Olá a todos, parece que eu voltei com (mais) uma história para contar...

Então vamos aos disclaimers de hábito:

- Saint Seiya não me pertence, etc etc etc, esta obra ficcional não tem fins lucrativos, etc etc etc.

- Essa história se passa, cronologicamente falando, depois dos eventos da Saga de Hades e de Rerise of Poseidon, porém em um 'universo alternativo' anterior ao de Ep G Assassin (porque sinceramente eu pretendo meio que ignorar aquele rolê todo aqui, então enfim). E eu digo 'universo alternativo' porque eu vou focar em um evento muito específico de Ep G Assassin. Qual evento? Leiam e saberão!

- E, novamente, essa história deverá tratar (em algum momento) de temas um pouco pesados (transtorno de estresse pós-traumático, depressão, mecanismos não-saudáveis para lidar com esses problemas, situações adultas, consumo de álcool e drogas lícitas e ilícitas, etc). Então recomendo critério aos leitores.

Avisos dados, on with the show.


A little scared, a little scary


Dizem que a última coisa que as pessoas vêm, antes de morrer, é Luz. Imagens que se desfocam, formando um borrão de brilho, e então a Luz. Luz, e depois nada. Portanto, quando sua consciência se dissolveu em luz, calor e a dor lancinante da calcinação de seu corpo, ele finalmente se sentiu bem. Limpo, purificado, e assim ele queria ficar.

Mas não.

Ele reconheceu a pressão em sua mente, como reconheceria em qualquer lugar do espaço-tempo. Podia sentir Seu poder moldando a energia do cosmos em um novo receptáculo para sua alma. A energia fluía por seus ossos, sua carne, um novo corpo vindo de Fogo e Luz. Então ele tenta se mover, dizer-Lhe que não, que a Morte lhe é bem vinda, mas seu novo corpo ainda não lhe responde. Ele não pode falar ou se mover, e logo sua consciência se esvai.

Seus olhos se abrem novamente, e novamente é Luz que ele vê. Luz, depois um turbilhão de cores e cheiros. Seu corpo lhe parece pequeno, leve, tão leve como se ele pudesse voar e-

"-está vivo-"

-ele tenta mover seus braços e seu corpo se lança ao ar, batendo em colunas de pedra-

"-Athene noctua! Athene noctua!-"

-ele então cai no chão, tão leve que ele praticamente não sente o impacto-

"-Muito agitado! Deve estar confuso-"

-e seus braços estão cobertos de penas, são asas, asas, seu torso coberto de penas, este não é seu corpo, o corpo de um homem, é um animal, um pássaro-

"-pode se machucar! Chamem o Patriarca! Chamem-"

-e ele sente um cosmo familiar capturando o seu, isolando-o de seu pânico. Mãos enormes o seguram, imobilizando praticamente todo o seu corpo, evitando apenas suas pernas- não, patas.

"Acalme-se, Oráculo. Acalme-se. É sempre difícil voltar à vida assim, mas não há outra maneira. Sinta o poder da Deusa em você, centre sua alma neste novo corpo."

O homem que o segurava em suas mãos, agora inacreditavelmente jovens, era Shion, jovem como quando foi trazido à vida temporária por Hades. Mas vivo, não em um corpo desmorto.

Por quê, ele tentou dizer, sua voz agora um gralhar de ave, não mais seu tom barítono.

"Necessitamos da encarnação da Sabedoria da Deusa, Oráculo, e aqui está você."

OOO

Corujas são os animais sagrados do Santuário da Deusa da Guerra Defensiva.

De acordo com o Mito, Atena sempre estava acompanhada de um mocho-galego, uma pequena coruja rajada de marrom que então passou a ser conhecida como Athene noctua. Dita coruja era Seu animal espiritual, capaz de manifestar Sua sabedoria àqueles que a buscassem, aparecendo na Terra nos momentos de grande necessidade da humanidade para guiá-la através dos perigos e da escuridão da ignorância.

Pois então. Ali estava Shion, jovem novamente, a dizer que ele, encarnado em uma pequena coruja marrom, era a nova encarnação do Oráculo de Athena.

Sinceramente, ele conseguia entender o engano. No lugar de Shion, ele pensaria exatamente o mesmo se uma coruja, num passe de mágica, ganhasse vida diante da estátua de Atena Prómacos. Mas apesar de ele não ser uma coruja comum - afinal, suas memórias e sua consciência permaneciam intactas - ele não era nenhum Oráculo. Ele era um Santo desgarrado que usurpou o trono do Patriarca da Ordem ao matar o mesmo homem que agora o segura em suas mãos. O homem que, muito antes disso, recebeu-o ainda bebê no Santuário da Deusa junto com seu irmão.

Voltar à vida como um animal, ainda que presumivelmente sagrado, não era uma bênção, mas sim uma punição.

"Eu não sou um Oráculo", disse, ainda nas mãos do homem que, em sua outra vida, ele matou. "Não será o conselho dos Deuses que você achará em minhas palavras, Santidade."

"Bem, você é uma coruja falante, e aparenta ter sabedoria suficiente para ser escutada com atenção. Ainda que você não concorde." Shion respondeu, alisando suas penas com cuidado enquanto ele se ajeitava de pé. "Mas em uma coisa realmente você está errado: eu não sou o Grande Mestre do Santuário. Não mais."

