos depois que se afastaram da pequena cidade localizada à margem do grande lago.
Não sabia do porque de estarem ali, não sabia onde estava apesar de ter visto o nome da cidade localizada na placa da entrada; não sabia de quem era aquele imóvel; a única coisa que sabia era que observar Trowa ficar cada vez mais introspectivo a cada metro aproximado lhe informava que aquele lugar, de alguma forma, o atingia. E saber disto não era reconfortante, muito pelo contrário, o afligia de uma forma que não podia descrever.
Estacionou ao lado da casa e observou atentamente quando Trowa desceu do carro com a visão focada em algo que não sabia especificar ou sequer identificar devido à cobertura que sua franja fazia em seus olhos.
E antes mesmo que pudesse fazer alguma pergunta para elucidar onde estavam, viu o moreno mais alto caminhar quase em transe para a área externa que possuía um declive e um pequeno bosque mais abaixo, deixando-o onde estava.
Caminhou por entre as árvores com dificuldade, perante a quantidade da recente de neve acumulada. Tentava seguir o rastro que Trowa deixava para trás, porém era quase inútil. Tinha deixado passar apenas alguns minutos para segui-lo, sua preocupação em saber se havia – ou não – alguém dentro da residência e se aquele lugar era realmente um local seguro suprira, inicialmente, a sua necessidade em saber o que o outro estava fazendo.
Não que isto não o preocupasse, mas saber onde estava era vital para a proteção própria quanto ao de Trowa. Assim que o rapaz mais alto desapareceu por entre as árvores, Heero caminhou para a entrada, subiu os degraus adentrando a varanda. Observou atentamente cada detalhe e móveis dispostos no local e antes mesmo de bater a porta algo brilhante preso a ela chamou sua atenção. Finalmente descobrira onde estavam; na casa que um dia abrigou a família Barton.
Quando o avistara sentado em um tronco, seu coração bateu mais forte por alguns instantes pelo pensamento que floresceu em meio a todas as possibilidades que surgiam. Caminhou até o rapaz e sentou ao seu lado, ambos olhando para o lago congelado diante de seus olhos. O frio arrebatador entrava pela suas mãos descobertas e gelavam os seus ossos. Assim, observou como Trowa parecia tremer minimamente também, apenas não soube se era pelo frio ou não. Enquanto pegava suas luvas no bolso observou como o ar condensado da respiração do rapaz ao lado estava pesada e rápida. Porém voltou a observar silenciosamente a paisagem bucólica do lago congelado no meio de todo aquele bosque de árvores caducas.
– Eu fui o culpado pela morte de minha mãe. – O jovem disse depois de ter passado alguns minutos desde que Heero sentara ao seu lado. E mediante aquela afirmativa, não ouviu nenhum som ou palavra vinda do rapaz japonês ao seu lado e continuou com o que estava contando. Seus olhos verdes vidrados no vazio de suas lembranças, fazendo-o recordar cada sensação, cada passo, cada ato da ação e do dia fatídico. O maxilar rígido, pela culpa que sempre cultivou, tentava em vão fazê-lo ficar quieto mais uma vez. – Nós sempre vínhamos patinar neste lago desde que aprendi a ficar de pé em cima dos patins. Enquanto meu pai me ensinava os primeiros mandamentos do jogo, minha mãe sonhava com o dia que foi medalhista em patinação artística. – E no momento em que sua memória infantil lhe mostrava a face risonha da mulher enquanto falava de como era a sua roupa ou a música que a embalou nas apresentações, não pode evitar ou reprimir que um singelo sorriso surgisse no meio de todo aquele turbilhão de dor que estava pronto para surgir.
Um sorriso singelo, porém com tanta carga de tristeza e saudosismo que Heero não conseguiu deixar de observá-lo. E preso dentro daquele ínfimo sorriso também se perdeu, deixando vir à tona tudo o que sempre se esforçou em reprimir.
– E o que aconteceu? – Ele sabia que a senhora Barton havia morrido afogada. Trowa mesmo lhe havia dito, assim como uma vez quando ainda eram adolescentes, que eles haviam se mudado para sua cidade justamente por este fato.
Com a morte da jovem patinadora, toda a família ruiu. O patriarca, para fugir de sua responsabilidade e pelo remorso, entregou-se ao álcool até tornar-se alcoólatra. E aos onze anos de idade o menino de olhos verdes se encontrava órfão de mãe e tendo que cuidar de um pai bêbado além de ministrar a própria vida, sua dor e solidão.
Devido a todos estes fatores, Trowa se tornou um jovem recluso e depois se tornara no homem que estava ali ao seu lado. Um cara solitário, que conhecia a solidão tão bem quanto ele próprio a conhecia. Mas apesar de todos os fatores adversos, o rapaz nunca desistira, nunca foi vencido por nada nem mesmo quando seu pai partiu de vez, abandonando-o à própria sorte três anos depois que eles haviam saído de sua cidade natal.
O rapaz moreno sempre lhe dizia que a única coisa boa que o pai deixara para trás fora a sua emancipação. Trowa cresceu lutando pelo seu próprio sucesso, como se devesse satisfações não somente para ele próprio. Lutou, passava dias e dias treinando e aprimorando suas técnicas de jogo e suas jogadas, inúmeras vezes ambos sucumbiram à exaustão em cima do gelo. Devido a todo o passado do homem que se encontrava ali sentado com os braços tensos cruzados na frente do peito, que ele o respeitava acima de tudo e por ele somente, por ele e o seu futuro merecidamente grandioso, que se sacrificara.
Trowa, sentia o peito doer a cada segundo, em resposta pela violência de suas vivas recordações. Negava, negava a todo o instante que necessitava se abrir. Ele queria, inconscientemente sabia que havia sido levado para aquele local justamente para que todas as palavras que há anos estavam guardadas em sua garganta fossem enfim libertadas. Retirou sua visão do lago e dirigiu-a ao outro que ainda permanecia com os olhos azuis lhe observando cada milímetro de sua face, esboçando cada ínfima reação para, quem sabe, também julgá-lo e culpá-lo como ele mesmo fazia durante todos estes anos.
Heero, o único a quem cogitaria se abrir e confessar todos os seus crimes, talvez também fosse o único que pudesse entendê-lo. Não que Duo, Wufei, Quatre ou uma das meninas não o fossem, mas seu inconsciente já estava muito massacrado para poder escolher a pessoa correta. Estava prestes – já havia começado, na verdade – a contar o seu passado sabendo que o futuro era inexistente. Nada mais importava, o vazio existente dentro de si, criado muitos anos antes, não queria mais permanecer oculto.
E dentro da solidão daquele bosque o amigo voltou a olhar para o lago branco e permitiu que as palavras que ainda lhe rondavam fossem expressas.
– Um dia em que a neve caiu bem fraca e o tempo estava relativamente agradável meus pais me trouxeram para cá. Era pra ter sido um dia como demais. O lago não estava tão congelado quanto deveria estar naquela manhã e quando minha mãe patinou para o outro lado em que estávamos, o gelo não estava firme o suficiente e se partiu, fazendo-a cair no interior do lago. Nós corremos até ela…
O rapaz deu uma pausa do que falava e a melancolia por um momento cedeu lugar a face de incompreensão pelo o que acabara de dizer.
– Mas não conseguíamos pegá-la, pois água estava extremamente gelada, o peso das roupas e dos patins… ela se debatia e isto fazia piorar o desespero dela… Meu pai me obrigou a ir embora, ir buscar socorro. Eu fui, mas por algum motivo que não me lembro olhei para trás e… e vi, o vi empurrando a cabeça dela para dentro da água gelada. Não consegui fazer nada, apenas fiquei parado o observando. Ela tentava emergir e buscar ar, enquanto meu pai a impedia. – A voz totalmente distante do fato e da ação era surpreendente fria para qualquer um que a escutasse.
– E por que ele fez isto?
– Minha mãe não era uma pessoa normal. Ela era bipolar e quando entrava em crise, transformava a vida de todos. Havia dias que ela não reagia a nada e, em outros, era tão agressiva que... eu acho que ele não agüentou mais a humilhação de apanhar da mulher. E quando teve a oportunidade de se ver livre de todo aquele trabalho de cuidar dela, ele aproveitou.
– E ninguém jamais suspeitou?
– Não. Para os oficiais que chegaram aqui depois, ela havia morrido num afogamento acidental. – A voz firme foi ouvida. – E eu nunca contei o que havia visto, porque acho que também queria que aquilo acontecesse… fui cúmplice a aquele assassinato. Eu também matei a minha mãe.