Saga encarou o agora jovem lemuriano, surpreso. Queria perguntar-lhe porquê, posto que agora ele estava vivo e jovem novamente, mas seus sentidos, aguçados como os da ave que ele agora é, lhe denunciaram a palidez daquele rosto, junto com o suor frio em suas mãos.

"Você está enfermo," sussurrou.

"Não exatamente, apenas… não totalmente recuperado." Shion assentiu, calmo apesar da respiração um pouco laboriosa. Exausto, ele está exausto, tão exausto que ele consegue cheirar sua exaustão. "Mas sim, você veio a nós em um período de grande necessidade. Eu gostaria de poder lhe mostrar telepaticamente, mas…"

"Eu te proíbo de sequer tentar, você já fez demais." Uma voz grave e abafada interrompeu Shion. "Francamente, gastar energia vital preciosa para estabilizar esse pássaro… Você não será útil para ninguém se acabar se matando."

O homem que ralhava com Shion estava à porta paramentado com elmo, máscara e paramentos dourados por cima de uma casula vermelha e uma manta branca que passava de seus pés. Esse sim o Patriarca, sem dúvida alguma.

"Foi necessário, esse é o Oráculo. A Sabedoria da Deusa encarnada. E não é como se você não precisasse de um pouquinho de seus conselhos." Shion riu baixinho enquanto o Patriarca se aproximava. "Eminência."

"Claro, claro." O Patriarca bufou, mas não parecia exatamente zangado. "Então, deixe que daqui pra frente eu assumo, certo? Você vai descansar enquanto eu pego a coruja aqui para conversar."

"Eu posso ir sozinho," Saga disse, escapulindo das mãos do Patriarca.

"Suba na minha ombreira, então" replicou o Patriarca, meneando a cabeça em direção à monstruosidade dourada em seu ombro. "Shion precisa de repouso."

"Não se preocupem comigo," Shion respondeu sentado na cama, visivelmente cansado.

Na ombreira do Patriarca, Saga não pôde deixar de reparar em quão perto eles estavam dos aposentos privativos do Patriarca. Uma quebra de protocolo estranha, para dizer o mínimo, e ele sabia disso pois ele mesmo fora o patriarca por treze anos.

"Você está muito quieto para um Oráculo que supostamente deve oferecer palavras de sabedoria."

Ele saltou do ombro do Patriarca para uma mesa de madeira próxima, testando a estabilidade de suas asas.

Eles estavam agora na antecâmara do dormitório do patriarca. Nenhuma peça de mobília mudou desde a última vez que ele esteve aqui, mas foi muito estranho perceber como tudo parecia diferente à vista de um pássaro. Os pássaros têm uma visão melhor entre os animais terrestres, Shion disse uma vez enquanto ensinava a ele e a seu irmão quando eram dois pirralhos. Seria bom dizer a Shion que ele estava certo, mas para isso ele teria que dizer a Shion quem ele era. E então, se Shion decidisse quebrar seu pescoço, seria justo.

Este Patriarca, entretanto, não era Shion.

Quem é você, ele pensou enquanto lançava um longo olhar para o homem mascarado. Ele podia reconhecer a máscara e as peças da armadura que usava, podia até sentir os traços do cosmo passando por ela. Muitos Patriarcas tinham máscaras e capacetes diversos, mas não era incomum reaproveitar essas peças antigas para criar uma nova identidade visual. Ele não fez isso porque... bem.

"Então", insistiu o Patriarca. "Você vai dizer alguma coisa?"

"Sei pouco sobre o que está acontecendo, Eminência." Ele respondeu.

"Já faz um certo tempo desde a última Guerra Santa contra Hades. Cinco anos, pra ser exato." O Patriarca estava abrindo sua ombreira, interrompendo sua explicação para resmungar algo sobre a peça de armadura de que ele também parecia não gostar. "Mas é claro, isso não significa que a Humanidade está sã e salva. Houve outras situações terríveis em que os santos eram necessários." A casula vermelha saiu depois da ombreira e dos rosários sagrados. "E ainda somos necessários, na verdade. Athena conseguiu voltar do Reino dos Mortos, mas não sem um preço. Ela foi capaz de proteger as almas de seus Santos Protetores durante sua jornada, mas demorou muito para recolhê-los do Elísios. E muitos outros santos não foram trazidos de volta à vida como Shion foi. Como eu fui."

O que quer que se passe na mente de Saga é interrompido quando as mãos do Patriarca seguram o Elmo cobrindo sua cabeça, e uma juba de cabelos longos se espalha à vista. Cabelos que ele conhece bem, cabelos quase idênticos aos que ele tinha - e de que tanto se orgulhava. Saga sente o coração bater forte dentro de seu pequenino peito de pássaro, tão forte que não consegue entender como o homem à sua frente, agora desmascarado e olhando-o bem nos seus olhos, não está conseguindo ouvir.

"Meu nome é Kanon, Oráculo. E coube a mim reconstruir o Santuário de Atena, a Donzela Protetora das Cidades, em algo semelhante à sua antiga glória."

OOO