Os braços do rapaz de franja que permaneciam cruzados sobre o corpo foram soltos no sentido de alívio. Ele nunca havia contado para ninguém como tudo ocorrera. Era como se a barreira que havia se instalado em seu corpo e em sua mente, que o impedia de falar, mesmo quando todos praticamente o imploravam a tanto, tivesse ruído naquele poucos instantes.
Suas mãos gélidas encontraram o calor dos bolsos do casaco negro, no instante em que sua fala foi interrompida pelo tremor que tentava se instalar pelo seu corpo. Uma apreensão surgiu, impedindo-o de olhar para o ser ao seu lado e observar as poucas reações expostas. Por mais que sempre soubesse identificar cada ínfima expressão que Heero dava, por este motivo não queria encará-lo ver os olhos cerrados estreitamente, o julgando como um ser inferior diante de sua real e dolorosa fragilidade. Não era um fraco, mas todos os seres humanos possuíam seu calcanhar de Aquiles.
Heero ouviu tudo em silêncio, um calar que fazia com que se sentisse tão impotente quanto ausente ao sofrimento velado de tantos anos do amigo. Mesmo não demonstrando, o coração em seu peito batia acelerado. Não pela história ouvida, mas pela sua inexpressiva reação em consolar o inconsolável. Não podia fazer nada pelo passado, seu futuro estava sendo escrito em algum cartório da cidade. Mas o presente estava a sua disposição, ali ao seu lado, esperando com seus olhos verdes que algo fosse feito.
Quando se descobrira apaixonado pelo rapaz de olhos esmeraldas, sua primeira reação foi o choque… e a negação surgira. Ficara nesta negação por longos meses. Aquilo era errado, principalmente pela confiança que Trowa destinava a ele. Não deveria traí-lo daquela forma. Mas traíra sua amizade quando o desejo por Trowa se tornou quase insuportável, com medo de que o outro descobrisse, se afastou.
Manteve-se longe, tentando controlar o incontrolável. Preferiu se distanciar, afastar a simples possibilidade de acabar cometendo algum ato que viesse a se arrepender. Assim que passou a aceitar o fato do que estava sentindo preferiu calar-se. Não podia declarar-se e nem saberia dizer tal coisa ou nem como poderia fazê-lo. Sabia da orientação sexual do amigo, Trowa nunca escondera de ninguém o gosto e apreciação por rapazes frágeis. Tipos tão característicos de beleza andrógena e delicada que destoavam da sua beleza mais forte, masculina e porque aos próprios olhos, faltava-lhe beleza. Heero sentia-se inadequado com tudo o que estava surgindo e principalmente sentia-se confuso.
Mas agora já tinha uma única certeza em toda a sua patética vida. Caso suportar calado e sem reagir à chantagem que vinha sofrendo fosse o preço a pagar para preservar a vida e o sonho da única pessoa que sentia necessidade de preservar e proteger, suportaria. Faria de tudo para vê-lo bem, para vê-lo sorrir de seu jeito único quando tudo estava perfeitamente em ordem, para vê-lo relaxado e livre das apreensões e traumas que o faziam ficar daquela forma como se encontrava bem ali na sua frente.
Seu presente estava tão perto, seu real prazer estava a menos de um palmo de distância. Sua vida presente havia lhe trazido para aquele lago congelado no intuito de protegê-lo, de preservá-lo, ajudando-o a fugir de sua atual e desastrosa realidade e acabou lhe mostrando o lado mais fraco de alguém que sempre imaginou ser inabalável.
E se quisesse, pelo menos uma vez na vida, saber o que era ter alguém que amava nos braços e sentir o seu gosto teria que agir rápido. Sob o risco de destruir sua longa amizade.
O coração de Trowa acalmou-se com o passar dos minutos, apesar de aquela paisagem bucólica lhe fazer ter intensos e profundos pesadelos quase todos os dias. Levantou e retirou suas mãos do bolso trazendo em uma delas um gorro que logo ensaiou vesti-la. Mas sua ação foi interrompida no instante em que ouviu seu nome ser dito. Apenas virou-se olhando para seu interceptor através dos fios castanhos de sua franja. E por um momento identificou em Heero uma dúvida brilhando em seus orbes azuis tão aparentemente frios quanto o lago gélido que vislumbrava emoldurando as costas do rapaz japonês.
– Por que você me contou isso? – A pergunta foi sincera. Realmente queria entender e compreender o fato de ter sido o escolhido para tal confissão. Mas apenas recebeu um dar de ombros como resposta. – Por que você me trouxe para cá, então?
– Por que você me pediu.
A resposta saiu rapidamente e de uma forma que Heero não esperava que fosse. Somente por aquele motivo: ele havia pedido e Trowa atendera. Levara-o para dentro do mundo que tanto o machucava. Todavia, ainda queria entender o motivo.
– Temos que passar na cidade e comprar algumas coisas antes de anoitecer. –Trowa avisou-o.
Abandonou o azul que o encarcerava e voltou a caminhar pela neve, retornando ao caminho por entre as árvores em direção ao carro.
.:. Desafio GW .:.
Os dias seguintes passaram calmos e lentamente. Trowa apenas avisara a Duo onde estavam para o de acaso algo ocorrer. Os dois passaram a dividir os seus minutos e horas diárias apenas com a presença marcante de cada um.
Faziam suas refeições no pequeno restaurante local. Passavam horas explorando a cidade ou ficavam em casa lendo um livro que cada um escolheu na pequena biblioteca que a casa possuía. À noite ou assistiam à TV ou disputavam algum dos jogos encontrados nos armários: xadrez, cartas… Tudo era utilizado para livrá-los do tédio ou para desviar a atenção de seus verdadeiros pensamentos. E em apenas cinco dias de convivência mútua, ambos já conseguiam distinguir hábitos e gostos que jamais perceberam em anos de uma duradoura coexistência.
Observações que anteriormente nunca haveria notado, mas que naquele momento, eram quase vitais. Como por exemplo, quando o rapaz de olhos verdes notou, em um dia que foram ao bar jovem local, como Heero era totalmente indiferente à abordagem direta das garotas que o cercavam e aquela pequena observação fez com que surgisse um brando sorriso entre seus lábios encostados no gargalo da garrafa de cerveja.
Ou como ele reparou como Heero acordava sedento, indo sempre em busca de água assim que acordava. Ou mesmo quando Heero se surpreendeu ao notar a preferência de Trowa por um determinado tipo especifico de bebida ou que o rapaz se sentia mais disposto após o sol se despedir no Oeste.
Mas sete dias se passaram rapidamente desde que ambos chegaram àquela casa os privando da realidade que estava a quilômetros de distância. A vida continuava lá fora e eles sabiam disso.
Na noite do sexto dia, Wufei havia telefonado para Trowa informando que o time havia perdido o último jogo e que o time não estava nem um pouco satisfeito com o fato. Também informou que a noiva de Heero estava quase indo à polícia dar queixa pelo desaparecimento do oriental. Logo depois, recebeu a ligação do seu instrutor e do treinador ameaçando-o categoricamente. A vida não parava e parecia impedir que aquela convivência continuasse.
.:. Desafio GW .:.
Mais uma vez a estrada se tornou parte integrante de cada um dos dois rapazes. Um personagem que anteriormente acompanhara calada a pseudo fuga, agora era cúmplice dos segredos que cada um guardava; e principalmente ela era a certeza de que assim que a eles terminasse de percorrê-la e chegassem ao seu destino, pois tudo, absolutamente tudo, estaria do mesmo jeito de quando partiram.
E por este motivo a viagem de volta foi ainda mais longa. A neve caía, desta vez bem forte e intensa, tornando o retorno perigoso e arriscado. A estrada parecia não querer que os rapazes abandonassem aqueles bons momentos. A cada quilômetro percorrido, o chão ficava mais escorregadio e a neve acabou vencendo-os, obrigando-os a fazer uma parada no motel de estrada mais próximo que Trowa pôde avistar diante do mundo branco que o cegava.
Depois de um dia e de uma enorme nevasca, Trowa finalmente chegou à portaria do amigo e em silêncio o viu deixar seu carro e caminhar em direção ao pequeno e antigo prédio. Ao vê-lo entrar e fechar a porta de vidro atrás de si sentiu um enorme vazio percorrer todo o seu ser, alojando-se em seu peito.
.:. Desafio GW .:.
Sentado no sofá com o olhar vazio sobre os livros abertos à mesa da sala, o jovem permitiu que um inaudível lamento saísse de seus lábios. Ele havia perdido uma grande parcela das provas e do tempo de estudos quando fora com Heero à sua cidade natal. Agora estava tentando recuperar estes dias com horas extras não só de estudos mas também de treinamento.
Tentando, esta era a palavra correta, porque simplesmente não conseguia fazer tudo o que planejava.
Olhou ao redor de seu apartamento, sentindo-se incomodado. Na verdade tudo o incomodava, sentia-se deslocado dentro de sua própria casa e isto estava começando a irritá-lo. Mas ele compreendia o seu real motivo para o incômodo e isto também o entristecia.
O motivo de todo o seu deslocamento dentro de seu próprio espaço tinha um único nome, um cheiro único que não sentia mais todos os dias, uma única energia que circulava pelos cantos e um único corpo que ocupava todos os espaços vazios…
Sentia falta da presença rotineira de Heero caminhando silenciosamente pelos cômodos. Sentia falta de tudo o que vivenciara naqueles dias de reclusão.
Desviou seu olhar para a janela aberta e o dia cinzento apenas o informava que não conseguiria mais fingir que o seu mais forte sentimento ainda estava presente e vivo. Não podia mais ignorá-lo como estava fazendo nos últimos anos. Agora era tarde.
O paletó usado na cerimônia de casamento permanecia pendurado na porta do armário esperando que fosse levado para a lavanderia. A postura quieta e solitária da roupa no móvel o informava acima de tudo que o seu tempo de agir havia passado. As fotos do casamento iriam mostrá-lo ao lado de Heero junto a Duo e o pior, mostrariam a sua falsa contemplação a felicidade do casal.
E com a certeza de que nada mais poderia ser feito, afundou-se no sofá, pegou o controle remoto e ligou a TV. Queria parar de pensar em todas as possibilidades perdidas que sua mente criava a cada segundo, lamentar-se das oportunidades que deixou passar e deixar de ver a imagem do possível desejo realizado. Enquanto naufragava diante das rápidas imagens aleatórias sua consciência, repetia as palavras acusadoras que um dia ouvira de seu amigo de longa trança.
Covarde!
Covarde! Covarde! Covarde! Covarde!
A odiosa palavra se repetia e repetia... e tudo o que conseguia sentir era a raiva de si.
Dentro dos sons que saíam das imagens berrantes dos cantores maquiados no clip musical, não ouviu os toques incessantes de sua campainha. Quando deu por si, seu inesperado visitante já estava esmurrando a porta.
Vestido apenas com sua calça de moletom cinza e uma blusa escura, caminhou até a porta e pediu que o desconhecido se identificasse. Sem entender o que o rapaz que estava do outro lado queria aquela hora da noite, abriu a porta com o vazio de seu peito se preenchendo de uma esperança infantil.
Os olhos frios que passaram à sua esquerda queimavam em uma expectativa que ele não reconhecia vindo do japonês e uma ansiedade apavorou suas entranhas, as congelando mais do que o ar frio que congelava a cidade.
Ao voltar-se para Heero que estava atrás de si com sua pose impassível habitual, se permitiu fechar a porta. E no momento em que iria perguntar o motivo para toda aquela urgência descabida e desnecessária, seu coração foi assaltado por uma inesperada ação do outro.
Tudo ocorreu tão rápido que não saberia descrever. E enquanto seus batimentos cardíacos aumentavam descompassadamente, tentou reiniciar em sua mente a cena que se seguira, a fim de que pudesse compreender todos os fatores envolvidos.
Em um minuto estava diante da pose imóvel do amigo… e um instante depois podia ver cada quadro do seu caminhar como se fosse um ato de stop motion vindo em sua direção até encontrar-se a milímetros de distância de seu corpo, o qual inconscientemente já havia se preparado para um ataque. Menos de um segundo depois, o outro invadiu seu espaço pessoal, encostando seus lábios nos seus e permanecendo ali.
E naquele momento depois que tudo se passou inúmeras vezes pela sua consciência, percebeu que estava sendo beijado.
Sentindo seu corpo vibrar por aquele toque totalmente inesperado a única reação que teve foi a de empurrar o amigo para longe, retirando-o de seu toque suave.
O olhar de incompreensão surgiu no rosto imberbe do japonês. Com sua respiração alterada, ele tentava compreender o que havia acabado de ocorrer, mas não conseguia ter nenhuma resposta lógica e racional de seu corpo. A única que conseguia perceber era que não queria racionalizar nada, mas voltar a sentir o toque quente dos lábios finos que permaneciam a poucos metros longe dos seus.
Quando Trowa levou seu olhar para encontrar com o do rapaz à frente e pedir uma explicação para tudo aquilo, o que conseguiu constatar foi uma confusão de postura de força, certeza e conclusão e, contraditoriamente, um pouco de receio que nunca havia notado antes nos olhos azuis que jurava tão bem conhecer. Diante aquele combate mudo, obteve todas as respostas que poderia
Um brilho quente nas íris azuis prussionas informava algo que ele não sabia identificar, mas que fez o vazio escuro de seu peito se preencher instantaneamente, fazendo-o mergulhar em uma certeza. Uma certeza que brotou em seu interior, transformando a sua inevitável surpresa e anterior apreensão em um sorriso franco de aceitação.
Em um rompante de movimentos, sentiu seu peito sendo empurrado com força fazendo-o bater de costas contra a parede atrás de si, trazendo-o para a realidade… e ela tinha um gosto forte e lábios úmidos.
Quando respirou o ar que o outro depositava afoitamente sobre a sua pele morena, não pôde evitar entreabrir a sua própria boca de receber tudo o que o japonês lhe demonstrara. Seu coração batia forte em uma urgência sem fim, sentindo a língua sedenta acariciar a sua com uma mistura de suavidade e selvageria. Pela primeira vez lhe foi permitido mergulhar fundo naquela boca que o invadia com a convicção de que ali sempre fora o seu lugar. Heero era o seu lugar.
Após o beijo finalizado, sentiu o corpo aquecido do jovem artilheiro afasta-se, sem ter a mínima convicção do ato, desvencilhando-se do seu. Seus olhos novamente se encontraram em uma cumplicidade que apenas eles os dois poderiam entender, compreender e aceitar.
Imóvel no mesmo lugar que havia encontrado a felicidade por alguns instantes, observou-a, porém, caminhar ao lado do rapaz de olhos frios que repentinamente foi em direção à porta, indo embora.
Já sozinho no apartamento, em total abandono, ouviu novamente sua consciência o repreendendo. O acusando. Se não tivesse ponderado tanto, se não tivesse tanto receio, se não temesse tanto a vida...
Naquele momento ela havia lhe mostrado que sido tão covarde, durante todos aqueles anos... se não tivesse tanto… medo de perder a amizade que lhe era tão cara, ele teria tido a certeza de que poderia ter sido feliz. A vida estava sendo cruel consigo, talvez estivesse lhe castigando por nunca ter ouvido o que sua voz interna lhe informava da possível certeza.
E seu castigo era cruel... era ter a certeza de que seu amor poderia ter sido possível. Em algum momento.
.:. Desafio GW .:.
Seu coração ainda permanecia completamente enlouquecido dentro de sua caixa torácica quando seus pés cruzaram a porta do pequeno apartamento, fechando-a. Seus olhos permaneciam fixos no corredor vazio a frente mirando a porta metálica do elevador que ficava a alguns metros de distância da porta de madeira escura, a qual sabia que ainda permanecia aberta.
Sua mente brincava e o tortura com todos os novos e antigos sentimentos que começaram a povoar, misturar e destruir sua razão.
Sentimentos, mágoas, traumas, ressentimentos, necessidades, paixão…
Uma mistura que conflitava uns com outros e que não o deixava pensar no porquê que havia ido até ali na realidade. E diante daquela pergunta, seu coração tomou a dianteira e explicou-lhe a verdade... Ele havia ido até o apartamento de Trowa daquela forma inesperada para saber pelo menos uma única vez de como seria o toque de Trowa. Ele tinha essa necessidade. Precisava confirmar o que estava sendo jogado e apostado.
A necessidade de saber. Ter a certeza do que realmente sentia e de que forma sentia se tornou vital a ponto de descontrolá-lo nos últimos dias. E principalmente precisava saber se Trowa o correspondia assim como Duo havia jogado em sua cara, minutos antes de entrar na nave principal da Igreja. Ele precisava ter certeza, para depois, em um momento futuro um arrependimento tardio não o acusasse de não ter feito nada com aquela informação. E sua idéia inicial era que depois de tudo, voltaria para Relena, para então poder continuar com sua vida sem ter nenhuma adaga sobre o peito ou ter uma enorme dúvida atrapalhando o seu casamento e sua futura vida familiar. Tudo seria resolvido rapidamente e, o principal, com racionalidade.
Porém tudo havia saído do seu controle.
Não conseguira ser racional. Ao deparar-se com a porta e a probabilidade de que tudo poderia ser verdadeiro, sua mente não conseguia mais parar de enviar endorfinas para seu corpo e tudo ainda se tornou mais turvo ao ver o jovem atleta ali na sua frente tão confuso com a sua presença.
Beijá-lo, tocá-lo foi apenas um impulso natural de suas próprias ações, de seu próprio desejo, de seu próprio sentimento que pulsava e latejava em suas veias por muitos anos.
Ter Trowa em seus braços foi apenas uma inevitável conseqüência de seu amor guardado, a ação final de seu desejo suplantado que cansou de ficar velado pelo véu da inocente amizade. E nada poderia evitar a ação de senti-lo, pelo menos por alguns instantes, quando deparou com os puros e intensos verdes encarando os seus.
E apesar de tudo. Apesar das lembranças traumáticas e repulsivas do toque de outro homem em si... O toque, o gosto de Trowa em nada o lembravam das ações a que fora submetido no assédio.
Muito pelo contrário, a sensação de ser tocado e acariciado por Trowa era completamente diferente de tudo o que fora forçado a provar e sentir. E teve a certeza de que aquela sensação o perseguiria por toda a sua existência.
Aquela curta caminhada pelo corredor estava sendo muito mais longa do que qualquer outra caminhada que tinha feito. Quando percebeu já estava diante da porta prateada do elevador e, por uma questão mais por reflexo, apertou o botão ao lado que ordenava que o aparelho fosse para seu andar.
Permitiu que seu corpo encostasse-se à parede afim de que tudo começasse a se definir. Ato este que para ele era quase como uma auto de determinação. Apesar de tudo o que sentiu, apesar de tudo o que estava sentindo, apesar de ainda poder sentir o gosto dos lábios e a sua textura sobre os seus, sua racionalidade lhe ordenava que teria que esquecer tudo o que viveu. Que teria que represar tudo novamente no lugar onde o seu amor já estava acostumado a vive. Mas sabia que naquele momento, tudo seria bem mais difícil.
Seria difícil ver Trowa e não querer tocá-lo, seria torturante sentir seu cheiro e não desejá-lo, seria impossível olhar para seus olhos e não querer mergulhar naquelas águas esverdeadas e lhe arrancar um beijo. Seria o seu inferno pessoal estar ao seu lado e não fazê-lo feliz, não fazê-lo sorrir.
A porta do elevador abriu, fazendo seu som costumeiro, o retirando de seus pensamentos. Impulsionou seu corpo, retirando-o da inércia e diante do transporte recebendo a sua fria luz branca sentiu uma vez mais sua pulsação disparar fazendo com que seus pés parassem de se mover. Olhou mais uma vez para o fim do corredor e a porta de madeira escura permanecia aberta por alguma razão que desconhecia, a porta metálica ameaçou fechar-se à sua frente e ele a impediu pondo sua mão a forçando a ficar aberta.
E diante daquelas portas escancaradas as possibilidades ainda permaneciam em aberto. Não havia uma escolha a ser feita. Heero sabia quando uma daquelas portas se fechasse o seu futuro também estaria lacrado oficialmente.
Duas portas abertas, duas possibilidades. Duas escolhas de vida. Duas vidas distintas. Duas pessoas diferentes o aguardavam. Mas apenas uma naquele momento que possuía o seu mais pleno e verdadeiro amor. E com a certeza daquele pensamento, um leve sorriso adornou seus lábios. E ele moveu-se e moveu-se determinado.
Passando novamente pelo portal de madeira do pequeno apartamento, Heero avistou seu companheiro ainda parado no mesmo lugar: encostado à parede, de olhos fechados e totalmente alheio a sua presença. E por algum motivo, ver aquela cena apenas confirmou tudo o que sentia.
Caminhou em direção ao outro e o observou quando ele começou a se mover. Sua expressão era aflitiva e até mesmo desoladora. Uma expressão que nunca havia sido mostrada na sua frente e a certeza de que não gostaria de vê-la nunca mais se apoderou de seus atos e em uma ação repentina, esticou o braço e, tocando-o levemente, fez que sua presença fosse revelada.
Com o coração em total aflição, viu-o abrir os olhos assustados. Não soube identificar o motivo daquela surpresa, se era por esta sendo tocado por alguém, ou se era por alguém ter entrado em seu apartamento e ele não ter percebido... ou se era por vê-lo novamente ali em sua frente depois de ter ido embora da forma que foi. Mas aquilo tudo não importava.
O que realmente importava era que seu corpo começou a tremer somente ao ver o sorriso aberto que Trowa lhe presenteou depois que finalmente entendeu o seu retorno. Aquele sorriso era a sua perdição, assim como aqueles lábios e seus olhos penetrantes e verdadeiros que sempre o observaram com presteza e cuidado.
E sem mais conseguir se controlar ou conter toda a sua emoção, novamente moveu seus braços em na direção do moreno. E com velocidade e força segurou o corpo a frente, puxando-o para si e o abraçando com o mais verdadeiro sinceridade. E quando sentiu os braços fortes o acomodando entre eles, não evitou de beijar-lhe o ombro com suavidade para depois voltar a mirar os orbes esmeraldas que lhe retirava totalmente a ação da gravidade. E Heero sorriu. Sorriu lindamente para Trowa. Sorriu em retribuição ao amor que sentia e preenchia o pouco espaço entre eles.
E dentro daquele abraço, Heero e Trowa descobriram que sim, o amor que sentiam finalmente seria possível.
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FIM
DESAFIO GW 2010 – AMORES POSSÍVEIS
Você acabou de ler: On The Road
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Leia também:
(1) Algo que falta
(2) All That You Can't Leave Behind.
(3) Caffe Esmeralda
(4) Catch My Breath
(5) Dreams of Rainy Days
(6) Fragrâncias
(7) Futile Resistance
(8) New perspective
(9 Retrato Falso
(10) Tácito
(11) A Verdadeira Lenda dos Dragôes Míticos
E vote! XD
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# SISTEMA DE VOTAÇÃO:
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1) O público terá de 27/06/2010 (domingo) até 01/08/2010 (domingo) para ler e votar nas fanfics publicadas de acordo com as regras publicadas nesse edital.
2) As fanfics serão publicadas ANONIMAMENTE, ou seja, os nomes das autoras não estarão expostos ao público para que se evitem privilégios.
3) Será somente o público quem dará as notas às fanfics do Desafio publicadas no Fanfiction, à partir do sistema de reviews;
4) As leitoras deverão votar em todas as 12 fanfics obrigatoriamente.
5) Se a leitora deixar de votar em uma única fanfic que seja, mesmo que tenha votado nas demais, seu voto não será computado, ou seja, não deixe de votar em todas as fanfics, você terá um mês para isso.
6) A leitora deverá conferir notas de 06 (seis) a 10 (dez), sendo 06 a mais baixa e 10 a mais alta.
7) Os critérios a serem avaliados serão os seguintes:
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a) Originalidade do roteiro: O objetivo é que as tramas sejam ousadas;
b) Coerência da trama: O roteiro não pode ser sem pé nem cabeça. É importante que haja início, meio e fim;
c) Evolução: O texto não pode ser atravancado ou muito 'rápido'.
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8) Cada critério deverá ter sua nota individualizada. Exemplo: Originalidade: 10; Coerência: 08; Evolução: 09.
9) Em caso de empate, os ganhadores receberão os mesmos prêmios destinados àquela colocação.
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Observação:
Questão importante é a feitura de fakes que podem fraudar concurso.
Bem, aí vai da consciência de cada um.
Se você não tem senso de moral, nós da Organização, em nome de todo o Fandom, só poderemos lamentar pelo ser humano desprezível que você é.
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REFORÇO: VOCÊ DEVE VOTAR EM TODAS AS FANFICS PARA SEU VOTO SER COMPUTADO AO FINAL.
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